2.2 DA CONVENÇÃO DA UNIÃO DE PARIS (CUP) AO ADPIC
2.2.4 O Acordo ADPIC
Incluído na ata final do Ciclo do Uruguai (1986-1994), e parte integrante do Tratado de Marraqueche, o Acordo ADPIC foi suscitado na preparação da Conferência Ministerial de Seatle, da OMC. A sua inclusão na Rodada Uruguai deve-se à percepção de que uma maior proteção dos direitos de propriedade intelectual ocasionaria um aumento no comércio mundial. Dessa forma, o acordo incorpora os resultados da Rodada Uruguai de Negociações Comerciais Multilaterais, do GATT. Constituído de 73 artigos, o ADPIC foi assinado em 15 de abril de 1994, entrando em vigor no dia 1 de janeiro de 1996, sendo regulamentado, no Brasil, pelo decreto n.1355/94. Vale salientar que a Rodada Uruguai inovou ao implementar e inserir os serviços (non-tradable commodities) – não mais se limitando aos bens materiais (tradable commodities) – no rol dos direitos de propriedade intelectual e livre comércio (ADPIC, 1994).
O ADPIC trata dos diversos ramos da propriedade intelectual, tais como: direitos de autor e conexos; patentes; marcas; indicações geográficas; desenhos industriais; e topografias de circuitos integrados. Além de diversas outras funções, podem-se destacar a redução das distorções e obstáculos ao comércio internacional; a redução no comércio internacional dos bens contrafeitos; a harmonia nas relações internacionais; a promoção de proteção adequada aos direitos de propriedade intelectual; estabelecimento dos princípios básicos para a prevenção e solução de controvérsias entre os países-membro no seu âmbito de incidência; e assegurar que as medidas e procedimentos destinados a fazer respeitar os ditos direitos não se convertam em obstáculos ao comércio legítimo23.
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A (OMC) é uma organização internacional, com 150 membros, responsável pela supervisão de um grande número de acordos sobre as "regras do comércio" entre os seus estados-membros. Foi criada em 1995 sob a forma de um secretariado para administrar o Acordo Geral de Tarifas e Comércio (GATT), este último um tratado comercial que contribui muito para a própria formação da OMC. OMC: Disponível em < www.wto.org>. Acesso em: 24 mai, 2007, às 08:21:56.
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Empiricamente, o Acordo trata dos direitos da propriedade intelectual, na medida em que esses direitos causam impactos sobre o comércio. Ele visa promover uma proteção eficaz e suficiente desses direitos, fixando normas mínimas de proteção nos principais setores da propriedade intelectual. Trata-se de Acordo a mínima ou Regime Jurídico Mínimo para a Propriedade Intelectual24, inclusive indicações geográficas. As IG são objeto da seção 3, no âmbito da segunda parte do Acordo que trata das “Normas referentes à existência, ao alcance e ao exercício dos direitos da propriedade intelectual”.
Barros (2007) relata que houve uma distinção, entre os países signatários25, que tiveram o prazo, de um a dez anos para adequar suas legislações nacionais visando ao cumprimento das disposições do ADPIC. A maior preocupação dizia respeito às patentes, tendo em vista que antes do ADPIC vários países em desenvolvimento, dentre os quais o Brasil, não reconheciam patentes na área farmacêutica e de alimentos. Era uma forma de se preservarem as indústrias nascentes e ainda incipientes nesses setores, quando comparadas às indústrias dos países desenvolvidos (BERMUDEZ et al., 2000).
Belas (2012) argumenta que o potencial do ADPIC para beneficiar de forma equilibrada e equitativa economias desiguais ainda é bastante questionado. O ADPIC possui um desequilíbrio de base, pois foi elaborado como um pacote global para responder às necessidades dos países industrializados no que diz respeito à liberalização do acesso a mercados na agricultura e nas indústrias (PANIZZON, 2005).
Panizzon (2005) explana que um dos maiores exemplos de que o ADPIC beneficia sobretudo os países desenvolvidos é o fato desse acordo praticamente não oferecer garantias e benefícios aos agricultores e a titulares de conhecimentos tradicionais. Tampouco atende às demandas crescentes de países de grande sociobiodiversidade que passaram a reivindicar a inclusão dos conhecimentos tradicionais nos dispositivos de proteção do ADPIC. No ano de 2001 foi lançado o ciclo de negociações de Doha, cujo objetivo era melhorar as perspectivas
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O Acordo ADPIC contém certas disposições mínimas que deverão ser incluídas em qualquer lei nacional que regule o direito de propriedade intelectual para assim não haver discrepâncias entre as legislações e a legislação fixada pelo ADPIC (Art.3.1 e 4 do ADPIC)
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No total, os prazos de transição previstos no art.65 do ADPIC poderiam chegar a no máximo 10 anos para os países em desenvolvimento. Contudo, diante das dificuldades de adaptação de vários países em desenvolvimento, o conselho ADPIC de 25 de novembro de 2005 resolveu prorrogar o período de transição até 1 de julho de 2013.
comerciais relativas à proteção aos recursos genéticos e aos conhecimentos tradicionais associados à biodiversidade.
Ainda conforme Panizzon (2005), numa tentativa de harmonizar o ADPIC, na Convenção da Diversidade Biológica (CDB), alguns países apresentaram propostas com o intuito de garantir que os documentos de patentes indiquem a origem dos recursos da biodiversidade e conhecimentos de povos e comunidades tradicionais utilizados como base para a elaboração de produtos e processos.26Com essa medida pretendia- se contribuir para evitar apropriações indevidas, garantindo o consentimento prévio informado e a repartição de benefícios com os provedores do recurso ou conhecimento acessado. Contudo, por falta de consenso entre os signatários do ADPIC, esse tema foi excluído da rodada de negociações, em 2004. Também foi excluída das negociações a proposta de extensão da proteção adicional concedida às IG de vinhos e destilados para os demais produtos.
O ADPIC consagra em parte a concepção europeia da proteção das IG separando-a definitivamente da proteção das marcas27. Assim se entende que a IG reforça a competitividade das exportações agroalimentares, valoriza uma agricultura de qualidade em termos de promoção do território e do saber-fazer local, da ocupação do território, e do respeito ao meio ambiente. Esses indicadores não precisam mais ser comprovados em virtude da própria IG (SABIN, Jean-Claude, 1999, p.14).
Segundo as interpretações convergentes de Gómez (1996, p.34 e 79) e Pacón (1997, p.137- 170), o ADPIC foi a tentativa mais representativa e ambiciosa de regulação e proteção dos 26
Panizzon delineia sobre três propostas para a proteção dos conhecimentos tradicionais apresentadas: 1) proposição de um grupo de 12 países - Brasil, China, Cuba, República Dominicana, Equador, Índia, Paquistão, Tailândia, Venezuela, Zâmbia e Zimbábue - visando modificar o artigo 27§3(b) do ADPIC, que trata sobre material patenteável. No caso de patentes relacionadas a material biológico ou conhecimento tradicional associado o requerente da patente deve identificar a origem dos mesmos e comprovar ter o consentimento prévio para acesso e sua utilização comercial segundo as leis dos países e, por fim, promover a repartição justa dos benefícios obtidos; 2) proposição da Suíça, se refere a inclusão de uma ementa no Tratado de Cooperação e Patentes da OMPI para que as fontes de origem de recursos genéticos e conhecimento tradicional associado sejam informadas pelo inventor; 3) proposição de 41 países que compõem o grupo Africano, defende uma proteção tipo sui generis aos conhecimentos tradicionais no âmbito do ADPIC, no sentido de possibilitar o cancelamento dos direitos de propriedade intelectual de indústrias que tenham utilizado o conhecimento tradicional de forma indevida. (PANIZZON, 2005, p. 17-20).
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A marca é um sinal utilizado por uma pessoa física ou jurídica, para distinguir seus produtos ou serviços dos produtos e serviços de seus concorrentes. Por exemplo, Bordeaux e Champagne podem ser utilizadas por todos os vinicultores na área de Bordeaux e Champagne, mas somente a Moet & Chandon pode designar seu champagne como marca. (OMPI – www.ompi.com.br)
bens imateriais – propriedade intelectual – em todo o mundo. Trata-se de um ordenamento jurídico de ampla complexidade, não só pelo conteúdo substantivo e adjetivo das novas normas, mas especialmente pelo tratamento dado às relações econômicas e comerciais.
Deve-se destacar que somente foi possível alcançar um acordo sobre IG, nessa dimensão, incluindo a propriedade intelectual, graças à disposição favorável de grandes países como os Estados Unidos, e os países europeus. Apoiados (e pressionados) por importantes capitais internacionais, a exemplo da indústria farmacêutica e química, os seus representantes tiveram interesse em salvaguardar especialmente as patentes e marcas. Esses países desenvolvidos foram tratados por Pacón (1997, p.168) como sendo “do Norte”. Através da persuasão político-econômica impuseram, aos países emergentes, a adoção de normas de repressão à pirataria e instrumentos mais eficazes de proteção aos direitos de propriedade intelectual. (GOMÉZ, 1996, p.53). Assim, passou-se do patamar de repressão às falsificações para um incentivo de proteção às verdadeiras indicações.
O Acordo ADPIC (parte II, seção 3, art. 22-1) assim define as IG:
As indicações servem para identificar um produto como sendo originário do território de um membro, ou da região ou localidade deste território, nos casos em que uma qualidade, reputação, ou outra característica determinada do produto pode ser atribuída essencialmente a esta origem geográfica.
Inspirada na Denominação de Origem do Acordo de Lisboa, a definição supracitada é ampla, porquanto abarca a Denominação de Origem, a Indicação de Procedência, e as Denominações Tradicionais com origem geográfica, fixadas pelo Direito da Comunidade Europeia. A abrangência universal das IG, definidas no âmbito do Acordo ADPIC, na tentativa de harmonizar as diferenças nacionais dos conceitos de indicações geográficas entre os países signatários, representa sua fragilidade. A conceituação vaga deliberada no Acordo suscita divergências no âmbito da OMC, cuja preocupação prática com a proteção das IG tem sido restringida à concorrência desleal.
Marie-Vivien (2010) indica que a proteção diferenciada para os nomes de origem é vista como uma forma de se reduzirem os conflitos com marcas registradas. São exemplos o queijo Roquefort, fabricado na Austrália, e o queijo “tipo” parmesão, fabricado no Brasil. Por mais que o consumidor tenha a indicação de que o produto não foi fabricado em Roquefort, na
França, ou em Parma, na Itália, permanece a associação desses produtos a produtos notórios por suas qualidades. Representantes dos países europeus argumentam que a defesa do registro dos nomes de origem é uma maneira de reconhecer e fazer justiça aos detentores de um saber- fazer tradicional e histórico, por vezes secular, de interação de homem e território.
Sylvander et al (1995) relatam o conflito de interesses entre os países com uma história sócio- produtiva mais antiga, como os europeus, e países ditos do “novo mundo” ou economicamente denominados “emergentes” que defendem o direito dos imigrantes de usar a reputação de produtos cujo saber-fazer trouxeram de seus países de origem. Ademais, em relação aos países europeus, esses novos processos sócio-produtivos, típicos de países do novo mundo ou emergentes, estariam em desvantagem em relação a sistemas de proteção estatal consolidados no tempo.
Percebe-se neste ponto da tese, a importância do termo terroir28, pois suas diferentes interpretações e suas diferentes definições são capazes de formar um arcabouço teórico (talvez um conceito geral e abstrato), que pode vir a ser utilizado pelo Estado, no planejamento e desenvolvimento de políticas públicas. Revela-se importante, também, o papel estatal como responsável pela estruturação do sistema de marcas e IG. MARIE-VIVIEN (2010). De fato, analisando-se burocraticamente, a estruturação do sistema de marcas brasileiro é menos complexo do que aquele para o registro da IG. Notoriamente, no Brasil há um expressivo incentivo técnico e financeiro para o reconhecimento de novos territórios com IG, ainda que o consumidor brasileiro confunda, facilmente, os termos e os significados de marca e IG. É que a análise da qualidade e o controle, no caso das marcas, acabam ficando a cargo do consumidor.
Aquela mesma autora adverte para a possibilidade de se gerar uma confusão, por parte do consumidor, sobre os limites conceituais (o conceito, no sentido vulgar, ou seja, a ideia formada) entre marca e IG. Por exemplo, a denominação “Cachaça de Abaíra”29, que constitui
28 Berard et al (2005) definem terroir, sem tradução em português, como um termo francês para designar local, geralmente uma zona rural, de onde provêm um saber-fazer ou produtos específicos. Essa especificidade origina- se da interação entre homem (fator humano) e meio (fator natural), e no processo produtivo dá-se um saber- fazer peculiar local. Na ampliação do conceito desenvolvido por geógrafos franceses, é um conjunto de terras sob a ação de uma coletividade social integrada por relações familiares e culturais e por tradições de exploração de seus produtos.
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Mais informações, disponível in: http://www.mapadacachaca.com.br/guia/cachaca/abaira-prata/ e
uma IG referente à microrregião de Abaíra. Todavia, nas visitas técnicas, verificou-se que a produção historicamente reputada e notória da cachaça na Bahia é associada a toda a macrorregião da Chapada Diamantina. Ocorre que a IG delimita apenas quatro municípios: Abaíra, Jussiape, Mucugê e Piatã. Até 1997, Cachaça de Abaíra era simplesmente uma marca.