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Este conto de Alice representa um período cronologicamente mais longo da minha vida, se comparado aos contos anteriores. Ele se refere ao tempo entre o último ano do Ensino Fundamental II e o segundo ano do Ensino Médio. Fase de transição entre a vida infantil e a adolescência.

Em 1992, entrei no Ensino Médio numa nova escola. Tudo mudou. Eu estava mais confiante e mais segura. Mudei de escola com as minhas melhores amigas. A escola parecia pública. As paredes eram brancas e sujas, tudo tinha um ar meio desorganizado, meio abandonado. Os alunos também eram diferentes. Foi lá que conheci meu melhor amigo: Miguel. Eu amava o Miguel, mas amava como amigo. Ficávamos juntos o tempo todo; na hora do intervalo, da aula vaga, da aula morta, do ponto de ônibus... Ficávamos de mãos dadas e falava sobre tudo. Ele fumava Marlboro, eu detestava cheiro de cigarro. A gente dividia a Coca-Cola.

Talvez seja das lembranças mais doces que trago da adolescência... o Miguel.

Foi no primeiro ano do ensino médio que tive um namorado negro. Éramos uma turma com todo tipo de gente. Gente de classe média e gente pobre. Não tinha muita distinção. Era uma turma acolhedora. Tinha o filho do prefeito, tinha eu, tinha filho de gari... Era a turma que se conheceu na praia, no bairro e gostava de estar junto... Pegar onda, jogar bola, tomar Sol e até tomar cerveja escondido. Nessa turma tinha um garoto muito querido, um menino negro e pobre. Eu o adorava e um dia nos beijamos. As meninas fizeram críticas porque ele era feio.

Não porque era negro, mas porque era meio banguela, tinha pele mal tratada, o cabelo pixaim. Eu gostava dele e teria ficado com ele muito mais do que fiquei não fosse a pressão do lado de fora.

Certo dia, estava todo mundo na minha casa, minha mãe chegou, me chamou na cozinha e me obrigou a mandar todo mundo embora, inclusive o menino negro que eu estava namorando. Disse que não tinha pagado escola para mim para eu namorar preto. Foi bem ruim, me senti muito mal e logo terminei meu namoro com ele.

No segundo ano do Ensino Médio resolvemos todos mudar para uma escola pública em São Vicente. Nunca tínhamos aula, os professores faltavam muito. As salas de aula eram precárias assim como o resto do prédio. Por vezes, éramos dispensados logo depois que entrávamos, saíamos da escola e ficávamos perambulando pela cidade. Íamos para a praia, para o shopping, para o mercado...

Eu continuei sendo uma das melhores alunas da classe sem muito esforço porque a escola era muito fraca. Continuei cada vez mais para o lado de dentro da rua. Cada vez mais longe da minha família.

Meu padrasto não falava comigo e eu achava a vida doméstica muito ruim. Odiava aquela casa onde eu não me sentia bem-vinda. Eu era literalmente “uma estranha no ninho”. Sempre inventava motivos para ficar fora: cursos, oficinas, palestras, passeios... Um dia, entrou um homem durante a aula na escola e fez um convite para um curso de teatro gratuito na própria escola.

Fui à primeira aula e adorei. Meu primeiro grupo de teatro. O professor era uma pessoa interessante. Tinha um cabelo

moicano, usava calça jeans rasgada, uns alfinetes presos na calça, camiseta regata branca e uma corrente com um cadeado na cintura. Ele era muito inteligente. Falava de coisas que eu nunca tinha ouvido... Poesias, livros, músicas... Falava de política e era anarquista. Ele era anarco-punk.

Logo estávamos namorando. Ele tinha 24 e eu tinha 15 anos. Eu só tinha 15 anos. Eu era muito jovem e achava que já era grande, muito grande.

Ele forçava para que tivéssemos relações sexuais. Eu negava até onde conseguia, mas pensava que se eu não cedesse a um homem de 24 anos, ele terminaria o namoro comigo. Um dia, eu cedi. Não foi porque eu quis, nem porque eu estava apaixonada. Um dia, eu cedi. Só depois descobri que para essa primeira vez, podia ter dado o nome de estupro de encontro.

Fiquei nesse relacionamento por três meses. Ele gostava muito de mim, me ensinou muito. Devo a ele meus primeiros discos do Caetano Veloso, do Vinícius de Moraes, do Tom Jobim. Li muito sobre anarquismo , fui a encontros punks, shows e bares de gente diferente. Dormíamos na casa dele. Ele tinha um pai debilitado que vivia de cama e uma mãe que trabalhava muito para manter a casa. Ele nadava, lia, ouvia música, fumava maconha, lia mais, dava aulas de teatro, fumava maconha, lia... Sua vida era mais adolescente que a minha.

Sinto um profundo arrependimento por ter cedido. Descortinei a parte que faltava para o palco da vida. Agora eu sabia o que os adultos faziam. Eu efetivamente havia me feito mulher.

Sobre Alice, podemos inferir sobre os aspectos simbólicos que representam toda esta transição e a iniciação dada pela

mudança de escola e pela minha primeira experiência sexual. Alice é descrita como uma menina quase mulher, com uma sensualidade implícita, escondida em seu vestido branco e transparente. Alice é sedução ainda em fase de brincadeira. Alice sabe que seduz, mas ainda não sabe o significado desta habilidade. Ela brinca com essa nova característica, da qual vai se apropriando em seu caminhar pela vida. No texto, me refiro a Alice como uma quase fada, que, no entanto, em sua apropriação com o feminino sensual, se aproxima de uma ninfa.

“Divindades secundárias femininas representantes da força que preside a reprodução e a fecundidade da natureza vegetal e animal. (...) Jovens, belas e delicadas, as ninfas eram objeto de paixão não só dos mortais, como dos próprios deuses. (...) São descritas como jovens com tecidos leves, quase transparentes, tendo os cabelos prateados, compridos e soltos ou penteados em tranças. (...) Algumas portam arco e flecha” (Abril Cultural, 1973, p. 132)

No conto de Alice não há referências diretas às passagens anteriores ao encontro com o Sátiro dessa forma subjetiva na descrição dessa liberdade e curiosidade sobre o mundo, dessa leveza na imagem construída de uma menina que busca descortinar mundos. As ninfas, assim como eu nesse início de adolescência, não andam sós. São criaturas que vivem em bandos, representação de um feminino jovem, ligado ao ambiente natural dos mais variados. Elas vagam, descobrem, brincam com seus corpos agregando-se à natureza, como parte de um cenário quase romântico, mas de uma inocência ainda infantil. “A ninfa é uma menina na cabeça e uma mulher corpo abaixo, a natureza, a montanha e as grutas, sendo ninfa, ela não deve jamais ser violada, somente profanada”. (Barbosa, 2008, p. 85)

No entanto, as ninfas são símbolos de jovialidade e “nunca envelhecem”, apesar de serem mortais. No conto, Alice é fada e as fadas são imortais. Segundo Trindade (2008), as fadas tinham o conhecimento das metamorfoses e das ervas e podiam se transformar em mulheres belas ou feias, ligando-se, assim, à imagem das bruxas, como se dá em Alice.

O encontro com o Sátiro é marcado por uma ludicidade, um despertar de um imaginário proibido. Alice sabe que pode seduzir o Sátiro e ele já a seduz em sua estranheza, representada em sua monstruosidade de ser. Neste corpo dual, nesta mente- sexo, neste homem-bicho.

Episódio que na autobiografia fica bem marcado pelo contato com o masculino, que vai se dando aos poucos neste início de adolescência. Uma sedução que gera culpa, uma sedução que não pode ser experimentada em toda a sua amplitude. Há um ir e não ir, um entregar-se sem entrega, certa negação da sexualidade.

10. 2 - Os monstros – os homens, o sexo, os