3 SURGIMENTO E PAPEL DA ASSOCIAÇÃO MARANHENSE DE
3.1 Abusos
3.1.1 “Gambiarras” na realização das atividades cartorárias de Polícia Judiciária
Existem atualmente dentro das unidades de polícia judiciária, atuando nas delegacias de Polícia Civil do Estado do Maranhão, nas cidades do interior, em torno de 140 pessoas estranhas aos quadros ativos e de aposentados da Polícia Civil, com a denominação de Escrivão Ad Hoc, realizando atividades e praticando atos de Preparação Processual, como se fossem escrivães de carreiras. Os dados oficiais da Secretaria de Estado da Gestão e Previdência (SEGEP) confirmam, em 16 de maio de 2016, a existência de 315 Escrivães de Polícia Civil no quadro ativo da Polícia Civil.
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Gráfico 30 – Escrivães Ad Hoc (2016).
Fonte: Elaborado pelo autor, 2016.
Extrai-se do gráfico 30, o quantitativo real de Escrivães de Polícia de carreira existente em 16 de maio de 2016 nos quadros da Polícia Civil e com base em levantamentos paralelos não oficiais, foi constatado haver em torno de 140 pessoas alheias aos quadros da Instituição Polícia Civil e, consequentemente, alheias aos quadros do Estado, atuando dentro das Delegacias de Polícias Civis do Estado do Maranhão, realizando serviço essencial do Estado, de alta complexidade, em que decisões sobre a vida e liberdade de pessoas são tomadas, como se escrivães de carreiras fossem, ou seja, 44,44% (140) pessoas estão ocupando nas unidades policiais as vagas de Escrivães sem ter sido submetido ao devido concurso público como definido no inciso II do Artigo 37 da Constituição Federal, que assim diz: “[...] a investidura em cargo ou emprego depende de aprovação prévia em concurso público de provas ou de provas e títulos, de acordo com a natureza e a complexidade do cargo ou emprego, na forma prevista em lei, ressalvadas as nomeações para cargo em comissão declarado em lei de livre nomeação e exoneração [...]” (BRASIL, 2015, p. 52).
A Constituição do Estado do Maranhão, em seu Artigo 118, proíbe para o exercício da função policial por pessoas que não tenham sido recrutadas via concurso público, isto é: “O exercício da função policial é privativo do policial de carreira, recrutado exclusivamente por concurso público de provas e submetidos a cursos de formação policial.” (MARANHÃO, 1999, p. 55).
0 100 200 300 400 Situação em 2016 Equivalência em % 315 100 140 44,44
Gambiarras nos provimentos de vagas
para atuar nas Delegacias de Polícia Civil
do Estado do Maranhão como Escrivães
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Neste contexto é importante mencionar que dos 138 pesquisados apenas 10,9% (15) responderam que nunca fizeram Auto de Prisão em Flagrante sozinho, ou seja, sem a presença do Delegado, enquanto que todos os demais pesquisados (Escrivães de Carreira), já fizeram ou estão fazendo tais procedimentos sozinhos. Fato este que preocupa quanto à existência de Ad Hoc realizando atos de preparação processual uma vez que há probabilidade de pessoas simples e desprovidas de meios econômicos, conduzidas às delegacias como autores de crimes, serem condenadas através de procedimentos iniciados por intermédio de uma “gambiarra” estatal.
Sem, contudo, mencionar a Constituição Federal, Lei Maior do País, apenas tomando a Constituição do Estado do Maranhão, como modelo de Lei a ser respeitada, que no seu Artigo 2º diz: “São fundamentos do Estado: [...] II a cidadania; III a dignidade da pessoa humana [...]”, onde além do campo formal se situa essa cidadania e a dignidade da pessoa humana, tanto para o preso quanto para esses Ad Hoc? Vítimas dos abusos de um mesmo Estado.
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Figura 12 - Cópia da página 55 da Constituição do Estado do Maranhão.
Figura 13 – Cópia da escala de plantão do mês de março/16, com Escrivães Ad Hoc, em
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Figura 14 – Cópia da escala de plantão do mês de junho/16, com Escrivães Ad Hoc, em
Imperatriz.
Neste cenário, a renomada doutrinadora Di Pietro (2012) enaltece a participação do Ministério Público inibindo a locação de servidores terceirizados no âmbito da Administração Pública, em detrimento dos quadros de servidores oriundos dos concursos públicos. Diz tal autora que: “a tendência à terceirização em detrimento dos quadros de servidores também está revertendo, na esfera federal, em decorrência de ação civil pública promovida pelo Ministério Público, que levou o Governo Federal a firmar termo de ajustamento de conduta para criação de cargos nos próximos anos”.
Desta forma, o desconhecimento ou a inobservância por parte do MINISTÉRIO PÚBLICO, da existência de terceirizados realizando nas Delegacias de Polícia, as funções de Escrivães, que é inerente ao cargo efetivo de Escrivão de Polícia, cuja investidura deve ser por meio do Concurso Público, favorece a permanência da violação dos nobres Princípios da Administração Pública e nesse caso específico o da Legalidade, onde só cabe ao administrador fazer o que a lei permite.
No entanto, a adoção de escrivão ad hoc desempenhando suas atividades como escrivão de cargo efetivo não é permitido por lei.
75 3.1.2 Escalas de plantões sobreavisos
Na Instituição Polícia Civil do Estado do Maranhão, está acontecendo um regime de trabalho fora do comum, em desacordo com a jornada de trabalho estabelecida na legislação da Polícia Civil e nas normas trabalhistas. Trata-se da modalidade de Plantão Sobreaviso, em que o Escrivão de Polícia Civil, além de cumprir sua jornada diária de trabalho no expediente normal nas unidades policiais, ainda é escalado numa - Escala de Sobreaviso – para, a qualquer hora, durante o repouso noturno, ser chamado na unidade policial para realizar procedimentos, sem, qualquer contrapartida em termos de folgas ou remuneratória por esses serviços extraordinários. Fatos como esses vêm causando sérios transtornos à vida e à saúde do profissional Escrivão de Polícia. Inclusive consigna-se a seguir, cópias de documentos confirmando e denunciando essas práticas.
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Figura 16 – Cópias das escalas de plantões sobreaviso na 17ª Regional de Caxias.
Obs.: Sheila e Marcos são administrativos escalados como Ad Hoc para os plantões.
Figura 17 – Cópia do documento enviado ao MP de Caxias, em 2014, sobre as escalas de
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Percebe-se que a justiça de outros Estados, como o caso do Estado de Santa Catarina, interveio quando acionada pelo Sindicato dos Policiais Civis do Estado de Santa Catarina a favor dos Escrivães submetidos a escalas de trabalho em regime de sobreaviso, conforme quadros e relatos a seguir:
Figura 18 – Decisão resultante do Processo nº 0307760-24-2014.8,24.0023.
Fonte: TJSC, 2016.
Transcrições do recorte da decisão.
1. O Tribunal de Justiça, por decisão monocrática de Desembargador Substituto, entendeu que interlocutória anterior deste juízo é nula, recordando que “’A decisão judicial não pode ser um ato autoritário, absolutista, que nasce do arbítrio do julgador, sem qualquer razão que a justifique’”. Malgrado minha surpresa com os termos empregados, a deliberação ficou
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prejudicada, visto que agora consta a resposta e poderei, então, reapreciar – como fora prometido – a tutela de urgência postulada. Quer dizer, decido neste momento não por força de deliberação do TJSC, mas porque meramente chegou o momento processual próprio para tanto. Estou, aliás, ainda mais convencido do proferido nas fls. 84, que foi rente à delicadeza dos interesses em xeque, permitindo, agora sim, decisão que possa considerar também os argumentos defensivos.
2. A petição inicial descreve que a Secretaria de Segurança Pública impõe aos escrivães de polícia escalas de sobreaviso. Quer dizer, como é notório, não se exige o cumprimento de uma jornada extraordinária na repartição, mas existe a exposição a convocações. É, por assim dizer, um plantão, mas cumprido à distância e com agravamento de poder ser efetivamente necessária a todo instante a presença na delegacia ou órgão equivalente. Pelo dito, esse invocado sobreaviso não se sobrepõe à escala ordinária de trabalho (acumula-se!), muito menos é compensado com o pagamento de horas extras pelo trabalho para além das usuais 40 horas hebdomadárias. Por isso, o autor discorre sobre o estímulo operacional, que é a designação local para o pagamento feito a título de horas extraordinárias. Elas, no consenso jurisprudencial, devem ser pagas integralmente. Tira-se daí que, na falta de previsão legal relativa ao sobreaviso, estar-se-ia diante de uma fraude aos termos da Lei Complementar 137, conclusão – aos olhos do autor – que fica reforçada ante ao Estatuto da Polícia Civil Estadual, pois mesmo a indenização policial civil não eclipsa os limites quanto à jornada laboral. Por isso o pedido para que cesse o sobreaviso, restringindo-se o trabalho a no máximo quarenta horas semanais e mais quarenta horas extras mensais. 3. É de se afastar a arguição de impossibilidade jurídica do pedido. A tal título, manifestamente o Estado cuida de temas atrelados ao mérito. Confunde ação improcedente com ação inexistente, como censurava Liebman.
4. Analisando, no mais, a defesa, vê-se que não existe uma base normativa para permitir um sobreaviso, quer dizer, um estado de vigília em que o servidor possa ser considerado – repetindo o antes dito – em um plantão à distância. Obviamente, atos internos da Secretaria de Segurança não fazem esse papel. O que se estabelece legalmente, tal qual resumido, é uma jornada semanal de quarenta horas, às quais se podem editar horas extras (previstas legalmente com um limitador de também quarenta, mas mensais). Quanto a isso, na realidade, inicial e contestação convergem. A dissintonia está em uma tese inverossímil do Estado, que pretende impor ao escrivão de polícia uma permanente vigília, uma perspectiva imorredoura de ser convocado para atender situações emergenciais. Isso é insustentável. A defesa estatal trata o escrivão como alguém que não merece jamais o descanso, pois ficaria submetido permanentemente a ser chamado à delegacia. É mais do que evidente que todos fazem jus a repouso – e isso decorreria, quando menos, das regras que protegem a dignidade da pessoa humana, como previsto constitucionalmente. Por mais relevante e vocacionado que se imagine o trabalho policial, isso não dá à Administração o poder de impedir que o servidor se considere efetivamente desatrelado dos compromissos profissionais nos períodos entre as jornadas. O labor perante a segurança pública é relevante e exige sacrifícios, mas eles não vão ao ponto de renegar um direito básico como aquele. Hipoteticamente até me parece defensável que surgisse – se regulamentado por lei – um regime de sobreaviso. Ele haveria de ter limites, é claro, mas também propiciaria uma proporcional compensação financeira. Fora daí, mesmo forte a expressão, surgiria algo mais próximo da escravidão do que do que uma lícita relação de trabalho. Enfim, o Estado – mesmo tendo a oportunidade, que foi dada em consideração à importância dos interesses subjacentes – não conseguiu nem sequer de relance demonstrar que exista base legal para permitir convocações de policiais a qualquer momento. Dito de outro modo, ainda que a Fazenda
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Pública renegue que exista uma escala de sobreaviso, acaba defendendo (mesmo sem esse nome) que isso ocorre e que seria merecido. Cumpre enfatizar que a indenização do art. 189 do Estatuto da Polícia Civil em nenhuma hipótese pode ser considerada como uma autorização para livre convocação do servidor. Ela procura compensar um desgaste maior que esses profissionais sofrem, mas lá não está dito - e se estivesse seria inconstitucional – que não haja limites à jornada de trabalho ou que o servidor deve estar em constante alerta, na espera de chamados. Dito de forma abreviada, o fato é que o Estado defende que o policial civil assuma um compromisso de ser alertado a qualquer instante e que, então, possa realmente ser exigido seu trabalho. Não teria direito a ter uma programação particular, haja vista essa constante expectativa. Chama-se de sobreaviso ou não, isso é indevido.
4. Existe urgência, pois causa padecimento que esse estado de injustiça perdure, causando ainda mais malefícios aos servidores. Imagino as dificuldades administrativas para atender aos reclames populares de segurança pública, mas o fato é que os escrivães muito menos podem ser responsabilizados e sacrificados por carência de pessoal.
5. Assim, defiro a liminar para determinar que o réu limite a jornada de trabalho dos escrivães de polícia (ou de quem faça esse papel) a quarenta horas semanais e quarenta horas extraordinárias mensais, vedada convocações para trabalho além desses limites. Fixo multa de R$ 10.000,00 para cada desatenção individual a esta determinação. Intimem-se os advogados na causa e, em atenção à Súmula 410 do STJ, comunique-se por fax o Procurador-Geral do Estado. Florianópolis, 24 de junho de 2014. [...] Juiz de Direito. Autos 0307760-24.2014.8.24.0023.