4.1 COMPORTAMENTO VIOLENTO FEMININO
4.1.2 Adolescentes femininas em conflito com a lei
Atualmente e ao longo dos anos, ocorrem questionamentos acerca da natureza normativa e atípica do desenvolvimento na adolescência têm assumido especial importância. Observa-se um crescente interesse científico na pesquisa com adolescentes e jovens envolvidos em situações de violência, considerando que os comportamentos desviantes, antissociais e criminosos têm sido cada vez mais observados nessa população (GAUER, DAVOGLIO & VASCONCELOS, 2012). Essa fase é marcada por intensa excitação, vulnerabilidade a problemas na regulação das emoções e comportamento, o que pode ajudar a explicar o potencial aumento na adolescência para a assunção de riscos, imprudência, e o aparecimento de problemas emocionais e comportamentais podendo ser esses decorrentes do processo normal da maturação cerebral.
Del Pino & Werlang (2008) aduzem que o desenvolvimento cerebral, comportamental e os sistemas cognitivos amadurecem em ritmos diferentes e, para tanto, tal processo carece de controle e regulação tanto no que tange à esfera biológica quanto à emocional. Tal desenvolvimento pode ser normativo e visto lucrativamente no que diz respeito ao reforço de habilidades referentes à coordenação das emocões, do intelecto e das inclinações comportamentais, por outro lado, pode refletir uma série de complicações, denotando psicopatologias desde tenra idade na infância e adolescência. Tomadas em conjunto, as modificações emergentes nesse processo de desenvolvimento humano podem contribuir para a compreensão da adolescência como um período crítico e sensível, com riscos e oportunidades.
Nesse cenário, observa-se um exacerbado aumento da violência e criminalidade em todas as camadas da sociedade, havendo, desse modo, um envolvimento direto de adolescentes e jovens neste fenômeno. Pesquisas que estudam o comportamento violento adolescente apontam que comportamentos antissociais graves e violentos (homicídios, agressões, roubo, furto, vandalismo, fraude, etc.), que geralmente é associado a questões de vulnerabilidade social, é consequência não somente de fatores socioeconômicos, mas da interação de fatores biológicos, psicológicos e sociais (DAVIDSON, PUTNAM & LARSON, 2000; GAUER, DAVOGLIO & VASCONCELOS, 2012).
Pesquisadores assinalam que os primeiros sinais manifestos indicativos de comportamento violento e presença de transtorno de conduta em adolescentes do sexo feminino costumam aparecer durante o período da pré-puberdade e, no sexo masculino, mais precocemente, ainda durante a infância (KAPLAN, SADOCK & GREBB, 2003). Outrossim, autores como Richards, Casey e Lucente (2003) aduzem que a combinação de traços interpessoais e afetivos disfuncionais na adolescência, independentemente dos traços comportamentais, podem ser preditores significativos para a reincidência em atos infracionais, considerando que o indivíduo se mostra mais propício a manter-se na criminalidade quando há antecedentes de comportamentos agressivo, criminoso ou violento.
Em se tratando de adolescentes do sexo feminino, verifica-se que as mesmas têm vivencias marcadas por características como a aceleração, as transformações sociais, banalização da sexualidade e imediatismo nas atitudes. As adolescentes denotam necessidades típicas da contemporaneidade, como o individualismo, hedonismo, o mercado do consumo, sendo este marcado pela constante substituição dos produtos em oferta, gerando uma constante frustração. Desse modo, as adolescentes, nem sempre conseguem satisfazer ao acionamento do desejo provocado pelo sistema consumista. Para elas, a posse desses bens
lhes asseguraria a realização da felicidade, razão pela qual, muitos crimes contra o patrimônio, tráfico, furto nem sempre são realizados por necessidade. A insatisfação face à situação social, a frustração permanente de aspirações e desejos podem gerar respostas criminais (YOUNG, 2002).
Paralelamente a esse processo de reconhecimento da participação do adolescente e jovem no cometimento de atos infracionais, se dá o processo de reconhecimento do gênero e da sexualidade deles. A distinção implicada pela lógica binária – feminino e masculino – tem se mostrado redutível e geradora de discriminações, sustentando, inclusive, desiguldades, muito encontradas no plano do Sistema de Justiça Juvenil e mais ainda ao se tratar do cumprimento de medidas socioeducativas e funcionamento interno das instituições envolvidas.
Gonzáles (2004) aduz que as adolescentes em conflito com a lei, ao serem expostas ao Sistema de Justiça Juvenil, diferenciam-se ainda mais dos meninos, visto que, além do controle jurídico, sobre elas é exercido um rígido controle moral. A censura social dos comportamentos das adolescentes femininas continua sendo exercida nos âmbitos familiar e social e, quando submetidas à Justiça, a tentativa de tratamento igualitário que se pretende dar, acaba consolidando as diferenças entre elas e os meninos. Para o autor, a adolescente infratora ao ser tratada pela justiça penal juvenil, sofre punição dupla: é punida pela ofensa ao bem jurídico tutelado e, também, por comportar-se de forma antagônica ao que se pressupõe que seja o comportamento feminino apropriado.
No âmbito da justiça aplicada aos adolescentes masculinos, com frequência, é projetada uma falsa neutralidade no tratamento dado aos mesmos. Tal realidade decorre do fato de que a identidade de gênero vai se construindo desde a infância, à medida que significados diferentes são dados a condutas similares, com a negação da realidade das meninas, a repressão de sua sexualidade, bem como a ampliação da violência exercida sobre elas.
Nesta seara, verifica-se que é recente a iniciativa de abandono da visão sexista, de padrão desigual, que subestimava a importância das adolescentes e de seu comportamento, inclusive quanto à prática de atos infracionais. Não era dada atenção à delinquência feminina na adolescência, em razão da crença de que o único problema das jovens, vistas como seguidoras pouco espertas dos rapazes, era a promiscuidade sexual. Desse modo, a forma de sanar o problema da delinquência feminina, na adolescência, seria a conscientização das adolescentes sobre a importância da castidade (SPRINTHALL & COLLINS, 1994).
Ao se tratar do funcionamento das instituições de amparo às adolescentes femininas, pesquisadores referem que o julgamento moral se faz presente nas vísceras do cotidiano das unidades. Esta moralidade encontra-se na execução das medidas socieducativas das adolescentes femininas, por meio da tipologia das atividades institucionais, dos cursos oferecidos e apresenta-se moldada ao esteriótipo do feminino no que tange aos padrões da sociedade. Contudo, as diferenças apresentadas nas unidades femininas não se dão somente na infraestrutura, mas igualmente no tratamento que as adolescentes recebem durante o cumprimento de suas medidas e nas próprias regras da unidade
(EILBERG, 2015).
Machado (2014) aponta o controle social de modo potencializado nas unidades de internação feminina, ao ponto de características e comportamentos “corriqueiros” da adolescência serem tidos como fatores de rebeldia e inadequação aos objetivos oficiais socioeducadores da instituição, evidenciando, dessa maneira, a mortificação da subjetividade das adolescentes durante a execução da medida socioeducativa no intuito de se manter o controle institucional.
Do mesmo modo, aduz que as adolescentes femininas são submetidas a normas que ultrapassam o senso educador ou mesmo jurídico, diferenciadas das sanções disciplinares aplicadas aos adolescentes. Para a autora, esse controle atinge o âmbito correcional da moralidade e preza pela constante necessidade de enquadrar as meninas aos padrões estipulados pela sociedade de “boas moças prontas pra casar”, conscientes de seus afazeres domésticos, por meio da coerção disciplinar.
O Estatuto da Criança e do Adolescente não institui um regulamento unificado das unidades femininas e masculinas. Para tanto, as desigualdades existentes neste tratamento e tal assimetria é permitida e assegurada legalmente, ainda que haja a Resolução Nº 006/FASERS/2008, normatizando generalizadamente a atuação dos socioeducadores da FASE, razão pela qual cada um dos centros de internação da FASE possui o seu próprio Regimento Interno
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Nesse contexto, cria-se clima favorável para que cada unidade estabeleça sua forma de tratamento, sendo este, por vezes, despropocional às outras unidades socioeducativas.Vale considerar que a unidade socioeducativa feminina da FASE não enfrenta o mesmo problema de superpopulação que algumas unidades masculinas possuem. Desse modo, cabe uma análise a respeito dessa majoritária população masculina nas unidades de internação e do motivo pelo qual o índice da população feminina se mostra tão baixo. Seriam as adolescentes femininas menos violentas?
Para se compreender o elevado índice de internação de adolescentes, em detrimento à taxa de internação de adolescentes femininas, é importante retomar o processo de criminalização ou construção social da criminalidade no Brasil. Nesse sentido, Baratta assinala que os índices de criminalidade são proporcionais às variáveis que dependem das posições de vantagem e desvantagem na posição social do indivíduo. Assim como, no que se refere à violência, é fundamental fazer uma análise sociológica do indivíduo envolvido, visto que os aspectos referentes ao regime de desigualdade são fatores determinantes para a situação de vulnerabilidade (TAVARES, 2009).
O Sistema de Justiça Juvenil é seletivo e, consequentemente, também é o sujeito penal juvenil com seu viés ressocializador. Contudo, esta seletividade não se dá apenas nos âmbitos social ou econômico,visto que o sistema de justiça criminal também cria e reforça as distorções de gênero. Constata-se no Judiciário que certas condutas são punidas com maior grau de severidade conforme o papel social, masculino ou feminino, que o autor desempenha (EILBERG, 2015).