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A fase descendente da crise coimbrã

Os primeiros sinais de desmobilização estudantil em Coimbra apareceram durante as últimas fases da greve aos exames de Junho 1969 que, se teve inicialmente uma participação maioritária, com o tempo perdeu muitas adesões, sobretudo depois de o MEN ter declarado não penalizar os estudantes que não tinham estado presentes nas provas anteriores.132 Na mesma altura, a polícia identificava os 84 estudantes que mais se tinham distinguido na crise, levando para diante acções repressivas contra eles.133 Já a partir do primeiro dia de greve aos exames, tinham sido entregues à Polícia Judiciária de Coimbra, a fim de proceder à instrução preparatória dos respectivos processos, 12 estudantes presos pela GNR. Os estudantes foram depois entregues à PSP que os soltou, enquanto remetia o processo para PIDE. O processo foi enfim transferido para a PJ, a qual teve que abrir uma nova instrução, sendo ilegal, por falta de informações, a da PSP. Todos os estudantes, detidos enquanto estavam a impedir alguns colegas de realizar as provas, foram

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Ver anexo 11

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acusados do crime contra a ordem pública previsto e punido pelo art. 180 do Código Penal134, o qual estabelecia o seguinte:

Aqueles que se ajuntarem em qualquer lugar público para exercer algum acto de ódio, vingança ou desprezo contra qualquer cidadão, ou para impedir ou perturbar o livre exercício ou gozo dos direitos individuais, ou para cometer algum crime, não havendo começo de execução, mas somente qualquer acto preparatório ou aliás motim ou tumulto, arruído ou outra perturbação da ordem pública, serão condenados à prisão correccional até seis meses, se a reunião for armada, até três meses, no caso contrário.135

Como salienta Marta Benamor Duarte, a fraqueza do movimento emergiu logo frente à repressão política, que contribuiu para criar uma fractura entre o conjunto estudantil e os dirigentes associativos. Estes últimos foram chamados pelas autoridades, processados, expulsos e presos, deixando sem guia o movimento. Entretanto, repetiam-se com frequência incursões da polícia e também da PJ nas instalações académicas, assim como os patrulhamentos por parte das forças da ordem, sobretudo nocturnos, das ruas da cidade, durante os quais se verificaram também algumas agressões a cidadãos comuns.

A primeira grande quebra na dinâmica do movimento estudantil chegou, todavia, como em muitos outros casos, com o Verão e as férias grandes, sobretudo porque o Governo aproveitou aquele período de baixa mobilização para destituir os dirigentes e suspender as actividades da AAC.136 As tentativas, por parte de alguns sectores do movimento, de mobilizar os estudantes dos cursos de Verão, não tiveram grande êxito, sobretudo pelo facto de a maioria deles serem estrangeiros. Desde o Verão de 1969, muitos líderes estudantis foram chamados para o serviço militar, através da nova lei de incorporação, promulgada com o decreto 49.099137. O movimento estudantil viu-se assim órfão e à mercê das sanções impostas pelo Ministério da Educação, enquanto “com o encerramento e destituição da AAC as autoridades pretendiam desarticular o movimento”.138

O fecho da AAC eliminava, mais uma vez, o único espaço legal de participação e representação estudantil da Universidade de Coimbra e, como já acontecera na altura de vigência 134

Ver anexo 9.

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Código Penal Português Anotado, 1952, art.180.

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Boletim de Rádio Voz da Liberdade, 12 de Agosto 1969, transcrito pelos Serviços de Escuta da Legião Portuguesa, em IAN/TT-PIDE/DGS-SC-SR-3529/62-3364-Pt.152, movimento estudantil de Coimbra, folha 97.

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O Decreto era aprovado, por iniciativa da Presidência do Conselho, do Ministério da Defesa e do Ministério do Interior a 4 de Julho de 1969 e pretendia dar “nova redacção ao n.º 1 do artigo 24.º da Lei n.º 2135 que promulga a Lei do Serviço Militar”, a qual regulava o adiantamento do serviço militar por motivações de estudo. A nova norma submetia o adiantamento à conduta do aluno, pelo que só podiam beneficiar dele os que tinham um “bom comportamento escolar”. V. Decreto-Lei 49099, Diário da República n.º155, Série I, 4 de Julho 1969.

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Boletim de Rádio Voz da Liberdade, 12 de Agosto 1969, transcrito pelos Serviços de Escuta da Legião Portuguesa, em IAN/TT-PIDE/DGS-SC-SR-3529/62-3364-Pt.152, movimento estudantil de Coimbra, folha 97.

da Comissão Administrativa, a única forma para o movimento continuar a existir era retirar-se do espaço público, numa atmosfera de conspiração que se agrupou novamente à volta das Repúblicas. Um espaço oficial de participação irá abrir-se, contudo, fora da universidade, na arena propriamente política da campanha eleitoral do Outono de 1969, quando muitos estudantes de Coimbra escolheram ingressar nas listas do Comissão Democrática Eleitoral (CDE).

Com o regresso dos alunos à cidade, desde os finais do mês de Agosto, a PIDE de Coimbra começou a convocar todos os que estavam a requerer exames para Outubro, interrogando-os sobre os motivos porque não se tinham apresentado na época normal e sobre a sua eventual participação na assembleia magna em que se decidira o boicote. Era uma forma para desencorajar uma nova participação em acções contenciosas, sobretudo porque, embora a polícia considerasse improvável uma nova greve para a época de exames de Outono, antes do fecho da AAC os dirigentes estudantis tinham afirmado adiar o luto académico para o começo das aulas em Novembro. Suscitava preocupação, sobretudo, o julgamento de Alberto Martins, previsto para 23 de Outubro, que teria fornecido um pretexto de mobilização, pois coincidia com o começo da campanha eleitoral a 25 do mesmo mês.139 A polícia também sublinhava que os estudantes activos continuavam a reunir-se de forma clandestina sobretudo na cooperativa universitária Unitas, no café Clepsidra e no Centro de Artes Plásticas. A Unitas, embora formalmente encerrada, continuava a funcionar; o café Clepsidra tinha sofrido uma busca por parte da PJ, mas que não levou a grandes resultados; e o Centro de Artes Plásticas, oficialmente ligado à AAC, estava fechado ao público.

Para combater a eventualidade de uma nova crise, que na opinião da polícia teria certamente ocorrido, a única solução era tentar mobilizar os próprios estudantes contra os alegados desordeiros, de forma a isolá-los. Tratava-se, todavia, de uma possibilidade difícil de realizar em Coimbra “não havendo um grupo organizado das direitas” e numa situação em que, na opinião da PIDE, “os poucos estudantes que se dizem de direita, fazem restrições entre direitas não-fascistas, republicanas, corporativas e democráticas”.140 Entre eles, além disso, muitos simpatizavam com os movimentos estudantis, embora desaprovassem os seus meios. Era necessário, portanto, sempre segundo a polícia política, “reunir todos os estudantes das direitas e dar-lhe um chefe e uma razão para se opor aos revoltosos”.141 Por outro lado, achava-se que as muitas adesões que os associativos tinham tido se deviam também à exploração, como recurso de mobilização, das

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Relatório da PIDE de Coimbra, Setembro de 1969, em IAN/TT-PIDE/DGS-SC-SR-3529/62-3364-PT.152, folha 72.

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Relatório da PIDE de Coimbra, sem data, em IAN/TT-PIDE/DGS-SC-SR-3529/62-3364-PT.152, folha 68.

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tradições associativas académicas, as quais permitiam juntar elementos das mais diversas tendências políticas ou ideologicamente indiferentes.

De qualquer forma, com o recomeço da segunda época de exames, no Outono de 1969, o movimento parecia bastante enfraquecido. A situação, na opinião da DGS, apresentava-se como normal, ainda que houvesse sinais que indicavam a preparação de uma maior mobilização para o ano lectivo seguinte. Esta mobilização seria veiculada através de uma greve colectiva e contínua às aulas, a qual, não implicando a perca do ano académico e, para os rapazes, o consequente incorporação militar, poderia encontrar mais adesões do que a greve aos exames.142 Os estudantes activos, no entanto, tentavam compensar as baixas sofridas pelo movimento, sobretudo por causa da incorporação militar, com uma iniciativa denominada: “perdoar os traidores”, através da qual se procurava envolver numa possível mobilização também os elementos que não se tinham juntado ao boicote das provas do mês de Junho. De facto, as incorporações militares tinham tido efeitos desastrosos a breve prazo na mobilização estudantil de Coimbra, com todos os 49 elementos mais activos da crise de 1969, entre os quais Celso Cruzeiro e Francisco Sardo, recrutados já desde o Verão e obrigados a prestar serviço militar em Mafra. A situação, com efeito, como assinalava a DGS, era “de uma academia descomandada por falta de um líder com prestígio suficiente para aglutinar os indiferentes e os divididos”, em que se tinham “cometido faltas graves em matéria de estratégia conspirativa que elementos esclarecidos e doutrinados não teriam praticado”.143

Todavia, se a incorporação dos estudantes mais activos tinha deixado o meio académico coimbrão mais tranquilo, esta solução provocara também uma situação perigosa no seio das próprias Forças Armadas, onde, a partir de então, e mesmo na escola de Mafra, começaram a intensificar-se os episódios de insubordinação, como deserções, roubos de material militar e distribuição de propaganda subversiva. Assim, se a DGS podia prever que, no novo ano, o ambiente universitário de Coimbra seria tranquilo, “estando os estudantes a viver na expectativa com o novo titular da Educação Nacional”144, devia também assinalar que em Mafra estava a ser desenvolvida uma “acção revolucionária” que já tinha favorecido a fuga de oito estudantes, sobretudo para a França, entre os quais Jacinto José Palma Dias e Manuel Afonso Strecht Monteiro. A direcção desta acção revolucionária era atribuída a Celso Cruzeiro, considerado “o

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Relatório da PIDE de Coimbra, 16 de Setembro 1969, em IAN/TT-PIDE/DGS-SC-SR-3529/62-3364-Pt.152, folha 64.

143

Relatório da DGS de Coimbra, 6 de Janeiro 1970, em IAN/TT-PIDE/DGS-SC-SR-3529/62-3364-pt.153, folha 228

144

Relatório da DGS de Coimbra, 20 de Janeiro 1970, em IAN/TT-PIDE/DGS-SC-SR-3529/62-3364-pt.153, folha 222.

associativo mais perigoso que entrou nesta incorporação”145. De facto, considerando de onde surgiu a mobilização que pôs fim ao regime em 1974, parece que a decisão do Governo de incorporar os estudantes subversivos no exército não terá sido muito estratégica.

Protest policing e divisão das elites

Com já aludimos, a DGS afirmava que a crise de Abril 1969 podia ter sido evitada, tendo sido abertamente preparada muito antes da vinda do Presidente da República, sem que a polícia tivesse intervindo da forma mais adequada. Para evitar que uma situação similar se repetisse, era necessário aumentar a colaboração entre as três polícias, mas por outro lado, “havia Juízes favoráveis ao associativismo estudantil que libertavam os estudantes presos por falta de provas”.146 Sublinhava-se portanto a necessidade de estar preparados para uma eventual crise geral no mês de Novembro, que teria envolvido as três academias e portanto também Coimbra, pois, “com o fecho da AAC, evitaram-se as reuniões de massa, mas não a actividade dos mais politizados, que se encontram em Repúblicas ou fora da cidade, com o apoio de funcionários da universidade e até de outros profissionais”.

Em conclusão, para evitar uma nova crise era considerado oportuno, por parte da PIDE : rejeitar as matrículas dos dirigentes; controlar todas as Associações de Estudantes e a AAC; evitar distribuição de panfletos e formação de comícios. Em caso de crise, enfim, devia-se “fechar todos os centros de reunião, apreender todo o material e os que o distribuem, não dar importância ao movimento associativo, organizar as direitas com dirigentes competentes, fazer comunicados frequentes e desmarcar o movimento” e, por fim, demitir autoridades responsáveis em caso de incapacidade, “mas não as que os associativos querem ver demitidas”, e persuadir funcionários a não se meterem”147 enquanto “a polícia na rua deve carregar na primeira provocação”.

Muitas destas medidas serão efectivamente postas em prática nos anos a seguir, com o evidente objectivo de isolar os activistas mais politizados do resto dos estudantes, facilmente desmobilizáveis, através de um processo de abertura institucional por um lado e de repressão por outro. A vigilância sobre estudantes de Coimbra intensificava-se, com efeito, e tornava-se tanto mais difusa. Por exemplo, uma informação da PIDE de Junho de 1969148 relata que Alberto Martins, já protagonista dos eventos de Abril e por isso incurso em processos disciplinares, teria afirmado “à mesa de uma café” que, a partir da época dos exames de Outubro, os estudantes de 145

Relatório da PIDE de Coimbra, 3 de Novembro 1969, em IAN/TT-PIDE/DGS-SC-SR-3529/62-3364-pt.153, folha 439.

146

Relatório da DGS de Coimbra, Janeiro 1970, em IAN/TT-PIDE/DGS-SC-SR-3529/62-3364-PT.152, folha 68.

147

Ibidem

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Coimbra contariam com a presença dos colegas de Lisboa e do Porto “desenvolvendo então no plano nacional a maior actividade com vista ao período eleitoral”.

Outros estudantes foram interceptados enquanto estavam a trazer comunicados, sobretudo para o Porto149 outros foram assinalados por divulgar propaganda150, por ter protagonizado algumas assembleias de estudantes incitando à contestação151; e outros simplesmente por terem comparecido aos julgamentos de colegas presos.152 Por fim, alguns estudantes foram vigiados por terem processos abertos nos ficheiros da polícia ou processos disciplinares na universidade.153 Entre todos os estudantes vigiados nesta altura, destacava-se José Araújo da Silva Barros de Moura, aluno de Direito oriundo do Porto, considerado como o principal agitador e responsável por todas “as manobras de estudantes na presente crise académica”, além de ser membro da Comissão Nacional de Estudantes Portugueses. A polícia salientava ser tal a sua influência que ele dispunha de “camadas de estudantes preparados para actuar em todos os sentidos, tendo sido também membro do PCP”154.

Nesta altura eram no mínimo 39 os estudantes de Coimbra que continuavam a ser vigiados e controlados de forma pontual pela polícia política, em vários momentos da sua vida, não só associativa. No entanto, o plano da PIDE para evitar uma nova crise estava a ser aplicado, também com algumas “livres interpretações” por parte das outras polícias, não só com o aumento da vigilância a determinados elementos, mas também com maiores ameaças ao conjunto de estudantes, que se concretizavam com uma presença quase constante das forças da ordem perto dos locais de encontro universitário. O objectivo mais imediato era proibir a realização de qualquer tipo de reunião entre estudantes, através da constante intervenção policial nos locais onde supostamente se deviam realizar, o que levou a dinâmicas de duros choques entre alunos e forças da ordem. Por exemplo, a 25 de Setembro, uma tentativa de reunião por parte de Alberto Martins, Celso Cruzeiro155 e Rui Namorado foi reprimida duramente pela PSP, provocando

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Como Alexandre Assis de Miranda Cardoso e Rui Manuel da Veiga Reis. Relatório da PIDE de Combra, Junho 1969, em IAN/TT-PIDE/DGS-Del.C-Unidade 10561.

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Como António Pires de Carvalho, o qual também era “portador de pimenta para lançar aos cães polícias”. Foi remetido ao tribunal. Em ibidem.

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Entre os outros: Jacinto José Palma Dias, da comissão central de Letras; João Celso da Rocha Cruzeiro, de Direito; José António Martins Gomes Salvador, de Direito; José António dos Santos Silva, de Direito, considerado elemento esquerdista, indicou aos colegas os agentes da PIDE/DGS presentes na assembleia provocando o cerco de um deles, o agente Euclides; Osvaldo Alberto do Rosário Sarmento e Castro, de Direito, o qual numa assembleia falou em nome da AAC anunciando a solidariedade dos colegas do Porto. Em ibidem.

152

Além do próprio Alberto Martins, Jorge Manuel Gouveia Strecht Ribeiro, de Direito, que foi também autor de um comunicado “ao povo de Coimbra”. Em ibidem.

153

João António Simões Ferreira Marques, de Ciências; José Antunes Gil Ferreira, de Medicina; José Luís de Costa Abreu; José Manuel Roupiço, de Ciências; Maria Fernanda Vieira da Bernarda, de Direito. Em ibidem.

154

Ibidem.

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alguns feridos entre os estudantes, depois interrogados e registrados no hospital.156 Esta acção da PSP não deixou de ser criticada pela PIDE, que afirmou ter-se o dia 25 de Setembro transformado “numa jornada de folclore político, com bastonadas, gases lacrimogéneos, manchas de sangue nos passeios, estudantes a receberem curativos no hospital, embora sem gravidade, gritos de miseráveis e assassinos dirigidos à PSP e ainda algumas casas comerciais fecharam para evitarem prejuízos”.157

Sobretudo, evidenciava-se o problema de esta acção ter envolvido civis estranhos aos acontecimentos, os quais depois apresentaram denúncia ao Governo Civil. Havia de facto alguma ambiguidade por parte das próprias autoridades com respeito à utilização da força contra os estudantes. O próprio Ministro da Administração Interna tinha dado instruções no sentido de ser evitado de todas as formas um recrudescimento da crise, descobrindo e reprimindo as novas redes de mobilização que se tinham formado com o fecho da AAC e, sobretudo, impedindo que se publicasse e distribuísse propaganda de qualquer tipo. O objectivo principal era sobretudo “evitar a conjugação dos movimentos na altura da campanha eleitoral”158.

Ao mesmo tempo, apelava às forças da ordem para que, no processo de repressão, fossem respeitados os artigos 16 e 24 do decreto-lei 37.447 de 13 de Junho de 1949159, que regulamentava o exercício de associação, “de forma que as acções se desenvolvam com estrita observância da lei e com obediência das regras processuais”. Como salienta Diego Palácios Cerezales (Palácios Cerezales, 2008), o uso da violência por parte das forças da ordem devia, também num regime autoritário, ter em consideração os custos, a nível de opinião pública, que uma repressão abertamente agressiva podia implicar. Assim, se por um lado, como já a PIDE tinha afirmado, se devia mostrar aos estudantes a intransigência da resposta das autoridades através de métodos repressivos duros, era importante, sobretudo nos espaços públicos, dar uma impressão de respeito das regras e não envolver outros cidadãos.

Esta difícil calibragem do uso da violência e a exigência de equilibrar repressão, sanções e eventual transigência criava, naturalmente, alguma divisão entre as elites e entre as próprias forças 156

Relatório da PIDE de Coimbra, 26 de Setembro 1969.em IAN/TT-PIDE/DGS-SC-SR-3529/62-3364-Pt.152, folha 13.

157

Ibidem.

158

Relatório da PIDE de Coimbra, 2 de Outubro 1969, em IAN/TT-PIDE/DGS-SC-SR-3529/62-3364-pt.153, folha 470. Informações sobre os acontecimentos de 25 de Setembro eram também difundidas por um boletim da Rádio Portugal Livre, com mais ou menos as mesmas indicações e interceptados pelos Serviços de Escuta da Legião Portuguesa a 30 de Outubro 1969, em IAN/TT-PIDE/DGS-SC-SR-3529/62-3364-pt.153, folha 442, 30 de Outubro 1969.

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O Decreto tinha sido feito publicar por Salazar na altura da mobilização do MUD e da campanha eleitoral das presidenciais de 1949 e regulava a apreensão de publicações e o encerramento das tipografias “que imprimam publicações, manifestos, panfletos ou outros escritos subversivos que possam perturbar a ordem pública”. O mesmo diploma estabelecia que “serão apreendidos, revertendo para o Estado, as respectivas máquinas e restantes bens móveis”.

da ordem. Por exemplo, nesta altura notava-se uma certa abertura por parte do Reitor, António Jorge Andrade de Gouveia, que permitia a realização de reuniões com o argumento, referido pela PIDE, de que “os estudantes não doutrinavam a ninguém se não a si próprios e não molestavam as pessoas”160. Com frequência, depois estas reuniões eram interrompidas pela PSP, numa dinâmica em que a PIDE se achava com efeito isolada e sem a ajuda necessária por parte das outras polícias, das autoridades académicas, do Governo Civil e lamentando estar a combater “uma batalha ingrata”.161

O problema da coordenação entre as forças da ordem reemergia a respeito da realização dos cortejos de 25 de Novembro para a celebração da “tomada da Bastilha”. O receio que este evento pudesse ser transformado numa agitação de massa devia-se ao efeito que podia ter entre os estudantes a prisão e o processo do colega de Direito Marcelo Curado Correia Ribeiro, cuja captura se ligava aos eventos da primeira época de exames. Muito provavelmente, Correia Ribeiro