Arquivamento de “autos de resistência” como hipótese de acionamento da Corte Interamericana de Direitos Humanos
4. Acionamento da Corte Interamericana de Direitos Humanos
A Anistia Internacional destaca em seu relatório10 que o Brasil, signatário do Pacto Internacional dos Direitos Civis
e Políticos e da Convenção Americana sobre Direitos Humanos, tratados que estabelecem a obrigação estatal de prevenir, proteger, respeitar e garantir o direito à vida, assim como tendo reconhecido a competência jurisdicional da Corte Interamericana de Direitos Humanos em 1998, deve garantir que as autoridades responsáveis pelo cumprimento
8 Esse projeto de lei ainda não foi apreciado pelo plenário da Câmara. Em consulta realizada ao sítio da Câmara dos Deputados em 27.01.2016,
verifica-se que o último andamento no trâmite deste PL data de 11.05.2015: Apresentação do Requerimento de Inclusão na Ordem do Dia n. 1795/2015, pelo Deputado Irmão Lazaro (PSC-BA), que: “Requer a inclusão na Ordem do Dia do Plenário, do Projeto de Lei 4471 de 2012 que altera os arts. 161, 162, 164, 165, 169 e 292 do Decreto-Lei nº 3.689, de 3 de outubro de 1941 – Código de Processo Penal”.
9 Disponível em: <http://www.sdh.gov.br/sobre/participacao-social/cddph/resolucoes/2012/resolucao-08-auto-de-resistencia>. Acesso em: 26
jan. 2016.
10 anistia internacional. Você matou meu filho! – homicídios cometidos pela Polícia Militar na cidade do Rio de Janeiro. Rio de Janeiro: Anistia
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da lei façam uso da força somente quando não houver outros meios hábeis para se atingir o objetivo legítimo. Além disso, o nível da força aplicada deve ser proporcional, sendo o uso de armas de fogo o último recurso, quando estritamente necessário para autodefesa ou defesa de terceiros contra ameaças de morte ou lesão grave.
“A força letal é permitida apenas como último recurso, quando não há outros meios disponíveis para atingir o objetivo – ou seja, evitar perda de vidas humanas. O uso de força letal que não alcançar este limite de perigo deve ser considerado desproporcional e uma privação arbitrária da vida, em caso de morte” (aniStia internacional, 2015, p. 42).
Também foi apontado pela Anistia Internacional, no mesmo relatório, que a própria Comissão Interamericana de Direitos Humanos entende que as mortes derivadas de execuções extrajudiciais, praticadas pelo Estado por meio de seus agentes, caracterizam uma privação deliberada e ilegal de vidas, sendo ações ilícitas cometidas por agentes que estão investidos do dever de justamente proteger e garantir a vida e a segurança dos cidadãos, o que também foi destacado por Paiva e Heemann (2015):
“Ocorre que, conforme já assinalou a Comissão Interamericana de Direitos Humanos, tal prática vai de encontro ao arcabouço normativo da proteção internacional dos direitos humanos, porque, muitas vezes, impossibilita a responsabilidade por crimes perpetrados por agentes estatais. Outrossim, a prática dos ‘autos de resistência’ mascara dados estatísticos sobre a criminalidade brasileira, além de deixar os familiares das vítimas sem qualquer resposta estatal sobre o que realmente ocorreu em determinado fato e quem foram os responsáveis pela eventual prática criminosa” (paiva; heeMann, 2015, p. 274).
A internacionalização da responsabilização do Estado no sistema interamericano de proteção de direitos humanos se apresenta como uma tentativa de solução do problema da violência policial, especialmente no que diz respeito ao arquivamento de inquéritos relativos a mortes decorrentes de ações policiais, já que pelos mecanismos internos nunca se consegue responsabilizar o Estado.
O sistema interamericano de proteção aos direitos humanos é composto pela Comissão Interamericana de Direitos Humanos e pela Corte Interamericana de Direitos Humanos. À Comissão cumpre a função de promover os direitos humanos, coletar informações por meio de relatórios enviados pelos Estados-membros e formular recomendações de medidas a serem adotadas pelos Estados visando à proteção de direitos.
Ainda, também é papel da Comissão receber e processar denúncias de violações de direitos humanos, as quais podem ser formuladas por qualquer pessoa, grupo de pessoas ou entidade não governamental legalmente reconhecida em um ou mais Estados-membros. A tramitação das denúncias de violações de direitos humanos na Comissão encontra regulamentação na Convenção Americana de Direitos Humanos, e funciona conforme o explicado por Carlos Weiss: “A tramitação da denúncia obedece à análise de suas condições de admissibilidade, a saber: prévio esgotamento dos recursos legais domésticos e observância do prazo prescricional de seis meses (a contar da data em que o denunciante foi informado da decisão final sobre seu caso, no âmbito de seu país). Além disso, é de se verificar se a questão não está pendente de solução em outra instância internacional” (weiSS, 2014, p. 168).
Assim, para que uma denúncia seja recebida no sistema interamericano de proteção, é necessário que ocorram três condições de admissibilidade: esgotamento dos recursos legais internos, ausência de litispendência internacional e tempestividade, respeitando o prazo prescricional de seis meses contados a partir da decisão final no sistema interno.
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Para o propósito deste artigo, cumpre salientar que a Corte Interamericana traz exceções à regra da necessidade de esgotamento dos recursos internos para que se possa postular que se encontram no art. 46 da Convenção Americana de Direitos Humanos: não se exigirá o esgotamento quando não houver o devido processo legal para a proteção de direitos, quando não se houver permitido à vítima o acesso aos recursos da jurisdição interna ou houver ela sido impedida de esgotá-los, e quando houver demora injustificada na apuração da violação.
Uma vez aceita a denúncia, a Comissão Interamericana notifica o Estado a responder às acusações, buscando uma solução consensual. Não alcançada, a Comissão formula recomendações ao Estado e, se ele ficar inerte, deixando de cumprir as recomendações por mais de 90 dias, a Comissão torna pública a denúncia na Assembleia Geral da OEA, ou encaminha o caso para a Corte Interamericana para conversão em caso contencioso. Nesse caso, a Comissão atua na Corte Interamericana como uma espécie de Ministério Público, buscando a condenação do Estado.
A Corte Interamericana, em sua competência contenciosa (pois, além desta, também possui a competência consultiva), trabalha com casos que podem ser iniciados tanto pelos Estados quanto pela Comissão. Apesar de estes serem os únicos legitimados a iniciarem um processo na Corte, a partir de 2009 o regulamento da Corte passou a admitir a participação das supostas vítimas ou seus representantes, depois da notificação de apresentação do caso pelos legitimados, podendo elas apresentar de forma autônoma seu escrito de petições, argumentos e provas, para continuar atuando dessa forma durante todo o processo. Ainda, destaca Carlos Weiss (2014): “em caso de supostas vítimas sem representação legal devidamente credenciada, o tribunal poderá designar de ofício um Defensor Interamericano que as represente durante a tramitação do caso”.
Cabe lembrar que somente poderão ser julgados os Estados que expressamente tiverem reconhecido a jurisdição obrigatória da Corte,11 da mesma forma como somente esses Estados poderão oferecer denúncias de violações à Corte,
que pode se pronunciar sobre: exceções preliminares, mérito e supervisão da execução de eventual condenação. Ressalte-se que, em casos de gravidade e urgência, a Corte Interamericana pode emitir medidas provisórias (art. 63 da Convenção Americana de Direitos Humanos), determinando a imediata tomada de providências por um Estado, como a de dar proteção efetiva a uma pessoa. Esse tipo de medida pode ser tomado em casos já submetidos à Corte, ou pedido pela Comissão em casos ainda não conhecidos pela Corte. Vale ressaltar também que, em havendo sentença terminativa da Corte, determinando indenização compensatória, ela poderá ser executada, contra o Estado, por processo interno no país respectivo, conforme dispõe o art. 68 da Convenção Americana.
O problema que se traz neste artigo se encaixa nas hipóteses de exceção à regra do esgotamento dos recursos internos, sendo passível o Estado brasileiro de responsabilização internacional por violações resultantes da própria atuação estatal, quando extrapola os limites de seu direito punitivo e ignora o devido processo legal, além de direitos fundamentais das vítimas e seus familiares.
O arquivamento de inquéritos em casos de homicídios cometidos por policiais, que, conforme demonstrado, carecem de devido processo legal, vitimiza os policiais, criminaliza a vítima assassinada e nega o direito à verdade dos familiares da vítima, configura claros impeditivos para que o Estado brasileiro alegue que não houve esgotamento dos recursos
11 O Brasil reconheceu a jurisdição obrigatória da Corte Interamericana de Direitos Humanos no ano de 1998, por meio do Decreto Legislativo
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internos. Restam cumpridos, portanto, os requisitos da admissibilidade de uma denúncia de violação aos Direitos Humanos por arquivamento de inquéritos policiais nos chamados “autos de resistência”.
Cabe ressaltar que, desde que se submeteu à jurisdição da Corte Interamericana, o Brasil já foi parte em 7 casos contenciosos, tendo sido condenado em 5 deles:12 em 2006, nos casos Ximenes Lopes vs. Brasil13 e Nogueira de
Carvalho e outros vs. Brasil;14 em 2009, nos caso Escher e outros vs. Brasil15 e Garibaldi vs. Brasil;16 e em 2012, no caso
Gomes Lund e outros vs. Brasil.17 Dos sete casos, dois ainda não foram julgados pela Corte Interamericana: o caso
Trabalhadores da Fazenda Brasil Verde vs. Brasil18 e o caso Cosme Rosa Genoveva e outros vs. Brasil (caso “Favela
Nova Brasília”).
Trata-se o último processo do primeiro caso brasileiro, na Corte Interamericana, envolvendo o tema da impunidade em caso de violência policial. O caso Cosme Rosa Genoveva e outros vs. Brasil trata de crime ocorrido em 1995, quando agentes da polícia militar do Rio de Janeiro, em operação na Favela Nova Brasília, situada no Complexo do Alemão, foram responsáveis por 26 execuções extrajudiciais, apuradas como “autos de resistência” à prisão. No âmbito interno, os crimes permaneceram impunes e prescreveram. Levado à Comissão, esta entendeu que houve uso excessivo de força por parte dos policiais, e, por não ter o Brasil cumprido com as suas recomendações, o caso foi submetido à Corte em maio de 2015.
“A CIDH recomendou ao Brasil a extinção imediata da prática de registrar as mortes cometidas pelos agentes policiais como ‘resistência à prisão’. Além de recomendar ao Estado brasileiro que institua um sistema de controle interno e externo e de prestação de contas para tornar mais efetivo o dever de investigar, também foi recomendado que o Brasil treine suas forças policiais para que estas saibam lidar com os setores mais vulneráveis da sociedade, buscando assim superar o estigma de que todas as pessoas de baixa renda são criminosas em potencial” (paiva; heeMann, 2015,
p. 271).
Para Paiva e Heemann (2015), o Estado brasileiro certamente irá alegar em sua defesa, no caso Favela Nova Brasília, a prescrição dos fatos enunciados pela denúncia realizada pela Comissão. No entanto, ele ressalta um precedente da
12 Dados retirados do livro: paiva, Caio; heeMann, Thimotie Aragon. Jurisprudência internacional de direitos humanos. Manaus: Dizer o Direito, 2015. 13 Esse caso consistiu na primeira condenação brasileira na jurisdição da Corte Interamericana, e envolveu violações de Direitos Humanos de
pessoa com deficiência mental.
14 Caso envolvendo violações contra defensores de Direitos Humanos, cuja sentença fez com que o Brasil, dentre outras medidas, criasse a
Política Nacional de Proteção aos Defensores dos Direitos Humanos.
15 Caso que tratou de interceptação telefônica solicitada pela polícia militar do Paraná, de maneira ilegal, violando direito à liberdade de
associação e privacidade de membros de movimentos sociais.
16 Caso em que ocorreu morte derivada de ação de milícias, em cuja sentença a Corte recomendou ao Brasil que melhorasse seu sistema de
investigação, bem como o sistema de prazos para conclusão de inquéritos policiais.
17 Caso “Guerrilha do Araguaia”, que gerou a responsabilidade do Estado brasileiro pela detenção arbitrária, tortura e desaparecimento forçado
de aproximadamente 70 pessoas na região do Araguaia, a maioria integrante do movimento de resistência à ditadura militar, movimento denominado “Guerrilha do Araguaia”. Dentre outras medidas, a Corte proferiu um mandado internacional implícito de criminalização contra o Brasil, que consiste na tipificação do delito de desaparecimento forçado, bem como determinou em sua sentença que os supostos responsáveis militares fossem julgados na justiça comum e não em jurisdição militar. Em consequência da condenação, o Brasil instituiu a Comissão da Verdade
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Corte, ocorrido no caso Bulacio vs. Argentina, em que houve superação da prescrição e da coisa julgada interna para que os agentes estatais fossem devidamente responsabilizados.
Indo além dos casos contenciosos da Corte Interamericana envolvendo o Brasil, nota-se que o país já foi denunciado outras vezes perante a Comissão sem, contudo, que o caso se tornasse contencioso na Corte. Nessas denúncias, houve solução amistosa ou o país pôde cumprir com as recomendações da Comissão, encerrando o caso. Dentre os casos envolvendo o Brasil, destaca-se o caso Jailton Neri da Fonseca vs. Brasil, por envolver violência policial.
No caso apontado, o menino Jailton de 13 anos foi executado por policiais militares no Rio de Janeiro em 1992 em incursão na favela Ramos. Foi aberto inquérito policial para investigação de 4 policiais envolvidos, o qual se encerrou com declaração de absolvição pelo Conselho Permanente da Justiça Militar por falta de provas. A Comissão Interamericana determinou, no caso, que o Estado realizasse a reparação dos familiares das vítimas e investigasse o ocorrido de maneira eficaz em órgãos que não fossem militares. Também recomendou que se modificassem os dispositivos do Código Penal e de Processo Penal Militar, impedindo a possibilidade de a própria polícia militar investigar violações de Direitos Humanos cometidas por policiais militares, expediente que, no entendimento da Comissão, deve ser atribuído à Polícia Civil.