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Afeto, conatus e alegria

No documento ALEGRIA E FELICIDADE (páginas 35-40)

Capítulo 1: A ONTOLOGIA DA ALEGRIA

3. Afeto, conatus e alegria

Se nós passamos, ainda que demasiado rápido, pela teoria da mente em Espinosa, é porque dela depende a compreensão do que seja um afeto. Pois, porque a mente é ideia do corpo, o que nele se passa é experimentado na mente como afeto. O que se passa no corpo são afecções corporais: os afetos são as ideias dessas afecções. Mas justamente porque a mente é ideia do corpo, tudo o que se passa nele não pode deixar de ser percebido de algum modo por ela. Somos necessariamente seres afetivos. O conceito de afeto surge na Parte III, que precisamente trata Da natureza e origem dos

afetos :

Por Afeto entendo as afecções do Corpo pelas quais a potência de agir do próprio Corpo é aumentada ou diminuída, favorecida ou coibida, e simultaneamente as ideias destas afecções(E III, def. 3; GEE).

Quando algo ocorre no corpo, isto é, quando ele é afetado de alguma maneira, a ideia dessa afecção é um afeto. Mas quando o corpo sofre alguma afecção, sua potência de agir é aumentada ou diminuída, favorecida ou coibida. Isso acontece porque o corpo humano é, como veremos, uma entre infinitas outras partes da Natureza. A proposição II,10 demonstrara, em outras palavras, que o homem não é substância, já que sua

essência não envolve existência necessária. Logo, o homem é modo. Contudo, se o homem fosse um modo que decorresse de forma imediata, ou seja, da natureza absoluta dos atributos extensão e pensamento, ou decorresse mediatamente desta modificação, nos dois casos ele seria infinito e eterno, isto é, teria existência necessária, em virtude dos mesmos atributos, como o demonstram as proposições 21 e 22 da Pare I. Ora, sabemos que o homem não existe necessariamente, isto é, que a sua essência pertence o existir, pois nesse o homem não poderia ser concebido como não existindo. Portanto, o homem é um modo finito.

Dizer que o homem é um ser finito significa afirmar que o seu corpo é de tal natureza que pode ser limitado por outro corpo, assim como a ideia de seu corpo também pode ser limitada por outra ideia, como exige a definição de coisa finita (E I, def. 2). O homem, portanto, é uma parte finita entre infinitas outras partes finitas da Natureza. Sendo uma parte entre outras partes da Natureza, o homem entra em relação com elas, embora não com todas elas, já que as relações entre as partes dependem dos encontros que emergem numa rede causal infinita. Aquelas com as quais o homem se relaciona, ele as afeta e é necessariamente afetado por elas9. Precisamente nisto, em

nossa finitude, reside a dimensão ontológica da alegria – e também da tristeza.

De fato, no jogo das afecções a que o corpo está necessariamente submetido, ele pode ter, como foi dito, sua potência de agir aumentada ou diminuída. À ideia do que se passa no corpo quando sua potência de agir é aumentada ou favorecida, Espinosa chama de alegria; e de tristeza à ideia do que se passa no corpo quando essa potência é

9 Evidentemente, as “partes” ou modos que se afetam são as “partes” ou modos de um mesmo atributo. As afecções são produzidas, por assim dizer, no interior de um mesmo atributo, o que significa afirmar: ideias modificam apenas ideias, corpos modificam apenas corpos. É o que diz a proposição 6 da Parte II, a qual afirma que a Natureza é causa das ideias apenas enquanto considerada sob o atributo pensamento, e causa dos corpos apenas enquanto considerada sob o atributo extensão. Portanto, quando dizemos que o homem é uma parte em relação necessária com outras partes da Natureza, referimo-nos apenas aos modos dos quais ele é uma ideia, isto é, corpos e ideias, que são modos dos mesmos atributos pelos quais a essência do homem é constituída (E II, 10).

diminuída ou coibida. Aumento ou diminuição da potência de agir significam aumentar ou diminuir a capacidade mesma de ser, de existir, de realizar-se ou produzir-se. Significam, portanto, passar a uma perfeição maior ou menor do que antes, já que perfeição e realidade, em Espinosa, são uma só e mesma coisa (E II, def. 6):

Alegria é a passagem do homem de uma menor a uma maior perfeição (AD, 2; G II, 191).

Tristeza é a passagem do homem de uma maior a uma menor perfeição (AD, 3; G ibid.).

Assim, a condição ontológica mesma do homem, ser finito entre outros seres finitos, estabelece que ele experimente alegrias e tristezas. Entretanto, por que, segundo Espinosa, não está de acordo com nossa essência buscar a tristeza, ao mesmo tempo que buscamos sempre a alegria?

Como somos partes da Natureza e estamos sempre em relação com outras partes, não podemos deixar de afetar e ser afetados. Essa é a condição de nossa finitude. As afecções que sofremos implicam aumento ou diminuição de nossa potência de agir, o que na mente é experimentado como alegria ou tristeza. Mas como poderia ser dado em nossa própria essência algo que nos levaria a uma menor perfeição, isto é, a um menor grau de realidade, como é o caso da tristeza? Se em nós fosse dado algo que concordasse com a tristeza, traríamos em nós mesmos algo que nos levaria à própria destruição. Mas se trouxéssemos em nós algo que nos destruísse, por que razão nos manteríamos um instante sequer na existência? O que faria prevalecer a causa da nossa existência sobre a causa de nossa inexistência? Seria preciso, neste caso, talvez, o concurso de algum Deus ou demônio exteriores a nós. É por isso que Espinosa considera “patente por si” a proposição segundo a qual “Nenhuma coisa pode ser

pelo que foi demonstrado, na Parte I, sobre a Natureza, da qual a coisa é um modo imanente, isto é, uma modulação intrínseca. Se, como vimos, a Natureza é existência necessária e as coisas que ela produz são nela de forma imanente, sendo dela uma parte intrínseca de potência, então tais coisas, posto que efeitos da ação eterna (necessária) de uma essência que é toda a realidade (realidade absoluta), não podem trazer em si algo que contrarie sua realidade, isto é, sua existência; esse algo só pode vir de fora. Assim, afirma Espinosa na demonstração de III,4: “Pois a definição de uma coisa qualquer afirma a sua essência, mas não a nega; ou seja, ela põe a essência, mas não a tira” (G II, 145). Desse modo, continua a demonstração, se consideramos a própria a coisa e não as causas exteriores, não podemos encontrar nela mesma nada que a possa destruir.

A proposição III,4 está no cerne das proposições III,6 – Cada coisa, o quanto

está em suas forças [quantùm in se est], esforça-se [conatur] para perseverar em seu ser

– e III,7: O esforço [Conatus] pelo qual cada coisa se esforça para perseverar em seu

ser não é nada além da essência atual da própria coisa (G II, 146). A nossa essência atual é conatus, de fato, porque, como diz Espinosa na demonstração desta última proposição, tudo o que uma coisa pode é o que segue necessariamente de sua natureza determinada; ora resulta da natureza das coisas particulares o fato de elas poderem se manter na existência, já que não trazem em si mesmas algo que possa destruí-las; mas também resulta, por isso mesmo, que elas tendem a perseverar em seu próprio ser, ou seja, realizar ações que as mantenham na existência. A própria efetuação dessas ações já é em si mesma a realização da essência atual, o conatus. Também nas coisas particulares, e portanto em nós, essência é, nesse sentido, potência: ser é agir. Realizar- se é fazer as ações que nos mantém na existência, porque somos um grau de potência da potência absoluta de um Ser que é pura existência, ou seja, essência atuosa.

Mas, em Espinosa, o conatus não é, como alguns interpretaram, inercial, isto é, ele não é o esforço pelo qual uma coisa persevera em seu estado atual. Conatus é esforço em perseverar no ser, na existência. Vimos porém que o fato de nós, humanos, sermos uma parte entre infinitas outras nos coloca desde sempre num jogo dinâmico de afecções e afetos. Isto significa que, na prática, é impossível que nosso estado atual permaneça sempre o mesmo. O fato de nos relacionarmos com outras partes, sofrendo afecções e tendo as ideias dessas afecções, tem, como vimos, pelo menos duas implicações: podemos aumentar ou diminuir nossa potência de agir, podemos nos alegrar ou nos entristecer. Frisemos este fato: chegamos, na dinâmica das afecções a que estamos sempre expostos, a experimentar alegria, aumento de potência de agir e – como a mente é ideia do corpo atual – aumento de nossa capacidade de pensar10. Uma vez, por assim dizer, conhecida a alegria, não só rejeitaremos a tristeza, a qual contraria nossa essência, como também buscaremos a alegria, isto é, o aumento de nossa potência de agir e pensar, que concorda com a nossa essência atual. É por esse motivo que, como lembra Laurent Bove, nos modos que sentem, nos seres sencientes, que afetam e são afetados, o afeto de alegria preside a afirmação da existência, o trabalho do conatus11.

Há assim, como também afirma Bove, um “não irredutível da natureza humana à tristeza e à destruição” que constitui a “primeira lição de moralidade e de virtude que nos oferece a experiência da vida”12. No entanto, esta afirmação não se inscreve numa ordem moral da vida. Nada diz que devemos afirmar a existência e, portanto, buscar a alegria: afirmamos a vida, pura e simplesmente, porque somos a Substância afirmativa absoluta no que ela tem de particular. Assim, não se trata de uma ordem moral, mas,

10 E III, 11: “O que quer que aumente ou diminua, favoreça ou coíba a potência de agir de nosso Corpo, a ideia desta mesma coisa aumenta ou diminui, favorece ou coíbe a potência de pensar de nossa Mente”. 11 BOVE, Laurent. La stratégie du conatus: affirmation et résistance chez Spinoza. Paris: VRIN, 1996, p. 140. 12 Bove, L., op. cit., ibidem.

ainda segundo Bove, de uma ordem matemática, determinação física e Ética13. Não há finalidade nem sentido inscritos na existência: há a própria existência e a lógica que ela encerra por ser existência mesma. É disso que decorre a afirmação da alegria, que é ao mesmo tempo uma resistência à tristeza14.

No documento ALEGRIA E FELICIDADE (páginas 35-40)