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CAPÍTULO 4 – A ANÁLISE DOS REGISTROS

4.2 Representações acerca de Identidades Étnicas

4.2.1 Negritude e suas representações

4.2.1.2 Adjetivando

No que segue, são analisados os registros gerados a partir de uma atividade que envolvia a elaboração de frases contendo adjetivos referentes a diferentes figuras, nos moldes como descritos a seguir:

os pontos conflituosos das relações étnicas e minimizar questões como racismo e desvantagens sociais no país.

ATIVIDADE 8

Atribua dois adjetivos para cada uma das figuras abaixo. Em seguida, escreva uma frase utilizando pelo menos um dos adjetivos que você atribuiu a cada uma delas.

FIGURA 1 FIGURA 2

FIGURA 3 FIGURA 4 FIGURA 5

Listo abaixo algumas das frases produzidas pelos sujeitos de pesquisa nesta atividade devido a sua representatividade no corpus gerado para a pesquisa em pauta.

Figura 1

(a) Negro é considerado perturbador na sociedade. (b) Desordeiro, sendo corrigido, o negro é um desordeiro. (c) O negro está sendo corrigido pelos policiais.

(d) Policial mantendo a ordem na sociedade. (e) Policiais usando a violência para manter a ordem.

Figura 2

(a) A mulher é negra, porém atraente.

(b) Uma mulher bonita e bem apresentável, apesar de sua cor. (c) Mulher negra que está alegre porque conseguiu um emprego. (d) Mesmo sendo negra, também quero meu lugar ao sol.

Figura 4

(a) As crianças, mesmo com sua cor, parecem estar felizes.

(b) Negros felizes, pois são crianças e apesar do sofrimento, das deficiências, brincam.

No que se refere ao conjunto de enunciados referentes à Figura 1, chamou a atenção a freqüência de enunciados produzidos em que a carga semântica remetia a um único sentido: à pessoa do negro como aquele que impediria que a ordem social fosse mantida e que, portanto, precisaria ser corrigido pelo homem branco. Daí a repetição de termos qualificativos como desordeiro, perturbador para descrever o rapaz que aparece sendo agredido pelos policiais na foto. Observe-se que mesmo nos enunciados em que não se faz menção direta ao rapaz negro, como nos enunciados (d) e (e), os mesmos atributos negativos estão implícitos: (d) Policial mantendo a ordem na sociedade (porque ela foi perturbada pelo rapaz negro...) e (e) Policiais usando a violência para manter a ordem (já que ela foi perturbada pelo rapaz negro...). Não foi encontrado no elenco de frases construídas

tendo por foco a Figura 1, nenhum enunciado que remetesse à possibilidade de que o rapaz estivesse sendo agredido injustamente, de que os policiais estivessem fazendo uso de violência injustificadamente: o negro foi, repetidamente, representado como aquele que apanha porque “fez por onde”, porque mereceu. Coloca-se discursivamente em funcionamento, assim, o expurgo do outro, “uma estratégia que envolve a construção de um inimigo, seja ele interno ou externo, que é retratado como mau, perigoso e ameaçador e contra o qual os indivíduos são chamados a resistir coletivamente ou a expurgá-lo (THOMPSON, 1995, p.87). E vai-se, simultaneamente, contribuindo para a validação do discurso racista, como apontado por Van Dijk (2008), através da ênfase dada às qualidades negativas do Outro e às qualidades positivas do Nós. O cuidado em se evitar a eventual possibilidade de que o Nós possa ser interpretado negativamente, fica claro no enunciado (b) Desordeiro, sendo corrigido, o negro é um desordeiro. Observe-se a escolha do verbo utilizado pelo educador que o redigiu – tivesse ele escolhido usar “sendo espancado”, “sendo agredido”, a imagem positiva dos policiais brancos, mesmo tendo sido o rapaz negro retratado por duas vezes como desordeiro, ainda assim poderia ficar rarefeita, daí a decisão de se fazer uso de “corrigir”. A apassivação presente nesse enunciado, assim como em (c) O negro está sendo corrigido pelos policiais , também serve para dificultar a possibilidade de os policiais brancos aparecerem em uma posição pouco elogiosa: ao cingir o negro à posição de sujeito, o sujeito da ação, isso é, os policiais – ou a sociedade, já que eles são vistos como “os olhos de todos” – se torna nebuloso, enquanto o negro, por outro lado, é colocado em posição que poderia ser interpretada como de co-responsabilidade pela ação praticada.

No que se refere às asserções construídas para as Figuras 2 e 3, revelou-se surpreendente a frequência de uso das conjunções adversativas, tais como utilizadas em: A mulher é negra, porém atraente / Uma mulher bonita e bem apresentável, apesar de sua cor

/As crianças, mesmo com sua cor, parecem estar felizes / Negros felizes, pois são crianças e apesar do sofrimento, das deficiências, brincam. Assim como analisado na subseção anterior, aqui também os traços fenotípicos associados à negritude60 são representados

60 É importante esclarecer que a negritude não deve ser entendida, como esclarece Samsone (2003), como

como marcas negativas, como máculas que predisporiam as pessoas a serem tristes, pobres, sem beleza, com deficiências, a terem dificuldade de encontrar emprego. Quando não parecem sê-lo, essa condição de excepcionalidade é marcada sintaticamente (“porém”, “mesmo com”, “apesar de”). Observe-se, além disso, que a representação do negro como alguém não merecedor de ocupar um lugar confortável na escala social é reiterado mesmo quando o próprio enunciador se classifica como tal: Mesmo sendo negra, também quero meu lugar ao sol. Não causou surpresa, na verdade, o fato de algumas das asserções racistas encontradas no corpus analisado terem sido feitas também pelos cursantes pardos e negros, já que, como explica (GOFFMAN, 1963), o “defeito” atribuído ao estigmatizado faz com que ele, com freqüência, reafirme o estigma recebido, em uma estratégia de auto-proteção, de defesa.

A naturalização de atributos preconceituosos faz com o que esses pré-julgamentos sejam interiorizados pelos próprios sujeitos alvos de depreciação, afetando negativamente suas identidades, suas consciências, pois essas são moldadas pela expectativa da sociedade: afinal, “a sociedade determina, não só o que fazemos, como também o que somos” (BERGER, 1986, p.106).

Há que se considerar, ademais, um certo estoicismo atribuído às construções de negritude observadas, como pode ser percebido em Negros felizes, pois são crianças e apesar do sofrimento brincam. A esse respeito, Souza (1993) afirma que se o discurso sobre o negro tende a enfatizar, por um lado, a passividade da “raça” - como visto na subseção anterior -, por outro, nele o negro é antagonicamente também representado como corajoso, como aquele que não se deixa abater diante das vicissitudes que tem que enfrentar, bem à imagem de Zumbi. Segundo o autor, o projeto atual de afirmação da subjetividade negra repudia, não apenas a imagem projetada do negro dócil, mas também “a folclorização da memória referente a Palmares” (SOUZA, 1993, p. 60).

É importante esclarecer que manifestações de racismo foram observadas no corpus pesquisado, não apenas em produções escritas decorrentes das atividades propostas ao

culturais (no Movimento Hip Hop, por exemplo) localizados em seus grandes centros urbanos – sujeitos que assumem para si uma identidade negra, e têm essa identidade reconhecida como legítima, embora não sejam afro-descendentes. Assim, a identidade, insiste o autor, tem que ser sempre entendida como um construto ideológico.

longo do curso, mas também durante interações em sala de aula, como se pode observar a seguir.

Em um dos encontros com os cursantes, surgiu a questão das cotas em universidades para as minorias étnicas do país, um assunto bastante polêmico e que rendeu muita discussão entre os presentes. O que segue é um trecho da interação ocorrida nesse dia.

Cida: Eu acho que então as universidades deveriam ter um percentual de vagas para as pessoas mais carentes poderem estudar, mas eles precisam atingir o mesmo nível de notas, de aproveitamento. O meu filho fez na Federal e vários entraram pelo sistema de cotas, mas quem entrou no curso por notas, todos se formaram... porque não é só entrar... porque tem despesa, material... os que conseguiram chegar até o final foi uma MINOria... Andressa: Eu tenho uma prima BEM morena, bem bastante. Até então, ela não se aceitava... Se ela tinha oportunidade de dizer que ela era branca, ela diZIa... Aí, quando surgiu a oportunidade dela fazer um concurso que tinha uma vaga pra parda, ela fez... Passou em PRIMEIro lugar, assumiu a vaga. Era a oportunidade que ela tinha... E agora por conveniência ((ela se assume como parda))... Aí eu tirei uma dela ((rindo)) “E aí, sua neguinha?”

Chama a atenção o modo como Andressa constrói o vocativo utilizado em sua narrativa, revelando, assim, uma certa postura racista. Em primeiro lugar, é preciso atentar para o fato de que o termo “neguinha”, no enunciado em questão, não exerce a função de um substantivo, como, por exemplo, em “E aí, professora?”. E embora seja sabido que a forma diminutiva dos adjetivos em português pode ser utilizada para expressar carinho (Que bebezinho lindo!) ou desdém (Eu ainda vou dizer umas verdades para aquela mulherzinha!), o fato de o termo “neguinha” ser precedido de “sua”, sugere fortemente que ele esteja sendo utilizado como um adjetivo pejorativo - não é comum se dizer, em português, “sua inteligente”, “sua sábia”. A fórmula “sua + adjetivo” é quase sempre utilizada para desqualificar o alvo da adjetivação (“sua idiota!”, “sua burra!”). Quando se

considera o contexto de enunciação, portanto, o sentido de “E aí, sua neguinha?”, a expressão “sua neguinha” seria sinônimo de “sua dissimulada”, “sua mentirosa”. A atribuição de um sentido derrogatório ao adjetivo “neguinha”, torna racista o vocativo empregado.