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ADC: intertransdisciplinar, autocrítica, reflexiva

2 PARA DEMARCAR O TERRITÓRIO DA PESQUISA

2.2 ADC: intertransdisciplinar, autocrítica, reflexiva

A expressão “análise de discurso crítica” foi usada pela primeira vez por Norman Fairclough em um artigo publicado no Journal of Pragmatics, em 1985 (MAGALHÃES, 2005). Por causa disso, da abordagem tridimensional do discurso e da Análise do Discurso Textualmente Orientada (FAIRCLOUGH, 2001), esse autor é considerado o criador da Análise do Discurso Crítica (ADC). Magalhães (2005), entretanto, nos informa que a ADC é um campo disciplinar reconhecido por causa do trabalho sistemático de vários outros estudiosos:

Fairclough, numa série de obras (Fairclough 1989, 1992, 1995a, 1995b, 2000, 2003); Wodak 1996; Chouliaraki e Fairclough 1999; van Dijk 1985, 1986, 1998. A contribuição principal de Fairclough foi a criação de um método para o estudo do discurso e seu esforço extraordinário para explicar por que cientistas sociais e estudiosos da mídia precisam dos linguistas (Fairclough 1989, 2001; Chouliaraki e Fairclough 1989). (MAGALHÃES, 2005, p. 3)

Semelhantemente, Wodak (2004, p. 227) conta que a ADC se firmou no início dos anos 1990, como uma “rede de estudiosos” (e não como uma disciplina): um grupo internacional, heterogêneo e unificado, que, após um pequeno simpósio, se reuniu por dois dias. Eram eles: Teun van Dijk, Norman Fairclough, Gunther Kress, Teo van Leeuwen e ela própria. Nesses dois dias, esses estudiosos discutiram teorias e métodos da ADC, com abordagens distintas que persistem na ADC até a atualidade. Com base nessas discussões, o grupo chegou ao consenso de definir a linguagem como prática social, o que é uma perspectiva bastante diferente daquela visão sistêmica que a considera como “representação do mundo e do pensamento” e à qual a ADC se opõe.

Diferentes projetos tiveram continuidade a partir daí, como o lançamento de revistas e livros a respeito da ADC. Depois, muita coisa mudou, incluindo os pesquisadores envolvidos. Não obstante, inúmeros encontros internacionais e a adesão de cada vez mais estudiosos de vários países deram continuidade à ADC. Embora críticas tenham sido e ainda sejam feitas à Análise do Discurso Crítica, ela é, hoje, um campo de estudos promissor. Seu enfoque, desde o início, é a intervenção e a mudança social, baseada na análise crítica do discurso como prática social (FAIRCLOUGH, 2001; WODAK, 2003). Essa análise é feita por meio dos textos.

Meyer (2003, p. 50) é um dos estudiosos que aderiram a esse modo de fazer análise de discurso. Ele expõe que a ADC situa sua metodologia mais na hermenêutica do que na tradição analítico-dedutiva, por isso não se pode traçar uma linha clara entre a geração de dados e a análise (MEYER, 2003, p. 50). A própria escritura de um questionário, por exemplo, já se faria com base em uma análise prévia. Para ele — como para Fairclough (2001) —, a ADC deve ser vista mais como um enfoque do que como um método fechado por ser transdisciplinar9, o que pode parecer um paradoxo, para alguns. Por exemplo, um questionamento comum a respeito da ADC é justamente a este: como pode a ADC, visto que é uma disciplina de cursos universitários de graduação e de pós-graduação, ser transdisciplinar? A seguir procuro trazer à tona um pouco dessa reflexão.

Em defesa do pensamento interdisciplinar na ciência moderna, Gusdorf (apud ALVARENGA; SOMMERMAN; ALVAREZ, 2019), contrapõe a especialização do saber disciplinar e fragmentado ao caráter enciclopédico e caracteristicamente interdisciplinar que marca toda a tradição grega que permaneceu até o Renascimento. Retomando Gusdorf e toda a discussão a respeito da interdisciplinaridade que há muito se iniciou, Alvarenga, Sommerman e Alvarez (2019, p. 15), afirmam que na visão interdisciplinar:

Cabe (...) ao novo pesquisador descobrir as interrelações possíveis existentes entre disciplinas próximas e disciplinas mais distantes, tendo em vista instituir práticas interdisciplinares – que signifiquem um chamado à ordem do humano – e alarguem o processo de conhecimento, nas diferentes áreas do saber. Para tanto se apresenta como fundamental a incorporação do pensamento interdisciplinar, o que implica para o pesquisador repensar sua própria formação científica

De acordo com os autores, ao lado da discussão sobre interdisciplinaridade, avanços teóricos e metodológicos ampliam, a partir de meados do século XX, as condições para a emergência do pensamento transdisciplinar, com base em pesquisas desenvolvidas por investigadores como Claude Levi-Strauss, Jean Piaget, Edgard Morin, Cornelius Castoriadis, Miklas Luhmann, Ilya Prigogine , Humberto Maturana, Francisco Varela, Henri Atlan, Jurgen Habermas. Alvarenga, Sommerman e Alvarez (2019, p. 16) expõem ainda, com base em considerações prévias de diversos autores, que a transdiciplinaridade não nega o disciplinar e é da ordem do saber complexo:

a transdisciplinaridade não nega o disciplinar uma vez que parte do disciplinar, mas o relativiza, constituindo-se num saber que organiza diferentes saberes, necessita e propõe o encontro entre o teórico e o prático, entre o filosófico e o científico, apresentando-se, assim, como um saber que é da ordem do saber complexo.

Esses autores defendem, mais que uma abordagem transdisciplinar na área da saúde, uma atitude pluri, inter ou transdisciplinar. Como eles, um grupo cada vez maior de pessoas tem realizado congressos em defesa da transdiciplinaridade, como o Primeiro Congresso Mundial da Transdiciplinaridade de 1994, no Convento de Arrábida, em Portugal. Produto desse Congresso, a “Carta da transdiciplinaridade” (CARTA, 2019), em seu artigo 3, estabelece:

A transdisciplinaridade é complementar à aproximação disciplinar: faz emergir da confrontação das disciplinas dados novos que as articulam entre si; oferece-nos uma nova visão da natureza e da realidade. A transdisciplinaridade não procura o domínio sobre as várias outras disciplinas, mas a abertura de todas elas àquilo que as atravessa e as ultrapassa.

No artigo 4, essa carta expõe: “O ponto de sustentação da transdisciplinaridade reside na unificação semântica e operativa das acepções através e além das disciplinas.” (CARTA, 2019).

No meu entender, pois, a questão da transdisciplinaridade da ADC pode ser considerada do seguinte modo: se pensada como ramo do conhecimento didático, formal e burocraticamente constituído nas universidades, a ADC é uma disciplina; mas, por ser uma área do conhecimento para a qual o mais relevante é a crítica social do discurso e a mudança social, não se limita a conhecimentos prévios de analistas do discurso e ultrapassa os limites das disciplinas (FAIRCLOUGH, 2001). A ADC transpõe limites para articular-se a saberes que atravessam outros campos do conhecimento em seus processos de investigação e análise, sempre que a pesquisa, seu objeto ou objetivos indicarem essa direção — o que a torna transdisciplinar. Esse modo aberto de fazer pesquisa faz da ADC, além de transdisciplinar, também crítica de seus próprios caminhos, de seus próprios direcionamentos prévios.

Em outras palavras, por ser uma área de estudo, a Análise do Discurso tem suas “margens” — pelo menos relativamente — delimitadas, visto que toda área de estudo, como matéria escolar e ramo do conhecimento, o tem. Isso vem sendo assim, desde que o conhecimento foi segmentado para facilitar o trabalho didático em algum dia na história humana (FOUCAULT, 2000b). Toda disciplina tem seu comportamento metódico determinado academicamente pelos seus “fazedores”. A Análise do Discurso não é diferente nesse aspecto. Ela é uma das matérias escolares, por exemplo, de cursos do Instituto de Letras da Universidade de Brasília. Nessa universidade, uma das formas de delimitá-la enquanto disciplina é sua necessária criticidade, conforme o que propõe a Análise do Discurso Crítica e Textualmente Orientada (ADTO), de Norman Fairclough, de seus colegas e de seus seguidores.

Por outro lado, para ser mais clara, a análise de discursos como fazer científico e “método” de análise, a meu ver, pode ser considerada interdisciplinar e transdisciplinar. É interdisciplinar, porque, desde sua criação, estabelece relações com outras disciplinas e outras áreas do conhecimento, num fazer político em busca da mudança social e não apenas linguístico (FAIRCLOUGH, 2001). É também transdisciplinar, pois envolve, atravessa e distribui-se por várias disciplinas, como as da Linguística, da Sociologia e da Psicologia (FAIRCLOUGH, 2001) entre outras, sem querer sobrepujá-las, como propõe a Carta da transdiciplinaridade (CARTA, 2019) acima citada.

Corroborando essa perspectiva, por ser intertransdisciplinar, a ADC se configura como situação e ação além e para lá de qualquer limite disciplinar, visto que seu fazer transpõe os próprios limites da Análise do Discurso, os de outras disciplinas, os das ciências e os dos métodos para associar-se a elas interdisciplinarmente. Ela se transporta para onde for necessário para dar conta de seu objeto de estudo — o discurso — e atingir seu objetivo — a mudança social. A Análise do Discurso é, pois, mais que disciplina, uma interação entre disciplinas. Abrangendo os diversos ramos de conhecimento humano, ou seja, em sua intertransdisciplinaridade, a análise de discursos é uma ação que desconstrói as posições do próprio sujeito cientista, pois é ele próprio questionável em seus posicionamentos e motivações, dados seus lugares de fala ideológicos (ORLANDI, 2001) e as incontáveis vozes interdiscursivas a falarem atrás de suas costas, como diria Mey (2000).

Rajagopalan (2003, p. 48) propõe uma linguística aberta à mudança, ao dizer que “é preciso rever algumas de nossas certezas, ainda que, em razão de terem sobrevivido sem contestação anos a fio, muitas delas possam hoje estar gozando de um ‘status’ privilegiado, comparado a dogmas inquestionáveis que norteiam seitas e outras formas de controle de massas”, o que também é aplicável à ADC. O autor se refere, aí, à postura da linguística que ele chama de tradicional, entretanto, isso serve para qualquer campo do conhecimento. Rajagopalan (2003, p. 47) critica o modo “como os pesquisadores que compõem determinada comunidade científica organizam sua própria conduta, disciplinando seus membros, impondo limites a sua liberdade de ação e de pensamento, enfim, decidindo de antemão quais as perguntas procedentes que podem ser levantadas”.

Como propõe ainda Rajagopalan (2003), para ser crítico, o fazer científico tem de ser autofágico. Entendo, pois, que a autofagia seja necessária à ADC, pois ser crítico pressupõe escolhas ― então admite diversidade, variedade, ambivalência e, portanto, novos modos de pensar a análise discursiva textualmente orientada. Como propõem Vieira e Resende (2016, p.

20): “a ADC, como campo de investigação do discurso em práticas contextualizadas, é heterogênea, instável e aberta”, ou seja, intertransdisciplinar. Considerando desse modo, a ADC é crítica de suas próprias práticas, visto que ser crítico não é seguir ipsis literis uma teoria dada, mas ter certa postura transformadora que inclui a disposição de se autorreformular pela reflexividade. O que a torna uma disciplina crítica não é apenas o potencial modificador do mundo de seus agentes; para ser crítica, a análise de discursos também precisa de, necessariamente e acima de tudo, ser crítica de si mesma. É esse o caminho que esta tese procura trilhar.