2.2 BASE BIOLÓGICA DO COMPORTAMENTO CRIMINOSO
2.2.2 Processo de maturação cerebral do adolescente
Na década de 90 houve considerável avanço nos estudos neurológicos. A ressonância magnética, por se tratar de um exame não invasivo, possibilitou que pesquisadores examinassem como as mudanças físicas tomam lugar no cérebro, permitindo uma investigação avançada no cérebro de crianças e adolescentes. Neurocientistas constataram diferenças significativas entre crianças, adolescentes e adultos não somente no que diz respeito ao processo de maturação, mas também ao modo de funcionamento do cérebro.
Com efeito, os estudos da anatomia do cérebro adolescente possibilitaram fazer uma correlação entre a estrutura cerebral, a atividade cerebral e o comportamento, evidenciando que as regiões do cérebro responsáveis pela capacidade de previsão e controle de impulsividade não estão prontas, mas em pleno desenvolvimento. E, ainda, a imaturidade destas regiões está relacionada a performances mais fracas em tarefas que requerem as capacidades citadas (BUSATO, 2014).
Observa-se um distinto processamento de informações no cérebro do adolescente e jovem ao comparar com cérebro de pessoas já na idade adulta. Evidências de que o cérebro adolescente é menos maduro do que o de um adulto, em caminhos que afetam seu comportamento, aliviam sua responsabilidade criminal. Ou seja, não se pode esperar que eles se comportem com o mesmo grau de maturidade, julgamento e controle impulsional de um adulto. Regiões cerebrais responsáveis pelos processos básicos da vida e pela percepção sensorial tendem a amadurecer mais rápido, enquanto que as áreas responsáveis pelo controle inibitório, avaliação de riscos, tomada de decisões e emoções costumam a demorar mais para amadurecer (BONILHA & GUINEA, 2006).
Nessa fase do desenvolvimento, notam-se alterações na amplitude da memória de trabalho, assim como na quantidade de dados que são mantidos na memória de longo prazo. Verifica-se desse modo que, com o passar do tempo, as pessoas vão conseguindo tomar decisões relacionadas a questões complexas com maior facilidade, denotando evidente melhora em funções cognitivas como raciocínio, aprendizagem, lembrança e controle de impulsos.
O período final da adolescência assinala um significativo ponto de transição no desenvolvimento biopsicossocial que é potencialmente importante para os debates sobre os limites entre a adolescência e a adultez. Não só o convívio familiar, a educação e a busca por reconhecimento entre os pares desempenham funções importantes na formação do adolescente, como também o processo de maturação cerebral. Desse modo, as novas descobertas científicas demonstram que a fase da adolescência é um período de importante desenvolvimento cerebral (BUSATO, 2014).
Para Luria (1984) a sensação, a percepção, a linguagem, o pensamento e a memória não podem ser considerados simples faculdades localizadas em áreas particulares e concretas do cérebro, mas sim como sistemas funcionais complexos. Ao constatar que o ser humano, para realizar suas tarefas, utiliza o cérebro cujo funcionamento é dado pelo conjunto das zonas do córtex, descreveu a interconexão das três unidades funcionais. A primeira delas é formada pelo tronco cerebral e sistema límbico, responsáveis pelo estado de consciência e respostas emocionais. Já a segunda unidade, constituída pelos lobos occipital, parietal e temporal, armazena e processa as informações recebidos. Somente na terceira unidade funcional, composta pelo lobo frontal, a partir das duas primeiras unidades, tem a capacidade de verificar e regular toda a atividade mental.
Entende-se que, em cada unidade funcional, os processos mentais e as funções são subdivididos em três zonas corticais que se organizam de forma coordenada e sequencial,
denominadas de áreas corticais primária, secundária e terciária. O processo de organização funcional no cérebro da criança segue a rota de mielinização. Ou seja, o grupo neuronal primário responde de forma específica aos estímulos, sendo a sensopercepção, visão e audição, de maneira unimodal; o grupo neuronal da área secundária é responsável pela percepção, organização e com o princípio da significação; já a área cortical terciária, responsável pela integração e organização polimodal, nível mais alto de integração, responsável pela formação dos processos mentais mais complexos, só vai acontecer e se expressar em suas formas mais elaboradas de acordo com a maturação cerebral do indivíduo (LURIA, 1984).
TABELA 01 – Maturação cerebral entre as idades de 05 e 20 anos
Fonte: Pesquisa realizada no Instituto Americano de Saúde Mental (NIMH) e pela Universidade de Los Angeles na Califórnia (UCLA). Esse texto e imagem foram retirados e adaptados a partir do site www.nimh.nih.gov.
Estas imagens do quadro acima foram feitas via exame de imagem – ressonância magnética cerebral de crianças e adolescentes, durante 15 anos de desenvolvimento do cérebro. A parte em vermelho indica maior quantidade de substância cinzenta, ainda imatura, conectando-se de forma pouco ordenada. A substância cinzenta diminui da área posterior para a anterior à medida que o cérebro vai se maturando e o excesso de conexões neuronais vai sendo progressivamente cortado e ordenado. As áreas responsáveis pelas funções básicas se maturam precocemente, áreas de funções mais elaboradas maturam depois. A área pré-frontal,
responsável pelo raciocínio mais elaborado e pelas funções executivas, se desenvolve por último na sequência de maturação normal do cérebro.
A fase da adolescência é um período marcado por significativo decréscimo de massa cinzenta, composta primariamente por células corporais nervosas e aumento de massa branca, composta por fibras nervosas cobertas com mielina. Comumente, a massa branca pode ser compreendida como a parte do cérebro responsável pela transmissão de informações, enquanto que a massa cinzenta é responsável pelo processamento da informação. Além disso, averigua-se que a matéria branca cresce linearmente durante o desenvolvimento, a massa cinza diminui durante a adolescência (GRUBER & YURGELUN-TODD, 2006).
Tais elementos estão diretamente vinculados ao processo de desenvolvimento das regiões frontais, considerando que as conexões neuronais mais eficientes no córtex pré-frontal são importantes para as funções cognitivas ligadas ao controle e tomada de decisões. Por causa da contínua mielinização dos axônios, o córtex orbito-frontal, que controla a impulsividade, amadurece em torno dos vinte anos de idade, influenciando desde a educação até a socialização do indivíduo, além de controlar as emoções para a tomada de decisões (GRUBER & YURGELUN-TODD, 2006).
O cérebro de adolescentes ainda não desenvolveu a estrutura hierárquica das zonas corticais de forma plena e, somente a partir da integração das áreas terciárias, poderá ocorrer um maior nível de abstração, simbolismo, planejamento e monitoramento do comportamento. É a partir da terceira unidade funcional, mais especificamente do lobo frontal, que se dá a dinâmica das funções executivas e o funcionamento dos papéis decisivos na formação de intenções, de programas de regulação e verificação das formas mais complexas do comportamento humano. As regiões pré-frontais são uma das últimas a se tornarem maduras no indivíduo e não estão plenamente desenvolvidas até a terceira década da vida. Ou seja, não há maturidade cerebral plena no lobo frontal, razão pela qual exerce menos controle sobre amigdala (KRUSZIELSKI, 2015; DAMÁSIO, 2010).
Enquanto adultos têm seu comportamento decorrente, sobretudo, de conexões do lobo frontal, área cerebral responsável pelo planejamento, julgamento, direção de objetivos, os adolescentes têm seu comportamento determinado pela amigdala, região mais emocional do ser humano. O processo de desenvolvimento, a mielinização e a “poda” das conexões neuronais, continuam a tomar lugar na adolescência e início da vida adulta. Nessa fase, o cérebro sofre uma reorganização química e estrutural, não só no número de neurônios, mas na capacidade de trocar sinais entre eles, sucedidos pela modificação da estrutura de mielinização. Os ciclos de mielinização refletem a maturação funcional do cérebro e podem
ser relacionados com a gradual diferenciação e com as mudanças nos padrões de comportamento (LURIA, 1984; ARONSON, 2007).