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Textual genres in the development of children aged 4 and 5 in Early Childhood Education

ACERCA DOS GÊNEROS TEXTUAIS

Seria uma premissa equivocada pensar que os gêneros surgiram com as postulações de Bakhtin (2010), Marcuschi (2008), Schneuwly e Dolz (2004), entre tantos outros autores que se debruçaram nos estudos de gêneros textuais ou discursivos. É verdade que esses autores deram grandes contribuições para a linha dos gêneros, mas é necessário evidenciar que os gêneros existem desde que o homem comunicou-se pela primeira vez e foi com Aristóteles, na Grécia Antiga, que eles apareceram pela primeira vez na literatura.

Foi Aristóteles (2011), em sua Retórica, quem classificou os gêneros do discurso em três tipos específicos: judiciário, deliberativo e epidítico. Cada um deles possui suas especificidades. O primeiro está ligado ao tribunal e às questões de acusação e defesa; o segundo diz respeito às assembleias - nesse discurso, aconselha-se ou desaconselha-se; e o terceiro diz respeito aos espectadores, nos quais se elogia ou censura algum comportamento.

Bakhtin (2010, p. 261) afirma que “o emprego da língua se efetua em forma de enunciados (orais e escritos) concretos e únicos, proferidos pelos integrantes desse ou daquele campo da atividade humana”. São esses enunciados que refratam a realidade e evidenciam como os discursos são construídos. Os enunciados são os chamados gêneros do discurso que possuem um estilo, um conteúdo temático e uma construção composicional.

Os gêneros são textos orais e escritos que têm uma função social comunicativa, considerando que:

Os gêneros textuais são textos que encontramos em nossa vida diária e que apresentam padrões sociocomunicativos característicos definidos por composições funcionais, objetivos enunciativos e estilos concretamente realizados na integração de forças históricas, sociais e técnicas (MARCUSCHI, 2008, p.155).

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Infâncias, crianças, diversidade e perspectivas de inclusão

Angela Maria Araújo Leite | Elizete Santos Balbino | Maria do Socorro Barbosa Macêdo (Organizadoras)

A ideia do autor é que os gêneros estão em nosso dia a dia e que são dotados de elementos sociais, históricos, culturais, linguísticos, entre outros, que moldam as falas daqueles que os utilizam. A escolha de um gênero e não de outro revela a função social e até mesmo o exercício de poder por meio do uso de um gênero específico. Nenhuma comunicação acontece sem a utilização de algum gênero textual, visto que eles fazem parte da vida das pessoas em suas interações, produções e comunicações no meio social e em vários contextos. “Ora, a língua passa a integrar a vida através de enunciados concretos (que a realizam); é igualmente através de enunciados concretos que a vida entra na língua” (BAKHTIN, 2010, p. 265).

Os gêneros que são utilizados na vida diária manifestam-se na modalidade oral e escrita da língua. As duas modalidades são meios distintos, mas não opostos, de realização da língua. Santos (2013, p. 59) afirma que “os gêneros aparecem na perspectiva da fala e da escrita dentro de um Continuum Tipológico das práticas sociais de produção textual”. A fala e a escrita, neste trabalho, são vistas como complementares e não dicotômicas.

A questão do suporte textual ainda é uma temática muito discutida nos estudos de gêneros textuais. Marcuschi (2008, p. 179), por exemplo, afirma categoricamente que o livro didático ou qualquer livro não é um gênero, mas um suporte textual. Em contrapartida, os estudos em Linguística Aplicada defendem a ideia de que se trata de um gênero. Vemos um grande conflito teórico pelo fato de o gênero e o suporte serem tão próximos, entretanto, há diferenças fulcrais. Desde já, ratificamos que concordamos com o posicionamento de Marcuschi (2008), por razões preferíveis e teóricas.

Assim, entendemos que a identificação dos gêneros associa-se diretamente com o suporte; essa ligação não é indiferente ao material ou meio eletrônico por meio do qual o gênero realiza-se. Uma carta pessoal, por exemplo, é escrita em papel e enviada para que o remetente receba-a em mãos; quando escrita com as mesmas informações, porém enviada por endereço eletrônico passa a ser um e-mail. Uma pequena mensagem direcionada a uma pessoa próxima, deixada em papel sobre a mesa, pode ser considerada um bilhete, mas se a mesma mensagem for passada via telefone será um telefonema.

Neste sentido, o suporte é crucial para o entendimento e a caracterização do gênero e, embora, por vezes, sejam confundidos com os próprios gêneros, é importante sabermos que os suportes de gêneros (também conhecidos como portadores de gêneros) são os materiais ou meios pelos quais os gêneros realizam-se. Marcuschi (2008, p. 174) afirma: “entendemos aqui como um suporte de um gênero um locus físico ou virtual com formato específico que serve de base ou ambiente de fixação do gênero materializado como texto”.

O suporte textual e o gênero, portanto, são elementos diferentes, mas estão intimamente relacionados. Um não acontece sem o outro, pois são imbricados, ligados. O gênero é a realização funcional do texto oral e/ou escrito e o suporte é o local em que o gênero encontra um formato específico para fixar-se, física ou virtualmente.

Neste sentido, a escola é tomada como autêntico lugar de comunicação e as situações escolares como ocasiões de produção/recepção de textos. Os alunos encontram múltiplas possibilidades nas quais a produção textual torna-se possível e necessária. Os gêneros escolares são o resultado do funcionamento da comunicação escolar; eles são aprendidos por meio da prática de linguagem que necessita ser desenvolvida e estudada em sala de aula (SCHNEUWLY; DOLZ, 2004).

É possível encontrarmos, na obra de Schneuwly e Dolz (2004), a indicação de alguns gêneros que podem ser trabalhados no espaço de sala de aula com vistas a desenvolver as habilidades linguísticas dos alunos. Os autores mostram exemplos de atividades com a exposição oral, com o debate regrado, com a fábula, com o conto, entre outros gêneros orais e escritos, que podem ser trabalhados na educação infantil, interesse maior deste trabalho.

Para que as atividades possam ser realizadas de uma maneira sistemática, seguindo passos específicos, Dolz; Noverraz; Schneuwly (2004) elaboraram um modelo de sequência didática para o estudo do gênero oral e do escrito, buscando apresentar um procedimento de aplicação em sala de aula. Na próxima seção, iremos nos deter nesse aspecto, sugerindo possíveis aplicações de atividades a partir do uso dos gêneros textuais.

As sequências didáticas contribuem significativamente para a promoção de um trabalho sistematizado e coerente que pode ser adaptado para o planejamento e execução de atividades na EI. Assim, “uma sequência didática é um conjunto de atividades escolares organizadas, de maneira sistemática, em torno de um gênero textual oral ou escrito” (DOLZ; NOVERRAZ; SCHNEUWLY, 2004, p. 83).

Neste sentido, o planejamento das atividades possibilita aos alunos o acesso às novas práticas de linguagem, consideradas um tanto complexas, mas imprescindíveis para a formação discente. Essa organização pode ter como base o seguinte modelo de sequência didática:

Fonte: (DOLZ; NOVERRAZ; SCHNEUWLY, 2004, p. 83).

O primeiro procedimento, apresentação da situação, visa mostrar aos alunos o gênero que será estudado, o que, na EI, pode ocorrer de diversas formas e com diferentes recursos, a partir do interesse das crianças. O segundo, produção inicial, diz respeito à participação efetiva dos alunos sobre as produções a serem realizadas. Com crianças de quatro e cinco, é necessária a mediação do professor no tocante ao uso da linguagem adequada, para a compreensão das crianças e a preparação de materiais e recursos de acordo com o que será produzido e/ou confeccionado com as crianças. O terceiro procedimento,

os módulos, é os momentos nos quais se trabalha as questões voltadas para o gênero em

estudo, com variadas situações, exemplos e materiais diversos, contextualizando com a realidade dos aprendizes. A quantidade de módulos varia de acordo com os conteúdos, o gênero escolhido e as necessidades da turma. O quarto e último procedimento, produção

final, refere-se a tudo aquilo que foi aprendido durante as etapas; trata-se da culminância

das sequências didáticas ora aplicadas, que, na educação infantil, deve ser um momento de escuta da criança e incentivo a perceber seu desenvolvimento e aprendizagem por meio das diversas linguagens da criança.

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Assim, compreendemos que as sequências didáticas são metodologias importantes para o trabalho dos gêneros textuais na EI, tendo em vista que possibilitam um trabalho sistemático e que permitem a contextualização.