CAPÍTULO 2 A INSTAURAÇÃO DO ESTADO: UMA TRANSFORMAÇÃO
2.1. O aparecimento do Estado: a corporificação do invisível no visível
2.1.2. Administrando a heteronomia: a religião e o enraizamento do Estado
Vimos, nas páginas anteriores, como a noção de “passado puro” estrutura a organização dos povos “selvagens” e que as narrativas míticas sobre a origem constitui um ato criador e fundamental para esses povos. Segundo Gauchet, um evento de grande importância e que proporcionou enormes mudanças na escala das subsistências humanas foi a “invenção da agricultura”.246 A agricultura e, ao lado dela, a domesticação dos animais, ocorridas no período neolítico, resultaram em uma enorme transformação material do assentamento humano. Os recursos alimentares que pasaram então a serem produzidos pelo homem proporcionaram um avanço considerável na economia primitiva. A capacidade de produzir os meios de subsistência e de autossustentação inaugurou, em definitivo, o processo de sedentarização das comunidades humanas.
Embora tal inovação, advinda do próprio afazer humano autônomo, tenha tido impacto significativo na organização social como um todo, esta condição de inovação autônoma e contingente sequer foi dada à consciência de seus autores. Isso deve-se à forma mesma de apreensão mítica destes eventos, cuja matriz é, necessariamente, intrassocial. Nesta perspectiva, segundo Gauchet, a “linha das origens”, própria da explicação mítica, também colocou a inovação neolítica sob o registro da dependência e da dívida, ou seja, sob a égide das ações levadas a cabo por heróis ou deuses. Desse modo, neste contexto, toda relação que o homem eventualmente estabeleceu com a natureza pela via de sua ação autônoma foi como tal “radicalmente apagada” e “anulada para a memória social”.247 Assim sendo, mesmo com todas as mudanças advindas da “revolução do neolítico” e do nível de invenção técnica que ela implicou, as sociedades de então permaneceram fiéis à escolha original pela heteronomia.
Sob este aspecto, a configuração de mundo e a organização decorrente da revolução neolítica não deixaram de ser “primitivas”. Elas continuaram em débito com o mesmo modo primeiro de articulação entre a esfera do visível e do invisível, ou seja, fiéis à lógica da despossessão absoluta, à ordem da divisão entre exterior e interior e da indivisão no interior do grupo, garantida por uma forma de religiosidade que nega a autonomia da criatividade humana, atribuindo a origem do cosmos, da lei e da sociedade ao Outro divino. A chave que Gauchet nos oferece para compreendermos a passagem que se dá das sociedades sem Estado para as sociedades com Estado relaciona-se, inicialmente, com os dispositivos próprios da
246 Cf. DC, p. 44.
247 “Innovation a été radicalement effacée comme telle par son report sur la ligne des origines. (...) Annulée pour la mémoire sociale” (CP, p. 79-80).
religião dos “selvagens”. Entre estes, aquele que impede alguém de falar em nome do absoluto. Isto quer dizer que tal dispositivo opera pela dispersão e pela “dessubjetivação inicial do invisível.” Desse modo, “a razão motriz da inteligência mítica é a recusa ativa do horizonte [de possibilidades] de uma totalização do saber no seio de uma subjetividade última”.248
Em função do que expusemos, cabe a pergunta: de que maneira uma análise da religião das sociedades sem Estado poderia nos ajudar na compreensão da emergência do Estado? E como se dá a passagem da indivisão interna para a divisão política, isto é, como surge essa “subjetividade única” que sintetiza o saber e se impõe como autoridade legitíma sobre os demais? Podemos dizer que, na compreensão de Gauchet, a emergência do Estado decorre de uma transformação do discurso e dos dispositivos religiosos originais “primitivos”, operando, assim, uma metamorfose radical e profunda na compreensão do sobrenatural, do invisível. Desse modo, o Estado inaugura uma era na qual torna-se possível o “inverso do que se passa no mundo primitivo,” pois que promove a “identificação humana com o ponto de vista divino, a passagem para a exterioridade das significações instauradoras. Como um homem consegue fazer-se reconhecer como outro dos homens, pergunta-se Gauchet, “emprestando seu rosto à alteridade sem figura, suposto comando do destino de todas as coisas? Como o que está além e acima dos homens chega a tomar forma humana?”249
Tais indagações elaboradas por nosso filósofo indicam o fulcro das metamorfoses do divino que se operaram com a emergência do Estado. O que a “sociedade primitiva” conjurava, a divisão interna e a subjetivação do fulcro da lei. O Estado, através de um correlato humano, consuma e realiza, promovendo assim uma transformação radical da imagem do divino. Isso altera completamente a organização das estruturas sociais e políticas. E, como veremos, doravante, serão definidos novos modos de ação do dispositivo da dívida e, consequentemente, novas formas de relação entre visível e invisível. A partir dessas transformações, os homens, ou melhor, alguns deles, participarão da ordem do divino.
Na concepção de Gauchet, o movimento instaurador da ordem estatal produziu um dispositivo (religioso) que revela o novo perfil da relação com o divino: a “concretização do extra-humano na economia do vínculo inter-humano”, a figura do rei sagrado, porta-voz dos
248 “La règle intérieure des mythologies primitives, ce sera la dispersion, à partir d’une dé-subjectivation initiale de l’invisible (...) La raison motrice de l’intelligence mythique, c’est le rejet actif de l’horizon d’une totalisation du savoir au sein d’une subjectiveté ultime” (CP, p. 81).
249 “À l’inverse de ce qui se passe dans le monde primitif, une identification humaine au point de vue divin, un passage dans l’extériorité des significations instauratrices. Comment un homme parvient-il à se faire reconnaître l’autre des hommes en prêtant son visage à l’altérité sans figure censée commander le destin de toutes choses? Comment ce qui est au-delà et au-dessus des hommes en arrive-t-il à prendre forme humaine?” (CP, p. 85).
deuses, permite aos homens apropriarem-se da imagem do divino. Alguns homens adquirem a condição de partícipes do divino e falam como porta-vozes dos deuses. O visível é assim habitado pelo invisível e corporificado em seu “representante” humano, presença coercitiva no âmbito da sociedade, que encarna o fundamento divino e representa todo o saber que este último proporciona. Agora os deuses encontram-se vivos no âmbito deste mundo terreno, ao alcance daqueles cujo corpo físico constitui, o ponto de aplicação do divino, de sua lei e ordem no interior do assentamento humano.
Criam-se, assim, novas relações sociais e a dominação amplia sua esfera até que surge a perspectiva de um universalismo imperial. A expansão da guerra e outros conflitos de ordem espiritual ou material é, segundo Gauchet, consequência dos desdobramentos da ordem estatal emergente. Nosso autor advoga que “com o Estado entramos na era da contradição entre a estrutura social e a essência do religioso. Instrumento decisivo da captura dos deuses nas redes da história, a dominação política terá sido a alavanca invisível que nos fez oscilar para fora da determinação religiosa”.250 Veremos, a seguir, outros fatores decorrentes da instituição da ordem estatal, através dos quais a força produtiva dos homens é utilizanda como instrumento de sua ação através das esferas política, religiosa, econômica e militar.