No contexto de celebração do centenário do nascimento de Paulo Freire, tratar da temática do amor parece-nos bastante pertinente já que, de um lado, o amor é o princípio e fundamento da existência (e da educação): No princípio era...
o Amor!. De outro, toda sua obra é profundamente “encharcada” de amorosidade.
Nesse texto, vamos nos aproximar, ainda que rapidamente, dessa complexa temática privilegiando um aspecto que é o reflexo da dimensão do amor em Freire para a Atividade Docente.
Um aspecto que marca toda a prática de Paulo Freire, desde Angicos, é o amor pelos esfarrapados, como expressa a dedicatória que faz na Pedagogia do Oprimido, ou, em outros termos, esse amor pelos oprimidos. Essa prática, essa compreensão, essa vivência vão caracterizar toda a sua obra.
Considerando que os esfarrapados constituem um grupo marcado pela exclusão, é previsível encontrar certas dificuldades na aprendizagem, que a formação pedagógica usual na academia não dá conta. Aliás, muito pelo contrário:
Freire costumava dizer que uma das piores coisas que a academia ensina ao futuro professor é detestar o cheiro do pobre. A partir disso, o que faz? Coerente com essa visão humanista, progressista, com essa opção de amor radical transformador, ao invés de ficar eternamente apontando os problemas, buscando
“culpados” ou justificativas para não fazer, vai construir alternativas. De um lado, sistematiza uma teoria do conhecimento (ver, por exemplo, o Capítulo III de sua obra Extensão ou Comunicação?, que é um verdadeiro tratado de Teoria Dialética do Conhecimento). Ao mesmo tempo, propõe um método de ensino, o Método Paulo Freire de Alfabetização, que se tornou clássico, sendo que, a rigor, não é só um método de alfabetização, mas um método de formação, de conscientização, de educação num sentido mais amplo.
Esse núcleo radical do trabalho de Paulo Freire se contrapõe fortemente, e é um elemento extremamente questionador a muitas práticas atuais na escola.
Antes de tudo, numa abordagem da situação do professor marcada pela amorosidade e pelo rigor, é preciso reconhecer que há, em muitos contextos, um quadro bastante delicado do magistério: fragilidade na formação, salários
32 aviltados, condições precárias de trabalho, desvalorização social, gestão nem sempre democrática, desorientação dos pais, transferência de responsabilidades, num quadro mais geral de desmonte social, crise de valoração, apelo consumista da mídia, quebra de limites comportamentais em função do consumo, crise de sentido, além da própria crise do papel da escola. Esta é uma cruel realidade que está perdurando há algumas décadas em nosso país. Ao mesmo tempo, entendemos que é preciso também aí um certo choque de realidade, para que o professor não caia nas armadilhas ideológicas ou no processo imaturo de colocar-se como “vítima”. Para não entrar no engodo deste infantilismo, é preciso lembrar que o professor é o adulto da relação. E, antes disso, há uma questão básica:
ninguém o obriga a ser professor! Trata-se de uma colocação muito dura, porém tem por objetivo remeter o educador ao seu papel transformador no contexto concreto que atua. O que o amor de Paulo Freire nos inspira é justamente isto:
diante da realidade que vivemos, diante dessa complexidade, que é o trabalho da escola hoje, qual vai ser a nossa postura? A grande questão é sempre esta: como saímos dessa dura situação?
Uma saída equivocada é, certamente, aquela em que os pequenos ficam se devorando, enquanto os poderosos “deitam e rolam”, o velho e atual dividir para governar. Na linguagem freireana, temos o oprimido, que hospeda em si o opressor (por ter sofrido a opressão por tanto tempo), oprimindo o oprimido, mantendo a situação de dominação sem que o dominador precise “mostrar sua cara”. Ficar numa linha pseudo-crítica de acusação de tudo e de todos, numa postura de exclusão e seleção, vai levar a quê?
Sim, há um desamor por parte de muitos em relação ao professor; mas não vai ser com desamor ao aluno que irá resolver esta situação. Pelo contrário, o inferno da sala de aula ficará ainda maior. Se está difícil ser professor, vamos discutir isto abertamente, e não descarregar, mais ou menos conscientemente, nossas angústias, frustrações, ressentimentos sobre os alunos. O caminho que Paulo Freire percorreu foi procurar alternativas, fundamentação epistemológica, um método de ensino (e de pesquisa), a criação de círculos de cultura, a organização política. Segundo Freire, o fato de o oprimido tomar consciência de sua situação, organizar-se e lutar contra a opressão é, inclusive, uma forma de
33 amor pelo opressor, pois significa negar as condições para que ele continue oprimindo, e assim poder libertar-se também.
Aqui emerge uma questão essencial que é a da identidade docente. A reflexão sobre o amor nos coloca diante de um apelo radical, de uma definição:
afinal de contas, o que é ser professor? O professor é aquele que transmite e verifica quem aprendeu ou não (a clássica denúncia que Freire faz da educação bancária: o professor faz o “depósito” e depois verifica “se o cheque tem fundo”) e, a partir disso, seleciona os que são “capazes”, os que “merecem”, “os que podem continuar”, “os que não podem continuar”? Ou professor é aquele que vai mediar a aprendizagem, o desenvolvimento humano, a alegria crítica (docta gaudium), que não sossega, pessoal e coletivamente, enquanto os alunos de fato não aprenderem? Esse é um ponto nuclear. E a posição de Paulo Freire é claríssima.
Para não ficar numa abordagem adocicada do amor, alienada e alienante, temos que tomar consciência: é preciso um amor radical, um amor crítico!
De um modo geral, o professor, a partir de uma formação, vai para a sala de aula; começa a desenvolver o trabalho, e dificuldades vão surgindo. Diante dessas dificuldades, qual vai ser a sua postura? Se está marcado pelo desafeto, pela indiferença ou pelo afeto superficial pode perfeitamente entrar na lógica do sistema, que é a da seleção, chegando à frase clássica, que sintetiza toda uma concepção de educação (e de sociedade): “Eu estou te reprovando, mas é para o teu bem! Um dia você vai me agradecer”... Queremos deixar claro que com a mesma ênfase que criticamos a reprovação criticamos também a aprovação.
Defendemos a qualificação, o ensino efetivo, a mediação (aprendizagem, desenvolvimento humano e alegria crítica).
O aluno, especialmente dos anos iniciais da escolarização, não vai, não deve ir, para a escola para ser classificado, e sim qualificado. Se o docente adota a postura seletiva, está participando da armadilha que a burguesia montou, no final do século XVIII, no começo do século XIX, quando ofereceu escola para o povo, porque a rigor ela ofereceu com uma mão e tirou com a outra: “A escola é para todos, porém, aprende quem pode, e nem todos podem”. O papel do professor passa a ser identificar quem pode e quem não pode. É muito forte em alguns professores, a ideia de que a escola vai desenvolver “a base que a família deu”.
34 Ora, se a família não deu, “Sinto muito, mas a escola nada pode fazer”. Essa é uma posição extremamente conservadora, embora comumente marcada por uma grande ingenuidade, por parte daqueles que assim pensam. Tal postura tem como consequência, justamente, manter o sistema da forma como está dado. Essa é, nitidamente, uma questão política, qual seja, a tomada de posição em relação aos coeficientes de poder presentes na Polis. É o amor ou desamor que se manifesta na política.
O pressuposto da escola democrática, que Paulo Freire leva às últimas consequências, é totalmente diferente: todo ser humano é capaz de aprender, se forem dadas as condições; e se não está sendo capaz tem de ser ajudado e não excluído. Para ter este olhar, esta acolhida, esta posição ativa, dialógica, problematizadora, mediadora, que se compromete com a superação das dificuldades de todos, e especialmente daqueles que mais precisam, é necessário esse amor radical. Por isso a questão do amor em Paulo Freire nos remete diretamente à definição da identidade docente: é possível ser professor sem um profundo amor pela humanidade? E para que isso não fique como uma questão genérica, para que esse amor não caia nas armadilhas ideológicas que estão colocadas, para que não seja equivocado, ainda que sem a menor consciência disso, inspirados por Freire avançamos no questionamento: é possível ser professor, no autêntico sentido, sem o amor pelos oprimidos, pelos esfarrapados?
Esfarrapado aqui não só no sentido material, mas também moral, afetivo e/ou cognitivo. Há esfarrapados também dentro de uma escola de classe alta. Trata-se de superar o amor ingênuo em direção a esse amor crítico, radical (radical é o que vai à raiz), que se revela no compromisso efetivo com a aprendizagem de cada um e de todos (“Ou você aprende, ou... você aprende!”), a partir de um projeto libertador.
É impossível ensinar sem esta coragem de querer bem, sem a valentia dos que insistem mil vezes antes de uma desistência. (...) É preciso ousar, no sentido pleno desta palavra, para falar em amor sem temer ser chamado de piegas, de meloso, de a-científico, senão anti-científico. É preciso ousar para dizer, cientificamente e não bla-bla-blantemente, que estudamos, aprendemos, ensinamos, conhecemos com o nosso corpo inteiro. Com os sentimentos, com as emoções, com os desejos, com os medos, com as
35 dúvidas, com a paixão e também com a razão crítica. Jamais com esta apenas. É preciso ousar para jamais dicotomizar o cognitivo do emocional.
É preciso ousar para ficar ou permanecer ensinando por longo tempo nas condições que conhecemos, mal pagos, desrespeitados e resistindo ao risco de cair vencidos pelo cinismo.” (Freire, Professora Sim, Tia Não ).
Um possível desdobramento desta compreensão do amor na sala de aula é aquela postura do professor que afirma “Nunca te vi, sempre te amei”, e propõe
“Nenhum a menos”, aproveitando os títulos de dois filmes. “Nunca te vi, sempre te amei”: eu não me fiz professor para ser professor de A ou de B, eu me fiz professor para ser professor de todos. Os gregos antigos tinham, pelo menos, três nomes para o amor: Eros, Philia e Ágape. Eros é o amor vida, disposição, energia, fluxo, movimento. Philia é o amor dos amigos, o amor dos irmãos. E Ágape é o amor maior, o amor gratuito, sem interesse, o amor compromisso. É desse amor Ágape que estamos falando quando dizemos “Nunca te vi, sempre te amei”. A escola é um instrumento da Res Pública, da Coisa Pública. Não temos o direito de fazer discriminação de alunos. Temos um projeto libertador, temos clareza do nosso papel enquanto professores. “Nenhum a menos”: no sentido do amor que se traduz em compromisso, em cuidado, de tal forma que não percamos nenhum dos que são nossos alunos na sala de aula; que cada um e todos alcancem a aprendizagem efetiva, o desenvolvimento humano pleno e a alegria crítica (docta gaudium). Paulo Freire tem clareza que o amor tem que ser construído, tem que ser cultivado, não é uma coisa espontânea: É impossível ensinar sem a capacidade forjada, inventada, bem cuidada de amar (Professora Sim, Tia Não).
Concluímos reproduzindo o manuscrito, datado como “Primavera 68”, de sua grande obra Pedagogia do Oprimido, em que, mais uma vez expressa sua profunda crença nos homens e no amor:
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“Se nada ficar destas páginas, algo, pelo menos, esperamos que permaneça:
nossa confiança no povo. Nossa fé nos homens, na criação de um novo mundo em que seja menos difícil amar”.
Celso dos S. Vasconcellos Ex-aluno de Paulo Freire
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