1.2 Antecedentes da Pesquisa
1.2.2 O contexto afro-descendente, a memória e o presente vivido: esse “outro”
Meu olhar, não apenas como professora, mas também como pessoa, sempre esteve atento a situações por mim vivenciadas. Lembro-me que quando criança tinha uma certa pena das situações que eu presenciava em que os adultos tripudiavam a imagem do Nego Bento, senhor alto, forte que andava sempre de pés descalços o que faziam seus pés parecerem enormes. Pediam para que ele cantasse a música Pombinha Branca para dar-lhe alguns goles de pinga. Ele cantava e ficava contente com o “agrado”. Lembro-me também que minha mãe e outras senhoras do município lhe davam alimentos, os quais ele carregava em um saco de ráfia. Eu não tinha medo do Nego Bento, mas muitas crianças eram incitadas a ter. Havia também Parmirinha, uma senhorinha de cabelos que hoje chamariam de Black Power. Minha irmã mais velha, quando percebia meus cabelos desalinhados, sempre dizia: “Vá pentear os cabelos, Parmirinha...”. Eu a avistava, às vezes, com uma grande trouxa de roupas que ela ia lavar no rio. Não era raro, quando havia teimosia por parte das crianças, dizerem em tom de ameaça: “Ó, que vou chamar a Parmirinha!”. Ou, quando teimávamos em colocar os calçados: “Ó, que seus pés vão ficar como os do Nego Bento!”. Desde muito cedo presenciei situações que degradavam a figura do negro. Mais tarde, na escola, não me lembro de ter tido nenhum colega negro; havia, sim, alguns mulatos, como a Sandra, que sempre reclamava do feitio de seu nariz.
Em um passado mais recente, lembro-me que um dia minha filha chegou da escola e comentou: “Minha professora de inglês não gosta de negros...”. Lembro-me também de uma outra fala sua quando foi pela primeira vez, na quarta-série, estudar em um colégio privado: “Meus colegas disseram que eu estudava num colégio de preto e pobre...”.
Além do contexto subjetivo, memorial, há-se que considerar que o Paraná é o estado com o maior número de negros no Sul do Brasil, sendo que esses somam mais de 20% da população (VICENTE, 2008). 16A população negra fez parte do processo de colonização da
16 Os dados apresentados e discutidos por Vicente (2008) têm como fonte pesquisa feita pelo IBGE acerca do
Mapa de Distribuição Espacial da População Negra.
região, especialmente, do município onde se situa essa pesquisa. Os primeiros negros, na época cativos, povoaram o território dos campos desse município, juntamente com os colonizadores europeus, por volta de 1859. Sua população cresceu, assim como cresceram as demais, embora as escravarias não fossem tão numerosas (WEIGERT, 2009).
Sabe-se que os negros tiveram participação ativa na constituição na constituição agrária brasileira, não somente enquanto mão de obra escrava: no interior da população campesina havia um contingente de negros significativo após a abolição da escravatura. Há-se que enfatizar, no entanto, que a distribuição de terras e formação agrária foi, segundo Martins (1981), altamente excludentes para com essa parcela da população. A Lei de Terras de 1850 alterou sobremaneira a relação do homem do campo e o meio: aqueles que tinham uma relação natural com a terra, pois nela produziam os frutos de sua subsistência e criavam seus filhos, se viram destituídos de sua posse. A Lei de Terras, explica o autor, reservou o critério de “posse da terra” para os capitalistas do campo, para os “senhores fazendeiros”, que se viam, então, “empobrecidos”, já que haviam sido forçados a libertar seus escravos. A institucionalização da terra como mercadoria, desestabilizou, sobremaneira, o modo de vida e de relação no campo. Esses processos de exclusão social instaurado no passado ressoa, nos dias de hoje, nas marcas atuais de desigualdade socioeconômicas. A compreensão desse processo histórico e social auxilia-nos a compreender de forma mais clara o presente vivido pela população negra na região aqui focalizada.
É importante esclarecer que, recentemente, comunidades remanescentes de quilombos começaram a se organizar, no município em questão, com o objetivo de conseguir a demarcação das terras quilombolas. Uma destas comunidades recebeu, em 2009, pesquisadores de uma universidade estadual da região para a realização de estudos antropológicos que pudessem apresentar argumentos que comprovassem que a comunidade em questão era “etnicamente diferenciada”. Os relatórios foram entregues ao órgão competente, mas as terras ainda não foram demarcadas. 17Essa comunidade realiza eventos
e festas culturais como forma de recuperar, através de cultos religiosos e comemorações, a
17 Agência Estadual de Notícias. Curitiba. 30/04/2009. Disponível em:
memória de seus ancestrais. A organização da comunidade se dá especificamente pelos mais jovens, que buscam assegurar direitos e reviver as memórias dos mais antigos. O movimento tem forte empenho em afirmar a identidade “afro”, buscando atenuar visões preconceituosas e racistas. Resulta da organização e das ações dessa comunidade quilombola a instalação da primeira escola estadual quilombola do Paraná, que atualmente funciona com 125 alunos.
É relativamente recente o estabelecimento legal sobre o ensino de História e Cultura Africanas nas escolas paranaenses, através da Lei 10.639 de janeiro de 2003, que em seu parágrafo primeiro prevê que os estabelecimentos oficiais e particulares insiram em seus currículos conteúdos pertinentes a temática afro e afro-brasileira:
O conteúdo programático a que se refere o caput deste artigo incluirá o estudo da História da África e dos Africanos, a luta dos negros no Brasil, a cultura negra brasileira e o negro na formação da sociedade nacional, resgatando a contribuição do povo negro nas áreas social, econômica e política pertinentes à História do Brasil.
A Lei prevê também que o calendário escolar inclua o dia 20 de novembro como o Dia da Consciência Negra.
Com o breve relato histórico e social da população negra na região, pretendi, ainda que muito sucintamente, torná-la visível aos olhos do leitor desta tese, visto que a população negra e mestiça compõe a maioria da população do município aqui focalizado. Essa população negra ou mestiça marca esse território: ela compôs e compõe sua história, suas lutas e revoltas,18 suas contradições, os dizeres e fazeres, os causos, as anedotas, as
simpatias, os benzimentos, as suas lendas, como a conhecidíssima “Negrinho do Pastoreio”.19 Todas essas ações históricas, bem como esses saberes que por aqui circulam
são destinados ao esquecimento. Não há lembrança em minha memória infantil, nem mesmo em minha memória presente de que a “escola tenha falado” sobre essas questões,
18 Conforme (MONDARDO, 2008, p. 7) a Revolução Farroupilha e a Guerra do Contestado forneceram
contingentes populacionais negros e caboclos para a região sudoeste do Paraná.
19 A lenda do Negrinho do Pastoreio é conhecida por grande parte da população regional. Diz a lenda que ao
perdermos um objeto devemos acender uma vela com fé e pedir auxílio ao Negrinho do Pastoreio; só assim o objeto perdido será encontrado.
que elas tenham sido postas em discussão em sala de aula. O que faz com que surja a indagação:quem são esses “outros” que estão bem diante dos nossos olhos, da perspectiva dos educadores (gestores e professores) da região investigada? Por que esses atores não dão a devida atenção à negritude em suas escolas?
Foi a tomada de consciência de toda a problemática até aqui descrita que me levou a propor o estudo que serviu de base para a elaboração desta tese, no qual busquei compreender as concepções de alguns dos educadores (gestores e professores) do município em questão, representações estas que podem sustentar suas atitudes em relação à diversidade sociocultural e linguística da região.