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Acerca de la psicología y la pedagogía de la defectividad infantil (1924)

4 A DEFICIÊNCIA INTELECTUAL EM VIGOTSK

4.1.1 Acerca de la psicología y la pedagogía de la defectividad infantil (1924)

Na primeira parte desse texto, Vigotski critica o fato da deficiência ter sido, até então, colocada e entendida, tanto na literatura pedagógica, quanto na concepção geral (senso comum), como um problema biológico. Para ele, era necessário “livrar- se” da lei da “compensação biológica” já desacreditada na ciência, mas ainda reconhecida popularmente (VYGOTSKI, 2012a, p. 74). Nesse sentido, defendia que:

Cualquier insuficiência corporal - sea la ceguera, la sordera o la debilidad mental congénita - no solo modifica la relación del hombre con el mundo, sino, ante todo, se manifesta en las relaciones con la gente. El defecto orgánico se realiza como anormalidad social de la conducta. [...] Su desgracia cambia en

primer lugar la posición social en el hogar. Y esto se manifesta no solo en las familias donde miran a ese niño como una carga pesada y un castigo, sino también en aquellas donde rodean al hijo ciego de un cariño redoblado, de una solicitud y una ternura decuplicadas34. (VYGOTSKY, 2012a, p. 73).

Es preciso plantear y comprender el problema de la defectividade infantil, en la psicología y la pedagogía, como un problema social, porque su momento social, anteriormente no observado y considerado por lo común como secundário, resulta en realidade ser fundamental y prioritario. Se lo debe estimar como principal. Es preciso encarar con audacia este problema como un problema social. Si una deficencia corporal significa psicológicamente una luxación social, desde el punto de vista pedagógico educar a ese niño es insertarlo en la vida, como se inserta un órgano luxado y enfermo.35

(VYGOTSKY, 2012a, p. 74)

Nesses excertos, observo a preocupação de Vigotski em relação às consequências sociais da deficiência, advertindo que mesmo a relação que se estabelece no núcleo familiar pode ter efeitos prejudiciais para a pessoa com deficiência.

Contrariando o senso comum36, o autor argumenta que tanto o tato para o cego

quanto a visão para o surdo37 não apresentam particularidades em relação ao

desenvolvimento desses sentidos nas pessoas sem essas deficiências:

El excepcional tacto en los ciegos y la vista en los sordos se explican cabalmente por las condiciones especiales en las que suelen estar puestos estos órganos. En otras palabras, las causas de esto no son constitucionales ni orgánicas, que consisten en la particularidad de la estructura del órgano o de sus vías nerviosas, sino funcionales, aparecidas como resultado de un empleo prolongado de dicho órgano para fines distintos de los que suelen

34Tradução nossa: “Qualquer insuficiência corporal – seja a cegueira, a surdez ou debilidade mental

congênita – não só modifica a relação do homem com o mundo, mas, acima de tudo, se manifesta nas relações com as pessoas. O defeito orgânico se realiza como comportamento social anormal. [...] Sua desgraça muda primeiramente a posição social em casa. E isso se manifesta não só nas famílias que veem a criança como um pesado fardo e uma punição, mas também naqueles que cercam o filho cego de um carinho redobrado, uma ternura duplicada”.

35 Tradução nossa: “É preciso colocar e entender o problema da defectividade infantil, na psicologia e

na pedagogia, como um problema social, porque seu momento social, anteriormente não observado e, geralmente considerado como secundário, resulta na realidade ser fundamental e prioritário. Deve-se considerá-lo como principal. É preciso encarar com audácia este problema como um problema social. Se uma deficiência corporal psicologicamente significa luxação social, do ponto de vista pedagógico educar essa criança é inseri-la na vida, como se insere um órgão luxado e doente.

36 Era comum as pessoas acreditarem que se uma pessoa nasce cega, automaticamente, já nasce com

o tato e a audição mais desenvolvida que as pessoas sem deficiência. Essa perspectiva da compensação biológica Vigotski refutava.

37 O termo “sordomudo” (surdomudo) também foi usado por Vigotski para fazer referência às pessoas

com a audição e a fala comprometida. Também fez uso das palavras “sordera” (surdez) para referir-se à deficiência da audição e fala. Embora, atualmente, não seja mais usual, academicamente, o termo surdomudo, compreendo que, naquele momento, era o termo correto/usual, por essa razão, será mantido no decorrer desta Tese.

tener las personas normales.38 (VYGOTSKI, 2012a, p. 75).

Também o desenvolvimento mais aguçado desses sentidos se dá socialmente. São as exigências sociais que estimulam o aprimoramento do tato no sujeito com deficiência visual, por exemplo. Caso o contexto social em que a pessoa cega esteja inserida não valorize a aprendizagem da leitura e escrita, dos saberes escolares, a aprendizagem do Braille também não será importante.

Ao explicar os processos de aprendizagem de leitura labial pelo surdo e do Braille pelo cego, Vigotski faz referência a Pavlov39, identificando que ambas

aprendizagens são reflexos condicionados a determinados estímulos condicionados. Entretanto, embora o desenvolvimento do tato no cego e da visão no surdo não apresente particularidades orgânicas, esses sentidos não desempenham o mesmo papel que nas pessoas sem essas deficiências, esses sentidos têm uma diferença funcional, que é adquirida através da experiência desses sujeitos, não sendo inata à estrutura orgânica.

Com “el rechazo de la leyenda sobre la compensación biológica del defecto40

(2012a, p. 77), Vigotski afirma que não existe uma pedagogia especial para as pessoas com deficiência e que

La educación del niño con defecto constituye el tema de un solo capítulo de la pedagogía general. De esto resulta directamente que todos los problemas de este difícil capítulo deben ser revisados a la luz de los principios generales de la pedagogía.41 (2012a, p. 77).

Após apresentações de aspectos gerais da defectologia, Vigotski passa, separadamente, a abordar os problemas da deficiência visual, da deficiência auditiva/surdez e da deficiência intelectual.

38 Tradução nossa: “O excepcional tato nos cegos e a visão nos surdos se explicam totalmente pelas

condições especiais em que estão postos estes órgãos. Em outras palavras, as causas disso não são constitucionais ou orgânicas, que consistem na particularidade da estrutura do órgão ou suas vias nervosas, mas funcionais, aparecem como resultado de uma utilização prolongada destes órgãos para outros fins do que aqueles habituais nas pessoas normais”.

39 Iván Petróvich Pavlov (1849-1936), fisiologista e acadêmico russo soviético, seus descobrimentos

tiveram enorme importância não só para a fisiologia e a medicina, mas também para a psicologia e a pedagogia. (VYGOTSKI, 2012f). Desenvolveu a teoria do reflexo condicionado

40Tradução nossa: “a rejeição da lenda sobre a compensação biológica do defeito”.

41Tradução nossa: “Educaçãode crianças com defeito é o tema de um único capítulo da pedagogia

geral. Resulta que todos os problemas deste capítulo difícil devem ser revistos à luz dos princípios gerais da pedagogia”.

Especificamente sobre o “retraso mental”42, Vigotski fala da diversidade

crianças patologicamente retardadas43, fisicamente deficientes e retardadas em

consequência dessa deficiência –, e introduz/apresenta o conceito de crianças socialmente retardadas

junto con el retraso patológico, veremos niños completamente normales en el aspecto físico, retrasados y poco desarrollados a causa de penosas y desfavorables condiciones de vida y educación. Estos son niños socialmente retrasados.44 (p. 92).

No decorrer de todo esse artigo, o aspecto que mais sobressai é a ênfase nas consequências sociais da deficiência, que acentua a própria deficiência e, por isso, a necessidade da educação social. Para Vigotski, toda educação deve ser social, esse posicionamento fica evidente quando fala da educação das crianças com retardo mental em escolas auxiliares45 em que “el problema pedagógico central, también en

esta escuela, es el nexo de la enseñanza especial con los principios generales de la educación social46” (2012a, p. 93). Para ele, não havia correspondência entre o que

era ensinado nas escolas comuns e o que era ensinado nas escolas auxiliares para pessoas com “retraso mental”, que priorizavam atividades sensório-motoras e lições de silêncio. Ainda, caracteriza como deveria ser a função e a dinâmica desse tipo de escola:

La ensenãnza ‘especial’ debe perder su carácter ‘especial’ y entonces pasará a ser parte de la labor educativa común. Debe seguir el rumbo de los intereses infantiles. La escuela auxiliar, creada solo como ayuda a la escuela normal, no debe romper nunca ni en nada los vínculos con ella. La escuela especial debe tomar con frecuencia por un período a los retrasados y restituirlos de nuevo a la escuela normal. orientarse hacia la norma, desterrar por completo todo lo que agrava el defecto y el retraso - esto es el objetivo de la escuela. No debe ser vergonhoso estudiar ahí y sobre sus puertas no

42 A expressão “retraso mental” utilizada por Vigotski é compreendida por nós como sinônimo do que

denominamos, hoje, de deficiência intelectual. Há que se considerar também que Vigotski utilizava o termo “oligofrénico” como sinônimo de “retraso mental” e, nesse momento, incluía nessa classificação crianças com deficiência intelectual orgânicas e adquiridas, no caso, as que desenvolviam “retraso mental” em razão de deficiência física e outras que desenvolviam esse “retraso” por razões sociais.

43 O termo “retardo”, assim como o termo surdomudo, não é mais utilizado academicamente, contudo

faço a opção em mantê-lo no contexto do autor citado.

44 Tradução nossa: “juntamente com o atraso patológico, veremos crianças completamente normais na

aparência física, atrasados e pouco desenvolvidas por causa de duras e desfavoráveis condições de vida e educação. Estas são crianças socialmente atrasadas”.

45 Posso compreender que, tomadas as devidas proporções temporais, essas escolas seriam

semelhantes às escolas especiais que conhecemos.

46 Tradução nossa: “o problema pedagógico central, também nesta escola, é o nexo da educação

tiene que estar escrito: ‘Perdez toda esperanza los que aquí entráis’47.

(VYGOTSKI, 2012a, p. 93, grifo do autor).

Neste momento de seus estudos, poderia inferir que Vigotski defende o que chamamos hoje de “inclusão escolar” de estudantes com deficiência intelectual, todavia, reconhece a importância da “escola auxiliar”, leia-se escola especial. Portanto, esse teórico não deveria ser utilizado veementemente para justificar propostas que priorizam a “inclusão total”, por meio do fechamento de escolas e classes especiais.

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