Este conto de Alice se refere ao encerramento do ciclo Biomba, da busca por novos caminhos profissionais e acadêmicos, do encontro com Matheus, do nascimento do meu primeiro filho, João Pedro.
No dia da despedida da nossa república, fiquei completamente perdida. Não sabia para onde caminhar. Algumas das meninas seguiram para empreitadas no exterior, algumas voltaram para casa dos pais. Eu fiquei sem saída. Fiquei sem chão. Fiquei na solidão por ter perdido aquela que era minha família.
Acabei ficando sozinha na casa onde morávamos. Estava namorando o João Leopoldo e ele acabou indo morar comigo. Mesmo assim, me sentia muito sozinha. Comecei a dar aulas na rede pública e iniciar a vida fora do espaço acadêmico.
No final do ano 2000, participei do processo seletivo para mestrado no CRHEA/USP, de São Carlos, SP. Era minha segunda tentativa, já havia tentado no ano anterior e havia reprovado. Não foi diferente desta vez. Porém um amigo da faculdade que já cursava pós-graduação nesse local, me indicou para o coordenador do curso de especialização em Educação Ambiental e recebi um convite para participar do processo seletivo.
Em janeiro de 2001, comecei o curso. O coordenador do curso era o Matheus e aqui se deu o encontro com meu primeiro mestre de vida. O curso era voltado para professores da rede pública e organizado em três módulos. As aulas aconteciam
sempre nas férias escolares com o intuito de possibilitar que os alunos se deslocassem de seu local de origem, sem ter que abandonar seus empregos.
Havia gente de vários Estados do país e diversas formações. O curso tinha um caráter bastante peculiar. Apesar de o primeiro módulo ser bastante científico, Matheus nos recebia e acolhia de forma tão especial, que o grupo criou vínculos muito fortes. Nós chamávamos de família. O primeiro módulo foi tão intenso e especial, que tomei a decisão de mudar para São Carlos, me dedicar aos estudos e prestar o mestrado mais uma vez, agora sob orientação de Matheus.
Eu não tinha emprego, vivia com uma pequena quantia de dinheiro que meu pai me enviava mensalmente. Cursei algumas disciplinas como aluna especial. No tempo livre, frequentava a Oficina Cultural e lá fiz muitos cursos de arte, direção teatral, dança, circo e montei com alguns amigos, um grupo de teatro GRUTATEVIPOTA– Grupo Tartufo de Teatro Vica-Pota.
Participamos de festivais e me dediquei à arte nessa fase da vida. Decidi que trabalharia com arte-educação ambiental e buscava desenvolver meu lado artista nas oficinas, aulas e palestras que tinha oportunidade de ministrar. Também me envolvi com o movimento ambientalista, trabalhei voluntariamente um uma ONG, me tornei vegetariana e budista. Foi um tempo de muitas descobertas.
Lá, também conquistei novas amizades, entre elas, Mírian, Cibele e Hellen. Mulheres fortes, que se mantiveram ao meu lado durante muitos anos. Mírian tinha um filho pequeno, morava em república com seu marido e a criança e eu tive o imenso prazer de conviver com a maternidade mais próxima de mim. Sempre
quis ser mãe e poder partilhar daquele espaço familiar era muito prazeroso.
Em setembro de 2001, em uma das idas e vindas no meu relacionamento à distância com João Leopoldo, engravidei. Foi uma surpresa. Não foi planejado. Foi um presente. Descobri a gravidez no mês de dezembro, em férias na casa de seus pais. João ficou bastante surpreso. Ele que já tinha uma filha de um relacionamento anterior e não tinha intenção de ter mais filhos. Foi uma fase muito difícil para mim. Senti uma profunda solidão. Não tinha família para dar apoio e ele, que era meu companheiro, também não conseguiu fazer este papel.
Sua mãe se colocou à frente da situação e me acolheu. Ela era a única pessoa com quem eu podia contar como um apoio afetivo e familiar. Estava sozinha em São Carlos, desempregada e sem perspectivas sobre como lidar com a situação.
Em fevereiro, fui contemplada com uma bolsa de aperfeiçoamento técnico da Fapesp para trabalhar em um projeto de educação ambiental na represa do Broa, sob coordenação do Matheus. Esta fresta de luz que entrou pela janela, invadiu outros cômodos da minha vida, então escura, e trouxe Matheus para mais perto de mim.
Matheus, quando soube da gravidez ficou surpreso com a situação de abandono em que eu me encontrava. Ele não conseguia entender como uma “menina” grávida podia estar tão só, sem apoio de ninguém além dos amigos que eu acabara de fazer naquela nova cidade. Ele, então, num gesto de solidariedade, me acolheu como uma filha.
Fiz todo o pré-natal em São Carlos e nunca fui acompanhada em nenhuma consulta. Via o pai do meu filho
apenas uma vez por mês, nos finais de semana em que eu me deslocava entre cidades para o encontro. Poucas foram as vezes em que ele foi me visitar.
Porém, eu estava tão feliz pela possibilidade de realizar meu sonho de ser mãe, que não percebia o quanto estava desamparada. Ninguém da minha família me viu grávida. Só Matheus acompanhou de perto este momento da minha vida.
Paralelo ao me gestar mãe, desenvolvi o projeto de pesquisa no CRHEA. Trabalhamos com a comunidade moradora do entorno da represa do Broa e na formação de professores da cidade de Itirapina. Foram seis meses de trabalho de campo. Um tempo de muito aprendizado, muito trabalho, muita conquista.