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CAPÍTULO 3 SISTEMA COMUNICACIONAL DO DIREITO

6. ACOPLAMENTO ESTRUTURAL INTERAÇÃO COM O AMBIENTE

E COM OUTROS SISTEMAS

6.1 FECHAMENTO OPERATIVO E ACOPLAMENTO ESTRUTURAL

O fechamento estrutural dos sistemas traz à tona o tema da forma pela qual esses sistemas podem se relacionar com o seu ambiente, pressupondo forma especial que viabilize esse ingresso.

O próprio sistema deve servir como meio para o trânsito de inputs e output, medi- ante conexões altamente seletivas, denominadas de acoplamentos estruturais. A sele- ção de informações é sempre construída internamente, propiciando que o sistema extraia ordem do ruído e redundância da variação.

decorrem as transformações das estruturas do sistema, selecionando apenas as carac- terísticas que tenham relevância para o interior do sistema, e tendo duração efêmera, ou seja, constitui-se para o evento.

Assim, o acoplamento estrutural pode ser entendido como uma forma com dois lados: o interior que admite irritações e o exterior, em relação ao qual o sistema é indife- rente99. No que concerne ao sistema jurídico, comunicações sociais de um lado e comu-

nicação veiculando projeções normativas, decorrentes de leis, contratos. Traçando-se um paralelo, seria como determinadas células, cuja membrana apenas deixa trespassar determinado tipo de íon, como o cálcio.

Não apenas é relevante o que, por meio do acoplamento estrutural ingressa no sistema, como também o que exclui, porque a exclusão importa em redução de comple- xidade, que é condição para que construa complexidade no interior do sistema100. Essa

redução é viabilizada de forma digital pela qual se realiza o acoplamento estrutural, pois a matéria- prima101 de todas as comunicações sociais é a linguagem.

Na visão sistêmica do Direito é fundamental a abordagem “policontextural”, isto é, a análise abrangente do sistema jurídico e das relações que mantém com o seu ambien- te, formado pela sociedade e por outros sistemas sociais. O conceito de abertura cognitiva flexibiliza a aquisição de conhecimentos, permitindo a resposta às requisições de uma sociedade de alta complexidade, em que fervilham inovações tecnológicas, demandas econômicas e políticas.

O Direito não é refratário ao ambiente, porque ele existe em função do seu entor- no, que não é menos importante, porém mais complexo que o seu interior. A dinâmica de

99 Luhmann, Operational Closure and Structural Coupling: The Differentiation of Legal System., p.1433 100 Conforme Luhmann: “Reduction is necessary condition for the ability to resonate; reduction of

complexity is a necessary condition for building complexity.” (Law as a Social System, p.382). 101 A forma digital de processamento implica que a mensagem seja transmitida por símbolos generali-

zados, como a linguagem dos computadores, como os da linguagem idiomática, enquanto a analógica seria a linguagem não-verbal, composta por posturas, gestos, expressões faciais.

trocas com o ambiente permite que o sistema jurídico adapte-se às novas circunstâncias sociais e assim desempenhe a função de garantir as expectativas normativas102.

Mas essa interação não ocorre de forma simétrica, mas em diferentes velocida- des, no interior de cada sistema, em função de sua estrutura e sua evolução histórica, não havendo sincronicidade entre as interações sistêmicas.

O sistema jurídico apenas poderá observar os outros sistemas através de suas próprias distinções, adaptando as mensagens do ambiente para o sistema de auto-re- produção de comunicação jurídica, sendo que quanto mais flexível se apresentar o siste- ma, mais fácil será seu aprendizado e adaptação. Em suma, o acoplamento estrutural permite a interação entre sistemas, sem que haja perda de sua autonomia. Sem a intermediação do mecanismo de acoplamento estrutural na relação entre os sistemas, haverá corrupção no trânsito de comunicações.

6.2 ACOPLAMENTO ESTRUTURAL E SUBSISTEMAS SOCIAIS

Pode-se afirmar que os demais subsistemas e o ambiente social, notadamente o subsistema político, também recebem influência direta do jurídico103, de sorte que há,

102 Nas palavras de Karl-Heinz Ladeur: “But we would have to observe that this type of reality, of a world consisting of overllaping networks of interrelationships, is only accessible to the polycontextural observations generated by the differentiated systems of society. A relational concept of rationality could then be based on the search for comptability between different systemic logics of law: economics, etc..There is no room for a unitary approach to reality which could be reconstructed in the rule- oriented reflection of a knowing subject and this unity cannot be guaranteed by an intersubjective process of self-reflection in argumentative processes, either.” (The Theory of Autopoiesis as an Approach to a better Understanding of Postmodern Law: from the Hierarchy of Norms to the Heterarchy of Changing Patterns of Legal Inter- relationships., p. 8).

103 Segundo Teubner, “a distinção crucial entre sistema e meio envolvente – que constitui a caracterís- tica central dos sistemas abertos (o que encontra uma réplica, no seio destes mesmos, no fenómeno da auto-diferenciação sistémica) – conduz-no a centrar a atenção sobre conceitos tais como rela- ção input-output, capacidade de adaptação sistémica ao respectivo meio envolvente, restabelecimento

nessa concepção, dependência ou irritação recíproca, sem que se abale a diferencia- ção funcional desses sistemas.

Na teoria dos sistemas autopoiéticos designam-se “prestações”, o meio pelo qual os subsistemas sociais relacionam-se entre si, e “função específica”, a relação mantida entre o subsistema social com o sistema social, em que estão inseridos. Não há presta- ções entre o subsistema social e o sistema social, mas funções, porque os elementos que compõem o subsistema, da mesma forma comporão o sistema104.

O sistema jurídico, por exemplo, oferece a prestação ao sistema político de legitimação do uso da força física, estabelecendo os parâmetros para essa legitimação, ao vincular o sistema político aos seus programas; o sistema político oferece ao sistema jurídico os parâmetros para as decisões judiciais, ao fazer ingressar as normas jurídicas no direito positivo105. O acoplamento estrutural entre o sistema jurídico e o sistema políti-

co dá-se pela Constituição, que vincula a ambos, embora seja processada no interior de cada qual, distintamente, de forma que um mesmo ato de promulgação de lei pode ter relevância para a Política e para o Direito.

O sistema econômico, cujos códigos são relativos à propriedade e ao dinheiro, totalmente distintos do sistema jurídico, atua no âmbito de redes recursivas de racionalidade própria, de sorte que recorta diferentes aspectos de uma transação, por

do equilíbrio sistémico através da intervenção regulatória, e organização “racional” e finalisticamente orientada. Racionalidade finalística, intervenção, organização, adaptação, manutenção do equilíbrio sistémico constituem conceitos-chave de estratégias políticas intervencionistas, endereçadas a produzir alterações específicas em vários domínios sociais servindo-se do direito.” (O Direito como Sistema Autopoiético, p.29).

104 Novamente recorrendo-se a Luhmann (grifos do autor): “En sistemas sociales diferenciados funcio- nalmente la relación de un subsistema com el todo es determinada por cada función especifíca.Sus relaciones con otros sistemas, por el contrario, pueden ser designadas como prestaciones y des- critas con modelos de input/output. Es importante diferenciar escrupulosamente estas dos direcciones de la relación, función y prestación; de no ser así, se anula la posibilidad de analizar las consecuencias de la diferenciación sistêmica funcional. La confusión entre función y prestación constituye el típico error de las teorías sociales ‘ tecnocráticas’ , que conceptúan a la sociedad como una especie de receptor de prestaciones, a pesar de que los mismos portadores de prestaciones sean también parte de la sociedad.”( Introducción a la teoría de Sistemas, p.94).

exemplo. Mas podem trocar prestações, através de acoplamentos como os contratos e os tributos: um ato de pagamento pode ser parte de uma transação econômica e ao mesmo tempo, o cumprimento de uma obrigação jurídica.

Portanto, verifica-se que um mesmo evento poderá ser processado por dois ou mais sistemas sociais autopoiéticos, porque serão consideradas operações distintas para cada qual, no âmbito de sua rede recursiva de processamento de informações, construindo-se identidades significativas no âmbito de cada uma das comunicações especializadas106.

Em síntese, observa-se que, ao se contrapor os arquétipos de cada um dos subsistemas sociais ora analisados, transparece, com clareza meridiana, a diferencia- ção que emerge entre cada uma das funções desempenhadas e, conseqüentemente, a impossibilidade de se tomar uma função por outra, impondo ao sistema jurídico o processamento de informações para as quais suas estruturas não estão habilitadas.