CAPÍTULO 5 – CORPO E MASCULINIDADE
5.2 O MÚSCULO ENQUANTO INSTRUMENTO DE PODER
Sua maneira particular de aprumar o corpo, de apresentá-lo aos outros, expressa, antes de mais nada, a distância entre o corpo praticamente experimentado e o corpo legítimo, e, simultaneamente, uma antecipação prática das possibilidades de sucesso nas interações sociais, que contribui para definir essa possibilidade (pelos traços comumente descritos como segurança, confiança em si, desenvoltura). A possibilidade de vivenciar com desagrado o próprio corpo (forma característica do “corpo alienado”), o mal-estar, a timidez ou a vergonha são tão mais forte quanto maior a desproporção entre o corpo socialmente exigido e a relação prática com o próprio corpo impostas pelos olhares e as reações dos outros (Bourdieu, 2003, p. 81) Bourdieu (2003) sugere que no campo da dominação masculina, o corpo funciona como um capital em que as relações sociais de dominação e de exploração são instituídas através da força simbólica. Uma forma de poder que se exerce diretamente sobre os corpos sem qualquer coação física, mas que só atua através da predisposição desses. Dessa forma, aqui vale contextualizar o campo intitulado musculação em que as masculinidades são afloradas e explicitadas corporalmente, a se destacar o componente competitivo em que as mudanças corporais provocam no universo masculino. Constata-se, neste cenário, que a
exposição de corpo surge, como uma afronta a outros modelos de masculinidades.
Nesse campo, entre os intitulados malhados, a posição de respeito e desrespeito vinda de outros que não possuem o mesmo porte físico é bastante pertinente, mas não abala sua sensação de superioridade. Para exemplificar, os hipertrofiados inseridos nesta arena afirmam que quando seus corpos estão diante dos homens comuns – os sem capital corporal – provocam inveja e aparecem como um divisor de águas entre o prestígio e a arrogância. Em outras palavras, nos espaços públicos em que os malhados são o centro das atenções, os que não possuem o corpo hipertrofiado desaprovam e menosprezam o tipo de corpo apresentado. Além do mais, se essa exposição for diante do publico feminino as críticas tendem a se intensificar. Para os tidos como malhados em várias situações os seus corpos são tidos como motivo de piadas. Frases do tipo: lá vai o bombado, Homem bomba, cú elétrico (devido ao tamanho do short), boneco inflável, dentre outras, se constitui, para eles, na forma mais clara de demonstração de inveja desses homens.
Ao pensar os desejos aflorados no universo feminino pela aparência dos homens hipermusculosos, os praticantes de musculação são unânimes em declarar que mesmo de forma indireta as mulheres se sentem atraídas pelos corpos hipertrofiados. Para muitos, por mais que elas não admitam, o corpo hipermusculoso supõe certa proteção. Além disso, eles salientam que hoje as mulheres estão muitas mais observadoras e cada vez mais exigentes em relação ao corpo masculino, de tal modo que, justifica no contexto atual os homens valorizarem o treinamento da parte inferior do corpo mais cobiçada pelo universo feminino, ou seja, glúteo e pernas. Isso não que dizer que a parte superior do corpo não seja valorizado por elas, mas sim que as partes supracitadas são muito mais apreciadas.
No entanto, constata-se que de um modo geral, entre os homens, há uma maior admiração e investimento na parte superior do corpo (peitoral e tórax). Nesse sentido, pode se apreender que independente dos desejos femininos, os homens malham com intuito de serem valorizados por outros homens, uma vez que no campo da musculação os homens constroem entre seus próprios códigos de respeito, admiração e por que não dizer desejo pelo corpo do outro. Não pretendo aqui questionar a sexualidade dos praticantes de musculação, mas sim, propor que a prática em si, por si só, demanda novas formas de (homo) sociabilidade que independente dos desejos sexuais aguçados, perpassa o conceito de gênero. Como propõe
Almeida (2000, p.243): “ao falar de gênero não se pode falar só de sexualidade, mas também de espaços, tempos, artefatos, situações, teorias folk do corpo, da fisiologia, da reprodução”.
Diante disso, a competição acirrada entre os praticantes de musculação tem como objetivo a sua valorização enquanto homem perante a um grupo de outros homens, logo, a fragilidade masculina fica mais evidente, diante do corpo hipertrofiado daqueles. Nessa perspectiva, os que não têm capital corpóreo tentam ridicularizar ou menosprezar os que detêm a tirania da força exposta no músculo. Apesar de ser bastante pertinente essa constatação, os homens ao serem questionados sobre o que invejariam em outro homem fazem questão de enfatizar que esse tipo de comportamento não faz parte da sua conduta, já que, homem é homem independente de qualquer coisa. Como acentua Almeida (2000, p.243): “para os homens é mais difícil inventarem outras formas identitárias, pois, seguindo o pensamento dicotômico, a alternativa que resta é „inferior‟, feminina”.
Tomando-se por base as proposições suscitadas, pode se observar que os que são dominados aplicam para si categorias construídas do ponto de vista dos dominantes às relações de dominação, constituindo-se em muitas vezes, uma espécie de autodepreciação ou até de autodesprezo sistemáticos (BOURDIEU, 2003). De certa forma, os praticantes admitem que muitos dos que procuram a prática da musculação têm como objetivo a imposição da masculinidade através da força, mesmo que isso não seja relatado explicitamente. Parafraseando Wacquant (2002), a musculação se constitui num esporte em que homens disputam com homens para determinar seu valor, isto é, sua masculinidade. Como enfatiza o Paolo, um dos interlocutores:
Ninguém malha pra ser mais forte que os outros e sim pra demonstrar ser mais forte que os outros. Eu acho que alguns malham até pra impor. Eu acho que eles vão se achar mais homens que os outros. Pra impor sua masculinidade, pra colocar medo no outro, pra dizer: “Oi, não chegue pra cá pra perto, por que... „oi‟ o meu tamanho”! (riso) “Senão vai rolar porrada!” (riso).
Nesse contexto, no universo das camadas populares pesquisadas as relações entre os praticantes são permeadas de antagonismos e contradições. Os grupos sejam eles do mesmo território ou de territórios distantes apresentam uma relação de proximidade e distanciamento. De modo geral, a prática da musculação aguça entre os praticantes sentimentos como inveja, maledicências e uma relação dúbia de amizade e concorrência, independente do local em que estejam inseridos. Um esporte em que o controle é chave para o seu grande desempenho.
“Inimigos ou não, os homens são rivais potenciais na competição pela masculinidade, ao mesmo tempo em que defendem a igualdade fraterna dos membros do mesmo sexo” (ALMEIDA, 2000, p. 186). Para Denis, as relações travadas dentro das academias são muito tênues e isso faz com que a prática tenha que ser o tempo todo, monitorada e vigiada; em outras palavras, os atletas têm que exercitar o seu controle, físico e emocional perante si e perante os outros:
Você tem que ficar muito atento: com quem você fala o que você vê, com quem você... Posso dizer, compartilha os esteróides anabolizantes. Porque é uma coisa que mexe muito com a mente com o psicológico. É um esporte que você é fácil de se queimar, até mesmo com o seu próprio aluno, com o próprio colega, com o próprio companheiro. Você tá ali hoje, na maior amizade, na maior união e a manhã... „não quero conta com esse rapaz não, esse cara não presta, não vale nada, esse cara é falso tá dando em cima de minha mulher‟. São várias questões assim que fica associada dentro da academia... Esse esporte, o fisiculturismo, mexe muito com o seu eu. Dá... Posso dizer assim, um desejo muito grande de você se sentir o super homem, quando você está malhando, entre aspas, você pode dizer que não tem medo de nada ele lhe dar uma vida muito grande, você se sente o máximo. (Denis)
Diante do apresentado, a musculação faz com que os homens que estão inseridos nesta modalidade sintam-se super-homens, poderosos, sem medo do enfrentamento com outros homens, ou seja, tornam-nos pessoas invulneráveis no topo da hierarquia da masculinidade. Por esse motivo, o controlar as emoções se constitui, entre os praticantes, uma característica de bastante valia, pois se deve agir sempre com a razão e não com a emoção, visto que, as emoções ao serem controladas os tornam pessoas centradas em qualquer área da vida. Apesar de comungarem que em certas situações não há jeito de controlá-las, enfatizam que este controle deve ser seguido à risca, para evitar que o homem seja dado como um fraco ou um desequilibrado.
Aqui os discursos das emoções se intercalam com a da sensibilidade masculina que não deve ser apresentada em público, sendo interpretada como sinônimo de fraqueza. Do que decorre que é importante que as emoções sejam vigiadas: por que na nossa sociedade não é bacana o cara que chora e se mostra sensível o tempo todo, rola um preconceito; é bom o cara se conter um pouco, se tiver tempo de chegar em casa e chorar melhor ainda. Assim, nas narrativas apresentadas, o internalizar o que se sente é um elemento fundamental no domínio das emoções, uma forma de não ser visto pelos os outros homens como fraco e incapaz.
Em suma, a aprendizagem do ser homem se faz pelo mimetismo. E as interações entre homens são estruturadas na imagem hierarquizada das relações razão/emoção,
homens/mulheres, dominantes/dominados, que se constitui em um ritual de integração no universo restrito dos verdadeiros homens. Nesses grupos é incorporado todo o capital simbólico, no qual estão embutidos gestos, movimentos, reações e atitudes que institucionalizam a figura masculina. E os que não aderem a esse ritual são ameaçados de serem desclassificados e considerados como dominados e conseqüentemente não homens. Com isso, a todo o momento, o universo masculino entra numa luta cruel e incessante em busca da legitimidade de sua identidade (WELZER-LANG, 2001).