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O sujeito diante do adoecimento e da finitude

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Academic year: 2021

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UNIVERSIDADE REGIONAL DO NOROESTE DO ESTADO DO RIO

GRANDE DO SUL – UNIJUÍ

LUCÉLIA DAIANA NORONHA GABBI

O SUJEITO DIANTE DO ADOECIMENTO E DA FINITUDE

Ijuí (RS) 2016

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O SUJEITO DIANTE DO ADOECIMENTO E DA FINITUDE

LUCÉLIA DAIANA NORONHA GABBI

Monografia apresentada ao Curso de Psicologia da Universidade Regional do Noroeste do Estado do Rio grande do Sul – Unijuí, como requisito parcial para conclusão da formação acadêmica de Bacharelado em Psicologia.

Orientadora: Luciane

Gheller Veronese

Ijuí (RS) 2016

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UNIVERSIDADE REGIONAL DO NOROESTE DO ESTADO DO RIO

GRANDE DO SUL – UNIJUÍ

A Comissão Examinadora, abaixo assinada, aprova a Monografia

O SUJEITO DIANTE DO ADOECIMENTO E DA FINITUDE

Elaborada por

LUCÉLIA DAIANA NORONHA GABBI

Como requisito parcial, para conclusão da formação acadêmica de

Psicólogo

Comissão Examinadora

___________________________________________________

Prof. D.ra. Luciane Gheller Veronese (Orientadora) – DHE/UNIJUí

___________________________________________________

Prof. M.e. Nilson Heidemann – DHE/UNIJUí

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DEDICATÓRIA

Dedico este trabalho ao meu filho Arthur, que mesmo sem saber, foi meu suporte e amor maior durante a escrita.

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AGRADECIMENTOS

Acredito que, neste momento de reflexão, os agradecimentos não devem ser somente relacionados ao presente trabalho, mas a toda trajetória acadêmica.

Agradeço de todo coração aos meus queridos mestres, tendo em vista que todos doaram seu tempo e conhecimento, permitindo que eu chegasse até aqui. Em especial aos meus supervisores, Elisiane Felzke Schonardie (Estágio Básico), Nilson Heidemann (Estágio em Psicologia e Processos Clínicos) e Luciane Gheller Veronese, supervisora (Estágio em Processos Organizacionais e do Trabalho) e orientadora do presente trabalho, os quais me permitiram ir muito além do que poderia imaginar.

Aos colegas de trabalho, que por muitas vezes tiveram paciência com meu estresse e fadiga pela tripla jornada. À minha amiga e colega de curso Janise Dalla Rosa, que entre outras, foi minha principal parceira e amiga verdadeira durante cinco dos sete anos de minha trajetória acadêmica, em especial, por ter me ouvido na “loucura” de fazer um TCC com o tema morte, sobre o qual a maioria sequer quis ouvir.

E principalmente à minha família, suporte principal, esteio, base da minha vida, sobretudo à minha mãe Clarice, que esteve presente em todos os momentos, especialmente no amor e nos cuidados dedicados ao meu maior tesouro, meu filho Arthur.

Ao meu filhotinho Arthur, que foi de fundamental importância para que eu pudesse enfrentar todos os momentos, felizes ou difíceis, sempre trazendo seus “abraços de urso”. Sua existência e seu amor me fizeram forte, permitindo-se comemorar comigo todas as minhas vitórias, sem contar em todos os “desenhos” encontrados de surpresa nos cadernos ou livros, que sempre me fizeram sorrir durante as aulas.

Ao meu amigo, amor, namorado e marido Jocemar, que mesmo diante das dificuldades esteve comigo. Caminhamos juntos, fomos à faculdade juntos, sofrendo, amando, brigando, conversando, compartilhamos grandes experiências, eu tenho um pouco da Ciência da Computação e ele um pouco da Psicologia.

À minha avó querida, Eugênia, que tantas vezes foi a minha casa com sua bengalinha, seja para me auxiliar com a louça suja ou para dar uma palavrinha amorosa nos pequenos intervalos entre aulas, trabalho, estágio, afazeres domésticos.

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E que durante a escrita muito me ensinou com sua (e com a minha) fragilidade diante da doença.

Enfim, a todos que de alguma forma me inspiraram, permitindo que esta formação, um sonho de infância, pudesse se concretizar. Amo a todos, obrigada por existirem e por estarem presentes na minha vida e na minha formação. Esses são os verdadeiros tesouros que adquirimos ao longo de nossa existência.

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RESUMO

O presente trabalho é uma pesquisa bibliográfica, que tem como tema a morte, visando estudar os processos envolvidos no adoecimento e na finitude, assim como, o modo como o sujeito se posiciona frente à possibilidade de perder a própria vida. Para isso, inicialmente, realizam-se recortes históricos acerca dos modos de enfrentamento da morte, buscando entender os processos do adoecimento no sujeito, e da mesma forma, nos familiares, cuidadores e profissionais da saúde, entres eles o psicólogo no contexto hospitalar. A seguir, apresentam-se alguns fatores psíquicos que vão ao encontro de manifestações como o silêncio e o desamparo frente à morte, pensando ainda no luto e na melancolia ligados às inúmeras perdas vivenciadas no transcurso da vida, tendo em vista que o inconsciente é atemporal, e por esta razão, desconhece o tempo, bem como a própria mortalidade.

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ABSTRACT

The present work is a bibliographical research, whose theme is death, aiming to study the processes involved in the disease and finitude, as well as the subject is positioned in the face of the possibility of lose life itself. To do this, initially, historical samples are made on ways of confront with death, seeking to understand the processes of illness in the subject, and in the same way, in the relatives, caregivers and health professionals, among them the psychologist in the context of the hospital. Following presents some psychic factors that go to meeting manifestations such as silence and helplessness before the death, still thinking about mourning and melancholy linked to the innumerable losses experienced in the course of life, considering that the unconscious is atemporal and for this reason unknown is time as well as mortality itself.

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SUMÁRIO

INTRODUÇÃO

... ... 09

1

MORTE E HOSPITAL

... ... 11

1.1 A Morte e os Recortes de sua História: O Tabu de um Estranho Familiar... 11

1.2 A Morte na Instituição Hospitalar: Humanizar é Reconhecer a Própria Finitude. 21 1.3 O Corpo Orgânico e a Subjetividade: Familiares, Cuidadores e Profissionais da Saúde nos Processos de Adoecimento e Morte ... ... 28

2

SOBRE O SUJEITO E A FINITUDE

... ... 36

2.1 Adoecimento e Desamparo ... ...36

2.2 A Última das Perdas: Luto e Melancolia ... ... 41

CONSIDERAÇÕES FINAIS

... ... 47

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INTRODUÇÃO

Quando pequena, entre cinco e sete anos, lembro-me de cortar caminho entre minha casa e a da minha avó, atravessando um cemitério, enquanto ouvia dela que quando aprendesse a ler, poderia ajudá-la a encontrar seus conhecidos nos túmulos. Eu sonhava com o dia que aprenderia a ler os nomes escritos nas lápides.

Aos sete anos compramos uma casa muito próxima ao mesmo cemitério e minha infância foi rodeada por inúmeras brincadeiras dentro dele. Esconde-esconde era a mais frequente, feliz daquele que encontrasse um túmulo vago para poder se “enfiar” dentro dele, era o melhor dos esconderijos. Ou então, íamos “caçar ossos”, os zeladores limpavam os túmulos abandonados e jogavam os restos em uma pilha para posteriormente queimar, quando a primeira criança da rua os encontrava, dava o alarme, era nossa alegria. Achávamos alças de caixões, suas madeiras, muitos ossos, roupas e adornos dos mortos, isso quando não achávamos um túmulo quebrado e era possível olhar para dentro dele e se esbaldar com tudo o que conseguíamos ver lá.

No dia dos finados era a maior diversão. Bem cedo, meu tio nos buscava para levar-nos a um cemitério mais distante, onde meu avô está enterrado. Arrumávamo-nos como se fossemos a uma festa. Lá encontrávamos todos os demais parentes, era só alegria, muitas brincadeiras regadas a picolés que alguém vendia em cima de um caminhão sem muita refrigeração, eram quase derretidos.

Fui crescendo e continuei visitando os cemitérios, especialmente o próximo à minha casa, sempre em busca de ossos. Levava todas as crianças da família para ver também, primos, sobrinhos, afilhados, todos que quisessem ir (nem todos suportavam) e que seguiram fazendo isso uns com os outros. Por vezes, ainda o fizemos quando estamos reunidos.

Sem acaso, escolhi como primeira profissão o Técnico em Radiologia, vendo ossos todos os dias. Assim pude reconhecer cada um dos ossos encontrados e ensinar aos que comigo caçavam.

Há pouco tempo cercaram o cemitério com enormes muros e portões e assim acabaram por inibir nossa caça. Os picolés do dia dos finados já não existem mais, mas a alegria de visitar os mortos e por acaso encontrar ossos ainda resiste, porém já

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não vemos mais as pilhas de restos, pois são muito bem guardadas para que os demais não a vejam.

Ao trabalhar no hospital, desde o primeiro momento, há cerca de dez anos, passei a observar os moribundos, questionando-me sobre o que pensa ou sente esse sujeito que se vê frente à finitude.

A morte sempre foi tabu e, quanto menos se fala, mais difícil sua elaboração, mas talvez para mim ela tenha sido, também, motivo de curiosidade, pois sempre pude falar e questionar sobre ela. Afinal, nunca pude fugir dela, ela sempre esteve presente, fazendo parte da minha história.

Deste modo, escolher a morte como tema de estudo, foi buscar respostas para inúmeros questionamentos, pois até o momento de iniciá-los, não conseguia compreender por que as pessoas se calavam, porque havia um silêncio tão grande rodeando este sujeito, não permitindo que ele pudesse reagir. Pude observar nos pacientes terminais, ao longo desses dez anos trabalhando em hospital, um “vazio”, vazio de sujeito, de olhar, de discurso, de expressões, de desejo. Como se, neste momento, todos eles se tornassem idênticos, ou seja, demonstrando uma espécie de padronização de sujeito, “todos como um sujeito vazio”. Além disso, pretendi compreender qual o papel do Psicólogo, tanto no processo de adoecimento, quanto de morte.

Para tentar responder a tantos questionamentos, no primeiro capítulo tratamos de entender, através de alguns recortes, os processos históricos da morte, desde os povos primitivos até os dias atuais. Além desses, estudamos a organização hospitalar na sua relação com o sujeito, assim como o lugar dos familiares, cuidadores e profissionais da saúde, entre eles o Psicólogo inserido nesse contexto hospitalar.

Já no segundo capítulo buscamos apresentar alguns conceitos fundamentais, os quais poderão vir a acrescentar na busca por tais respostas. Dentre elas, tratamos de compreender esse sentimento de desamparo, que culmina em angústia sempre que o sujeito se defrontar com algo que o ameace ou que ameace sua existência.

Outra questão discutida é sobre as inúmeras perdas no transcurso de nossa história, a elas reagirmos através do luto, considerado normal ou ainda através da melancolia, de ordem patológica. Por fim, refletiremos sobre a importância de viver intensamente a vida, afinal, a morte é o que há de mais certo, a última e maior das perdas.

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1 MORTE E HOSPITAL

A morte é um processo natural e universal como nascer, crescer e envelhecer, inevitável a todos os seres vivos, mas é só o humano que possui consciência de sua finitude. Porém, não a aceitamos enquanto natural, ou seja, vivemos como se fossemos eternos, negando-a, e, por esta razão, fez-se importante compreender alguns processos históricos envolvidos, na busca de respostas que vão ao encontro de nossa relação com a morte e com os mortos. O estudo demonstra que sempre existiu um tabu correlacionado a este tema.

A morte era tida inicialmente como pública, qualquer um que quisesse assisti-la poderia adentrar no quarto daquele que ali agonizava e observá-la até o fim. Com o tempo, a morte que era pública passou a ser privada, pois só a família poderia vivenciá-la. Hoje, diante de qualquer evidência que possa levar à morte, esse sujeito é rapidamente levado ao hospital, onde muito provavelmente morrerá sozinho, longe até da família.

No hospital, com a doença e o adoecer, bem como com as inúmeras intervenções, o sujeito pouco a pouco vai perdendo sua subjetividade e tornando-se um objeto, um corpo, sem voz e sem o direito de opinar sobre qualquer procedimento.

O sujeito sofre e com ele sofrem também seus familiares e os profissionais. As relações entre pacientes, familiares, cuidadores e profissionais da saúde são de fundamental importância, pois permitem ao paciente que se encontra em estado terminal (foco deste trabalho) vivenciar de forma mais branda esse processo, pensado como irrepresentável, ou seja, para os sujeitos, a dor ou a morte que advêm desse real imposto pelo adoecimento não possuem representações possíveis. São nestas relações, bem como na forma do sujeito se posicionar diante da doença e da morte, que o Psicólogo poderá intervir, tanto enquanto mediador, quanto com sua escuta, possibilitando que o paciente passe de uma posição de um simples corpo (pedaço de carne) para a posição de sujeito.

1.1 A Morte e Recortes de sua História: O Tabu de um Estranho Familiar

“Todos iremos morrer.”, “O que há de mais certo na vida é a morte.”. Quantas vezes ouvimos frases como essas? Mas o que de fato significa morrer? Para o

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dicionário de português Aurélio (2008 – 2016), a morte poderia ser conceituada como o “ato de morrer”, ou ainda “o fim da vida”, a “cessação da vida”. A morte é um processo tão natural e universal como nascer, crescer, envelhecer, é inevitável a todos os seres vivos, porém só o animal humano teria consciência de sua finitude.

Inúmeras foram as transformações ocorridas na história da humanidade, das quais duas permanecem intactas, o nascer e o morrer, mas a única certeza é a da morte. Segundo Rodrigues (2006, p. 17) “Na escala das existências individuais, posto que pode ocorrer antes do nascimento, a morte é a única certeza absoluta no domínio da vida: evento derradeiro, cujo peso de acontecimento não pode ser negado, mesmo que se lhe negue o valor de aniquilamento”.

A dúvida que ocorre é pensarmos como alguém que vive, que existe poderia pensar em uma não existência, em um aniquilamento? De fato, esses seriam conceitos neutralizados, sem significação, afinal de contas morrer seria deixar de existir, transformar-se em outro, em um nada.

Em seu livro Totem e Tabu e outros trabalhos (1913/2006), Freud fala sobre a dificuldade de o homem lidar com a morte desde os primórdios. Segundo o autor, em diversos povos primitivos, como na Polinésia, Melanésia e parte da África, por exemplo, qualquer pessoa que entrasse em contato com os mortos, ou mesmo que participasse de um enterro tornar-se-ia impuro e assim os demais cortavam relações com o mesmo. Não poderia entrar em nenhuma casa, pois iria infectá-la, não poderia tocar na comida com as mãos, a qual era posta no chão e este deveria abocanhá-la como pudesse ou outro deveria tratá-lo a distância, sem tocar no “homem tabu”. “Esses selvagens” acreditavam que quem violasse as leis do tabu estaria fadado a adoecer e a morrer, essa crença era tão forte nesses povos que nenhum deles teve a coragem de experimentar se realmente ocorreria tal fato. No povo de Shuswap, da Colúmbia Britânica, os viúvos e as viúvas eram isolados e proibidos de tocar seu próprio corpo, seus utensílios domésticos não deveriam ser usados por mais ninguém. Colocavam espinhos na cama e ao redor dela como forma de manter o espírito do morto a distância. Em outra tribo, norte-americana, durante o luto, a viúva deveria usar uma tanga feita de capim seco, para impedir, deste modo, que o fantasma do marido viesse a ter relações sexuais com a mesma.

Os próprios nomes dos mortos não poderiam ser pronunciados em determinados povos selvagens, pois os encaravam como parte essencial da personalidade; portanto, pronunciar seu nome seria manter contato com o cadáver.

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Esse tabu estava relacionado aos nomes, o que evidencia o fato de os “selvagens” terem medo da presença ou do retorno dos mortos, os quais, por esta razão, realizavam inúmeros rituais na tentativa de mantê-los bem longe dos vivos.

Quando alguém muito próximo morria (marido, mãe), era comum (e ainda é) que o “sobrevivente” tivesse dúvidas quanto à sua culpa pela morte, pensava ter sido descuidado ou negligente com o moribundo. Esse fato aponta para a questão da ambivalência.

Segundo Freud (1913/2006, p. 73),

Não é que a pessoa enlutada seja realmente responsável pela morte ou na realidade culpada de negligência, como as auto-acusações declaram ser o caso. Não obstante, havia algo nela – desejo que lhe era inconsciente – que não ficaria insatisfeito com a ocorrência da morte e que poderia realmente tê-la ocasionado, se tivesse poder para isso. E após a morte haver ocorrido, é contra esse desejo inconsciente que as censuras são uma reação. Em quase todos os casos em que existe uma intensa ligação emocional com a pessoa em particular, descobrimos que por trás do terno amor há uma hostilidade oculta no inconsciente, esse é o exemplo clássico, o protótipo, da ambivalência das relações humanas.

Após essa afirmação, assinala-se que o tabu sobre os mortos surgira do sofrimento, que é consciente, com a satisfação pela morte, que é inconsciente. Todas essas afirmações nos fazem considerar que a morte é um tabu desde que a vida humana pôde ser lida, desde os povos primitivos, dos primórdios da vida coletiva.

Também Ariès (1977) discorre acerca dos rituais relacionados à morte, afirmando que eles foram elaborados para auxiliar o homem nesse processo. Poder compreender o transcurso de sua história faz-se fundamental para que possamos entender a forma com que esta se apresenta a nós na atualidade.

Na Idade Antiga diversas culturas cultivavam a morte, em especial no Egito, onde houve uma intensa prática de culto aos mortos. Seus rituais e equipamentos funerários são os mais elaborados que o mundo já conheceu.

Segundo este povo, mesmo depois da morte, a vida continuaria com as mesmas necessidades, por essa razão levavam em seus túmulos inúmeros pertences e presentes, porém, para que o morto pudesse ressuscitar, seu corpo deveria estar preservado, e por isso, a questão da preservação dos cadáveres, através da mumificação (embalsamamento), o que lhes permitiria seguir a vida no além. Esses processos mantiveram seus corpos preservados por séculos.

Dependendo da posição social, bem como de suas riquezas, dava-se o sepultamento. Nem todos os egípcios eram enterrados em pirâmides, essa era uma

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prática destinada aos faraós, que deveriam proteger o cadáver e seus súditos, onde o morto deveria portar o Livro dos Mortos, para que a alma pudesse enfrentar os possíveis perigos dessa passagem. Havia outros tipos de túmulos: os hipogeus, que eram túmulos subterrâneos cavados em rochas; as mastabas, tumbas subterrâneas compostas por câmera mortuária, capela e sala de oferendas. Já os mais humildes eram enterrados em covas simples em meio ao deserto.

Foi Anúbis considerado a primeira múmia do Egito Antigo, com corpo de homem e cabeça de chacal, que ficou conhecido como o deus da morte, dos moribundos, da mumificação, do submundo, guardião dos túmulos, bem como juiz dos mortos.

Na primeira Idade Média, a morte poderia estar ligada tanto aos sinais naturais de uma doença, quanto às premonições. As premonições estavam ligadas a uma espécie de enunciado, no sentido de uma “adivinhação” de que iria morrer. Por vezes, ocorria de o moribundo ter visões de pessoas já falecidas. Essas sensações advinham em sonhos, visões ou pressentimentos, e a partir daí as pessoas preparavam-se para morrer, em despedidas ou rituais preparatórios, ou seja, as pessoas, ao perceber o “aviso prévio” da morte, os observavam, e, quando chegava a hora, morriam como era preciso.

Segundo Ariès (1977, p. 16),

Na realidade, este maravilhoso legado de épocas onde era incerta a fronteira entre o natural e o sobrenatural, dissimulou aos observadores românticos o carácter muito positivo, muito enraizado na vida quotidiana, de premonição da morte. O facto de a morte se fazer enunciar era um fenômeno absolutamente natural, mesmo quando acompanhado de prodígios.

A partir do século XII, quando alguém percebia que iria morrer, imediatamente deitava-se ao chão, soltava as armas, estendia os braços em cruz (em atitude de oração) ou cruzava as mãos sobre o peito, com a cabeça posicionada para o oriente, esperava a morte. O moribundo deveria estar deitado de costas para que pudesse olhar para o céu, cultura esta ligada ao Cristianismo primitivo, a qual se diferenciava dos judeus, já que estes se viravam para a parede diante da morte. Deste modo o moribundo poderia cumprir seus últimos atos do cerimonial. Após este ritual, o primeiro ato era lamentar pela vida, pelos seres e coisas, triste e discretamente. Depois, vinha o perdão daqueles que rodeavam seu leito e o pedido de bênçãos aos que à vida permanecessem, escolhiam suas sepulturas e, enfim, direcionavam-se a

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Deus, tentando remediar sua culpa e seus pecados, faziam preces e recebiam a “absolvição sacramental” do padre. Após esta última prece, restava apenas esperar pela morte e, caso demorasse chegar, deveria ser esperada em silêncio.

Ainda no século XII, os que não pertenciam à Igreja não sobreviveriam ou despertariam à morte, porém a “população dos santos” teria assegurada sua ressurreição.

Já no século XIII, a visão do século XII foi praticamente apagada, prevalecendo apenas a ideia de juízo, representada por uma corte de justiça, em que o juiz seria o próprio Cristo e a corte seriam seus discípulos, e, assim, cada homem seria julgado segundo o modo como conduziu sua vida, boas e más ações. Baseados nessa lógica, franciscanos escreveram um livro que contém tudo sobre o “juízo do último dia”, com o qual o mundo seria julgado. Inicialmente, foi considerado um “inventário do universo” e, no final da Idade Média, tornou-se um livro de “contas individuais”.

Por mais que todos mostrassem certa aceitação frente à morte, não queriam acreditar que esse fosse o fim de uma existência. Acreditava-se sim, na possibilidade da vida depois da morte, a qual promovia uma conexão entre morte e fim dos tempos, não sendo necessariamente ligada à vida eterna.

O moribundo sentia compaixão pelos familiares ou pelos seus bens, mas mesmo assim sabia que não havia outra possibilidade senão aceitar sua morte. A dor da vida estaria associada à simples aceitação de que a morte está próxima, a qual estaria ligada à familiaridade com a morte, que permaneceu constante através dos tempos, no sentido de esta ser inevitável para a vida. Afinal como no dito popular, “para morrer basta estar vivo”, sendo justamente este pesar que retiraria a aceitação da morte.

A partir do século XV, o moribundo em seu quarto esperava a morte, não mais julgado pelo juízo de Cristo, mas tendo Deus e sua corte para observar como esse se comportaria diante da prova que lhe era dada, até seu último suspiro.

Para Ariès (2012, p. 54),

Esta prova consiste em uma última tentação. O moribundo verá sua vida inteira, tal como está contida no livro, e será tentado pelo desespero por suas faltas, pela “glória vã” de suas boas ações, ou pelo amor apaixonado por seres e coisas. Sua atitude, no lampejo deste momento fugidio, apagará de uma vez por todas os pecados de sua vida inteira, caso repudie todas as tentações, ou, ao contrário, anulará todas as suas boas ações, caso a elas venha a ceder. A última prova substitui o juízo final.

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Por volta de 1490, reconhecer que a morte estava próxima era considerado algo espontâneo e natural, “Veste as suas roupas mais ricas como no dia do casamento, e entrega-se ao diabo” (ARIÈS, 1977, p. 16). Logicamente que, em alguns casos, as pessoas decidiam lutar pela vida, outras ficavam revoltadas com seu destino, mas, em sua maioria, não pode ser pensada como uma recusa, mas como um “desafio a Deus”.

Todas essas relações com a morte teriam ocorrido, por não haver escolha diante do fim, o homem teria que se sujeitar a esta, por ser uma das grandes leis da espécie, não havia como cogitá-la, nem mesmo como exaltá-la.

O mundo dos vivos era totalmente separado e distante do mundo dos mortos, das cidades. Os rituais fúnebres e o distanciamento dos cemitérios, assim o eram, para impedi-los de voltar ao mundo dos vivos. Com o passar dos tempos, os cemitérios foram levados à igreja, bem como as cidades foram crescendo (subúrbios) e contornando-os. Com as Igrejas e o Cristianismo, passou-se a acreditar numa ressureição, na vida após a morte, ou seja, em meados do século XVIII, os túmulos tornaram-se um símbolo da presença para o além da morte. Apesar desta relação com a religião, manter os mortos em um túmulo, permitia que seus familiares pudessem apegar-se aos “restos” dos mortos, como forma de amenizar a tristeza pela sua partida.

Como não pensar, então, que a questão da morte sempre foi uma questão de borda, na mais pura autenticidade da palavra borda, que é conceituada no dicionário Aurélio (2008 – 2016) como a “extremidade de qualquer superfície”, “beira”, “amurada”. Por muitos séculos a morte esteve presente nas bordas das cidades, nos interiores, beirando estradas, locais onde pouco se passava. Os mortos, então, sempre estiveram nesta perspectiva, entre a vida e a morte, afinal, mantê-los distante era sinônimo de manter-se em vida.

Por volta do século XVIII esses pressentimentos da morte foram tomados como uma superstição popular, a “crença do povo”, o que acabou por banalizar tais premonições.

Segundo Mannoni (1995), em meados do século XVIII e inicio do século XIX, o corpo do morto era exposto. Na Bretanha, tocava-se um hino, convocando aos fiéis que quisessem ver os ossos.

A partir da metade do século XVIII, os mortos, passaram a ser trazidos para bem perto dos vivos, enterrados nos próprios jardins, e em alguns casos chegou-se

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ao ponto de conservar os corpos em grandes recipientes contendo álcool. Essa não era uma prática muito comum na época, pois os mortos eram enterrados nos pátios das Igrejas, porém já não havia mais fossas nesses pátios, especialmente por consequência de “pestes” que assolavam as regiões mais populosas, como foi o caso da França. Com essa mudança o túmulo deveria estar ou pertencer exclusivamente ao defunto e à família, para que estes pudessem visitá-lo como se visita a casa de um ente querido e como forma de conceder ao morto a imortalidade.

Se durante a Idade Média e a Idade Moderna as pessoas permitiam-se falar sobre a morte e seus rituais, preparando seus testamentos, despedindo-se de seus entes, realizando as recomendações que julgavam necessárias, recebendo o padre e seus sacerdotes, enfim, tornando a morte pública, era também porque os demais permitiam que assim o fosse.

Todas essas cerimônias, portanto, eram públicas e organizadas pelo próprio moribundo, entrava-se livremente, ou seja, todos que assim desejassem poderiam assistir à morte, inclusive crianças, ao contrário dos tempos atuais que se quer esconder a morte das mesmas. Há relatos de médicos do fim do século XVIII, queixando-se quanto à quantidade de pessoas presentes no quarto daquele que ali agonizava.

No início do século XIX, os padres realizavam cortejos até a casa dessas pessoas e, por onde passavam, levavam consigo quem quisesse acompanhá-los ao quarto do doente.

Segundo Ariès (1977, p. 40),

Assim se morreu durante séculos ou milênios. Em um mundo sujeito à mudanças, a atitude tradicional diante da morte aparece como uma massa de inércia e continuidade. A antiga atitude segundo a qual a morte é ao mesmo tempo familiar e próxima, por um lado, e atenuada e indiferente, por outro, opõe-se acentuadamente à nossa, segundo a qual a morte amedronta a ponto de não mais ousarmos dizer seu nome. Por isso chamarei aqui esta morte familiar de morte domada. Não quero dizer com isso que anteriormente a morte tenha sido selvagem, e que tenha deixado de sê-lo. Pelo contrário, quero dizer que hoje ela se tornou selvagem.

Essa repugnância sentida pela morte ou pelo sofrimento veio revelar o medo da morte e de seu cadáver, manifestados na arte e na literatura entre os séculos XVII e XIX, com características que perturbaram a vida quotidiana de forma sublimada. No século XIX, passaram a ser verdadeiramente motivo de medo, tão profundo que não

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só se revelava por interditos, silêncios. A partir deste momento, não haveriam mais representações possíveis da morte.

Ao fim do século XVIII e séculos XIX e XX, aqueles que não iam à Igreja, os chamados “descrentes”, tornaram-se visitantes assíduos dos cemitérios, fato este, que fez nascer o hábito de levar flores aos túmulos, evocando o morto e cultivando suas lembranças.

Para os Hebreus, o corpo do morto era impuro e por este motivo não deveria ser tocado. Os antigos índios americanos falavam de espíritos do mal e atiravam flechas para o ar na tentativa de afugentá-los. Essa tradição ligada aos túmulos pode ser relacionada ao desejo de enterrar bem fundo os maus espíritos, apesar de serem chamadas de “últimas despedidas”. Atualmente, a “salva de tiros” que acontece nos funerais militares corresponde aos mesmos rituais indígenas com as flechas. Ross (2008), com esse contraponto, afirma que o homem nada mudou, pois “A morte constitui ainda um acontecimento medonho, pavoroso, um medo universal, mesmo sabendo que podemos dominá-lo em vários níveis” (p. 09), o que teria mudado é nossa forma de lidar com a morte e com o moribundo, ou seja, de pública passou a ser privada.

A atitude diante da morte foi mudando lentamente ao longo dos séculos. Esta, que era tão presente no passado, foi se apagando até desaparecer e se tornar vergonhosa e interdita. Na segunda metade do século XIX, aqueles que cercavam o moribundo já tentavam esconder dos mesmos que seu fim estava próximo, na tentativa de poupá-lo da gravidade de seu estado, mesmo que em algum momento ele viesse a saber; os familiares já não tinham mais coragem de contar a verdade, e assim, a verdade passa a ser difícil de ser dita. Logo, o fato de mentir ao doente pode ser percebida, tanto como uma forma de poupá-lo ou evitá-lo, como evitar a própria sociedade.

Os rituais de morte no leito perduraram até o século XIX. No entanto, no final da Idade Média, entre as classes mais instruídas, tomaram uma carga de emoções que não possuíam em outros tempos e o moribundo mantinha o “comando” da cerimônia de sua morte. Esses ritos eram reconhecidos pela sua importância moral no que se relacionava ao doente. Foi no século XX que essa crença foi recalcada, principalmente nas sociedades industriais.

Em meados do século XIX, não se acreditava verdadeiramente em superstições, estas já eram vistas como algo excêntrico.

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Já sabemos que o tabu nesse contexto sempre existiu, porém vale a pena refletir que aquilo que mudou ao longo dos tempos pode não ter sido a questão de aceitar ou não a morte, mas o fato de que inicialmente o tabu era mais relacionado aos mortos e hoje está também na relação com a morte. Afinal, evitamos qualquer possibilidade de sequer ouvir a palavra “morte”, quanto mais de vivenciá-la, tanto que, desde o século XX, o moribundo já não tinha tanta certeza de que poderia ter uma morte pública, em seu leito, pois muito provavelmente meia hora após o enunciado de morte o médico já estaria presente.

Atualmente, a ênfase está no “aceitável”, ou seja, o “aceitável da morte” é uma morte que seja aceita ou tolerada pelos demais. Isso nos soa redundante, porém é justamente o que justifica o fato de que os que ficaram sintam-se embaraçados, afinal a morte implica emoções fortes e é preciso evitar essas emoções, seja diante da sociedade ou no hospital, só sendo possível tal comoção em particular, às escondidas.

Mudam-se as cenas da morte, bem como os rituais fúnebres. Os processos da morte e os funerais são considerados inevitáveis, necessários e o mais discretos possível; são formas de fazer “desaparecer o corpo”, de modo que os demais percebam o mínimo possível que a morte ocorreu. Formas posteriores de “guardar o luto”, como usar roupas pretas, também desaparecem, demonstrar sofrimento pela perda passa a ser sinônimo de repugnância. Não se fala dentro das famílias para não impressionar as crianças. Chorar? Só se ninguém estiver vendo.

Segundo Mannoni (1995, p. 43),

Os ritos de morte são cada vez mais simplificados. As conveniências exigem que o enlutado volte a uma vida normal depois de passado algum tempo determinado pelos costumes. O recalcamento da dor é exigido em lugar das manifestações outrora usuais. Pouco a pouco uma ascese (o transporte de gozo) que preparou o caminho para o capitalismo foi se instalando. A vida não se torna mais desejável que a morte.

Assim, essa suposta aceitação da morte vista em outras épocas não ocorre mais nos dias atuais, em que a morte se afirma verdadeiramente como um tabu. Para Ross (2008), falar sobre a morte é, hoje, considerado mórbido.

Segundo Ross (2008, p. 11),

Poderíamos pensar que nosso alto grau de emancipação, nosso conhecimento da ciência e do homem nos proporcionaram melhores meios de nos prepararmos e às nossas famílias para esse acontecimento inevitável. Ao contrário, já vão longe os dias em que era permitido a um homem morrer

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em paz e dignamente em seu próprio lar. Quanto mais avançado na ciência, mais parece que tememos e negamos a realidade da morte.

Os processos que rodeiam a morte passaram ao longo dos séculos pela crença em premonições, misticismos, religião e finalmente pela ciência. Esta última passagem, do Cristianismo e/ou religião para a era da ciência, evidenciou-se como a mais intensa, permitindo que definitivamente nos livrasse do “fardo” de ter que lidar com tais processos.

Faz-se pertinente abordar o fato de, nos dias atuais, levantar-se muros ao redor dos cemitérios, por vezes com portões e enormes correntes e cadeados, com a justificativa de manter os mortos “protegidos” dos vivos que por ali circulam durante a noite furtando seus pertences, ou ainda pelo impressionante fato de as casas construídas em frente, terem um valor bem mais baixo que as demais. Com isso podemos dizer que, mais uma vez retrocedemos na história, onde os cemitérios encontravam-se nas bordas. Mais uma vez separa-se o mundo dos mortos do mundo dos vivos, pois ninguém quer, ao menos, olhar para eles.

E após esta leitura, novamente paremos para pensar: o que é a morte? O que você faria se tivesse somente três meses de vida? Será a morte o fim da vida? Tantos questionamentos e tantas angústias, vivemos somente com a dúvida que rapidamente é esquecida; será que o melhor é simplesmente evitar falar? Mas por que evitar? Para Freud (1919/2006), a morte está no contexto de um “estranho familiar”, algo que conhecemos e que nos causa medo, horror, algo tão assustador que nos remete ao que é velho, há muito tempo familiar, mas que não sabemos como abordar.

Como não considerar que durante toda a existência humana foi-se vivenciando este medo dos mortos e ao mesmo tempo tentando reprimi-lo, lutando a mais árdua batalha, uma batalha certamente perdida, mas ainda assim uma luta, na tentativa de esquecê-la.

Então a morte seria esse “estranho” que deveria estar oculto, mas que vem à luz; afinal, mesmo depois de tantos séculos, desde os primórdios, os nossos sentimentos e nossas ideias com relação a ela quase nada mudaram. Ainda pensamos como os selvagens, e isso justificaria o fato do medo da morte ser ainda tão intenso nos dias atuais.

Assim como diz Freud (1919/2006, p. 264), “o estranho provém de algo familiar que foi reprimido”. São as atitudes do homem diante da morte que nos fazem pensar que algo assustador transforma-se em algo estranho, assim a morte seria este

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“estranho familiar” que insiste em retornar, arrebatadoramente, (re)tornando-nos sempre selvagens.

1.2 A Morte na Instituição Hospitalar: Humanizar é Reconhecer a Própria Finitude.

Como vimos, o modo como enfrentamos a morte está no contexto de um tabu, um estranho familiar que inicialmente se evidenciava com relação aos mortos e seus rituais, os quais foram se modificando ao longo dos séculos e atualmente ligam-se também, à questão da morte, respondendo aos traços e ideias culturais de cada época. Nos primórdios, a vida era vista como algo natural, todos poderiam assistir à morte, bem como participar dos rituais que a cercavam. Atualmente, nada queremos saber sobre ela, temos uma tendência a evitá-la, tanto que se alguém demonstrar qualquer possibilidade de morte, rapidamente a encaminhamos para um hospital, pois não queremos mais vivenciá-la.

Para o Ministério da Saúde (1944)

A palavra hospital é de raiz latina (Hospitalis) e de origem relativamente recente. Vem de hospes – hóspedes, porque antigamente nessas casas de assistência eram recebidos peregrinos, pobres e enfermos. O termo hospital tem hoje a mesma acepção de nosocomium, de fonte grega, cuja significação é – tratar os doentes – como nosodochium quer dizer – receber os doentes. Outros vocábulos constituíram-se para corresponder aos vários aspectos da obra de assistência: ptochodochium, ptochotrophium, asilo para os pobres;

poedotrophium, asilo para as crianças; orphanotrophium, orfanato; gynetrophium, hospital para mulheres; zenodochium, xenotrophium, refúgio

para viajantes e estrangeiros; gerontokomium, asilo para velhos; arginar ia, para os incuráveis.

A origem dos hospitais é bem anterior à época cristã, mas foi o cristianismo que impulsionou e revolucionou os serviços de assistência. Segundo o Ministério da Saúde (1944), os primórdios da escola médica têm registros datados dos tempos de Saturno, caracterizados como “hospitais egípcios”, os quais existiram séculos antes de Cristo. É justamente no Egito e na Índia, duas das civilizações mais antigas, que encontramos as raízes das instituições hospitalares.

Como hospital foram designadas as casas reservadas ao tratamento temporário dos pacientes enfermos. O progresso da ciência foi aprimorando essas “casas de saúde”, com melhoramentos dos conhecimentos anatômicos, bem como das cirurgias, que, até então, eram proibidas pela igreja (no ano de 1163) devido ao “derramamento de sangue”. Foi no século XVIII que houve uma progressão na ciência

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médica. O hospital oriundo da época anterior ao Cristianismo, desenvolvido por iniciativas religiosas, transformou-se em instituição social, onde o Estado passou a fundá-los e mantê-los.

Para Mannoni (1995), com os progressos da medicina (hemodiálises, exames de sangue, próteses) permite-se tornar a doença o mais discreta possível, afinal a “afetação do corpo” fica escondida internamente, substituindo o corpo “mal funcionante”.

De acordo com Ariès (2012), em meados das décadas de 1930 a 1950, ocorreu um deslocamento do lugar da morte, ou seja, a morte, que já não era mais pública, mas privada, sai do espaço familiar, do próprio lar e de perto de seus entes, para o espaço hospitalar, sozinho. Morre-se no hospital, pois este comporta cuidados que não se pode dar em casa. Então, para além dos cuidados, o hospital, passa a ser considerado um lugar privilegiado de morte, tendo em vista que cuidar e tratar são procedimentos possíveis de serem realizados em outros lugares. A morte é empurrada cada vez para mais longe da existência humana, não fazendo mais parte da vida. Para Mannoni (1995, p. 113), atualmente cerca de 70% das pessoas morrem nos hospitais, no século passado 90% morriam em casa, perto da família, reforçando a afirmação de Freud (1913/2006), da morte como um tabu, pois queremos evitá-la.

A morte no hospital não pertence mais aos rituais realizados pelo moribundo em seu leito, rodeado de seus entes queridos, é agora considerada um fenômeno técnico, onde há uma parada para com os cuidados por decisão da equipe médica. Em muitos casos o paciente ou doente já nem sequer mantém a consciência. Todas as formas de morrer silenciosamente em um hospital (sem consciência ou sem respiração) “apagaram a grande ação dramática da morte, e ninguém mais tem forças ou paciência de esperar durante semanas um momento que perdeu parte de seu sentido” (ARIÈS, 2012, p. 86).

Para Ross (2008), além de um ato solitário, a morte, por vezes, dá-se tão mecanicamente e desumanamente dentro do hospital, que é difícil até mesmo determinar a hora exata da morte. Morrer torna-se um ato impessoal, justamente pelo fato do moribundo ser removido de seu ambiente familiar às pressas e levado a uma sala de emergência hospitalar.

A experiência de ser levado às pressas ao hospital, não é nada fácil a quem a vivencia, pois o barulho, as luzes, as vozes, as sondas, as palavras, as picadas, essa invasão do corpo são, na maioria das vezes, insuportáveis. Esquece-se de dar

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atenção ao sujeito sob os lençóis, segurando sua mão, sorrindo-lhe, prestando atenção em, pelo menos, uma pergunta por ele realizada, afinal, o caminho ao hospital é, atualmente, o primeiro passo para a morte.

Segundo Ross (2008, p.12),

Quando um paciente está gravemente enfermo, em geral é tratado como alguém sem direito a opinar. Quase sempre é outra pessoa quem decide sobre se, quando e onde um paciente deverá ser hospitalizado. Custaria tão pouco lembrar-se de que o doente também tem sentimentos, desejos, opiniões e, acima de tudo, o direito de ser ouvido...

Ao chegar à emergência, o então paciente é cercado por enfermeiras, técnicos, médicos, até mesmo por outros doentes que por ali circulam. Muito provavelmente serão feitos exames de sangue e o paciente será levado ao Raio-x, durante todo esse processo poderá ouvir opiniões e conversas dos profissionais ou até mesmo, perguntas de familiares e, assim, pouco a pouco, passa a ser “tratado como objeto”.

Para Mannoni (1995, p. 45), “Só os privilegiados morrem em casa”, quando um homem está muito doente, expulsasse-o para o hospital, pois a boa morte é hoje aquela que não se vê, que passa despercebida, distante dos olhos da família ou da sociedade, dentro de um hospital.

Não se pergunta ao paciente sobre as decisões tomadas, e se ele tentar de alguma forma reagir a todos os procedimentos, a todas essas invasões de seu corpo? Dão-lhe logo um sedativo e geralmente o conduzem para uma Unidade de Terapia Intensiva (UTI). “Pode clamar por repouso, paz e dignidade, mas recebe infusões, transfusões, coração artificial ou uma traqueostomia, se necessário. Pode desejar que alguém pare por um instante para fazer só uma pergunta (...)” (ROSS, 1995, p. 13), porém, todos estão preocupados demais com o funcionamento orgânico do corpo, esquecendo-se do ser humano, do sujeito. Dar atenção ao sujeito é perder um tempo precioso de salvar sua vida.

Essa é verdadeiramente a questão que mais observamos no trabalho hospitalar: esse modo de tratar o corpo. Por mais importante que seja, há a falta de um olhar que vá em direção ao sujeito, mas este envolvimento também levaria a um posterior sofrimento pela perda de inúmeros pacientes dentro da instituição hospitalar.

Para Keizer (2008, p. 403), a morte é “como um afogamento enquanto a pessoa luta com todas as forças para sair da água e subir uma margem íngreme, até que finalmente ela se deixa afundar, exausta”.

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Pensar a morte, segundo as palavras de Keizer (2008), faz-nos sentir tamanha angústia, como um total repúdio de encarar a morte. Nesse sentido, é possível compreender o fato, tanto dos familiares não mais quererem vivenciá-la, como dos profissionais não quererem se envolver com esse sujeito; afinal, isto os faria sofrer, e negamos os fatos como uma possível forma de defesa; mas onde ficará o sujeito que sofre tanto com a doença, quanto com essa “invisibilidade”?

“Morre-se (...) quando se termina de viver” (MANNONI, 1995, p.13). Segundo Mannoni (1995), foi assim que Françoise Dolto conceituou o morrer quando se vira diante da morte, estando esta assimilada ao inominável.

Ignoramos e evitamos a morte, mas, “A doença é o real do corpo no qual o homem esbarra, e quando isso acontece toda a sua subjetividade é sacudida” (SIMONETTI, 2011, p. 19). Assim, para além do corpo faz-se essencial olhar para o sujeito.

Segundo Sontag (1984, p. 04),

A DOENÇA é o lado sombrio da vida, uma espécie de cidadania mais onerosa. Todas as pessoas vivas têm dupla cidadania, uma no reino da saúde e outra no reino da doença. Embora todos prefiram usar somente o bom passaporte, mais cedo ou mais tarde cada um de nós será obrigado, pelo menos por um curto período, a identificar-se como cidadão do outro país.

A doença é esse real, um lado sombrio da vida que movimenta e desestabiliza toda a nossa subjetividade. Tomamos consciência de sua existência através de um diagnóstico, seja este já conhecido, quando o paciente em estado grave chega ao hospital, ou em muitos dos casos é exatamente no hospital, após todos os exames de imagem ou de laboratório que se conhece a causa dos sinais e sintomas.

Para a medicina e consequentemente para o hospital, o diagnóstico seria conhecer e entender a doença por meio de seus sintomas (queixas relatadas pelo paciente) e sinais (o que pode ser percebido por outras pessoas), para que este corpo possa ser tratado de modo “preciso e eficaz”. O corpo é inegavelmente o objeto do trabalho hospitalar, na doença e na busca de restabelecer a saúde, ou seja, é justamente esse saber sobre o corpo que sustenta a medicina.

Com a confirmação de um diagnóstico onde o prognóstico e/ou a sobrevida do paciente são negativos para ele, ou seja, pacientes que se encontram diante de um quadro irreversível, em que a única espera é pela morte, é comum surgir para os médicos ou para a equipe, a dúvida entre contar ou não para o paciente sua real

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condição. Esse fato ocorre devido à preocupação que diz respeito ao paciente conseguir tolerar essa “verdade”. É muito difícil se defrontar com um paciente com o diagnóstico de um tumor maligno, por exemplo, a própria palavra câncer já traz essa ameaça de morte.

Nas palavras de Ross (2008, p.33),

Diz-se frequentemente que as pessoas relacionam um tumor maligno com doença fatal, encarando ambos como sinônimos. Basicamente, é verdade. Pode ser bênção ou uma maldição, dependendo de como se orientem o paciente e a família nesta situação delicada. O câncer, para muitos, ainda é uma moléstia fatal, a despeito do número crescente de curas reais ou de remissões significativas. Creio que deveríamos criar o hábito de pensar na morte e no morrer, de vez em quando, antes que tenhamos que nos defrontar com eles na vida. Se não fizermos assim, o diagnóstico de câncer, no seio da família irá nos lembrar brutalmente de nosso próprio fim.

Alguns médicos tentam esconder o diagnóstico para evitar uma “crise emocional”, já outros, são capazes de contar ao paciente sem lhe tirar a esperança. A esperança, esse “fio” que amarra todas as fases da doença, tem a ver com esperar, acreditar e confiar que algo aconteça, que seja possível, onde o paciente projeta algo para o futuro, mesmo que este seja um futuro incerto. É no “fio” da esperança que se apoia todo o tratamento.

Quando uma doença maligna aflora, é tomada como sem esperança, “não há o que se possa fazer”. Esse é um processo muito difícil tanto para o paciente, quanto para quem está ao seu redor, pois nesse momento o moribundo sente uma total desesperança, a menos que alguém lance sobre ele um fio de esperança.

Nos relatos ouvidos por diversos pacientes que circulam no hospital e que receberam a notícia de uma doença maligna, pudemos presenciar que a maneira como o paciente recebe a notícia também se faz importante. Poder recebê-la privadamente, longe dos corredores, com respeito, demonstrando dedicação e reforçando que todo o possível será feito, acaba fortalecendo o vínculo entre o paciente e os profissionais da saúde, especialmente a confiança depositada na figura do médico.

Para Simonetti (2011, p. 37), “Adoecer é como entrar em órbita. A doença é um evento que se instala de forma tão central na vida da pessoa, que tudo mais perde importância ou então passa a girar em torno dela, numa espécie de órbita”. Com a doença, chegam também as dores (algias). Dores no corpo, cercadas de sintomas, dores na alma, cercadas de sofrimento, um chorar silencioso do corpo. A dor é algo

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tão real que irrompe neste corpo, especialmente nos pacientes terminais, que já o é impossível de ser evitado.

A dor pode em si representar a vida, pois, se há dor, ainda se vive, mas pode também representar a morte, ela aponta para o limite final da vida, é inibição e perda, perda da vida. É muito comum observarmos no contexto hospitalar, a dor constante dos pacientes terminais. Muitas vezes, esses pacientes chegam gritando de dor, implorando alguma medicação que a paralise, que permita por pelo menos algum tempo dormir ou descansar “desse castigo”. A partir daí os analgésicos vêm para silenciar esse corpo, essa dor física que paralisa o sujeito e que o faz objeto da medicação. Porém, isso só poderá se dar até o momento da sedação, o que nos leva a pensar que muitos aprendem a conviver com a dor, de tal forma que já não gritam mais, apenas sofrem, gemem quase em silêncio, pois não há elaboração possível para a dor, assim como não há para a morte, pois ambas estão amarradas à doença terminal e ao doente.

Labaki (2006) discorre sobre o fato do sujeito, ao receber um diagnóstico de uma “doença mortífera”, fazer emergir a ideia da mortalidade humana e da própria morte. Esta notícia é anunciada, ou por vezes sentida, pelo paciente que percebe não possuir melhora, afinal, se por vezes temos um resfriado, logo estaremos bem, se tivermos uma infecção, tomamos antibióticos e passamos a nos sentir melhor, mas, quando não há melhora alguma, com ela emergem grande sofrimento e angústia, por vezes atravessada por um sentimento de culpa, das mais variadas possíveis, o que nos leva a pensar na urgência de se tratar a morte sob um olhar que vai para além do corpo.

O sujeito em fase terminal é percebido como alguém que não possui mais chances para a vida, sente-se rejeitado, pela sociedade, pois já não produz mais, e por familiares que, por sentir a impotência diante da doença, acabam se afastando de sua convivência. O sujeito se sente confuso, sem perspectivas, desejos ou sonhos para o futuro e com um presente paralisado e torneado pela doença e pelas internações hospitalares.

Camon (2001) afirma que o paciente terminal é um ser vivenciando inúmeras emoções, como ansiedade, lutas pela dignidade e pelo seu conforto, um temor relacionado ao seu tempo de vida, sentimentos com relação à família, entre outros. Nesta atual sociedade, morrer é algo que ocorre no hospital, instituições eficientes e despersonalizadas, onde, contudo, torna-se muito difícil viver dignamente, já que não

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há nem tempo, nem lugar na rotina para vivenciar as necessidades subjetivas dos doentes.

Faz-se importante humanizar as condições de vida e de morte do paciente terminal, lembrando-se que não há ali somente um corpo. De acordo com Betts (2011), o humano seria efeito da materialidade do corpo, da imagem do corpo, bem como da palavra que se inscreve nesse corpo. É justamente o fato de sermos dotados de linguagem que nos diferencia dos demais seres vivos. É quando a palavra fracassa que o homem é capaz das piores crueldades na busca de destruir aqueles que entendemos ser diferentes de nós, podendo ocorrer desde um “não olhar no rosto” até um “ato de violência mortífera”. E, assim, humanizar seria permitir a circulação da palavra, garantindo sua dignidade ética, ouvir (reconhecendo as palavras), bem como, ser ouvido.

(...) sem comunicação não há humanização. A humanização depende de nossa capacidade de falar e ouvir, pois as coisas do mundo só se tornam humanas quando passam pelo diálogo com nossos semelhantes. (BETTS, Jaime. Considerações sobre o que é o Humano e o que é Humanizar. 2011. Disponível em: <http://psicologiadoensino.blogspot.com.br/2011/03/

consideracoes-sobre-o-que-e-o-humano-e.html>. Acesso em: 14 outubro 2016)

Se o paciente terminal é um ser de linguagem e não um objeto constituído apenas de um corpo físico, precisamos levar em consideração seus sentimentos, suas percepções de dor e prazer, para que assim se tornem humanizadas. Faz-se necessário que as palavras expressadas pelo sujeito possam ser reconhecidas pelos outros. Além disso, é fundamental que esse sujeito também ouça do outro, palavras que possa reconhecer, pois sem isso tornamo-nos desumanizamos, ou seja, se não houver comunicação não há como se dar a humanização.

Vivemos atualmente, em uma era em que a ciência e a tecnologia buscam respostas e curas para prolongar a vida do homem. Essa era pode ser pensada como de grande importância, mas também enquanto responsável por uma comunicação fragmentada, com contatos fragilizados e desumanizados, pois temos a tendência a reduzir o sujeito fragilizado e agonizante a mero objeto despersonalizado, em meio a tratamentos frios e objetivos. Entretanto, isso não é sem custos, pois com tal ação acabamos eliminando da condição humana justamente aquilo que nos diferencia dos demais animais, a palavra, a linguagem. Contudo, o que ocorre é que ao adoecer o sujeito poderá perder sua identidade subjetiva, sendo reconhecido apenas pelo

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número do leito, pelo seu prontuário ou pela patologia, bem como pelos sintomas e pela evolução da doença, por exemplo.

O simples ato técnico de preenchermos uma ficha com o histórico clínico do paciente, por si só, acaba por excluir o lado humano, já que neste momento se elimina a “dignidade ética da palavra”, uma vez que só se responde o necessário para reconhecer os sinais e sintomas do corpo, ou seja, os pacientes são tratados como objetos de intervenção técnica, não ouvidos e acolhidos em suas angústias, medos ou expectativas.

Muitas podem ser as explicações para essa exclusão do reconhecimento de que há ali um sujeito; uma carência de condições gerais ou específicas das condições de trabalho, acabam por interferir e desumanizar os atendimentos. Assim, vale buscar formas de dar lugar tanto à palavra do paciente quanto à do trabalhador da área da saúde, permitindo com isso que esses possam dialogar.

Desse modo, podemos considerar que parar por um instante e olhar para um sujeito que se encontra desamparado de referências e respostas, permitindo que ele sinta-se alguém que ainda possui vida, apoiando-o durante o processo, permitindo que ele se sinta escutado, é reconhecer a nossa própria finitude. E para além disso também faz-se necessário um olhar que vá em direção aos demais sujeitos envolvidos nesse processo, sejam eles familiares, cuidadores ou profissionais da área da saúde, pois a morte não tarda a chegar para todos, ela “virá e a ela deverás te entregar, querendo você ou não” (SÊNECA, 2015, p. 45).

1.3 O Corpo Orgânico e a Subjetividade: Familiares, Cuidadores e Profissionais da Saúde nos Processos de Adoecimento e Morte

É o corpo orgânico que se impõem no hospital, pois é este “saber-poder” que sustenta a medicina. O corpo é para a medicina e/ou equipe médica aquilo que se pode ver clinicamente, em exames de laboratório ou de imagem, “funcionante” ou não. E, assim, duvida-se de todo e qualquer saber que não seja oriundo da experiência científica.

Para Capobianco (2003, p. 59), “O exame do paciente visa chegar a um diagnóstico preciso, absoluto, a respeito do que ele sofre, para, dessa forma, oferecer-lhe um tratamento adequado com a finalidade de curá-lo. Aí estaria bem

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cumprida a tarefa da medicina.” Assim, a doença é geralmente entendida como algo que “ataca” o corpo e que necessita ser eliminada.

A medicina separou o corpo em sistemas e órgãos, e cada médico se torna especializado em tratar uma parte desse corpo. Isso teria a ver com uma produção de um saber médico-científico, por esta razão o médico encaminharia o paciente classificado como “emocional” ao psicólogo, pois esse campo não é de sua competência, afinal, seu domínio está na “fragmentação” do corpo.

Já a psicologia no âmbito hospitalar tem como foco de trabalho a subjetividade, ou seja, busca entender e tratar os aspectos psicológicos no entorno do adoecimento, uma vez que, todas as doenças se encontram repletas de subjetividade.

Segundo Simonetti (2011, p.15),

O adoecimento se dá quando o sujeito humano, carregado de subjetividade, esbarra em um “real” de natureza patológica, denominado “doença”, presente em seu próprio corpo, produzindo uma infinidade de aspectos psicológicos que podem se evidenciar no paciente, na família, ou na equipe de profissionais.

Reconhecemos que a psicologia tem como objetivo a subjetividade, mas não é só isso. Somos sujeitos formados por corpo físico e psiquismo, e nossa principal questão está justamente na reação psíquica diante da realidade orgânica, a posição do sujeito frente a esse “real” que a doença institui.

São os “aspectos psicológicos” (as manifestações subjetivas diante da doença), sentimentos, desejos, discurso, comportamentos, fantasias, crenças, sonhos, conflitos, estilo de vida e de adoecer, que poderão atuar como causa, desencadeador, agravante, manutenção ou consequência do adoecimento. Se pensarmos nos aspectos psicológicos atuando como causa, adentramos no campo da psicossomática, que vem demonstrando a influência da mente sobre o corpo. Porém, por vezes, um fator psicológico nada tem a ver com o adoecimento, mas poderá influenciar negativamente no tratamento, como um fator agravante.

Podemos definir a doença como uma situação de perdas, pois, uma pessoa enferma perde a saúde, a autonomia, o tempo, a convivência familiar e social, isso quando não perde a própria vida. Porém, a doença também pode produzir ganhos secundários, como o direito a não trabalhar, a ter mais atenção e cuidados e assim, poderão atuar como fatores de manutenção do adoecimento.

Os aspectos psicológicos não operam sozinhos, estão representados na figura do paciente, de pessoas da família e na equipe de profissionais. O objetivo da

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psicologia não está só na dor, mas na angústia familiar e na angústia negada da equipe. Assim, o trabalho da psicologia no âmbito hospitalar, preocupa-se não só com a individualidade, mas também com as relações dos indivíduos envolvidos no processo do adoecimento, o que acaba por facilitar os relacionamentos entre pacientes, familiares e profissionais da saúde.

Um dos principais objetivos da psicologia, é permitir que o sujeito consiga realizar uma elaboração simbólica, realizando a travessia desse processo.

Estando juntas, psicologia e medicina, aproximam-se bastante, pois ambas tratam do mesmo paciente, porém sem nunca se confundir, seus objetivos e métodos são bem diferentes. O que as diferencia, é que a psicologia não trabalha com a filosofia da cura; pois, se assim o fosse, não seria possível trabalhar com pacientes em fase terminal. Nem pela cura, nem contra ela, mas em busca de um “além da cura”. A medicina trata o corpo real, orgânico, palpável, enquanto a psicologia trabalha com o corpo simbólico que está nas palavras, oferecendo para isso seus ouvidos, a escuta.

Quando alguém que amamos se encontra na órbita da doença, sentimos tamanha angústia que é muito difícil ouvir o que o paciente tem a dizer. Estão presentes todos os seus medos, temores, revoltas, desejos, que fazem emergir uma enxurrada de emoções em quem as ouve. Por isso é tarefa árdua, principalmente aos familiares, sustentar essa escuta. Esse seria o diferencial do psicólogo diante da família e dos demais profissionais da saúde.

É muito comum observamos a presença, nessas situações, dos chamados “cuidadores”, pessoas ou mesmo profissionais da saúde, que nas “horas vagas” trabalham auxiliando no cuidado aos pacientes. Quando a família já não suporta ou não tem condições de cuidar dos doentes, os cuidadores estão presentes para “sustentar e suportar” o adoecer e as relações circunvizinhas, numa espécie de testemunho no entorno do adoecimento. Aliás, em muitas ocasiões são os cuidadores que estão presentes no momento do óbito.

Para poder compreender as relações no entorno do paciente terminal, temos que levar em consideração as relações com seus familiares, isso é fundamental para o tratamento.

Segundo Ross (2008, p. 163),

No período da doença, os familiares desempenham papel preponderante, e suas reações muito contribuem para a própria reação do paciente. Por

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exemplo, a doença grave de um marido e conseqüente hospitalização pode causar mudanças radicais no lar, às quais a esposa é obrigada a se adaptar. Pode sentir-se ameaçada pela perda da segurança e por não poder mais depender do marido. Terá de assumir muitas funções antes desempenhadas por ele e ajustar seu horário às novas exigências, desconhecidas e aumentadas. Pode subitamente ver-se envolvida em assuntos de negócios e questões financeiras, o que antes evitava fazer.

As mudanças podem ser “sutis ou dramáticas”. Mudanças no social, no lar, nas relações em geral. Espera-se ajuda de parentes ou amigos, mas esta pode não vir no tempo ou no sentido em que se espera. Até a vizinhança tem importante papel nesses momentos, seja com conselhos, por vezes rejeitados, ou, quando são compreensivos, ajudando a aliviar as tarefas.

No caso da mulher estar enferma, o marido poderá sentir um maior “senso de perda”, afinal, para a maioria dos homens, cuidar dos filhos, escola, deveres, refeições, roupas é uma total inversão de papéis e essa inversão é bem mais difícil de ser aceita pelo homem. Essa reação poderia estar ligada às reações da criança frente à ausência da mãe.

De modo geral, nem uma pessoa deve permanecer todo o tempo com o doente, esta é uma tarefa muito cruel. Todos precisam recarregar suas forças fora do quarto do paciente e ter, de vez em quando, uma vida normal. Ninguém é eficaz, ficando cem por cento de seu tempo perante a doença. Há inúmeros familiares que se queixam de os demais membros da família continuarem tendo uma vida normal, com viagens ou jantares, menos ele. Este fato não deve ser saudável nem para o moribundo, nem para o acompanhante, pois, o ambiente deve mudar o menos possível; não é fácil para o paciente ouvir queixas da “falta de vida” em função dos cuidados consigo, pois, deste modo, poderá ele se sentir um estorvo. Este não deve ser um momento de desequilíbrio, mas de preparação para quando a morte chegar; presença e ausência fazem parte de todas as fases da vida; poder se ausentar permite também iniciar a elaboração do luto.

É fato que, assim como cada sujeito poderá reagir de uma forma diante da morte, cada família também reagirá a seu modo. Tais enfrentamentos dependerão tanto da estrutura e união de cada família, quanto da capacidade de comunicação entre eles.

Poder falar sobre os acontecimentos, vivências e experiências que chegam com a doença, além do fato do próprio moribundo conseguir encarar tal situação, e a

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presença constante da ameaça de morte permitem que todos possam participar naturalmente do processo.

A culpa é uma árdua companheira da morte. É muito comum, juntamente com a doença, emergirem questionamentos como: “como eu não percebi antes” ou “e nós achando que ele estava com preguiça”. Isso está relacionado ao fato de, em um momento de raiva, desejarmos a morte deste alguém, mesmo que, por vezes, inconscientemente.

Segundo Freud (1915/2006, p. 307),

Em nossos impulsos inconscientes, diariamente e a todas as horas, nos livramos de alguém que nos atrapalha, de alguém que nos ofendeu ou nos prejudicou. A expressão „Que o Diabo o carregue!‟, que tantas vezes o aflora aos lábios das pessoas em tom de brincadeira e que na realidade, significa „Que a morte o carregue‟, é em nosso inconsciente um sério e poderoso desejo de morte.

Os membros da família, bem como os pacientes experimentam diferentes estágios de adaptação relacionados ao processo de adoecimento, são as formas pelas quais o sujeito irá reagir. Para a psicologia, segundo Simonetti (2011), faz-se importante observá-los, pois dizem respeito ao diagnóstico reacional ou às formas com as quais o sujeito reage. É o momento do Psicólogo ver, compreender para só aí intervir.

Elisabeth Ross em sua obra Sobre a Morte e o Morrer (2008) estabelece cinco estágios: o primeiro como sendo a negação e isolamento; o segundo – a raiva; o terceiro – a barganha; o quarto – a depressão, e o quinto – a aceitação.

No primeiro estágio, da negação e isolamento surgem afirmações do tipo “não pode ser verdade”, “tem certeza do resultado?”, “não há de ser nada grave”, “esses exames são meus?”... Ou ainda ocorrem fatos como esquecer-se de realizar um exame ou ainda de buscar o diagnóstico. Seria esta uma forma de defesa temporária, pois a maioria das pessoas não permanece na negação por muito tempo. Assim, a negação nunca é total e/ou permanente, pois em algum momento aflorará o real insuportável. Espera-se uma solução mágica ligada a uma esperança demasiada, apontando para um medo medonho de morte - “No fim tudo dará certo”.

É comum neste estágio o sujeito apresentar uma alegria mascarada, que pode contagiar quem está perto ou despertar reações de irritação, mas podemos entendê-la como estando tamponando o terrível e angustiante medo da morte.

Referências

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