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3. Caracterização do cuidado oferecido nos serviços de Atenção Primária e Especializada para gestantes de alto risco

3.4 Acesso a consultas, exames e medicamentos

A oferta de consultas, exames e medicamentos no SUS foi se consolidando ao longo de três décadas da implementação desta política pública de saúde 82,83. No

caso da atenção à saúde da gestante, nota-se gradativa ampliação do entendimento das necessidades de saúde e capacidade das secretarias de saúde de executarem recursos financeiros que traduzissem respostas às mesmas16.

Embora a população atendida exclusivamente pelo SUS corresponda a 80% da demanda do Sistema84, parte das pessoas que têm plano privado de saúde

também recorre à rede assistencial do SUS. Destaca-se que, nos últimos anos, há uma importante crise econômica no país, com elevada taxa de desemprego resultando em menor possibilidade de acesso e pagamento aos serviços privados85.

Segundo a Pesquisa Nacional de Saúde realizada em 2013, 17,5% das pessoas com plano privado afirmaram ter sido atendidas em serviços públicos de saúde82.

Neste inquérito, ao questionar as mulheres que referiram posse de planos privados de saúde sobre seu uso para atendimento de pré-natal, observou-se que em Porto Alegre e em Campinas cerca de 49% das gestantes os utilizaram. Já em Fortaleza e São Paulo, esse percentual foi maior, chegando a 72,3% e 66,7% respectivamente. Essa informação pode indicar maior dificuldade de acesso aos serviços públicos de atenção primária e especializados, sobretudo pelas gestantes de Fortaleza e São Paulo, gerando maior necessidade de uso de convênios privados (tabela 7).

Gestantes que pagaram em algum momento da gestação por consulta para atendimento de pré-natal, independentemente de ter ou não plano de saúde, foram menos frequentes em Campinas e São Paulo, com 8,6% e 10%, nessa ordem. Já em Fortaleza (21,2%) e em Porto Alegre (17,4%) foram verificadas as maiores proporções, o que pode indicar restrição no acesso das gestantes de risco aos serviços públicos de saúde (tabela 7).

A proporção de gestantes que recorreu a serviços privados para a realização de ultrassom ou outro exame foi muito maior do que aquela encontrada para a realização de consultas, atingindo 85,5% em Fortaleza, a maior proporção, seguida por Porto Alegre, com 65,5% de gestantes que pagaram por exames; Campinas com 42,2% e São Paulo com 58,4%, apresentam os menores percentuais (tabela 7). Essa situação, com grande de variação de amplitude entre as proporções, pode indicar a diversidade de organização e oferta de serviços em cada um desses municípios. Verificou-se que que a maioria das gestantes de Fortaleza, Porto Alegre e São Paulo precisa utilizar recursos próprios para conseguir realizar exames, sobretudo ultrassom (US) obstétrico.

Tabela 7.Acesso a consultas, exames e medicamentos no SUS, segundo as gestantes entrevistadas em Campinas, Fortaleza, Porto Alegre e São Paulo em 2016.

Campinas Fortaleza Porto Alegre São Paulo Usou plano privado para

consulta pré-natal (%) Sim Não 48,8 51,2 72,3 27,7 48,8 51,2 66,7 33,3

Pagou por consulta pré-natal (%) Sim Não 8,6 91,4 21,2 78,8 17,4 82,6 10,0 90,0

Pagou por ultrassonografia ou outro exame nesta gravidez (%)

Sim Não 42,2 57,8 85,5 14,5 65,5 34,5 58,4 41,6

Realizou no SUS todos os exames pedidos pela AE (%) Sim

Não

Retirou no posto de saúde os remédios utilizados durante a gestação (%) Sim, todos Sim, alguns Não, nenhum 94,8 5,2 69,7 24,6 5,7 60,1 39,9 27,9 39,0 33,1 94,2 5,8 51,9 22,0 26,1 80,2 19,8 60,0 27,7 12,3 Cabe ressaltar a utilização do US não só como uma indicação médica, mas também como um bem de consumo a ser adquirido por outras conveniências, tomando o exame como produtor de verdades e considerando o prazer de visualização do feto86.

Chazan86 enfatiza que a utilização da imagem e sua interpretação trazem

‘verdades médicas’, conferindo maior autoridade ao obstetra. Aponta, ainda, a espetacularização da US, que torna o exame um momento de satisfação da família em ver o feto, com destaque para a descoberta do sexo do mesmo.

Destaca-se que a inclusão da oferta do exame de US na APS de algumas cidades não requereria grandes investimentos, uma vez se trata de equipamentos portáteis, já há médicos nos serviços para realização do mesmo, e a população teria acesso facilitado dentro de seu território de residência.

Com relação ao acesso a medicamentos, deve-se considerar o processo de consolidação da assistência farmacêutica no SUS que, em 1998, aprovou a Política Nacional de Medicamentos e, em 2004, a Política Nacional de Assistência Farmacêutica. A trajetória dos Medicamentos Essenciais (ME) no Brasil veio ao encontro da diretriz da integralidade da atenção, com a adoção e revisão permanente da Relação Nacional de Medicamentos Essenciais (RENAME)87.

O conceito de ME institucionalizou-se nos estados e municípios considerando as necessidades sanitárias, e adaptados às necessidades locais pela implementação das Relações Municipais e Estaduais de Medicamentos Essenciais. A construção da integralidade passava pela efetivação de um sistema hierarquizado, no qual as escolhas locais e estaduais supririam, de forma complementar, as necessidades orientadas pela Rename87. Nesse sentido, os municípios passaram a

ter diferentes relações de medicamentos em suas redes 88, 89,90,91.

De acordo com Bermudez87, portarias que atrelavam o financiamento do

medicamento à sua presença na RENAME fragilizaram o processo que articulava listas locais e nacionais, tornando a provisão dos medicamentos no SUS mais fragmentada e contribuindo para agravar diferenças regionais ao acesso de medicamentos.

Neste inquérito, quando questionadas sobre a obtenção de medicamentos, prescritos durante o pré-natal, no posto de saúde, verificou-se maior acesso para gestantes em Campinas, entre as cidades estudadas, já que quase 70% das gestantes referiram conseguir todos os medicamentos no posto de saúde, situação

inversa à verificada em Fortaleza, com pouco mais de 28% das gestantes, distanciando-se muito da realidade das outras cidades. Em São Paulo, 60%, e em Porto Alegre aproximadamente 52% das gestantes retiram todos os medicamentos na APS.

Somando-se as gestantes que conseguiram alguns medicamentos no SUS àquelas que obtiveram todos, os percentuais observados foram de 94,3% em Campinas, 87,7% em São Paulo, 73,9% em Porto Alegre e 66,9% em Fortaleza. Nota- se que uma parte importante de gestantes não conseguiu nenhum medicamento no SUS, sendo a situação mais crítica em Fortaleza, onde cerca de 33% das gestantes não teve acesso aos medicamentos e, em Porto Alegre, mais de 26% delas. São Paulo e Campinas têm garantido de forma mais efetiva ao acesso a medicamentos para as gestantes (tabela 7).

Verificou-se, portanto, uma restrição às ofertas do SUS principalmente em Fortaleza, onde o maior percentual de gestantes precisou utilizar plano privado de saúde para realizar consulta de pré-natal e, também, onde o maior percentual de mulheres pagou por consultas e exames. Além disso, a cidade foi a que apresentou o menor percentual de gestantes que conseguiu realizar os exames solicitados pela Atenção Especializada e retirar, no SUS, todos os medicamentos prescritos durante o pré-natal.

Campinas, Porto Alegre e São Paulo apresentaram resultados mais semelhantes no que diz respeito ao acesso a consultas e exames, contudo, chamou a atenção o grande percentual de gestantes em São Paulo utilizando planos de saúde para realizar consultas de pré-natal. Também, destacou-se a situação de Porto Alegre no que diz respeito a fazer pagamento para estas consultas e, ainda, o acesso a medicamentos mostrou-se mais assegurado em Campinas e São Paulo.

É importante destacar que o município com piores condições sociodemográficas, Fortaleza, foi o que exigiu da sua população, mais pobre, maior dispêndio de recursos próprios para assegurar acesso a exames, consultas e medicamentos, que deveriam efetivamente estar disponíveis pelo SUS.