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O que falam as ruas feito Pólis e/ou massas?

No documento Edição nº 22 maio/agosto de 2016 (páginas 31-33)

A saga dos scripts gastos: as manifestações de rua no Brasil entre a repressão separatista e o pacto includente da totalidade

3. O que falam as ruas feito Pólis e/ou massas?

Iniciemos, pois, pela voz das ruas, pela voz dos poderes sociais, para depois escutar a voz do poder governamental e midiático, que, ora com surdo-mudez, ora com reticências, ora com truculência, está a (re)agir.

O que falam as ruas, que a Presidente Dilma Roussef finalmente disse estar a escutar?

As ruas falam vozes plurais, uma fala que, diz-se, a princípio tinha “ordem”, depois ficou “desordenada”. Quem fala?

Movimentos sociais, de cunho anarquista e autonomista, que vão do MPL a outros coletivos e a face extrema dos “encapuzados” (os “black bloc”), classes sociais (sobretudo a visibilidade da classe média no brado anticorrupção e anticriminalidade), famílias, homens, mulheres, jovens, adolescentes, crianças e velhos da classe trabalhadora.

O quê? Qual o objeto das manifestações, protestos, resistências? – Contra o aumento da tarifa do transporte público;

– Contra a violência policial e a violação de direitos humanos;

– Contra o orçamento destinado à Copa do Mundo, notadamente à construção de estádios, em meio à Copa das Confederações, um produto brasileiro globalizado;

SUMÁRIO APRESENTAÇÃO CONTO EXPEDIENTE ARTIGOS 02 01 04 ENTREVISTA 02 01 INFÂNCIA 01 DIREITOS HUMANOS 02 01 ESCOLAS PENAIS 03

– Contra a ausência de direitos sociais, educação, saúde, segurança; – Contra a falta de respeito às regras do jogo, contra tudo, contra nada; – Contra os impostos;

– Contra a corrupção, o sistema de partidos políticos, a política institucionalizada; – Contra o capitalismo.

Onde?

Em muitos lugares, estados e regiões do Brasil, simultaneamente. A ordem dos atores, atos e demandas pareceria ser:

– Quem? Governo de São Paulo decreta aumento.

– Quem? Movimento Passe Livre luta pela redução das tarifas do transporte coletivo.

– Quem? Polícia nas ruas, repressão policial – letalidade, feridos e mortos, nunca se sabe ao certo quantos, nunca se sabe ao certo como.

- Quem? ... e assim se expande o processo de mobilização.

A tentativa de captura das ruas aponta, então, para uma complexidade de atores, demandas e significados em que se deve captar não apenas um campo plural, mas internamente complexo e contraditório, inclusive na sua relação com o Estado.

De fato, os problemas para o exercício do poder político punitivo-policial-militar, nas esferas municipal, estadual e federal, que então sucedem, não são poucos, porque o que ocorre é uma complexificação e parcial invisibilização do

objeto do controle social e penal, seja pela dificuldade de ler o contexto, seja porque, estando a se movimentar dentro da leitura moralista bem (manifestações pacíficas) x mal (baderneiros), a base de legitimação construída, naquele momento, é a (difusa e precária) aliança com o bem, com a qual o poder volta a religar consigo o povo dissidente civilizado, eis que reverbera o eco de seu guardião protetor e contra cuja polarização, mesmo que criticado, não se legitima a repressão(?)

Um dos primeiros scripts gastos recusado, na tomada das ruas feito pólis e/ou massas, é o de repressão, força, truculência, essa coisa que se possa adjetivar com o signo que for, que faz também suas vítimas invertidas os homens- tanques, os policiais da comissão de

frente que vão às ruas, enquanto o soberano emite ordens dos gabinetes murados.

A par desse segue-se a recusa de outros tantos scripts gastos, como a forma global de exercício e partilha do poder (econômico, político, cultural, sexual, étnico e racial, geracional) na sociedade brasileira; e ele é a base sobre a qual o tinteiro umedece a pena com que as ruas estão a escrever todas as outras, múltiplas recusas; ainda que replicando

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e fortalecendo os mesmos scripts gastos, mostrando que o déficit democrático não poupou nem o Estado nem a sociedade.

O Movimento Passe Livre, por exemplo, demanda o passe livre, e, para isso, o aumento de impostos, sobretudo dos mais ricos. Demanda também, se for necessário, a estatização do transporte público; em idêntica direção as demandas pela concretização de direitos sociais básicos, como saúde, educação e segurança, por meio de políticas públicas eficazes. Em sentido inverso, uma “onda” central protagonizada pela classe média visibiliza uma crítica ao Estado centrada no quantum exorbitante dos impostos e, sobretudo, na corrupção; crítica que, não obstante a superficialidade, foi capaz de pautar imediata resposta simbólica do governo, a saber, o etiquetamento da corrupção como crime hediondo: eis a corrupção incorporada na mágica da “hediondez”, como se doravante a um passo do desaparecimento estivesse.

Na crítica ao Estado dos “manifestantes de esquerda”, eles aparecem,guardadas as devidas proporções, paradoxalmente próximos dos empresários da Fiesp, que também demandam menos Estado, apostando o mercado como o solucionador de todas as questões. O Estado (a política e os poderes oficiais, como governo e legislativo) aparece ora como o grande bandido (todos os nossos males vêm do Estado), o que é bastante funcional para isentar a própria sociedade, ora como o grande herói, no qual se deposita a potencialidade de reversão do campo criticado. Entretanto, a face mais enigmática das ruas, das bandeiras, palavras de ordem e atos parece ter ficado por conta daqueles jovens encapuzados de preto, dispostos a destruir o patrimônio de empresas privadas (como bancos e lojas) e a enfrentar a polícia com as próprias mãos: quem eram e o que queriam os logo nominados, pela mídia nacional, de “black blocs” e sobre os quais recaiu o etiquetamento mais radicalizado da “baderna”?

Escutemos a própria voz de um protagonista, de nome fictício Roberto, de 26 anos, e três “black blocs” na bagagem:3

o que nos motiva é a insatisfação com o sistema político e econômico. (...) Nossa sociedade vive permeada por símbolos. Participar de um Black Bloc é fazer uso deles para quebrar preconceitos, não só do alvo atacado, mas da ideia de vandalismo. (...) Não há violência. Há performance”.

As demandas contraditam, portanto, menos Estado (social, policial, penal, tributário...) x mais Estado, menos mercado x mais mercado, expondo os limites seculares do capitalismo e do Estado no processo de regulação social e as interfaces e conexões entre poder econômico, político e social.

No documento Edição nº 22 maio/agosto de 2016 (páginas 31-33)