CAPÍTULO 1 – REFERENCIAL TEÓRICO
1.1 EDUCAÇÃO ESPECIAL
1.2.2 Acessibilidade e conflitos
Venter et al. (2002) desenvolveram um projeto visando promover a compreensão das questões de mobilidade e acesso, experimentado por pessoas com deficiência em países em desenvolvimento (Índia, Malawi, México, Moçambique e África do Sul). As barreiras e os problemas relatados pelos participantes dos diferentes países foram muito semelhantes ao que é encontrado nos países desevolvidos. Os três pricipais tipos de barreiras identificadas pelo grupo focal como impedimento para a sua mobilidade foram: barreiras sociais, barreiras psicológicas e barreiras estruturais (Figura 1).
Figura 1 - Barreiras à acessibilidade identificadas pela análise das necessidades
Fonte: Venter et al., 2002.
Em barreiras sociais estão incluídas a falta de concientização pública sobre deficiência, a falta de pessoal capacitado para lidar com a questão da deficiência, problemas de comunicação e custos que envolvem o deslocamento da pessoa com deficiência no meio urbano, principalmente em países pobres. Dentro das barreiras psicológicas foram listadas, considerando as respostas dos participantes: a timidez, o fato de a pessoa não querer ser identificada como deficiente, a preocupação com a segurança física (medo), a preocupação com serem enganados ou sofrerem acidentes de trânsito; enfim, barreiras internas ao sujeito que os levam a não querer sair de casa. As barreiras estruturais não são apenas as de ordem física, mas envolvem também o acesso às informações vitais para o deslocamento, o tipo e a infraestrutura dos transportes, o ambiente para pedestres e o planejamento urbano.
Como resultado do projeto, como era de se esperar, a maioria das pessoas com deficiência tem experiência de entraves significativos com relação à mobilidade. Porém, essa mobilidade varia de acordo com a deficiência e os recursos financeiros e familiares à disposição da pessoa. As pessoas com deficiência auditiva são mais móveis, enquanto que as pessoas com deficiência visual precisam de modos específicos para viajar entre lugares familiares. As pessoas com dificuldades de locomoção são geralmente mais capazes de
acessar veículos de pequeno porte, e as pessoas usuárias de cadeiras de rodas são quase totalmente excluídas da maioria dos transportes públicos e às vezes até mesmo do ambiente urbano. A situação é crítica para as pessoas que necessitam de dispositivos de mobilidade (bengalas, cadeiras de rodas, muletas), pois sempre necessitam de pessoas que auxiliem na sua locomoção básica. A assistência de membros da família durante toda a duração de uma viagem é de fundamental importância para muitos participantes da pesquisa (VENTER et al. 2002). Por esse estudo é possível identificar as dificuldades da pessoa com deficiência se locomover no ambiente urbano, seja pelas barreiras físicas ou pelas barreiras sociais e psicológicas. E essas dificuldades estão correlacionadas ao tipo de deficiência, ao grau da deficiência, bem como às condições pessoais, sociais e familiares.
O simples fato de na cidade as pessoas se deslocarem pode causar desarranjos em sua infraestrutura física e disseminar desconfortos e/ou problemas emocionais. Não basta aumentar a mobilidade no seu sentido tradicional, pois esta deve estar ligada às localidades; ou seja, a acessibilidade não é apenas a facilidade de circular, mas de chegar ao destino, e pode ser medida pelo número e pela natureza dos destinos alcançados por uma pessoa (SOUZA; SOUZA, 2009).
De acordo com Prado (2003), é papel do planejador intervir nos espaços de forma a criar ambientes desafiadores e eliminar os ambientes que intimidam. Para Duarte e Cohen (2004), a construção de espaços onde as pessoas com deficiência sejam incluídas tem a capacidade de permitir as trocas, estimular relações e valorizar as características socioculturais. Desta forma evita-se o esfacelamento das identidades sociais, atenuando as diferenças. As experiências espaciais temporais das pessoas com deficiência só serão concretas e positivas quando transformadas em possibilidade de ação (DUARTE; COHEN, 2004). Essa ação se dá num certo espaço que será vivenciado de diferentes formas por diferentes pessoas. Mas essa vivência não é experienciada da mesma forma por pessoas com diferentes tipos de deficiência ou necessidade.
O direito à educação pressupõe a participação plena do aluno com algum tipo de deficiência no ambiente escolar, ou seja, em todas as atividades pedagógicas, esportivas ou de lazer. Sendo a escola um ambiente público, fora de seu domicílio, o aluno precisa deslocar-se até esse outro espaço, esse outro ambiente. Existem também os deslocamentos internos, seja em um prédio escolar ou em um campus universitário. Tal deslocamento se faz no tempo e no espaço, sendo compartilhado com todos os que precisam desse mesmo percurso a fim de realizar suas atividades diversas. Essas interfaces geram conflitos de interesse e uso.
A pessoa com deficiência visual demanda que esse espaço possua elementos facilitadores para seu deslocamento, tais como: pisos táteis, calçadas niveladas, informações em código Braille, corrimão ou outros referenciais (meio-fio, paredes, entre outros meios, como guia), além de um maior tempo de percurso e ausências de barreiras.
A pessoa com deficiência física (usuária ou não de cadeira de rodas) ou mobilidade reduzida, precisa que esse espaço possua: rampas, rebaixamento de calçada, desnível mínimo, calçadas niveladas, entre outros recursos, e um maior tempo de percurso.
A pessoa com deficiência auditiva demanda que esse espaço possua informações visuais e/ou luminosas. Um mesmo espaço, que comporte as características e peculiaridades de cada pessoa, gera conflitos de interesse que precisam de um novo olhar do planejador. Duarte e Cohen (2004) afirmam que para compreender as diferentes e possíveis maneiras de apreensão do espaço por uma pessoa com dificuldade de locomoção, é preciso saber como essa pessoa o percebe.
No Art. 10 do Decreto-lei nº 5.296/2004 são propostos os princípios do desenho universal: utilização equitativa, flexibilidade de utilização, utilização simples e intuitiva, informações perceptíveis, tolerância ao erro, esforço físico mínimo, dimensão e espaço de abordagem e de utilização. Considerando que esse espaço vai ser usado por todos e que a tendência é aumentar o grau de participação, nos espaços urbanos, da pessoa com deficiência, deve haver uma preocupação maior na sua construção.