1.1 O CONCEITO DE TERRITÓRIO
1.1.1 Poder e território
A compreensão do conceito de território exige um aprofundamento sobre a noção de poder. Neste sentido, uma grande referência neste assunto são os trabalhos do filósofo francês Michel Foucault, para quem uma sociedade “sem relações de poder” é uma abstração (FOUCAULT, 1995, p. 246).
Segundo Maia, um dos aspectos mais ricos da análise de Foucault foi o abandono de uma “visão tradicional do poder, onde sua atuação se basearia fundamentalmente em seus aspectos negativos: proibindo, censurando, interditando, reprimindo, coagindo etc” (MAIA, 1995, p. 85).
Para Foucault (1979, p. 8), “o que faz com que o poder se mantenha e que seja aceito é simplesmente que ele não pesa só como a força que diz não, mas que de fato ele permeia, produz coisas, induz ao prazer, forma saber, produz discurso”.
Maia diz que para Foucault o poder
[...] não deve ser conhecido como algo detido por uma classe (os dominantes) que o teria conquistado, alijando definitivamente a participação e a atuação dos dominados; ao contrário, as relações de poder presumem um enfrentamento perpétuo. Desta maneira, o funcionamento do poder é melhor compreendido através da ideia de que se exerce por meio de estratégias e que seus efeitos não são imputáveis a uma apropriação, mas a manobras táticas e técnicas (MAIA, 1995, p. 86).
Foucault destaca o poder exercido pelo Estado, o qual se desenvolveu desde o século XVI. “A maior parte do tempo, o Estado é considerado um tipo de poder político que ignora os indivíduos, ocupando-se apenas com os interesses da totalidade ou, eu diria, de uma classe ou um grupo dentre os cidadãos” (FOUCAULT, 1995, p. 236).
O poder do Estado para Foucault “é uma forma de poder tanto individualizante quanto totalizadora” (op. cit., p. 236) e tem origem nas instituições cristãs do século XVI, ao que ele chama de poder pastoral. Este tipo de poder tem as seguintes características:
- É uma forma de poder cujo objetivo final é assegurar a salvação individual no outro mundo. - O poder pastoral não é apenas uma forma de poder que comanda, deve também estar preparado para se sacrificar pela vida e pela salvação do rebanho. Portanto, é diferente do poder real que exige um sacrifício de seus súditos para salvar o trono.
- É uma forma de poder que não cuida apenas da comunidade como um todo, mas de cada indivíduo em particular, durante toda a sua vida. - Finalmente, esta forma de poder não pode ser exercida sem o conhecimento da mente das pessoas, sem explorar suas almas, sem fazer-lhes revelar os seus segredos mais íntimos. Implica um saber da consciência e a capacidade de dirigi-la (FOUCAULT, 1995, p. 237).
Para Foucault, o poder não é exercido através de um poder fundamental, mas por relações de poder. “Não se trata, no entanto, de uma relação entre parceiros individuais ou coletivos, mas de um modo de ação de alguns sobre outros” (1995, p. 242). São palavras do autor:
O que quer dizer, certamente, que não há algo como o “poder” ou “do poder” que existiría globalmente, maciçamente ou em estado difuso, concentrado ou distribuído: só há poder exercido por “uns” sobre os “outros”; o poder só existe em ato, mesmo que, é claro, se inscreva num campo de possibilidade esparsso que se apóia sobre estruturas permanentes (FOUCAULT, 1995, p. 242, aspas do autor).
Ainda segundo Foucault, para que o poder seja exercido é necessário que haja liberdade. O que define uma relação de poder é um modo de ação que não age direta e imediatamente sobre os outros, mas que age sobre sua própria ação. “Uma ação sobre ações” (op. cit.:243). Para o autor:
Uma relação de poder [...] se articula sobre dois elementos que lhe são indispensáveis por ser exatamente uma relação de poder: que “o outro” (aquele sobre o qual ela se exerce) seja inteiramente reconhecido e mantido até o fim como sujeito de ação; e que se abra, diante da relação de poder, todo um campo de respostas, reações, efeitos, invenções possíveis (FOUCAULT, 1995:243, aspas do autor).
Foucault, nesta discussão, lança mão da ideia de governabilidade, onde governar seria “estruturar o eventual campo de ação dos outros” (op. cit., p. 244). Para analisar as relações de poder, Foucault estabelece alguns pontos fundamentais:
- O sistema das diferenciações que permitem agir sobre a ação dos outro: diferenças jurídicas ou tradicionais de estatuto e de privilégio; diferenças econômicas na apropriação das riquezas e dos bens; diferenças de lugar nos processos de produção; diferenças lingüísticas ou culturais; diferenças na habilidade e nas competências etc. Toda relação de poder opera diferenciações que são, para ela, ao mesmo tempo, condições e efeitos.
- O tipo de objetivos perseguidos por aqueles que agem sobre a ação dos outros: manutenção de privilégios, acúmulo de lucros, operacionalidade da autoridade estatutária, exercício de uma função ou de uma profissão.
- As modalidades instrumentais: de acordo com o fato de que o poder se exerce pela ameaça das armas, dos efeitos das palavras, através das disparidades econômicas, por mecanismos mais ou menos complexos de controle, por sistemas de vigilância, com ou sem arquivos, segundo regras explícitas ou não, permanentes ou modificáveis, com ou sem dispositivos materiais etc.
- As formas de institucionalização: estas podem misturar dispositivos tradicionais, estruturas jurídicas, fenômenos de hábitos ou de moda (como pode ser visto nas relações de poder que atravessam a instituição familiar); elas podem também ter a aparência de um dispositivo fechado sobre si mesmo com seus lugares específicos, seus regulamentos próprios, suas estruturas hierárquicas cuidadosamente traçadas, e uma relativa autonomia funcional (como nas instituições escolares ou militares); podem também formar sistemas muito complexos, dotados de aparelhos múltiplos, como no caso do Estado que tem por função construir o invólucro geral, a instância de controle global, o princípio de regulação e, até certo ponto também, de distribuição de todas as relações de poder num conjunto social dado.
- Os graus de racionalização: o funcionamento das relações de poder como ação sobre um campo de possibilidade pode ser mais ou menos elaborado em função da eficácia dos instrumentos e da certeza do resultado (maior ou menor refinamento tecnológico no exercício do poder) ou, ainda, em função do custo eventual (seja do “custo” econômico dos meios utilizados, ou do custo em termos de reação constituído pelas resistências encontradas). O exercício do poder não é um fato bruto, um dado institucional, nem uma estrutura que se mantém ou se quebra: ele se elabora, se transforma, se organiza, se dota de procedimentos mais ou menos ajustados (FOUCAULT, 1995, p. 247).
Afirma ainda:
As relações de poder se enraízam no conjunto da rede social. Isto não significa, contudo, que haja um princípio de poder, primeiro e fundamental, que domina até o menor elemento da sociedade; mas que há, a partir desta possibilidade de ação sobre a ação dos outros (que é co-extensiva a toda relação social), múltiplas formas de disparidade individual, de objetivos, de determinada aplicação
do poder sobre nós mesmos e sobre os outros, de institucionalização mais ou menos setorial ou global, organização mais ou menos refletida, que definem formas diferentes de poder (op. cit., p. 247).
Cabe destacar que, neste trabalho, adotou-se a visão de poder expressa por Foucault. Para este autor, o poder é visto a partir da perspectiva das instituições fechadas, podendo-se estabelecer um paralelo com a realidade da população e comunidades das Encostas da Serra Geral. Neste caso, percebe-se que, apesar dos esforços organizacionais empreendidos, os atores territoriais ainda não conseguem um caminhar livre e autônomo. O processo de empoderamento sofreu uma mudança de rumo com a criação da AGRECO e da Acolhida na Colônia, como se verá nos próximos capítulos.
Para Foucault, as relações de poder ajudam a definir o território e são estabelecidas por atores sociais que moldam suas territorialidades em um dado espaço. Esta abordagem parece apropriada por contribuir para uma discussão acerca das possibilidades de ação dos diferentes sujeitos envolvidos na Acolhida na Colônia, objeto de estudo, para formação do território das Encostas da Serra Geral.