Algumas dinâmicas internacionais
As autoridades portuguesas mantinham durante os últimos anos do regime uma atenção constante relativamente às dinâmicas contenciosas que se estavam a desenvolver no estrangeiro, sobretudo através de informações enviadas pelos serviços secretos dos outros países. De facto, a polícia política sabia que factores e repertórios de mobilização facilmente atravessam as fronteiras nacionais através de mecanismos de difusão difíceis de impedir, sendo assim melhor tentar preveni-los. Uma nota dos serviços secretos franceses, de 3 de Julho de 1969, referia-se ao movimento estudantil na Europa e às suas ligações com os operários. Sublinhava que a colaboração até à unidade entre estudantes e operários, com vista a conduzir acções comuns, era uma das maiores preocupações dos estudantes revolucionários. Em França, este objectivo tinha sido posta em evidência pelos acontecimentos de Maio de 1968, sendo que os “os dirigentes revolucionários franceses vêem mesmo na insuficiência desta ligação o motivo mais importante do malogro relativo à revolta dos estudantes”.253
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Relatório dos Serviços Franceses, 3 de Julho 1969, em IAN/TT-PIDE/DGS-SC-SR-3529/62-3622-PT.146, folha 363.
A nota dos Serviços Franceses inoltrada à DGS observava também que, “no decorrer do movimento de Maio-Junho de 68, a Confédération Générale du Travail (CGT)254 francesa não deu importância especial a esta ligação com os estudantes e constatou-se o contrário: os sindicatos operários comunistas de obediências moscovitas tinham de manter a sua distância na presença de estudantes revolucionários considerados como aventureiros”.255 O jornal comunista Humanité de 3 de Dezembro de 1968, afirmava todavia que a “Union Générale des Ingénieurs et Cadres, UGIC da CGT se reencontrou com a Fédération Nationale des Étudiants du Technique (FNET) filiada na Union Nationale des Etudiants de France (UNEF)”.256 Era assim possível, na opinião dos serviços franceses, que se não se chegava a uma unidade estudantes-operários, se atingisse uma solidariedade entre estudantes e profissionais, como a referida de estudantes técnicos e engenheiros. Outras associações prováveis podiam ser: “estudantes de Medicina com os sindicatos de médicos e de profissões para-médicas; estudantes de Direito com os sindicatos de advogados e de juristas; estudantes de Letras com os sindicatos de professores da mesma disciplina”.257
Segundo os serviços franceses, “a extensão pode mesmo fazer-se mais longe do domínio de ligação estudantes-sindicatos ou associações de quadros ou de profissões liberais, até à ligação entre estudantes de Química e sindicatos operários de indústria, etc.”258. Por outro lado, salientava-se que “o que parece possível nas organizações inspiradas pelo comunismo moscovita pode ser imitado pelos movimentos revolucionários em ligação com as alas esquerdistas”.259 O objectivo declarado pelos serviços franceses, era, assim prestar atenção a todas as tentativas feitas com vista a realizar a unidade de acção estudantes-operários “porque esta unidade pode reforçar o 254
Confédération Générale du Travail, a mais importante das cincos confederações de sindicatos franceses, ligada ao Partido Comunista Francês.
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Relatório dos Serviços Franceses, 3 de Julho 1969, em IAN/TT-PIDE/DGS-SC-SR-3529/62-3622-PT.146, folha 363.
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Ibidem.
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Ibidem.. Foi de facto o que aconteceu em Portugal a partir sobretudo de 1972, com o movimento dos bancários e dos empregados dos seguros, que entrou numa relação de recíproca solidariedade e apoio com o movimento estudantil, sobretudo o do ISCEF.
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Ibidem.. Em Itália, esta ligação já tinha sido teorizada no âmbito das revistas operaístas. As primeiras foram, no princípio dos anos Sessenta, Quaderni Rossi e Classe Operia, que tinham entre os seus principais colaboradores Raniero Panzieri, Romano Alquati, Mario Tronti, Sergio Bologna, Alberto Asor Rosa, Gianfranco Faina e Antonio Negri. Estas primeiras publicações teorizaram também que à reestruturação do capital seguia uma recomposição das classes, assim que a história das lutas era cada vez protagonizada por uma certa figura “dinâmica”. O pensamento operaísta considerava os estudantes força de trabalho em formação, expropriada do próprio conhecimento assim como os operários da fábrica eram expropriados do seu trabalho. Outras publicações operaístas que surgiram nos anos seguintes foram sobretudo: Quaderni Piacentini, La Classe e, já no início da agitação estudantil em 1967, Potere Operaio. Em 1967, Luigi Bobbio escrevia assim, respeito à questão universitária: “A luta contra o projecto de reforma da universidade evidencia pela primeira vez a nível de massa a funcionalização das estruturas universitárias para o desenvolvimento capitalista” (Bobbio, Luigi, “Le lotte nell’università. L'esempio di Torino”, Quaderni Piacentini, n. 30)
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Relatório dos Serviços Franceses, 3 de Julho 1969, em IAN/TT-PIDE/DGS-SC-SR-3529/62-3622-PT.146, folha 363.
poder dos movimentos contestatários”. Sendo difícil uma ligação entre operários e estudantes directa, por causa dos diferentes interesses das duas categorias, era mais provável o caminho da ligação por interesses de áreas profissionais, como se explicou, sendo portanto este ponto a ter que ser mais controlado.
Outro interessante relatório dos serviços franceses analisava mais atentamente a relação entre os movimentos esquerdistas de Maio de 68 e o Parti Communiste Français (PCF). Os Serviços punham em evidência o facto de as organizações comunistas francesas se terem aproveitado dos “ganhos de Maio”, ainda que na altura contestassem a atitude esquerdista do movimento estudantil. A informação de “origem reservada”, relativa à actividade da Federação Mundial da Juventude Democrática (FMJD), datava de 17 de Fevereiro de 1969 e era distribuída aos seguintes organismos: Ministério do Ultramar, Ministério da Educação Nacional, DGS de Angola, DGS de Moçambique, DGS da Guiné, DGS de São Tomé e DGS de Cabo Verde. A Direcção Central da FMJD tinha enviado às organizações filiadas, entre as quais a União Internacional de Estudantes (UIE), um plano de trabalho para 1969, com o objectivo de as mobilizar depois da “paralisia” em que tinham caído. A paralisia era atribuída, por um lado, ao conflito sino-soviético e, por outro, à consequente difusão de grupos extremistas, sobretudo maoístas, castristas, trotskistas e anarquistas. O plano de actividades da FMJD previsto para 1969 não se distanciava muito, em termos de repertórios, dos esquemas tradicionais, definidos pelos agentes franceses como “aplicação da política da União Soviética”. A organização da juventude devia desenvolver, assim, uma propaganda orientada à penetração comunista no meio juvenil, através da utilização de meios apropriados a esta categoria.
Estava prevista também a intensificação destas funções tradicionais por meio de um fortalecimento da cooperação com outras organizações, comunistas ou não. Entre estas últimas, eram incluídas as grandes organizações internacionais como a UNESCO, a FAO e a Organização Internacional do Trabalho (OIT). Na opinião dos agentes franceses, por outro lado, embora estas organizações juvenis comunistas criticassem os “esquerdistas”, elas estavam igualmente “prontas a fazer todo o possível para se apropriarem dos benefícios dos resultados obtidos por aqueles”. Os serviços franceses achavam que se estava assim a passar no plano internacional o que se tinha passado no plano nacional em França, onde a UEC e o Partido Comunista Francês estavam a “obter vantagens das obtidas de Maio, após ter violentamente estigmatizado a acção dos revolucionários de todas as obediências”.260
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Alguns meses antes, tinha chegado outra informação sobre a relação entre comunistas e nova esquerda elaborada pelos serviços italianos. Em Itália, país de origem do operaísmo e onde a ligação estudantes-operários chegou mais longe, tinham nascido vários “comités de fábrica” criados por estudantes, que aproveitavam um ambiente favorável devido aos licenciamentos, pedidos de aumento de salários, renovação de contratos de trabalho, etc. Os estudantes tinham entrado sobretudo em contacto com os operários mais jovens e recém chegados do Sul da Itália, os menos estruturados no sindicato e os mais descontentes com ele. Portanto:
Os operários assim organizados estão no comité de fábrica e contestam não só o patrão mas também o sindicato. Eles insurgem depois em todas as reuniões sindicais contra a fraqueza e as transacções com os patrões. Os estudantes não se limitam à discussão e à contestação teórica, mas levam um apoio material aos grevistas, criando um laço sólido. Os mais dinâmicos são os dirigentes dos grupos maoístas.261
Com respeito aos sindicatos, ligados no caso da CGIL (Confederazione Generale Italiana del
Lavoro)262, ao PCI, os estudantes italianos e os jovens operários levantavam as mesmas acusações de estar ao lado das instituições burguesas. No entanto, as reacções de PCI e CGIL era de inquietação e tentaram reagir “para evitar serem excedidos pela sua esquerda pelos jovens intelectuais”,263 procurando canalizar os movimentos de protesto “e de os ter na mão” com vista a uma eventual exploração ulterior, “mas os chefes do movimento estudantil evitaram a armadilha”, recusando criar, “pela instigação do PCI”, um Movimento de Juventude Nacional.
Os estudantes e a mudança sócio-política
Nas universidades portuguesas o momento político estava numa fase de progressiva complicação, que foi intensificada pelo desencanto provocado pelas eleições do Outono de 1969. Segundo os informadores da DGS, em 1970 existiam nas universidades as seguintes correntes: PCP, grupos marxistas-leninistas, clero e católicos progressistas e movimento de oposição democrática, os quais tinham reflexos na vida política nacional. Tanto o PCP como o CMLP tinham conquistado um grande número de aderentes no ensino universitário, secundário e médio, tendo o número de quadros aumentado significativamente, como a DGS evidenciava: “Recentes averiguações e prisões efectuadas dão-nos uma visão alarmante do aumento do comunismo e filo-
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Relatório dos Serviços Franceses, 18 de Dezembro 1968, em IAN/TT-PIDE/DGS-SC-SR-3529/62-3622- PT.146, folha 150.
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O mais importante sindicato italiano.
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comunismo neste sector”.264 Achava-se também que os quadros genericamente definidos como comunistas ditavam a sua vontade nas estruturas associativas e que esta situação, no caso de não ser reprimida, provocaria uma “agudização do conflito no próximo ano lectivo, com reflexos imprevisíveis”.265
Nesta altura, os estudantes mais ligados ao PCP tentavam fazer um balanço das actividades desenvolvidas e dos “objectivos e limites da luta estudantil”266, sobretudo em relação à questão da reforma que estava a ser elaborada por Veiga Simão. O problema era que posição os estudantes deviam ter com respeito à reforma:
O que têm os estudantes a ganhar em participar na reforma? Numa universidade autoritária com estruturas arcaicas quer de dimensão quer em forma, com professores paternalistas e estudantes que consomem acriticamente, onde o trabalho é individualista, onde a grande luta dos estudantes é no campo da luta pedagógica, onde as Associações de Estudantes tinham timidamente ensaiado os primeiros passos de uma viragem aos cursos entendidos com um alargamento da sua base de apoio, a participação na reforma, para além da liquidação dos sectores mais retrógrados da universidade, permite: liquidação de certas formas de repressão e consolidação das actuais estruturas sindicais; ligações das estruturas sindicais à base estudantil e reconhecimento; consolidação das conquistas da luta estudantil.267
Era uma linha estratégica coerente com a desenvolvida no sector estudantil pelo PCP, pois os grupos mais radicais já estavam a recusar qualquer hipótese de colaboração com as instituições. O aproveitamento dos canais legais disponíveis para a participação e unidade era a pedra angular desta linha. Assim, a participação na reforma era considerada como parte integrante dos objectivos do movimento estudantil, que se traduziria em “um aumento da consciência das massas estudantis” e contribuiria para “desnudar a natureza classista do ensino”.268
Por outro lado, esta participação permitiria a possibilidade de introduzir cadeiras que estimulassem uma “visão crítica da evolução da sociedade e dos mecanismos de produção, analisando a nossa posição como homens e como técnicos”.269 Em conclusão, os estudantes deviam participar na reforma, mas esta participação só tinha significado na medida em que tivesse procurado a “conquista de uma certa forma organizativa de actuação sindical, um controle sobre o que se ensina e o poder de avaliação dos conhecimentos”.270 A participação era considerada um
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Relatório da DGS, 10 de Agosto 1970, em IAN/TT-PIDE/DGS-SC-SR-3529/62-3370, pt.167, folha 254.
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Ibidem.
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“Objectivos e limites da luta estudantil”, folha dos estudantes comunistas, Maio de 1970, em IAN/TT- PIDE/DGS-SC-SR-3529/62-3370-Pt.167, folha 328, Maio de 1970.
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“Reforma na Universidade: algumas questões sobre os objectivos e limites da luta estudantil”, documento do movimento estudantil, Maio de 1970, IAN/TT-PIDE/DGS-SC-SR-3529/62-3370, Pt.167, folha 328.
268 Ibidem. 269 Ibidem. 270 Ibidem.
dos aspectos da co-gestão, assim a proposta do Reitor do IST para que as Associações de Estudantes representassem os estudantes no Conselho Universitário era sim um reconhecimento das associações, mas “através do qual se tentava manter o movimento dentro de certos limites, que não punham em causa o sistema”.271 Além disso, achava-se que esta proposta servia ao Reitor para, através do movimento estudantil, “vencer algumas resistências retrógradas dentro da universidade contra a reforma”.272
Considerava-se também que, no plano da luta sindical dos estudantes, a abolição da Mocidade Portuguesa era uma reivindicação a curto prazo: “o facto de não haver novas reivindicações não significa que a táctica seja de não participar até quando a legislação autoritária não for revogada”273 porque “isso seria ver a participação como uma cedência estudantil face ao Governo, quando é o êxito de uma longa luta”.274 O terceiro ponto considerado era a luta contra o conteúdo classista do ensino. Considerava-se que a função do ensino no sistema capitalista era de formar quadros para a classe dominante e para a sua perpetuação, assim como veicular a ideologia na base do sistema económico e social. Tal situação só podia ser alterada no momento em que “os trabalhadores possuírem o poder económico e político”.275 Seria necessário por enquanto realizar aulas mais participativas com debates e cursos livres abertos a não-estudantes, mas, evidenciava- se que: “A luta contra os conteúdos tinha os limites de toda a luta super-estrutural. O sistema aceitará qualquer ideologia até que não será levada até às suas consequências. Só ligando a frente de luta contra o conteúdo do ensino com outras frentes é que os estudantes poderão avançar na sua prática sindical”.276
Por fim, o quarto ponto averiguava as especificidades da luta operária, camponesa e estudantil. Os limites desta última diziam respeito ao facto de os estudantes “não pertencerem ao sistema de produção e serem burgueses e futuros quadros”.277 Portanto, era necessário estabelecer claramente o contexto da luta estudantil, para a integrar com a luta de classe, sendo uma questão prioritária a da luta contra o conteúdo classista do ensino. Todavia “a visão dos estudantes terá sempre uma marca burguesa, por isso é necessário formá-los politicamente”.278 A posição do PCP convergia com a do Movimento Democrático, que, face à radicalização do ambiente académico, tentou recuperar terreno criando uma organização estudantil própria, o Movimento Democrático Estudantil, que entrava abertamente em competição com os grupos da nova 271 Ibidem. 272 Ibidem. 273 Ibidem. 274 Ibidem. 275 Ibidem. 276 Ibidem. 277 Ibidem. 278 Ibidem.
do- rev
o, mas só por si não teria conseguido este objectivo. Além disso, o documento considerava que:
v vido por uma organização ilegal. Esta organização ilegal não era todavia em oposição à legal.283
esquerda. O MDE formou-se também depois das eleições, que eram consideradas: “a mola impulsionadora, baseada na estrita legalidade que o fascismo foi obrigado a ceder”.279 A razão de existir do MDE era identificada na existência de “um conjunto vasto de problemas mobilizadores”280, capazes de unir na acção estudantes de diversas ideologias. O documento do MDE afirmava que pretender desenvolver todo o trabalho através das AE era impossível, pois “acreditar que o Governo deixará agir pacificamente as Associações de Estudantes assim integradas é acreditar na liberalização”. 281 Sempre segundo este documento do MDE, era oportuno criar assim duas organizações diferentes e complementares, uma para o trabalho legal, outra para o trabalho ilegal: “ser incapaz de criar duas associações diferentes é incapacidade política, aproveitar o já criado é oportunismo, mascarar esta acção com uma linguagem pseu
olucionária é revisionismo de direita”.282
Com respeito aos defeitos do MDE, o documento assinalava sobretudo a questão dos objectivos: “foram menosprezados alguns objectivos progressistas como a luta contra a censura, pela liberdade de reunião e pela constituição de um movimento amplo, aberto e legal”. Todavia, a falta de objectivos claros comprometeu este caminho, provocando falta de acção e suscitando, ao mesmo tempo, o “accionarismo”. Era também uma ingenuidade acreditar que o MDE pudesse derrubar o fascismo, pois o MDE era uma importante frente de luta imprescindível do trabalho que teria derrubado o fascism
O derrube do fascismo exigirá formas de luta que de forma alguma caberá na estrita área da legalidade, mesmo que seja a legalidade democrática, o que representa já um vasto campo imposto ao regime. Essas formas superiores de luta não surgem de forma espontânea, mas exigem uma organização de quadros preparados e decididos, agitação e disposição de massa. Devido ao car cter terrorista do Governo, esse trabalho só poderá ser desen olá
O mesmo documento do MED continuava sublinhando que um dos pontos de maior fricção no interior do movimento era o futuro do Portugal democrático, apesar do ponto comum entre os vários elementos na base do Movimento – formado por proletários, camponeses, pequena burguesia urbana, certos sectores da média burguesia, jovens e intelectuais – era a luta para
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Documento do Movimento Democrático Estudantil (MDE), Janeiro 1971, apreendido pela DGS, em IAN/TT- PIDE/DGS-SC-SR-3529/62-3370, pt.167, folha 160. 280 Ibidem. 281 Ibidem. 282 Ibidem. 283 Ibidem.
des
struir uma rede complexa de comissões com ob
que só podiam ser debatidas no plano ilegal, “a não ser que se qu
assembleias, conquistando assim pela acção uma legalidade que o fascismo não queria
truir o Estado fascista e a restituição das liberdades fundamentais, assim como a liquidação da base económica e social que o sustentava.
Mas “só a revolução popular armada permitirá abater o fascismo”. A tarefa do Movimento Democrático era constituir a unidade entre todos os sectores, mas sem que cada um renunciasse às suas lutas específicas. Neste sentido, o MDE devia organizar um movimento de massa estudantil, “portanto reunir as pessoas à volta de princípios verdadeiramente aglutinadores”, através de iniciativas como, por exemplo, o socorro aos presos políticos, as comissões de amnistia, a reunião de democratas de uma certa freguesia ou de um grupo homogéneo. Os estudantes deviam apresentar “um conjunto de problemas em comum com o povo português, tendo capacidade mobilizadora”,284 sendo também necessário “con
jectivos concretos”. Assim, ainda que o MDE não devesse fechar-se em si, ele tinha principalmente que mobilizar a massa estudantil.
Além disso, era importante que o MDE surgisse “de baixo para cima”, envolvendo muitas ideias e posições políticas e ideológicas, assim como diversas sugestões, a fim de garantir sempre a máxima participação de todos, “deve sempre ser considerada a maioria e não a minoria, nega-se o dirigismo, ainda que deva existir um centro decisional”.285 Contudo, a livre manifestação de todas as posições políticas não significava que se confundissem os planos e que pudessem ser tratadas de forma pública questões
eira fornecer à DGS prisões fáceis”. Era também de evitar a atitude provocatória, que muitas vezes era obra da própria DGS.
Sublinhava-se a oportunidade de haver uma multiplicidade de objectivos concretos, a fim de interessar e mobilizar o maior número de estudantes. O principal destes objectivos era o fim da guerra colonial e a independência das colónias. Era um objectivo com o qual o MDE afirmava ter tido algumas dificuldades, sobretudo com respeito à definição de tarefas concretas.286 Para o futuro portanto, o movimento deveria mobilizar sobretudo através das seguintes acções: exigir a abertura de negociações com os movimentos de libertação, a revogação de lei militar, o fim da pena de morte para os desertores, o fim da censura sobre a guerra, a vinculação às decisões da ONU, o debate a nível nacional, a redução das despesas militares. Era finalmente necessário “arrancar cartazes fascistas, fazer abaixo-assinados, realizar debates, mesas redondas, colóquios e