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Adoecimento e Desamparo

2 SOBRE O SUJEITO E A FINITUDE

2.1 Adoecimento e Desamparo

Diante de uma doença muito grave o sujeito se vê ameaçado pela morte, e morrer é sinônimo de fim, o fim de uma existência. O corpo torna-se puro sofrimento, não há nenhuma melhora significativa, somente uma imersão total na angústia.

O sujeito frente a uma notícia de doença mortífera se vê forçado em vida, a confrontar-se com a morte. Poder elaborar tal situação diz respeito ao sofrimento por não poder desejar mais nada para um futuro longo e por esta razão, o que resta da vida é atravessado com muito sofrimento.

Além do sofrimento, o doente vivencia uma “intensa reação de surpresa e de terror, eco afetivo de impacto que a notícia causava, similar à reação de susto” (LABAKI, 2006, p. 18), em que o susto causa uma sensação de invasão no sujeito, idêntica à de quando nos deparamos com o perigo, uma surpresa ruidosa que interrompe a vida do sujeito, deixando cair por terra a fantasia da segurança e da imortalidade.

A morte, estando no contexto do tabu de um estranho familiar, pode ser entendida como a morte negada. É desta forma que ela chega à consciência, pois se esconde em todos os sujeitos uma “ansiedade universal” ligada a esta questão.

Ao se defrontar com a doença grave, o sujeito se vê deslocado de sua posição de “dono de seu destino”, não possuindo mais suas referências enquanto sujeito. Não é mais o “chefe de família”, ou a “mãe que organiza a convivência familiar”, destituindo os significantes que ancoram a subjetividade, é uma certa castração do próprio corpo. Segundo Moura (2003, p. 17), “Adoecer é um momento de crise, de perdas, onde esbarra com o incontrolável e com a fragilidade da condição humana. Então o sujeito humano, que é incompleto, ao adoecer tem sua fragilidade exposta para si e para o outro também;”.

Diante de um acontecimento como esse, de possuir uma patologia que levará à morte, entende-se que só resta desespero, mesmo que diante desse horror a própria morte seria a possibilidade do alívio da dor insuportável, pois, segundo Derzi (2003), morrer seria a única forma capaz de extinguir todas as exigências subjetivas. A partir da tragédia de receber tal notícia, o sujeito experimenta a impossibilidade de conciliação diante desse horror, o que também revelaria ao ser humano seu desamparo e sua condição de ser mortal.

É fundamental considerar a doença e o adoecer como a fonte pela qual a problemática da morte assume lugar de destaque. Neste contexto, faz-se imprescindível refletir sobre como poderíamos pensar a questão da morte, já que há

um impasse entre a irrepresentabilidade da morte no inconsciente e a necessidade de ser trabalhada com o sujeito.

Freud, em seu texto Reflexões Para os Tempos de Guerra e Morte (1915/2006), fala sobre essa atitude tomada com relação à morte, onde revelamos uma tendência de colocá-la de lado para, assim, eliminá-la da vida.

Para Freud (1915/2006, p. 299),

De fato, é impossível imaginar nossa própria morte e sempre que tentamos fazê-lo, podemos perceber que ainda estamos presentes como espectadores. Por isso, a escola psicanalítica pôde aventurar-se a afirmar que no fundo ninguém crê em sua própria morte, ou, dizendo a mesma coisa de outra maneira, que no inconsciente cada um de nós está convencido de sua própria imortalidade.

Os homens das épocas pré-históricas permanecem inalterados em nosso inconsciente, o qual desconhece tudo o que é negativo, bem como todas as negações. Por esta razão, desconhecemos nossa própria morte, ela possui um conteúdo negativo. Mesmo que nosso inconsciente poderá assassinar até mesmo por motivos que julgaríamos insignificantes, a morte é sempre a do outro, mas trata-se aqui, entretanto, de pensar o sujeito diante da própria morte, da finitude.

Segundo Freud (2015/2006, p. 309),

Em suma: nosso inconsciente é tão inacessível à idéia de nossa própria morte, tão inclinado ao assassinato em relação a estranhos, tão dividido (isto é, ambivalente) para com aqueles que amamos, como o era o homem primevo.

Se não há em nosso inconsciente qualquer representação possível, é devido ao fato deste não possuir nenhuma marca psíquica a ser encontrada, ou seja, para isso teríamos que ter vivido tal situação, e só o fizemos frente à morte do outro, nunca à nossa própria, pois não morremos e voltamos para poder ter um registro a respeito.

Foi possível perceber até então que há uma ausência total de representação da morte no inconsciente, assim como o há na consciência.

No inconsciente, somente representações de desejos e afetos. Uma pura positividade, cuja função é justamente responder às frustrações que a realidade impõe à realização de nossos anseios, fazendo-nos viver cotidianamente a experiência dessas faltas, grandes ou pequenas, no fim das contas, a máxima atualização. (GREEN, 1988 apud LABAKI, 2012, p. 79)

Logo, se não há representação possível para a morte, devemos considerar aquilo que é passível de compreensão. Ao ser defrontado com a doença, irrompe um

sofrimento e com ele a angústia, afinal, se não podemos dar sentido ao que vivemos, não há como dizer algo a respeito; se não for dito, não há como dar sentido e, assim, inundam-se de angústia lá onde as palavras se esvaziam.

Freud (1925/2006), em sua obra Inibições, Sintomas e Ansiedade, trata das reações do sujeito frente a situações traumáticas e de perigos, ou seja, uma situação traumática seria determinada pela ansiedade automática, onde em seu âmago estaria uma experiência de desamparo sentida pelo ego (eu) frente ao acúmulo de excitação, seja ela de origem interna ou externa, com a qual não se tem condições de lidar. Podemos compreender, portanto, que frente à notícia de possuir uma doença mortífera, o ego a sentirá como ameaça à vida, e essa ameaça constituir-se-á como uma situação de perigo. Esses perigos envolvem-se devido às possibilidades de separações ou perdas ligadas a objetos de amor, podendo ser conduzidas ao acúmulo de desejos insatisfeitos, levando a uma situação de desamparo.

Podemos pensar o desamparo, em um primeiro momento, estando ligado a um estado de impotência sentida pelo bebê frente a sua condição de fragilidade e que retorna posteriormente, ligada ao desespero, sempre quando este se vê defrontado com sua fragilidade humana, afinal, ao se confrontar com a morte, o homem não teria mais em quem se apoiar ou de quem esperar ajuda.

No texto O Mal-Estar na Civilização (1930/2006), Freud discorre que o sofrimento estaria constantemente ameaçando a humanidade, tendo em vista que uma das direções deste sofrimento vai justamente, em direção à fragilidade do próprio corpo, por este estar condenado à decadência e à dissolução, representada pela degradação do corpo, que ocorre com o passar do tempo. O mal-estar causado pela fragilidade do corpo seria uma das causas de angústia dos homens.

O estado de ansiedade seria a reprodução de uma experiência de desprazer sentida anteriormente, no homem, ligada à reprodução do trauma do nascimento. Assim, a ansiedade tem sua origem em um estado de perigo e sempre que este estado se repete ela também se reproduz.

Deste modo, toda vez que houver uma ameaça eminente, em que o sujeito não tem referências passíveis de respostas, este experimentará uma sensação de ansiedade automática, em sinal de perigo, na busca por “salvação”, evidenciando a ansiedade como produto do “desamparo mental” infantil, ou seja, o desamparo pode ser compreendido como o núcleo da situação traumática, em que o aparelho psíquico fracassa em relação a proporcionar à excitação uma descarga adequada.

No texto O Futuro de Uma Ilusão (1927/2006), Freud aborda novamente a questão do desamparo, como estando no principio do surgimento das civilizações, dizendo que as forças da natureza erguem-se sobre nós, revelando-nos mais uma vez nossa fraqueza e nosso desamparo. Entre as questões por ele abordadas encontram-se, “as doenças, que só recentemente identificamos como sendo ataques oriundos de outros organismos, e, finalmente, o penoso enigma da morte, contra o qual remédio algum foi encontrado e provavelmente nunca será”. (FREUD, 1927/2006, p. 24). A partir dessa afirmação, o mesmo autor apresenta o fato de o homem, ao longo de sua história, perceber que não há formas de remediar o desamparo, sendo que neste contexto que foram sendo “criados/idealizados” deuses, os quais acabaram por obter a tarefa de proteger, assistir e vigiar a vida humana. Essa ideia foi uma tentativa de tornar tolerável o desamparo, ou seja, com o surgimento da religião, assim como da ciência, o homem pode sentir-se “seguro” quanto às ameaças da vida, e projetar uma existência para um “além da vida”. A morte não seria mais uma extinção, mas o princípio de um novo começo.

E assim, o desamparo também seria uma espécie de motor para a civilização, pois, esta se alicerçou na busca por reduzir o mal-estar causado frente ao desamparo sentido pela força voraz da condição humana.

Devemos considerar, portanto, que esta articulação entre desamparo e angústia em situações de adoecimento, onde há risco de morte, encontra-se no cerne do estranho familiar já situado no início deste trabalho, ou seja, o estranhamento da morte evoca a sensação de desamparo.

Isso, de certa forma, leva-nos a compreender, por hora, o fato do sujeito estando em estado terminal calar-se, emudecer-se, defrontando-se com um vazio, improvável de ser preenchido.

De fato, devemos pensar em uma clínica da urgência, ou seja, nos casos de atendimentos de pacientes em estado grave. Há uma urgência de ouvir a queixa do paciente, para que esta possa se configurar em uma demanda de trabalho, já que nesse ponto o sujeito se vê em um total desamparo frente à possibilidade de morte. Esses momentos que enunciam a morte estão carregados de dúvidas e inseguranças, nos quais o sujeito não possui um saber pre-existente, e sua urgência vem de encontro à pressa de dispor deste, talvez, suposto-saber, já que nada verdadeiramente se sabe.

Na urgência, a ruptura se faz do lado do paciente e das famílias. Nela, o sujeito é lançado ao desamparo e responde a ele de sua estrutura. No CTI, o analista vai articular a pressa exigida pela situação com o tempo do sujeito que precisará advir. Na situação de desamparo em que a urgência lança o sujeito, a verdade se escancara e o sujeito instaura um tempo fora do simbólico.

Nos momentos em que o sujeito se encontra frente ao desamparo, como é o caso dos pacientes que são desenganados pelos médicos, é fundamental que ele perceba ainda haver alguém que invista nele, para que assim ele ainda tenha um lugar no desejo deste outro, seja no lugar de filho, de pai ou de mulher.

O paciente poderá vir a se encontrar no limite de sua vulnerabilidade e de seu desamparo e descobrir o quanto ele é capaz de suportar, uma “força” que nem mesmo ele imaginava possuir, o que demonstra haver dois caminhos para se lidar com essas questões e com o vazio provocado por elas. Para Mohallem (2015, p. 29), “O paciente pode permanecer paralisado, na inibição, para impedir o aparecimento desse vazio, ou suportar a mudança que já aconteceu, criando novos recursos para contorna-los”.

Já vimos que não há no inconsciente, nem na consciência representação possível para a morte, somente uma imersão total na angústia, ligada ao desamparo de um estranho familiar em nós internalizado. Seria possível, no entanto, possuirmos alguma defesa para esta terrível angústia? Talvez a resposta estivesse justamente na importância desta clínica que possa lançar o sujeito em direção à vida que ainda lhe resta, e para isso seria essencial falar da vida do próprio sujeito, onde ele possa elaborar o luto das perdas acarretadas pelo adoecimento, bem como falar sobre a proximidade com a morte. Porém, o enfrentamento com a finitude parece levar direto ao desamparo, pois não possuímos nenhuma resposta psíquica para lidar com esse momento. Então como será possível suportar ou ressignificar algo da ordem do inominável? Será que é possível realizar um luto de nossa própria vida?

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