CAPÍTULO 3 CENÁRIO DOS CORPOS
3.1 ACADEMIA: ESTÍMULO, DIVERSÃO E PRAZER
Os estímulos para a prática da musculação não se diferenciam entre o grupo estudado. Todos que aderem a essa prática ingressaram seduzidos por um melhor resultado físico, que está ligada ao melhor desempenho pessoal e social. Para tanto, essa atuação está diretamente vinculada à estética. E a melhor forma de demonstração dessas está no porte físico. As mudanças corporais e sociais observáveis, entre eles, estão muito próximas do que poderíamos caracterizar de “imitação prestigiosa” (MAUSS, 1974): “Ah... Porque eu não agüentava vê meu corpo também fino demais, olhava pros dos outros, ai sentia inveja também, ai eu comecei a malhar, ai eu fui crescendo, crescendo...” (Carlos). Todos se sentem influenciados profundamente pela performance dos amigos. Entretanto, o prestígio conquistado pelos adeptos que conseguem desenvolver a sua musculatura provoca incômodo aos que não conseguem obter, principalmente no que diz respeito ao prestígio social.
Para muitos, o inicio da pratica da musculação acontece nos fundos das casas de forma precária, o que na linguagem dos praticantes designa malhação de fundo de quintal. Esses lugares são construídos em terrenos baldios ou no fundo da residência que disponha de um espaço suficiente. Como uma espécie de mutirão de cooperação, os jovens que não têm poder aquisitivo para pagar uma academia reúnem-se e constroem nesses locais, um espaço voltado para a prática, juntamente com a confecção dos próprios aparelhos para exercitar.
Os equipamentos são improvisados, de forma criativa, com os materiais acessíveis no seu entorno. As barras de ferro juntamente com baldes de tintas e latas de leite vazias de vários tamanhos funcionam como material básico para a fabricação dos aparelhamentos, conhecidos como “maromba8”. Um dos colaboradores descreve a fabricação da aparelhagem
de uma academia desse tipo:
Na „pele e osso‟(nome da academia) o peso era feito da seguinte forma: em uma lata de tinta látex de 18 litros coloca o concreto e enfiava uma barra de ferro de aproximadamente 2 metros no centro da lata com o concreto. Deixava endurecer e fazia o mesmo na outra ponta da barra de ferro. Assim tinha um peso de 36 quilos. O peso máximo uma lata grande. Servia pra malhar o peito, ombro e supino deitado. Esse peso era utilizado pelos “mais fortes” da academia. Já o peso médio era feito
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São pesos feitos de concreto (mistura de cimento, areia e brita) em latas de tinta de vários tamanhos. A diferença das latas tem como objetivo obter aparelhos com cargas distintas.
em uma lata de tinta de 5 litros, aquela lata que vem com alça. A forma de fazer era a mesma. Teria aí 10 quilos. Esse peso serve para os “sucatas”, aqueles que pegam pouco peso e estão começando. Para malhar o bíceps, o músculo do braço, era utilizado o peso feito em uma lata de leite em pó de 500g. Com isso se tinha um peso de um quilo. ”(Carlos)
Segundo Carlos, tudo era feito de forma artesanal. Para não machucar as mãos, as luvas eram improvisadas com espumas de colchão. No chão eram colocados papelões ou até mesmo a camisa, peça do próprio vestuário, para evitar ferimentos nas costas. Espelhos quebrados eram pendurados em locais estratégicos para maior visibilidade do corpo. Como existiam poucos no local, alguns praticantes traziam o seu de casa para uso pessoal. O local era cercado e gradeado, tendo acesso apenas pessoas que colaboraram na sua construção. Como dinâmica da manutenção e preservação do local, o último a utilizar o espaço, ao finalizar o seu treinamento, deveria entregar a chave ao colaborador mais próximo, de modo que, qualquer ato de indisciplina era motivo de expulsão.
Outro tipo de iniciação é através de exercícios físicos feitos em jardins e locais públicos voltados para atividade física. Para muitos a prática nesses espaços não surte o mesmo impacto do treinamento feito na academia. Segundo os adeptos da musculação, há uma grande diferença no tipo de trabalho muscular realizado nos dois espaços. Nas academias o treino é focado nos músculos a serem desenvolvidos, assim resultando em uma melhor definição do corpo; além do mais, o ambiente de disputa e competição entre os alunos, na academia, surge como o estímulo para a prática. Já os exercícios feitos nos lugares abertos proporcionam apenas “resistência muscular” e não conseguem dar o volume almejado. Nesse sentido, para quem deseja definição muscular à academia se faz necessária.
Aos que aderem a uma rotina sistemática de treinamento, o não ir a academia é motivo de grande falta, que se propaga na existência de um vazio; vazio este explicitado na sensação de vulnerabilidade e fragilidade. Esse tipo de sensação para muitos mexe inclusive com o seu sistema metabólico. Alguns atletas relatam que a falta ao treino os deixa mal humorados, com insônia e uma sensação de grande perda, mesmo que essa perda, não seja visível no corpo. Well (interlocutor) revela:
É muito bom academia. Um dia que deixo de malhar me sinto mal, acho que já... Um dia que não vou à academia me olho no espelho, já tenho a sensação que estou magro, que eu preciso fazer apoio, fazer alguma coisa dentro de casa, carregar até um botijão de gás pra dizer: hoje peguei um peso.
Em contrapartida, muitos dos praticantes utilizam espaços abertos como praças e praias como forma de exibição do seu corpo, já que ali eles podem malhar sem camisa e até mesmo, dependo do local, com roupa de banho. Fiz algumas visitas em um desses lugares e observei que em determinados momentos os praticantes de musculação, veteranos, assim como nas academias, dominam o local não dando espaço para aqueles que apenas querem exercitar o corpo sem a disciplina dos competidores. Diante de tais circunstâncias, pode-se perceber que o local também é bastante apropriado para checar o corpo e compará-lo com os demais. De fato, é comum vê-los demonstrar o desenvolvimento corporal uns aos outros, assim como seu desempenho físico.
Em vista de tais questões, o “ficar forte” é um elemento de maior relevância e significância, no grupo em que estão inseridos, visto que, em decorrência desse fato, obtêm-se maior respeito social. Por isso, entre os praticantes estar na categoria do “franzino” (um corpo bastante magro) nunca os agrada, até porque na presença do grupo esse corpo não surte efeitos positivos. Como os próprios praticantes verbalizam: no campo da musculação quem tem volume, massa corporal e modelação no corpo, possui maior respeito de todos. Aos que não se enquadram resta à expressão, como expõe um dos interlocutores, de um “Zé ninguém”, um não atleta. E a possibilidade de estar na categoria do “Zé ninguém” os afeta profundamente, pois traz consigo uma idéia de fraqueza, impotência e incompetência. Acho importante comentar que se trata também de um julgamento moral. Como expõe um dos interlocutores:
Os que malham costumam falar: Ah, você está - quando agente para de malhar - você está sucatinha. Porque parou de malhar, então a massa muscular caiu, não está tão definido. Então diz que está sucatinha. Está precisando voltar, viu? Ficar malhado... Quanto mais você tem... Parece que as pessoas começam a criar um vínculo com o músculo, quanto mais você se mede, se olha, você acha que você está pequeno. Porque é difícil... Por exemplo, eu estava falando com um colega que malha comigo: pô você está grande. Ele disse: „Não, que nada, eu estou sucata‟. A gente nunca diz que está grande sempre falta alguma coisa. (Well)
Por esta razão, dentre as justificativas mais coerente para a busca de um físico mais vistoso está à possibilidade de sair da invisibilidade cotidiana. Em uma sociedade cada vez mais visual, os corpos desses homens buscam uma forma expressiva do ser visto. Desse ponto de vista é importante perceber que eles são provenientes de uma realidade estigmatizada e tida como marginal; diante disso, a malhação surge como possibilidade de uma construção identitária (IRIART & ANDRADE, 2002).
Nesse sentido, sobressair em um contexto estigmatizante por questões sócio- econômicas, reproduz-se no ver e ser visto. Para os praticantes dessa modalidade para além do estar bem fisicamente, também tem que estar bem emocionalmente, pois, sentem-se a todo instante testados pelo o olhar do outro. Como um dos entrevistados expõe: “A gente é como se fosse um outdoor, no lugar que você vai você vai está se expondo seu físico para qualquer pessoa, aí a pessoa tem visão assim, olha muito mais você assim de várias maneiras e de vários ângulos, também”.
Dessa forma, o ser observado, paquerado, assediado tem um valor substancial neste contexto. Muitos demonstram nas suas indagações a idéia de que um corpo “sarado”, dentre outros fatores, fortalece a vida social. “Significa tudo: levanta a minha autoestima, me sinto melhor com meu corpo, faz eu me sentir bem” (Anderson). O reconhecimento e respeito das pessoas que estão ao redor, a partir do desenvolvimento do corpo são claramente explicitados nas narrativas, isso a servir de estímulo para continuar na prática em si.
Portanto, constata-se que a escolha da academia está diretamente relacionada com as condições financeiras dos praticantes, como também a proximidade da residência e a possibilidade de estar diante do ambiente que lhe é familiar. Muitos justificam a sua preferência levando em conta a presença de amigos e colegas, que servem de estímulos para o treinamento. É comum irem à academia no mesmo horário e malharem dividindo os mesmos aparelhos. Parece ser uma forma de segurança e confiança nas relações dentro do espaço, de tal modo como um elemento de distinção diante de outros grupos que não comunguem dos mesmos valores embutidos nessa prática.
Nesta perspectiva, além de ser um local de socialização, as academias parecem muitas vezes como uma grande arena onde os atletas estão ali para marcar os seus espaços, haja vista a existência de códigos de boa conduta e de política de boa vizinhança. Entretanto, se por um lado há uma grande ênfase na cultura estética, por outro o discurso de boa saúde e qualidade de vida surge nas narrativas dos seus freqüentadores como um ponto importante para sua vivência nesses espaços, embora confessem que a valorização corpórea sobressaia em qualquer situação. Em síntese, constata-se ser a musculação uma atividade essencialmente corporal, cuja lógica só pode ser apreendida em ação, que corresponde a um modo de inculcar de forma implícita e coletivamente a sua prática (WACQUANT, 2002).