• Nenhum resultado encontrado

3.2 ENCOSTAS DA SERRA GERAL: ATORES SOCIAIS E UM

4.1.3 Acolhida, poder e o território

A Acolhida na Colônia tem o reconhecimento e a confiança de diversos atores sociais que atuam no território e fora dele. Esta condição pode ser referendada pelo acelerado ritmo de crescimento do agroturismo no estado de Santa Catarina. Além disso, o destaque proporcionado pela mídia (revistas, jornais, rádio e televisão) promove a divulgação da marca Acolhida na Colônia, garantindo-lhe visibilidade e reconhecimento nacional e regional.

A entidade atua como articuladora, intermediando a ação de diversos órgãos públicos na região (SANTUR, Secretaria de Estado do Turismo, Cultura e Esporte de Santa Catarina, Ministério do Turismo, Ministério do Desenvolvimento Agrário, dentre outros).

Um dos exemplos foi a criação de um edital específico para o turismo de base comunitária, reivindicação [...] da Acolhida na Colônia. (Entrevistado 8)

[...] a conquista do agricultor poder emitir uma nota de produtor rural para serviços de agroturismo. Não havia nenhuma perspectiva de isso acontecer no passado, o que é um empecilho muito grande, e isso claramente a gente viu a luta da Acolhida na Colônia. (Entrevistado 12). Contribui de forma expressiva para o aumento da organização dos agricultores através da preservação de duas diretrizes de atuação: a promoção do associativismo e o turismo solidário e comunitário. Desta forma, constitui-se num instrumento importante para a solução de problemas individuais e coletivos de seus associados e, indiretamente, de questões de interesse do próprio território.

Outra característica da Associação é a capacidade de proporcionar aos agricultores acesso a novas oportunidades de geração de renda, através da agregação de valor às atividades da agricultura familiar que podem vir a constituir-se em atrativo turístico. Desta forma, o papel estratégico da Acolhida na Colônia de contribuir para a permanência dos agricultores familiares no meio rural explicita-se pela constante preocupação com a adoção de atividades econômicas pioneiras.

Para além da questão econômica, cabe destacar que a vida associativa vem permitindo a abertura de novos horizontes políticos e sociais, com destaque para a questão ambiental. Dito de outra forma, os associados têm tido a possibilidade (e a capacidade) de estabelecer relações entre sua realidade, as causas e as consequências de sua postura diante da mesma. A vivência dos princípios apregoados pela Acolhida na Colônia tem provocado uma alteração da postura individual sobre, por exemplo, os impactos ambientais causados pelas atividades econômicas predominantes no município. Neste sentido, a prática da agricultura orgânica, a crítica ao desmatamento de áreas de preservação, a contrariedade com a expansão da monocultura do Pinus e do Eucalipto, em vários municípios do território, traduz-se como resultado da adesão destes agricultores aos princípios que norteiam o agroturismo e orientam a ação da entidade.

A mudança do comportamento individual e o aparecimento de iniciativas de cooperação e solidariedade podem ser atribuídos à implementação de diversas estratégias metodológicas, com destaque para as diversas atividades de capacitação dos associados. Cabe ressaltar as inúmeras iniciativas de intercâmbio entre pessoas, realizadas no âmbito dos limites da área geográfica de abrangência da Associação e, em diversos casos, na troca com pessoas de outras regiões do Brasil ou exterior. Estes contatos permitem o conhecimento de novas realidades e o reconhecimento dos limites e potenciais do próprio território.

A Acolhida é uma organização em construção. Neste sentido, apresenta uma série de fragilidades e desafios que devem ser vencidos, para que a capacidade de influenciar a construção do território torne-se inquestionável.

Nota-se a necessidade de aprimorar os mecanismos de participação dos associados na vida da organização. Existe uma disparidade em termos de intensidade e qualidade da participação e comprometimento com as atividades. Por um lado, pode-se identificar um grupo de associados que se faz presente no dia a dia da entidade. Este grupo, como regra geral, é representado por pessoas que foram pioneiras na organização, incluindo-se no grupo de fundadores e entre os primeiros a, efetivamente, praticarem o agroturismo. Da mesma forma, encontram-se associados que têm uma postura mais distante e passiva diante das questões relacionadas ao funcionamento e futuro da entidade. Este grupo poderia ser identificado com uma postura mais pragmática, em relação às possibilidades econômicas decorrentes dos vínculos com a Acolhida na Colônia.

O aumento do número de associados e da área de abrangência – acompanhado do aumento da visibilidade da Associação e do aumento do fluxo de turistas – faz crescer a importância da qualidade dos serviços prestados. Neste caso, o principal desafio é o cumprimento do Caderno de Normas da entidade.

O potencial do agroturismo como alternativa para o aumento da atratividade de regiões rurais vem sendo reconhecido de forma marcante por diversos setores, como a mídia, em geral, formuladores de políticas públicas, gestores públicos, agricultores e turistas. Isto tem como consequência o aumento do interesse de diversas pessoas que buscam alternativas de sobrevivência no meio rural. No entanto, verifica-se que este impulso inicial muitas vezes é contido pelas exigências feitas pela Acolhida na Colônia para que novos associados sejam admitidos na entidade. A Associação exige o respeito aos seus estatutos e o cumprimento das exigências apresentadas em seu Caderno de Normas. Pode-se afirmar que existe, no âmbito da Associação, uma clara tensão em torno desta questão. Coexistem duas visões: a primeira, que defende a expansão do número de associados e da área de abrangência; enquanto alguns associados defendem restrições em relação ao crescimento quantitativo, exibindo uma grande preocupação com o cumprimento dos princípios e das normas operacionais da Acolhida.

A sustentabilidade financeira da organização precisa ser repensada. Atualmente, a política financeira está focada na contribuição dos associados e na captação de recursos através de projetos apoiados por entidades públicas ou privadas. A contribuição dos associados é proporcional ao faturamento relacionado ao agroturismo, mas isso tem se mostrado insuficiente para manter a organização. Por outro lado, a Associação possui uma política de captação de recursos voltada à obtenção de apoios externos. Neste caso, a ação junto aos organismos públicos e entidades privadas tem sido fundamental para criação das condições para o crescimento da atividade e da Acolhida. Cabe, neste caso, uma reflexão sobre a possibilidade de criação de dependência da Associação em relação a estes financiadores e o nível de influência destes em relação à vida da organização.

A associação é vista por parte dos associados como um “porto seguro”. Esta identificação é percebida através de diversas manifestações que transparecem a importância da cooperação para superação dos problemas individuais e para o rompimento do isolamento que caracterizou a história do Município e do território das Encostas da Serra Geral.

A associação é uma segurança [...] Problema aqui eu vou levar para a associação e é resolvido em conjunto. (Entrevistado 1).

A associação precisa, se tá um sozinho não faz nada. Uma andorinha só não faz verão, (Entrevistado 4).

Para os agricultores, o escritório (central de reservas) é peça fundamental para os associados da Acolhida na Colônia. A existência de uma base de apoio que faz a ligação entre a oferta e a demanda dos turistas dá concretude à Associação: “Se não tiver escritório lá ou qualquer coisa, não funciona” (Entrevistado 4).

Ao discutir a visão predominante sobre a Associação, percebe-se que existe uma grande preocupação com a velocidade de crescimento do turismo, em geral, e do agroturismo, em particular, na região. Estas manifestações sempre procuram destacar a necessidade de preservação dos princípios da entidade e levantam dúvidas sobre a capacidade da organização e de seus associados manterem-se alinhados com os mesmos.

O crescimento meio rápido assim da acolhida [...] tenho medo de fugir um pouco de controle, (Entrevistado 1).

Aqui em Santa Rosa eu tenho medo da Acolhida na Colônia. Agora que tá surgindo o Comtur, querem que o pessoal receba e tal, tenha uma estrutura. Mas não tem essa linha assim da Acolhida que a gente tem..., Não sei se nós vamos dar conta de acompanhar esse povo todo. (Entrevistado 3).

Dentre as diversas contribuições aportadas pela Associação é importante destacar aquela relacionada ao aumento do sentimento de auto-estima de seus associados. A descoberta da possibilidade de transformar em renda os potenciais culturais, naturais, históricos, a atividade profissional e o modo de vida do meio rural proporcionaram uma mudança substancial na visão dos próprios associados sobre si mesmo, sua unidade de produção e seu território. Esta mudança de visão implica num forte comprometimento com a Acolhida, explicitado por

manifestações inequívocas de agradecimento, pertencimento e defesa da organização.