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As origens do Estado e a “dívida do sentido”

No documento henriquemarqueslott (páginas 67-73)

CAPÍTULO 2 A INSTAURAÇÃO DO ESTADO: UMA TRANSFORMAÇÃO

2.1. O aparecimento do Estado: a corporificação do invisível no visível

2.1.1. As origens do Estado e a “dívida do sentido”

A religião primeira, como vimos, é a religião da conjunção/separação absoluta entre o visível e o invisível na experiência sócio-humana, processo originário vivenciado pelas sociedades mais arcaicas e sem escrita. É neste contexto e na forma dessa “religião pura” que se estabelece o que Gauchet chama de “dívida do sentido”. Trata-se de uma dívida “que, durante milênios, os homens reconheceram dever aos deuses, que as sociedades quase sempre acreditaram dever às operações dos outros, aos decretos do além ou às vontades do invisível”.220 Segundo nosso autor, esta dívida de caráter religioso nos revelará o vínculo profundo entre a religião e a emergência do Estado, bem como do estabelecimento do “livre jogo das dimensões das articulações do campo social” que a religião primeira neutralizava ou recobria.221

Os homens colocaram-se universalmente como “devedores dos deuses”, ou como devedores dos seres considerados de uma outra dimensão que não a do próprio homem, e nisso reside o fundamento do fato religioso originário, segundo Gauchet. O que se instaura aqui é o vínculo religioso “entre os fundadores-doadores sobrenaturais e os viventes que se querem herdeiros-devedores dos sistemas de articulações originárias, capazes de produzir o espaço social”. Encontrar-se-iam nessas mesmas articulações as potências embrionárias do Estado? Para o pensador francês, “a instauração do Estado corresponde não à produção de

       219 Cf. CP, p. 45.

220 “Que durant des millénaires les hommes ont reconnu devoir aux dieux, ce que les sociétés ont à peu près toujours cru devoir aux opérations des autres, aux décrets de l’au-delà ou aux volontés de l’invisible” (CP, p. 45).

uma dimensão social absolutamente inédita, mas à transformação de uma dimensão já presente no seio da sociedade”.222

Com a emergência do Estado, “a essência do religioso e seu lugar no social metamorfoseiam-se pouco a pouco.”223 Entretanto, é a reflexão acerca da originária dívida do sentido que nos permitirá situar, de acordo com Gauchet, a “estrutura última de organização social, da qual o Estado não é senão uma materialização particular e a religião, uma expressão especial”.224 A dívida de sentido identifica-se, na realidade, com esta estrutura última e universal da organização social, segundo nosso autor, é a dívida constitutiva para com o sagrado. Identifica-se com ela, ocultando-a simultaneamente. Na interpretação de Marc Augé, “a religião assim concebida identifica-se ao que Marcel Gauchet nomeou “‘dívida do sentido’, que corresponderia a um princípio de exterioridade do fundamento social anterior ao Estado. Pela religião, as sociedades ‘primitivas’ projetariam para o exterior delas mesmas a sua razão de ser, o princípio de sua existência; a religião instituiria, assim, a dívida constitutiva do sagrado.”225

O modus operandi da dívida nas “sociedades primitivas” dá-se na forma de um dispositivo que, convém lembrar, é importante notar que, para Marcel Gauchet, esta exterioridade da dívida constitui uma metamorfose religiosa de uma estrutura intrassocial que visa impedir a separação do poder no seio da coletividade. Todavia, essa mesma dívida oculta aquilo que, posteriormente, tornará possível a emergência do Estado. Em outras palavras, a “dívida de sentido constitutiva” que, por um lado, impede a divisão política no interior da sociedade, por outro, vai se revelar como uma empresa fundante sob a forma de Estado. Para o autor, será preciso, pois, saber onde e como procurar os fatores desencadeadores que permitiram o livre jogo dessa empresa fundante e, consequentemente, a emergência do Estado. Como já sugerimos, devemos procurá-los, segundo Gauchet, especificamente nessa dimensão já presente em toda e qualquer sociedade: a “dívida para com o sagrado”.

Nas “sociedades primitivas”, a dívida trabalha contra a separação do poder; nas sociedades de organização estatal, a dívida serve para legitimar o poder. Trata-se, pois, de       

222 “Entre les fondateurs-donateurs surnaturels et les héritiers-débiteurs qui se veulent les vivants jusqu’au système des articulations originaires capables de produire un espace social (...) L’instauration de l’État correspond non pas à la production d’une dimension sociale absolument inedited, mais à la transformation d’une dimension déjà présente au sein de la société” (CP, p. 46).

223 “L’essence du religieux et sa place dans le social, se sont peu à peu métamorphosées.” (DC, p. 41).

224 “Structure ultime de l’organisation sociale dont l’État n’est qu’une matérialisation particulière, comme la religion elle-même n’en constitue qu’une expression spéciale” (CP, p. 45).

225 “La religion ainsi conçue s’identifie ce que Marcel Gauchet (1977) a nommé ‘la dette du sens’, qui correspondrait à un principe d’extériorité du fondement social antérieur à l’État. Par la religion, les sociétés ‘primitives’ projetteraient à l’exterieur d’elles-mêmes leur raison d’être, le principe de leur existence; la religion istituerait ainsi la dette constitutive du sacré” (Marc AUGÉ, Génie du paganisme, p. 37).

uma “estrutura primeira do fato social que se indica através dessa dívida do sentido, um princípio dinâmico sob pressão, do qual se efetuará a passagem de uma economia de poder a uma outra”.226

No entanto, é mister observar que, embora as potências embrionárias do Estado já estejam virtualmente presentes na estrutura última e fundante da organização social, na dívida constitutiva para com o sagrado, a emergência mesma do Estado constituiu por si só um acontecimento radical, um divisor irreversível da história humana em duas, em um antes e um depois do Estado.227 Mas em que consiste basicamente esse acontecimento? Para Gauchet, “desde o aparecimento, por volta de 3.000 antes da era cristã, disso que nós chamamos de ‘Estados’, [e que,] por um anacronismo do qual devemos particularmente nos lembrar aqui, entendemos ser os aparelhos de dominação institucionalizada, o eixo [da] união do visível e do invisível é o poder separado.”228 Poder-se-ia dizer que o aparecimento do Estado consistiu a “introdução de uma divisão entre dominantes e dominados no seio da sociedade”.229 Estabelece-se assim, uma diferenciação entre os membros de uma mesma comunidade: uns (os “dominantes”) apesar de iguais aos demais (os “dominados”), abrigam uma “natureza diferente”. Com isso adquirem um poder especial e uma legitimidade que lhes permite, de certo modo, decidir sobre todos os demais.

Na concepção de Gauchet, é o “diferente” das sociedades sem Estado que nos “permite, em sua radicalidade, uma colocação em perspectiva disso que costumamos chamar ‘as grandes religiões’”230 as quais surgem contemporaneamente ao processo de emergência do Estado. As sociedades sem Estado representam o que seria o início de uma história da religião. O pensamento “selvagem” é um primeiro entendimento do religioso, com base na compreensão mítica de mundo. A partir dessa premissa, é possível considerar que “as mitologias das primeiras grandes formações despóticas aparecem sensivelmente melhor fixadas, mais organizadas e, talvez, ainda mais penetradas por um sentido propriamente espiritual do que as produções do pensamento selvagem, móveis e enraizadas no sensível”.231

      

226 “Dimension d’extériorité (...) que l’on rencontre dans toutes les sociétés antérieures (...) Structure première du principe dynamique sous pression duquel s’efectuerait le passage d’une économie du pouvoir à une autre” (CP, p. 48-49).

227 Cf. DM, p. 28.

228 “Depuis l’apparition, autour de 3000 avant l’ère chrétienne, de ce que nous appelons des ‘États’, par un anachronisme dont il importe particulièrement ici de se souvenir, entendons des appareils de domination institutionnalisés, le pivot de cette union du visible et de l’invisible est le pouvoir séparé” (RM, p. 52).

229 “L’introduction d’une division entre dominants et dominés au sein de la société” (CP, p. 46). 230 “Une mise em perspective de ce que l’on a coutume d’appeler les ‘grandes religions’ (DM, p. 26).

231 “Les mythologies des premières grandes formations despotiques paraissent-elles sensiblement mieux fixées, plus organisées, davantage pénétrées peut-être d’un sens proprement spirituel que les productions mobiles et enracinées dans le sensible de la pensée sauvage” (DM, p. 26).

Para nosso autor, não há dúvidas de que o Estado emerge de uma correlação intrínseca entre religião e conflito. O aparecimento do Estado na história constituiu uma extraordinária mudança na forma do assentamento humano, produzindo, assim, um segundo estágio da despossessão religiosa originária e própria da religião primeira. Este segundo estágio da despossessão religiosa revela uma metamorfose completa, na qual “a divisão dos senhores do sentido para com o comum dos mortais começa por passar aqui entre os homens, mas entre presentes e ausentes, entre os vivos visíveis e os senhores do além, de tal modo que, sujeitos do invisível, os homens o são todos igualmente”.232

Com o Estado surge uma forma totalmente nova de organização da estrutura social e de se estabelecer relações com o foco do sentido ou da lei. O que muda substancialmente é o tipo de divisão social que a instauração do Estado impõe, na qual a alteridade se corporifica no interior da comunidade, dimensão física dando corpo à “autoridade do fundamento invisível entre os vivos-visíveis”.233 Cria-se, assim, um tipo de indivíduo possuidor de uma “natureza diferente”, cuja existência assinala e consubstancia “um outro sentido do homem para o homem”.234 “Rei Sagrado” será o nome desse indivíduo de “natureza diferente”, ou dessa instituição que corporifica o fundamento religioso.

Com o Estado eclode também um novo tipo de consciência religiosa surgida no período axial, isto é, por volta de meio milênio a. C., abre-se o caminho para as primeiras reflexões que poderíamos chamar de “teológico-metafísicas”. Tais reflexões se caracterizaram como formas de transcendência e promoveram uma verdadeira revolução espiritual. No contexto dessas mudanças e transformações sociais das quais emerge o Estado, surgem elementos que possibilitarão o advento dos que, como veremos, representam, para o pensador francês, “grandes impulsos em direção a uma saída da religião”.235 Será preciso seguir investigando, aqui, qual é o tipo de relação que se estabeleceu entre a religião e o Estado nos seus primórdios. Devemos investigar também, o papel que a religião desempenhou para que fosse possível o nascimento do Estado. Segundo Gauchet, “a religião foi historicamente a

condição de possibilidade do Estado”.236

É do longo trabalho de base realizado pela religião, particularmente aquele em que ela identifica o invisível como fonte da lei e o instala paulatinamente, na esfera visível do social,

      

232 “La scission des maîtres du sens d’avec le commun des mortels ne passé pas ici entre les hommes, mais entre présents et absents, entre les vivants visibles et les maîtres de l’au-delà de telle façon que sujets de l’invisible, les hommes le sont tous également” (CP, p. 47).

233 “Altérité et l’autorité du fondement invisible parmi les vivants-visibles” (RM, p. 52). 234 “Un autre sens de l’homme pour l’homme” (CP, p. 48).

235 “Grandes poussées en direction d’une sortie de la religion” (DM, p. 27).

por intermédio da instituição do rei sagrado que emerge o Estado. Trata-se de uma verdadeira inovação religiosa, que foi capaz de engendrar as dimensões instituidoras do Estado através das metamorfoses dos depósitos iniciais da dívida de sentido em face do heterônomo. Para nosso filósofo, “as afirmações da autonomia não deixaram de compor, em todos os momentos, com a instância da estruturação heterônoma”.237 Ou seja, nesse sentido, “o

fundamento do Estado é o mesmo que o da religião”.238

Através da exterioridade simbólica da “religião primitiva”, a sociedade trabalha contra qualquer tipo de instauração personificada de uma autoridade política. Ou seja, trabalha com vistas à indivisão no interior da comunidade humana. Nenhum indivíduo pode passar para o lado do fundamento, isto é, ninguém pode incorporar a fonte exterior do sentido pelo qual a sociedade se tem como devedora. Esta exterioridade impõe uma cisão constitutiva entre a sociedade e o seu fundamento exterior, uma cisão que promove uma consagração a Outro, o qual é sempre identificado com “as potências invisíveis que comandam o visível” e às quais todos se submetem porque são intangíveis.239 Essa divisão que se instaura entre visível e invisível exterior, entre homens e seres sobrenaturais, tem a peculiaridade de ser uma

despossessão comum que impede a divisão entre os homens. É uma divisão que a religião

realiza entre o mundo terreno visível e o mundo do além invisível, imponderável e inatingível, impedindo, simultaneamente, a divisão social.

Esse dispositivo de divisão religiosa, que se verifica nas “sociedades primitivas”, é o que Gauchet considera como uma autêntica despossessão costumeira. Tal despossessão irá, no entanto, se inverter em dado momento da história humana. A partir desse movimento de inversão, abre-se a possibilidade de uma participação do homem nos desígnios do além. Desse modo, “o déspota [rei sagrado] instalado no cume da pirâmide humana e penetrado de grandeza divina supõe garantir por seu poder a perpetuação de uma ordem não menos dada pelo intangível e não menos conferida do exterior do que antes. Com efeito, no plano do

discurso, a dívida e a alteridade permanecem iguais.”240 Todavia, decorre daí um novo tipo de divisão social que demarca duas posições distintas: “de um lado, este ou aquele que participam da essência outra dos poderes do além, de outro lado, a massa ordinária daqueles

      

237 “Les affirmations de l’autonomie n’ont cessé de composer, à tous les moments, avec l’insistance de la structuration hétéronome” (RM, p. 52).

238 “Le fondement de l’État est le même que celui de la religion” (CP, p. 67). 239 “Des puissances invisibles qui commandent au visible” (CP, p. 64).

240 “Le despote installé au sommet de la pyramide humaine et pénétré de grandeur divine est supposé garantir par sa puissance la perpétuation d’un ordre non moins donné pour intangible et non moins conféré du dehors qu’auparavant. Au plan du discours, en effet, la dette et l’altérité demeurent égales.” (DC, p. 44).

que devem se inclinar diante da verdade sobrenatural materializada de algum modo no seio da sociedade”.241

Assim sendo, segundo Gauchet, o nascimento do Estado dá-se em decorrência do dispositivo social original da divisão. Todavia, o processo que permite a emergência do Estado inverte ou vira de ponta-cabeça esse dispositivo. Doravante a divisão instala-se também no interior da sociedade, entre os homens. Deixa de ser apenas divisão com o exterior para tornar-se também uma divisão que se instaura no interior do corpo social. Agora, além da divisão entre os deuses e os homens, existe aquela entre os homens que são de “natureza especial” que comandam os demais. Surge, com isso, a figura do “homem de poder, um ser de dentro, mas atravessado pela diferença soberana do exterior”.242

Esse “homem de poder” nada mais é do que um representante sagrado do invisível, que decide em nome do fundamento e do sentido externos. No corpo do “rei sagrado”, inscreve-se o invisível e sua fala torna-se, agora, lei a exigir a obediência e submissão dos demais. Em outras palavras, “a pessoa desse soberano materializa em seu corpo a invisível necessidade que comanda o visível”.243 A fórmula inaugural, “o sentido vem do outro”, própria da percepção religiosa originária, constitui, na realidade, “o axioma fundamental da exterioridade” que se materializa de modo mais acabado e não menos inaugural na submissão dos indivíduos ao poder expresso pelo déspota ou rei sagrado. Este axioma é justamente o “princípio elementar disso que nós nomeamos dívida do sentido, na qual se enraíza a possibilidade mesma de um governo dos homens pelos homens.”244

É neste princípio elementar que se funda a nova economia de poder representada pela emergência do Estado que, se, por um lado, possibilita uma nova relação com o heterônomo, por outro, institui-se sobre a base dos velhos mistérios. Continua-se, pois, com uma forma originária de pensar a exterioridade e o que se processa como novo é a relação entre o exterior e o interior. Doravante, haverá “dominantes e dominados, aqueles que estão do lado dos deuses e aqueles que não”.245

      

241 “D’un cotê, celui ou ceux qui participent de l’essence autre des puissances de l’au-delà, de l’autre côté, la masse ordinaire de ceux qui doivent s’incliner devant la vérité surnaturelle matérialisée en qualque façon au sein de la société” (CP, p. 65).

242 “L’homme de pouvoir est né, un être du dedans, mais traversé par la différence souveraine du dehors” (CP, p. 65).

243 “La personne de ce souverain matérialisant dans son corps l’invisible nécessité qui commande au visible” (DC, p. 44).

244 “Le sens vient d’autre: axiome fondamental d’extériorité qui trouve son incarnation la plus exemplaire dans la soumission à la figure du pouvoir. (...) Principe élémentaire de ce que nous nommions dette du sens, en lequel s’enracine la possibilite même d’un gouvernement des hommes par les hommes” (CP, p. 68).

No documento henriquemarqueslott (páginas 67-73)