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3 O CURSO SUPERIOR DE TECNOLOGIA EM GESTÃO DE SAÚDE: UMA ANÁLISE

3.2 Acesso, Permanência e Conclusão dos Estudos

Os desafios impostos à Educação, principalmente, a partir da década de 1990, com a globalização das economias e a consequente reestruturação do sistema produtivo, aliado ao número expressivo de jovens que concluíam o ensino médio naquele momento, exigiu a expansão do ensino superior. Havendo assim, a necessidade de ampliação das vagas neste nível de ensino, que pudesse dar conta de uma formação mais “complexa” de pessoas para lidarem com as novas demandas do mercado, principalmente, no que concerne ao manuseio das novas tecnologias.

No entanto, a oferta da Educação Superior Pública não tem sido favorável às camadas menos favorecidas da sociedade, que não têm formação necessária, em sua maioria, para ocuparem as vagas nas universidades públicas, e isso decorre, de uma série de situações que envolvem fatores econômicos, sociais, culturais e políticos existentes, levando a desigualdades gritantes em nossa sociedade regional.

a) Projeto Pedagógico

O Projeto Pedagógico do Curso Superior de Tecnologia em Gestão de Saúde estabelece neste indicador, que o acesso ao Curso,

Será garantido através de concurso vestibular, realizado anualmente, aberto aos egressos do ensino médio, ensino técnico e superior de acordo com a legislação em vigor e o que determina a organização didática dos Cursos Superiores de Tecnologia, a ser publicado através dos meios de comunicação. (...) Adquiridas as competências gerais e específicas de todos os semestres do curso o aluno receberá o Diploma de Tecnólogo em Saúde Pública. (IFPA, 2004, p.16).

O Projeto Pedagógico do Curso nos revela o cumprimento do formalismo legal previsto para o funcionamento do Curso, conforme o que estabelecem as diretrizes curriculares nacionais: “o acesso aos mesmos se fará através de processo seletivo semelhante aos dos demais cursos de graduação” (CNE, 2002, p.3).

Esta formalização do acesso e permanência nos Cursos Superiores de Tecnologia tem seu aparato legal fundamentado na Constituição Federal de 1988 (Art. 206, Inciso I) e na Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional, Lei nº. 9394/96 (Art. 3º, Inciso I),

que pressupõe “igualdade de condições para acesso e permanência na escola”.

Os documentos oficiais mostram a necessidade de uma preocupação maior com o acesso e com a permanência, de forma ampla, aos Cursos Superiores de Tecnologia. Porém, percebemos, que a questão do acesso ao Curso Superior de Gestão em Saúde configura-se pelo ingresso dos alunos via processo seletivo ofertado à sociedade anualmente, não havendo preocupação específica em relação a dois fatores: à permanência e à conclusão dos estudos - salvo pelo cumprimento, por parte dos alunos, dos créditos obtidos nas disciplinas ofertadas.

b) Os Sujeitos da Pesquisa

A fala dos entrevistados em pouco revela conhecimento sobre os fatores acima mencionados (isto é, a permanência e a conclusão do Curso), uma vez que não existem ações diferenciadas e divulgadas envolvendo a participação da coletividade que pressuponham tais fatores, a não ser pelo cumprimento dos créditos, como dito anteriormente. Assim,

Falta o indispensável ao Curso que é a divulgação por este IFPA, logo a procura não é grande para que se possa discutir qualquer aspecto, inclusive o acesso democrático ao Curso. Sem uma adequada divulgação, fica inviável buscarmos apresentar ações que motivem o acesso e permanência dos alunos no Curso. (CGS)

A fala da Coordenação do Curso em pouco trata sobre a permanência e a conclusão do Curso, indicando especificamente para a falta de divulgação do mesmo como sendo a principal causa da falta de procura pelo Curso.

Segundo um dos docentes entrevistados,

A única forma de acesso ao Curso é o vestibular e o vestibulinho. Não considero isto “acesso democrático”. (DGS1)

Isso acaba por revelar uma clareza maior em relação ao que venha a ser acesso democrático à Educação Superior, quando um docente menciona que não há acesso democrático na simples oferta de vagas pelos processos seletivos: vestibular e vestibulinho, uma vez que, a possibilidade de ingresso não está diretamente ligada, ou é consequência imediata destes processos seletivos.

Para os demais docentes entrevistados, existe outra visão acerca dos processos seletivos que ofertam vagas para o ingresso no Curso estudado:

Penso que existe acesso democrático, pois, adota o processo seletivo que é direcionado pela Rede Federal e a instituição trabalha com as cotas sociais. (DGS2).

Considero que ocorra um processo democrático, pois, para cursar qualquer Curso, os métodos utilizados são sempre o processo de vestibular, onde será realizada a seletividade democrática, obedecendo às normas do processo. A lógica não é selecionar os melhores alunos, mas, sim, criar condições para que cada aluno siga sua vida escolar até onde possa ir, dando o melhor dele. A moda de processos seletivos, que privilegia alguns, se acentua no Ensino Superior. (DGS3).

Para estes docentes, o acesso via processo seletivo ocorre forma democrática. Contudo, essa concepçãonão envolve definições sobre a permanência e a conclusão do Curso, pois, não são divulgadas ações efetivas, que possam evidenciar a participação coletiva e engajada da comunidade envolvida na escola, no sentido de dialogar sobre formação dos alunos, principalmente, no que se refere à sua permanência e conclusão de seus estudos no Curso ao qual está inserido.

De acordo com os alunos entrevistados sobre este indicador de qualidade, os mesmos apontam que,

Quando ingressei no Curso, não sabia absolutamente nada acerca do mesmo. Fiz a prova somente por fazer. (AGS1).

Quando ingressei no Curso, tinha apenas as informações disponíveis no Site da Instituição. Porém, não tinha noção da abrangência do Curso, bem como, de seus objetivos específicos. (AGS2).

Não havia tanta divulgação dos Cursos Superiores do IFPA. Adquiri informação no site da Instituição que descreve a ementa do Curso. (AGS3).

Não tinha informações. Mas, tinha uma vaga idéia que era relacionada ao gerenciamento e com trabalho na área de saúde. Achei que iria me ajudar no lado profissional. (AGS4).

Não. Apenas escolhi este Curso por achar que, de alguma forma, haveria alguma ligação com a área de saúde. Não pensei em nenhum momento em gestão. (AGS5).

Suas falas indicam apenas para a questão do acesso e das informações sobre o funcionamento do referido Curso. Contudo, os entrevistados demonstram não ter dados suficientes sobre a questão da permanência e/ou da conclusão de seus estudos. Eles apenas demonstram algum conhecimento sobre os conteúdos a serem trabalhados no decorrer do Curso, mediante informações obtidas por terceiros ou pelo site da Instituição.

Entretanto, para que seja possível a efetivação da qualidade social na Educação, vários autores, dentre eles ZAGO (2006), que discutem este indicador, sinalizando para a prática democrática como fundamental para a obtenção desta qualidade. Para este autor, é a partir da concretização de ações que viabilizem a participação da coletividade no cotidiano escolar, que poderemos vislumbrar que a Instituição de Ensino, sob análise, estará sendo direcionada a ofertar uma Educação que pressuponha qualidade para todos que buscam essa formação, com acesso, permanência e conclusão de forma democrática.

Neste contexto, o IFPA assinala como função precípua, melhorar a qualidade técnica educacional e renovar a concepção da Educação Profissional face aos desafios do mundo moderno, que está a exigir a elevação do nível de escolaridade e dos padrões de qualificação profissional da juventude e de trabalhadores brasileiros.

Essa melhoria inclui ações que visem à permanência dos estudos por parte dos alunos que estão no Curso estudado, e que podem ser efetivadas pelos estágios curriculares e extracurriculares, visitas e eventos que proporcionam aos alunos, a vivência da prática profissional, incentivando-os, assim, à conclusão do Curso. Segundo Dourado, Oliveira & Santos (2007, p. 34), “a satisfação e o engajamento ativo do aluno no processo de aprendizagem é fator de fundamental importância na permanência e no desempenho escolar”.

Contudo, é visível que a simples oferta, mesmo que, com livre acesso via processo seletivo, não garante que os estudantes das camadas menos favorecidas economicamente da sociedade, ingressem nos referidos cursos, já que a concorrência é desigual com outros alunos oriundos de bons cursos preparatórios (particulares), que tiveram uma melhor preparação para prestarem os exames de admissão no Ensino Superior (vestibular), já que as escolas particulares tem se especializado em preparar para o ingresso no Ensino Superior, sem uma preocupação maior com a educação integral de seus alunos, mas, que os deixa em melhores condições de concorrência (em conhecimentos de base geral).

Nem tampouco, o simples ingresso, superadas as disparidades da concorrência, dá condições de permanência e conclusão dos estudos, sem o devido apoio aos estudantes para o desenvolvimento de seus estudos e o alcance do perfil profissional desejado.

Nesse contexto, e como já fora dito anteriormente, o Projeto Pedagógico ao tratar do acesso, da permanência e da conclusão dos estudos, revela-nos um cumprimento formal, de acordo com as diretrizes curriculares nacionais para esta modalidade de ensino, sem maiores preocupações com a formação integral de seus alunos.

Já a fala dos entrevistados, revela-nos, novamente, pouco conhecimento sobre o acesso, a permanência e a conclusão do Curso, principalmente, quando estes devem ser traduzidos em ações e práticas desenvolvidas democraticamente. Isto porque não existem ações que pressuponham este indicador, salvo o previsto para o processo seletivo vestibular e para o cumprimento dos créditos no desenvolvimento do Curso.