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3.4 Análise e Discussão

3.4.1 Núcleo Contexto

3.4.1.2 Exossistema Conselho Tutelar

Na cidade de Ponta Grossa há dois Conselhos Tutelares, o Leste e Oeste, criados pela Lei Municipal n. 4.667. Com o objetivo de verificar a participação das escolas e professores na detecção da violência, foram procedidas duas visitas nos respectivos Conselhos. As informações foram obtidas via entrevista com um conselheiro de cada unidade.

O Conselho Tutelar Oeste presta atendimento a 42 escolas municipais e 17 estaduais. As denúncias são registradas em formulários elaborados de acordo com o modelo SIPIA – Sistema Nacional de Registro de Informações para a Criança e o Adolescente. O SIPIA funciona através de um software instalado nos computadores dos Conselhos Tutelares em aproximadamente 19 estados do país, entre eles, o Paraná.

As denúncias que chegam aos Conselhos Tutelares referem-se a atos atentórios à cidadania, isto é, aliciamento de menores, mendicância, crianças em lugares irregulares (bares, ruas), violência psicológica, física e sexual. Os casos relacionados à escola envolvem a evasão escolar, faltas e violência, e estima-se que 10% do total correspondem a casos de violência. Segundo os registros do Conselho Tutelar Oeste, no ano de 2003 as escolas e professores realizaram, aproximadamente, 123 denúncias de casos de violência; em 2004, houve 95 denúncias; e, no ano de 2005, 137 denúncias foram registradas.

O Conselho Tutelar Leste presta atendimento a 42 escolas municipais e 28 estaduais. O trabalho que desenvolve junto às escolas é baseado em visitas e acompanhamentos constantes, procurando criar “vínculo” com as instituições, para que atuem como “parceiras” na detecção e prevenção da violência.

O ponto comum entre os Conselhos Tutelares Oeste e Leste é que o maior número de denúncias feitas pelas escolas e professores refere-se à violência física.

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A participação das escolas e dos professores tem ficado aquém do desejável, e o “medo de represálias” do agressor, segundo os Conselheiros Tutelares entrevistados, tem sido a justificativa de alguns professores para se omitirem de denunciar os abusos ocorridos.

3.4.1.2.1 Exossistemas Conselho Tutelar, Delegacia da Mulher, Vara da Infância e Juventude

O atendimento às crianças e adolescentes vítimas de violência de qualquer

natureza tem sido realizado em rede por diversos segmentos que, de modo integrado, realizam os encaminhamentos ao Programa Sentinela.

3.4.1.2.1.1 Encaminhamentos

Encaminhamento de Ágata* ao Programa Sentinela

O encaminhamento de Ágata ao Programa Sentinela ocorreu via Conselho

Tutelar Leste, em maio de 2002.

Segundo o relatório, as tias maternas de Ágata contaram ao Conselheiro Tutelar que o pai estava abusando sexualmente da filha, que na época estava com aproximadamente 8 anos de idade.

O pai foi preso em flagrante, mas após três meses de prisão foi solto, pois a mãe retirou a queixa e fez com que a filha relatasse o contrário do que realmente aconteceu. Atualmente ele está enfermo, vítima de derrame. A menina está com problemas psicológicos e com baixo rendimento escolar. O Conselho Tutelar solicitou acompanhamento psicológico e social.

Encaminhamento de Daniele ao Programa Sentinela

O encaminhamento de Daniele ao Programa Sentinela ocorreu via

Delegacia da Mulher, em maio de 2005.

Segundo o relatório, Daniele confidenciou à sua mãe que foi molestada sexualmente pelo próprio pai. A irmã mais velha de Daniele fez a mesma declaração, ou seja, disse que foi abusada sexualmente pelo pai, o qual declarou-se inocente.

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* Os nomes são fictícios, escolhidos pelas próprias crianças e adolescentes, e teve a finalidade de preservar as suas identidades.

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A Delegacia da Mulher solicitou avaliação psicológica e um relatório da psicóloga do Programa Sentinela, o qual deveria responder a alguns quesitos, para que se pudesse confirmar a denúncia.

Encaminhamento de Kauane ao Programa Sentinela

O encaminhamento de Kauane ao Programa Sentinela ocorreu via Vara da

Infância e da Juventude, em novembro de 2005.

Segundo o relatório, a menina teria sido abusada sexualmente pelo próprio padrasto. Ele também foi acusado de assistir filmes de teor pornográfico, na companhia de Kauane. As fitas foram entregues pela mãe à Delegacia da Mulher. Após terem registrado o boletim de ocorrência, a mãe de Kauane disse que conversou novamente com a garota e que ela acabou admitindo que havia mentido. Segundo a mãe, a filha mentiu porque apanhou do padrasto, algum tempo atrás. A juíza solicitou avaliação e acompanhamento psicológico no Programa Sentinela.

Encaminhamento de Mia ao Programa Sentinela

O encaminhamento de Mia ao Programa Sentinela ocorreu via Conselho Tutelar Oeste, em fevereiro de 2004.

Segundo o relatório, Mia foi vítima de abuso sexual (estupro) pelo próprio pai que foi preso em flagrante.

O Conselho Tutelar solicitou ao Programa Sentinela apoio psicológico à vítima e auxílio à família com cesta básica de alimentos.

Encaminhamento de Roberta ao Programa Sentinela

O encaminhamento de Roberta ao Programa Sentinela ocorreu em julho de

2005, através do Conselho Tutelar Oeste de Ponta Grossa.

Segundo o relatório, a menina foi vítima de abuso sexual pelo padrasto. O Conselho Tutelar solicitou a inclusão da vítima em programa psicossocial de auxílio à criança e ao adolescente.

Encaminhamento de Marina ao Programa Sentinela

O encaminhamento de Marina ao Programa Sentinela ocorreu via Conselho Tutelar Leste de Ponta Grossa, em junho de 2005.

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A tia materna de Marina, que já havia estado anteriormente nesse Conselho Tutelar, relatou que o irmão de 19 anos de Marina abusava sexualmente dela, quando ainda morava com a família em São Paulo. Ele está preso em São Paulo por outros delitos.

O Conselheiro Tutelar de Ponta Grossa entrou em contato com o Conselheiro Tutelar de Capão Bonito - SP, que informou que a família de Marina é “altamente desestruturada” (sic). Afirmou que se a menina retornasse, estaria em situação de risco.

Marina esteve no Conselho Tutelar em Ponta Grossa e relatou que não queria mais voltar a morar com a mãe. Disse que sua mãe a espancava; ela batia tanto a sua cabeça nas paredes, que chegava a fazer barulho. Contou que o seu irmão bebia e tentava tirar a sua roupa, passava a mão no seu corpo. Relatou, ainda, que ele tentou colocar “a coisa” em sua vagina e saiu um líquido branco, e que os meninos a levavam para o mato e davam bebidas alcoólicas para ela (sic).

3.4.1.2.1.2 Exossistema: fatores de risco, proteção e resilientes

Foram identificados como fatores de risco:

- Ausência de registros fidedignos nos Conselhos Tutelares sobre o número de denúncias de abuso sexual efetuadas pelas escolas e professores.

- Poucas denúncias da comunidade, das escolas e professores.

- Inexistência de ações desenvolvidas pelos Conselhos Tutelares, Delegacia Da Mulher e Vara da Infância e Juventude, sobre a prevenção do abuso sexual em crianças e adolescentes.

Os fatores de proteção se caracterizaram por:

- Abertura de processo criminal contra o agressor, pela Vara da Infância e Juventude.

- Encaminhamento realizado pelos Conselhos Tutelares, Delegacia da Mulher, e Vara da Infância e Juventude das crianças e adolescentes vitimados para programas psicossociais e atendimento psicológico.

O fator resiliente identificado foi:

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3.4.1.3 Messossistema Escola e análise das redações com o tema “Eu e minha