Segundo a ABRAPIA (2002), pesquisas nos Estados Unidos indicam que uma criança é sexualmente abusada a cada quatro segundos; 90% das vítimas são abusadas por pessoas que elas conhecem, confiam e amam. Somente uma em quatro garotas e um em cada 100 garotos tem o abuso sexual sofrido denunciado; 50% das vítimas se tornam abusadores, e um pedófilo ativo abusa em média, durante uma vida, de 260 crianças ou adolescentes.
No Brasil, a literatura científica sobre abuso sexual é reduzida, assim como as estatísticas e pesquisas a respeito disso, e tanto a sua incidência quanto a sua prevalência são pouco conhecidas no nosso meio. Entretanto, alguns estudos (AZEVEDO, 2000; ABRAPIA, 2002) indicam que a situação no Brasil não difere das outras sociedades ocidentais, e estima-se que 165 crianças ou adolescentes sofrem abuso sexual por dia, ou sete abusos a cada hora.
A partir de fevereiro de 1997, a ABRAPIA, através de parceria com o Departamento da Criança e do Adolescente do Ministério da Justiça e com a Embratur, criou o Sistema Nacional de Denúncias, através do telefone 0800-990500. Em cada 100 denúncias de maus-tratos contra crianças e adolescentes feitas à ABRAPIA (2002, p.6), nove são de abuso sexual. Em 80% dos casos a vítima é do sexo feminino; 49% das vítimas têm entre dois e cinco anos; e 33% entre seis e dez anos.
No período de 1997 a janeiro de 2003, através de denúncias feitas à ABRAPIA, constatou-se que num universo de 50.412 denúncias, 4.076 denúncias foram de abuso e exploração sexual. O maior número foi da região sudeste do Brasil, com 48, 23% das denúncias; em seguida a região nordeste com 27,01%; depois a região sul com 10, 62% das denúncias; a região centro-oeste com 8,19%; e a norte, com 5,94%. (Quadro 1)
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Quadro 1 – DENÚNCIAS DE ABUSO E EXPLORAÇÃO SEXUAL POR REGIÃO UNIVERSO CONSIDERADO: 4.076 DENÚNCIAS
Região População Percentual Denúncias % em relação População Brasil (Regiões) às Denúncias
Norte 12.900.704 7,60% 242 5,94% Nordeste 47.741.711 8,12% 1101 27,01% Sudeste 72.412.411 42,65% 1966 48,23% Sul 25.107.616 14,78% 433 8,19% Centro-Oeste 11.636.728 6,85% 334 8,19% Total 169.799.170 100% 4.076 100%
Fonte: ABRAPIA, 1997 – JAN, 2003.
Fonte: ABRAPIA, 1997 – JAN, 2003 Fonte: ABRAPIA, 1997 – JAN, 2003.
OBS: O Gráfico 1 foi gerado pela pesquisadora, com os percentuais apresentados no Quadro 1. As
diferenças que ocorreram nos percentuais são decorrentes do próprio programa que gerou o gráfico. Provavelmente, a ABRAPIA possui um software diferenciado para a elaboração dos gráficos.
Na região Sul do Brasil, no período de 1997 a janeiro de 2003, foram registradas 433 denúncias através do telefone 0800-990500.
Gráfico 1 - Denúncias de Abuso e Exploração Sexual por Região
6% 28% 50% 8% 8% Norte Nordeste Sudeste Sul C. Oeste
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FONTE: ABRAPIA, 1997 – JAN, 2003.
Fonte: ABRAPIA, 1997 – JAN, 2003.
A ABRAPIA não informou em seu banco de dados via internet o motivo do aumento significativo de denúncias de abuso e exploração sexual na região Sul do Brasil, em 2002. Podemos supor que esse fato se deve a uma maior divulgação do disque-denúncia nesse ano.
No período de fevereiro de 1997 a janeiro de 2003, considerando o universo de 4.076 denúncias de abuso e exploração sexual infanto-juvenil, elaborou-se uma tabela com um ranking dos Estados e dos Municípios em número de denúncias. O Estado do Rio de Janeiro liderou o ranking com 25,80% das denúncias; em seguida, o Estado de São Paulo ficou com 14,52%; e, em terceiro lugar, o Estado do Ceará, com 7,99% das denúncias, conforme tabela apresentada a seguir.
É importante ressaltar que o maior número de denúncias em alguns Estados, não significa o maior número de casos de abuso e exploração sexual.
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¹ Em dezembro de 2002, o telefone 0800-990500 só funcionou nos dia 02, 27 e 30, em razão de um incêndio ocorrido no período.
² Apenas mês de janeiro.
GRÁFICO 2 - DENÚNCIAS DE ABUSO E EXPLORAÇÃO SEXUAL DA REGIÃO SUL
83 21 6 39 39 183 62 0 20 40 60 80 100 120 140 160 180 200 1997 1998 1999 2000 2001 2002¹ 2003²
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Tabela 1 - Ranking dos Estados em Número de Denúncias de Abuso e
Exploração Sexual Infanto-Juvenil
Unidades de 1997 1998 1999 2000 2001 2002 2003* Total % de Federação Denúncias Rio de Janeiro 152 80 47 155 149 408 61 1.052 25,80% São Paulo 195 50 27 52 63 172 33 692 14,52% Ceará 61 3 1 60 64 119 18 326 7,99% Minas Gerais 57 11 5 12 36 118 24 263 6,46% Bahia 96 8 2 15 30 72 14 237 5,81% Pernambuco 61 2 3 19 20 73 15 193 4,73% Paraná 38 6 0 12 15 79 28 178 4,36% Rio Grande do Sul 33 12 2 16 10 74 31 178 4,36% Maranhão 10 1 0 5 39 70 5 130 3,19% Distrito Federal 62 13 7 18 7 14 4 126 3,07% Goiás 28 7 0 7 6 45 10 103 2,53% Amazonas 5 3 2 12 17 48 6 93 2,29% Pará 16 2 1 11 8 40 11 89 2,19% Santa Catarina 12 3 4 11 14 30 3 77 1,89% Rio Grande do Norte 37 5 0 6 5 13 2 68 1,68% Mato Grosso do Sul 9 2 0 7 12 31 3 64 1,57% Espírito Santo 2 2 0 8 9 32 6 69 1,45% Alagoas 7 1 1 2 11 20 2 44 1,08% Piauí 1 1 0 14 13 9 0 38 0,93% Paraíba 5 1 0 4 7 16 3 36 0,88% Rondônia 2 0 0 1 9 20 1 33 0,81% Mato Grosso 4 0 0 1 9 16 2 32 0,78% Sergipe 7 1 0 2 2 9 8 29 0,73% Amapá 3 1 0 1 3 7 0 15 0,37% Acre 3 0 0 0 3 2 3 11 0,27% Tocantins 8 1 0 0 1 0 0 10 0,25% Roraima 0 0 0 0 0 0 1 1 0,02% Total 914 216 102 451 562 1537 294 4076 100% *Apenas mês de janeiro.
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Tabela 2 - Ranking dos dez primeiros municípios em número de denúncias de abuso e exploração sexual no período de fevereiro de 1997 a janeiro de 2003. O universo considerado foi de 4.076 denúncias.
Município Número de Porcentagem de
Denúncias Denúncias Rio de Janeiro (RJ) 586 14,38% Fortaleza (CE) 245 6,01% São Paulo (SP) 217 5,32% Salvador (BA) 96 2,35% Brasília (DF) 96 2,35% Recife (PE) 95 2,33% Manaus (AM) 83 2,03% Duque de Caxias (RJ) 67 1,65% Curitiba (PR) 58 1,42% Porto Alegre (RS) 57 1,40% Total 1596 39,15%
Fonte: ABRAPIA, 1997 – JAN, 2003.
A violência contra crianças e adolescentes é um fenômeno mundial, incide em todas as culturas, raças e classes sociais. Segundo Azevedo e Guerra (1989, p.87), “[...] a cultura da violência é geral, comum a todos e não apanágio de pobre”. Contudo, os estudos se concentram mais nas classes populares pelo fato de serem realizados em instituições a elas dedicadas, nas quais as notificações sobre as ocorrências podem alcançar efetivo encaminhamento.
A violência doméstica traz à tona o mito da família como um ambiente acolhedor, afetuoso, não-violento e protetor das crianças e adolescentes. Para Weber et al. (2002, p.164), “o fenômeno da violência doméstica contra crianças e adolescentes é muito mais freqüente do que se possa imaginar, e estima-se que apenas 20% dos casos de maus-tratos sejam denunciados".
Portanto, a maioria dos casos de violência doméstica não são notificados (GONÇALVES; FERREIRA, 2002; MARTINS, 2005; MOURA; REINCHENHEIM, 2005; RIBEIRO; FERRIANI; REIS, 2004; RODRIGUES; CARVALHO, 1998; ROSSI, 2004), crianças e adolescentes continuam privadas do auxílio e do atendimento
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especializado necessário, enquanto se mantém a impunidade dos agressores com graves conseqüências para a sociedade em geral.
Em nível nacional, os resultados da pesquisa demonstram que, no período de fevereiro de 1997 a janeiro de 2003, num total de 50.412 denúncias feitas à ABRAPIA, 4.076 foram de abuso e exploração sexual. Segundo Azevedo (2000, p.4), “a violência denunciada constitui a Ponta do Iceberg de violências domésticas cometidas contra crianças e adolescentes em qualquer sociedade”.
Há também, pouca atenção e falta de ações dos órgãos governamentais sobre a ocorrência do abuso sexual no nosso país, suas conseqüências para o indivíduo, à sociedade e formas de prevenção.
Neste capítulo foi abordada a questão da violência, especificamente a violência doméstica e o abuso sexual. Foram apresentados os índices estatísticos do abuso sexual em nível nacional e o Modelo Ecológico de violência da OMS, o qual utiliza as mesmas matrizes da Abordagem Ecológica do Desenvolvimento Humano de Bronfenbrenner, cujos fundamentos teóricos que respaldam esta pesquisa serão apresentados no próximo capítulo.
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CAPÍTULO 2