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CAPÍTULO 5 – RESULTADOS E CONCLUSÕES

5.2 RESULTADOS DOS DADOS QUALITATIVOS

5.2.2.4 Outros questionamentos levantados pelos alunos

Os alunos apontaram outras necessidades ou problemas que não constavam no questionário, como a iluminação das salas de aula e a identificação dos livros nas prateleiras da biblioteca (letra a do item 4.2.2.2). A queixa sobre a iluminação na sala de aula também foi encontrada nas pesquisas de Pieczkowski (2008) e Pereira (2007). Outra sugestão dos participantes foi para que as apresentações de filmes e vídeos tenham legenda para as pessoas com deficiência auditiva e que sejam dublados para o aluno com deficiência visual.

Pieczkowski (2008) também identificou a reivindicação de alunos com deficiência auditiva por filme com legenda. Uma solução para esse problema é a identificação prévia, por parte do professor, das necessidades educacionais de seus alunos e apresentar a solução mais viável; no caso de existirem na sala de aula alunos com deficiência visual e auditiva, deve-se disponibilizar filme/vídeo dublado e legendado.

b) Iluminação na sala de aula

A NBR 5413/1992 da ABNT estabelece os valores de iluminâncias em interiores para atividades de comércio, indústria, ensino (grifo nosso), esporte e outros. Essa norma recomenda que a iluminância em qualquer ponto do campo de trabalho não seja inferior a 70% da iluminância média determinada pela NBR 5382/1985. Para cada tipo de local ou atividade, existem as indicações de iluminâncias, sendo recomendado o valor do meio que está estabelecido na NBR 5413/1992. O valor mais alto deve ser utilizado quando a capacidade visual do observador está baixo da média.

Considerando a queixa dos alunos, realizou-se um levantamento das condições de iluminação das salas de aula indicadas. Neste estudo não foi considerado o método de verificação recomendado pela NBR 5382/1985, por não ser este o foco da pesquisa, mas foram observadas as condições gerais que constam na mencionada norma. Para a medição da iluminância, foi utilizado um luxímetro de modelo da marca LUTRON LX-101, digital Lux Meter (Foto 40).

Foto 40 - Luxímetro LUTRON LX-101, Lux Meter

Todas as medidas foram feitas pela manhã, dia ensolarado, com várias combinações de condições: lâmpada acesa ou apagada; cortina aberta ou fechada. Todas as lâmpadas eram do tipo fluorescente e de 40 watts. O resultado da medição pode ser observado na Tabela 13.

Tabela 13 - Resultado da medição da luminância das salas indicadas pelos alunos com baixa-visão

LOCAL ILUMINÂNCIA NBR 5413/92 Condição Medição (lux)

AT-1 SALA 09 24 lâmpadas fluorescente de 40 watts A± 20,00 m2 Lap, Cf 19 200-300-500 La, Cf 776 La, Ca 1.020 Lap, Ca 259

QUADRO VERDE Lap, Cf 14 300-500-750

La, Cf 544 La, Ca 679 Lap, Ca 161 AT-2 SALA 26 48 lâmpadas de 40 watts A±85,00 m2 Lap, Cf 32 200-300-500 La, Cf 903 La, Ca 1.050 Lap, Ca 189

QUADRO VERDE Lap, Cf 25 300-500-750

La, Cf 127 La, Ca 579 Lap, Ca 493 AT-7 SALA 48 lâmpadas de 40 watts, 6 queimadas A= 144,67 m2 Lap, Cf 55 200-300-500 La, Cf 489 La, Ca 1.154 Lap, Ca 857

QUADRO AZUL Lap, Cf 32 300-500-750

La, Cf 353 La, Ca 619 Lap, Ca 305 AT-8 SALA 184 24 lâmpadas de 40 watts A= 70,00 m2 Lap, Cf 77 200-300-500 La, Cf 557 La, Ca 665 Lap, Ca 162

QUADRO VERDE Lap, Cf 28 300-500-750

La, Cf 556

La, Ca 665

Lap, Ca 162

Legenda: La (luz acessa). Lap (luz apagada)/ Ca (cortina aberta); Cf (cortina fechada) Fonte: A autora.

Apesar de não termos seguido todos os procedimentos recomendados pela NBR 5382/1985, os dados obtidos revelam a necessidade da manutenção da luz acessa, mesmo de dia, para aluno com baixa-visão. Essa questão não é simples, pois depende do tipo de perda visual e do turno das aulas. É importante que haja uma boa comunicação entre o professor e o aluno para que este possa se expressar sem constrangimento. Problemas com a luminosidade das salas de aula também foram identificados por Mazzoni (2003).

Para pessoas com baixa visão o tempo de adaptação da luminosidade varia entre os indivíduos, pois alguns demoram mais que outros, portanto, é imprescindível a adoção das normas técnicas de conforto luminoso (NBR 5413: 1991) em função das atividades desempenhadas no ambiente (LOPES; BURJATO, 2010). Para essas autoras, ambientes que atendem a padrões de audibilidade, visibilidade, legibilidade, iluminação, conforto térmico e qualidade de informações, tornam-se espaços mais acessíveis e, embora não mude o grau da deficiência sensorial, sua inobservância pode aumentar o grau de dificuldade. Mas alertam que, ao contrário de que se imagina, o nível elevado de iluminação não melhora a acuidade visual das pessoas com baixa visão, pode até prejudicar. Para essas autoras, parte considerável da capacidade de se deslocar, para pessoa com baixa visão, está diretamente relacionada com as características constitutivas e quantidade de informações fornecidas pelo ambiente, e isso determina o grau de acessibilidade do projeto.

5.2.3 Satisfação Psicoafetiva

Entre outros itens, neste fator foram formuladas duas questões de caráter qualitativo e quantitativo sobre a expectativa dos alunos antes e depois de entrar na instituição. Participaram desta fase apenas alunos da graduação e pós-graduação (16). As análises foram feitas de acordo com a Análise de Conteúdo com a divisão das respostas em categorias e subcategorias (Tabelas 14 e 15). Um dos participantes não emitiu parecer por escrito, apenas pontuou a questão.

Tabela 14 - Expectativas do aluno “antes” de entrar na instituição como aluno

CATEGORIA SUBCATEGORIA ALUNOS PARTICIPANTES N Percentagem

Expectativa do aluno antes de

entrar na instituição

Instituição pública

bem conceituada DA3, DV1, DV3, DV7, DF4, DF1, DF3, DA1, DAp1 9 50% Superação das dificuldades decorrentes da deficiência/estigma DV7, DV6, DF1, DV14, DF4 5 27,78% Realização de um sonho DV8, DV5 2 11,11% Não houve planejamento na escolha do curso DF6, DA2 2 11,11% Total 18 100%

Observação: N é o número de tipos de respostas; onde um aluno pode ficar enquadrado em uma ou mais subcategorias, ou pode não responder.

Tabela 15 - Expectativas do aluno “depois” de entrar na instituição como aluno

CATEGORIA SUBCATEGORIA ALUNOS PARTICIPANTES N Percentagem

Expectativa do aluno depois de entrar na instituição Falta de apoio da instituição ao aluno

com algum tipo de deficiência ou limitação DV3, DV5, DA3, DAp1, DF4, DA1, DV1 7 30,44% Falta de capacitação e sensibilização dos professores DA1, DV1, DF3, DA3, DF4 5 21,74% Falta de acessibilidade a espaços físicos, recursos didáticos e humanos DV5, DV1, DA1 3 13,04% Expectativas positivas confirmadas e superação de dificuldades DV7, DV8, DV14, DF6, DV6 5 21,74% Instituição pública federal de qualidade DF1, DV6 2 8,7%

Trocar de curso DA2 1 4,35%

Total 23 100%

Observação: N é o número de tipos de respostas; onde um aluno pode ficar enquadrado em uma ou mais subcategorias, ou pode não responder.

Fonte: A autora.

Como pode ser observado na Tabela 14, o motivo de a UFSCar ser uma universidade pública federal e bem conceituada pelos órgãos de fomento, é um fator que gera expectativas positivas no alunado que ingressa no seu quadro, corroborando os achados de Oliveira (2003) e Pereira (2007). Alguns alunos, considerando o destaque da UFSCar por meio do seu Programa de Pós-Graduação em Educação Especial, imaginam que todos os cursos estão plenamente preparados para atender o aluno com qualquer tipo de deficiência. Quando isso não ocorre, gera tensão e desconforto.

O maior índice de insatisfação é na subcategoria Falta de apoio da instituição ao aluno com algum tipo de deficiência ou limitação (Tabela 15), responsável por 30,44% de respostas; em seguida, estão as subcategorias “Falta de capacitação e sensibilização dos professores” e “Expectativas positivas confirmadas e superação de dificuldades”, ambas com 21,75% das respostas. Esses achados corroboram quase todas as referências aqui abordadas com relação à inclusão do aluno com deficiência no ensino superior. No Quadro 22, são apresentadas as principais falas dos alunos com relação às suas percepções na vivência acadêmica, tanto positivas quanto negativas.

Quadro 22 - Falas dos alunos quanto as suas percepções na vivência acadêmica

Pontos positivos apontados pelos

alunos Pontos negativos apontados pelos alunos

As expectativas [boas] foram

confirmadas.

Os recursos didáticos e humanos ainda não são acessíveis efetivamente para a inclusão de um aluno com deficiência visual. Entrar numa universidade federal

muito conceituada, apesar das dificuldades, vale a pena.

Percebi que muitos professores não são muito sensatos, e mesmo pedindo para falar de frente por conta da leitura labial que faço e explicando sobre minha deficiência, era o mesmo que não falar nada. Percebi que são poucos os recursos que a universidade oferece para alunos que tenham qualquer tipo de deficiência. Fica a impressão que eles não esperam que uma pessoa com qualquer tipo de deficiência consiga entrar na faculdade. Isso também aparenta pela falta de preparo dos próprios professores para lidar com esse tipo de população.

Continua a mesma expectativa [boa]. Não houve interesse no meu caso [doença], tive problemas e quase fui jubilada, precisei recorrer na UFSCar para reverter a situação.

Por tudo que alcancei desde a graduação até a pós-graduação, as amizades que fiz, os conhecimentos que adquiri, a vivência, tudo isso valeu.

Os professores precisam fazer avaliação dos seus métodos de ensino, fazer reflexão do seu modelo de aula.

Correspondeu às expectativas, o curso é excelente.

Esperava que fosse um curso de inclusão das pessoas. A teoria é diferente na prática.

Curso árduo, difícil, e a atenção oferecida pelo curso ao aluno, de um modo geral, não é boa.

Muito esforço, muita dificuldade para ler os textos e problemas de acessibilidade.

Não senti apoio (com relação à minha deficiência), nem de coordenadores, nem de professores, ninguém foi falar comigo para saber como eu estava me saindo. Tive que buscar as soluções por mim mesmo para resolver os problemas enfrentados. Tive que brigar com a instituição para comprar equipamentos para meu desempenho acadêmico, para ter oportunidade igual aos demais alunos, era meu direito. Senti-me desamparada.

Fonte: A autora.

No Quadro 23, é apresentada uma evolução do sentimento de satisfação dos alunos da graduação e pós-graduação antes e depois de ingressar na instituição, em que se observa que os sentimentos prévios eram todos no nível da satisfação, passando aos poucos para a insatisfação. Embora essa situação possa ser vivenciada por todos os alunos que ingressam no ensino superior, as perguntas do questionário eram direcionadas especificamente para a situação de deficiência ou limitação.

Quadro 23 - Índice de Satisfação antes e depois de ingressar na instituição como aluno NÍVEL DE SATISFAÇÃO Alunos do Ensino Superior ANTES DEPOIS 1 2 3 4 5 6 7 1 2 3 4 5 6 7 1 2 3 4 5 6 7 8 9 10 11 12 13 14 15 16 Frequência 2 6 8 1 2 3 2 2 6

Legenda: Faixa deinsatisfação Neutro Faixa desatisfação

Fonte: A autora.

Pelo Quadro 23, observa-se que nove alunos mudaram sua resposta de mais positivo para mais negativo, quatro permaneceram no mesmo nível e três subiram seu conceito quanto ao seu nível de satisfação. As medianas dos itens 32 e 33 do questionário são apresentadas, também, no Gráfico 24. Calculando a mediana entre a pontuação obtida antes e depois, obtiveram-se 7 e 5,5, respectivamente. Considerando o que foi dito por Tough (1982 apud Chen, Hsiao, Lee, 2005), de que o nível de satisfação pode ser observado pela diferença entre a expectativa prévia e posterior, o resultado aponta para uma tendência à insatisfação, porém, ainda dentro da faixa de satisfação.

Gráfico 24 - Nível de Satisfação pelas expectativas dos participantes

Fonte: A autora.