• Nenhum resultado encontrado

ACOLHER, CUIDAR PARA PROMOVER APRENDIZAGENS

Esse texto é resultado de um esforço coletivo de resistir às tentativas de desmonte da escola, das estruturas que tentam desconsiderar as dimensões do humano, e apontar para um outro olhar – o das pessoas que precisam aprender sobre si, sobre o outro e sobre o mundo ao qual pertencem.

A pandemia da Covid (2020/21) escancarou o que muitos de nós já sabíamos, e muitos outros tentavam encobrir com peneiras de todos os tipos: não estamos no mesmo barco, vivemos diferenças impensáveis e, apesar de todas as dificuldades e críticas, a escola afirmou-se como um espaço de encontro para muitas crianças e jovens, mesmo se devemos repensar, com urgência, a qualidade desses encontros-desencontros.

A constatação do sofrimento e das perdas que a pandemia deflagrou, com o distanciamento físico, dentre tantas outras dores, e de que muitos alunos desligaram os elos que, tenuemente, ainda existiam entre eles e suas escolas. Feita a constatação, e sem o necessário cuidado e análise, fez-se do “acolhimento” a palavra mágica capaz de trazer de volta os alunos que se “evadiram”, abrir as portas da escola e dos corações dos estudantes e professores.

Bem, ninguém se evade de um bom lugar, onde se tem sentimento de pertença, em que se sente visto, ouvido, percebido e onde se aprende. Ouvi ao longo da pandemia muitos alunos que se referiam com saudades à escola, relembrando-a como um lugar de afeto, de conversa, de encontros ou de silêncios vazios, sem sentido, de distanciamento, de incompreensão: “Lá em casa não tenho lugar pra estudar, a vó cozinha a manhã toda e a tarde ela passa roupa, a mesa nunca está vazia e a coordenadora ainda disse pra mãe que me falta dedicação e boa vontade...”. Uma jovem de 14 anos relata: “Gosto muito da minha profe de Geografia, ela se importa com a gente, pergunta, olha. Bem legal ela. Sinto falta até dos brincos grandões que ela sempre usava”. Na mesma reunião, um jovem da mesma idade e ano escolar, lamentou: “Não posso mais ver meus amigos, nos intervalos nós sempre estávamos juntos, conversando. Agora é tudo bem mais difícil”.

95 Esses jovens voltarão à escola e serão recebidos ou acolhidos por seus professores? A escola irá considerar que tão importante quanto aprender a ler, a escrever é dividir experiências, emoções e histórias vividas? Que uma pessoa se motiva a escrever quando tem um leitor que se importa com o que foi escrito? E os alunos e alunas que não sabemos onde estão? Como acolhê-los(as)?

Eu acho que o acolhimento deve ser entendido como fazendo parte do plano de ensino. Sabemos que a escola tem de recomeçar de forma diferente, que o retorno tem de ser algo que atenda ao que é necessário acolher: as pessoas sofreram faltas, perdas, vazios, abandonos. Pensar uma escola que compreenda o acolhimento como um compromisso de produzir respostas adequadas e eficientes às necessidades dos aprendizes que nos procuram.

Destaco que é um compromisso e, por isso, afirmo que o acolhimento mora no mesmo lugar que o cuidado, brincam juntos, no mesmo quintal, pois entendo o cuidado como sendo uma atitude de ocupar-se, de zelo e desvelo, de envolvimento afetivo. Uma formação humanizadora passa pela relação que se estabelece através da possibilidade da escuta, da atenção, de comunicar, de expressar, por palavras e outras artes, suas histórias, e essas narrativas compõem o grupo e cada um que dele faz parte.

Responsabilizar-se pelo(a) aluno(a) que precisa aprender, cuidar para que encontre um clima e temperatura emocional favorável requer mais que intencionalidade, necessita de conhecimento e atitudes na mesma direção do que se teoriza. A psicogenética de Henri Wallon nos ensina que o clima afetivo em que uma criança se desenvolve vai formando sua personalidade, ao mesmo tempo que ela se conscientiza do outro como um importante interlocutor. O sujeito parte de movimentos impulsivos, que são pura manifestação da afetividade e vai amadurecendo para ações que estão sob o controle da inteligência, que é uma síntese desse todo indivisível e multifuncional que é o ser humano. É inevitável deduzir que a temperatura emocional em que uma criança se desenvolve dinamiza sua atividade cognitiva, pois a construção da inteligência está relacionada ao desenvolvimento da afetividade, que alicerçam o ser humano. Nesta perspectiva, não se pode imaginar nenhum processo de ensinar/aprender que não esteja

96 revestido de um clima afetivo emocional favorável à aventura, para muitos perigosa e desestabilizante.

Paulo Freire, nosso querido e grande mestre, nos ensinou a vivermos no diálogo, como instrumento social para mudarmos a nossa realidade, criando conteúdo e dando sentido à existência humana, evitando que nos tornemos “falsos seres para si”.

Para aprender o sujeito precisa mover-se em direção ao objeto a ser conhecido, encorajar-se a fazer essa travessia, que será mais fácil se a sala de aula estiver num clima afetivoemocional repleto de respeito, de olhares que fortalecem o sujeito.

Uma pessoa não aprende em qualquer lugar e com qualquer pessoa, e também, às vezes, aprende apesar das pessoas que estão com ela. As crenças na autoeficácia são importantes porque regulam o funcionamento cognitivo, motivacional, afetivo e a tomada de decisões, assim como o contrário, pois sentir-se desconsiderado afeta o modo como o sujeito age/interage diante das dificuldades, e igualmente na escolha de seus caminhos. Ou seja, daí a importância e o lugar do educador instrumentalizado para entender, acolher e cuidar de cada aluno(a), promovendo clima afetivoemocional para que a aprendizagem possa se realizar.

Espero que cada professor(a) possa dar um sentido próprio a esse pequeno texto, que ele ajude a formular em perguntas mobilizadoras ao estudo, à observação de si em processos de ensinar, ou seja, que promova aprendizagem e práticas educativas mais humanizantes.

Escrevemos todos nós, nesse e-book, para uma escola que precisa renascer. Quanta coisa sem sentido ainda é feita dentro dos muros das escolas...

Precisamos de uma escola que faça sentido às nossas crianças e jovens, assim como para os(as) professores(as). Um espaço em que as palavras, as narrativas denunciem um sentido, o conhecimento, que sejam a palavra sentida... e daí é só aceitar o convite e entrar!

Isabel Cristina Hierro Parolin

Psicopedagoga e pesquisadora do GAE-PUCPR

97

EDUCAÇÃO EM SAÚDE. DIÁLOGO POSSÍVEL E NECESSÁRIO

NOS MAIS DIVERSOS ESPAÇOS DE CUIDAR, CUIDANDO-SE,

Documentos relacionados