• Nenhum resultado encontrado

Alegria: fortalecimento do desejo contra a tristeza

No documento ALEGRIA E FELICIDADE (páginas 40-46)

Capítulo 1: A ONTOLOGIA DA ALEGRIA

4. Alegria: fortalecimento do desejo contra a tristeza

A ideia da afirmação da alegria como resistência à tristeza torna-se mais clara quando analisamos a relação de ambas com o desejo. O conatus ou esforço da mente, quando se refere apenas a ela, Espinosa, no escólio da proposição 9 da Parte III, o chama de vontade; quando ele se refere tanto à mente quanto ao corpo, seu nome é

apetite. O apetite, diz Espinosa, “portanto não é nada outro que a própria essência do

homem, de cuja natureza necessariamente segue aquilo que serve à sua conservação; e por isso o homem é determinado a fazê-lo” (GEE). Quando somos cônscios de nosso apetite, ele se chama desejo, o qual, portanto, é definido assim por Espinosa, no mesmo escólio: o Desejo é o apetite quando dele se tem consciência. Em outras palavras, no homem o exercício do desejo é a própria atividade do conatus, quando se tem consciência do apetite que a determina.

Desejo, alegria e tristeza são aquilo que no escólio de III,11 Espinosa chamará de afetos primários (primarium); ou seja, desejo, alegria e tristeza são afetos originários porque, como mostrará Espinosa ao longo da Parte III, “desses três originam-se todos os outros”. E podemos conceber que os afetos derivados surgem imediatamente da relação entre alegria e desejo, tristeza e desejo e alegria e tristeza (e tantos outros afetos surgem da relação entre si dos afetos derivados, à medida que nossa vida afetiva vai se tornando

13 Bove, L., op. cit., ibidem. 14 Bove, L., op. cit., ibidem.

mais e mais complexa15). É essa relação entre desejo, alegria e tristeza que aparece na proposição 18 da Parte IV da Ética e que corrobora nossa tese; a proposição diz: “O desejo que se origina da alegria é, em igualdade de circunstâncias, mais forte do que o desejo que se origina da tristeza” (G II, 221). Por quê?

A demonstração dessa proposição mobiliza alguns conceitos da Parte III: a definição dos afetos (AD1), a proposição 7 e a definição de alegria apresentada no escólio da proposição 11. O desejo sendo a nossa própria essência atual, isto é, o esforço por perseverar em nosso ser, somos sempre determinados a fazer algo pelo que perseveramos em nosso ser; no caso de um desejo que se origina da alegria, nós temos um desejo que surge de um afeto que se define por sua capacidade de nos fazer passar a uma perfeição maior, isto é, a uma maior potência: aumenta nossa força de existir, aumenta a força do nosso desejo. Assim, ao desejo inicial que nos determinou a fazer algo, acrescenta-se um afeto de alegria que aumenta esse mesmo desejo. Desejamos mais, isto é, somos mais determinados a fazer algo que nos causou alegria do que algo que nos causou tristeza. Desse modo, escreve Espinosa na demonstração, “o desejo que se origina da alegria é favorecido ou aumentado pelo próprio afeto de alegria”. Em todos os nossos afetos estamos realizando o nosso desejo enquanto essência mesma; mas na alegria esse desejo é aumentado, favorecido e estimulado. Tenhamos em mente que, o desejo sendo a nossa essência, ele já é por si só um esforço de afirmação da existência, isto é, daquilo que busca aumentar nossa potência de agir e pensar, de ser e existir, e, ao mesmo tempo, daquilo que busca excluir tudo o que diminui tal potência, pois uma essência não pode trazer em si algo que exclua a si mesma. No caso em que

15 Ver também E IV, 59 esc. Na explicação do conceito de Lascívia, ele também afirma que todos os afetos são originados dos afetos primários: “De resto, fica claro, a partir das Definições dos afetos que explicamos, que todos se originam do Desejo, da Alegria e da Tristeza, ou melhor, nada são além destes três, os quais costumam ser chamados por vários nomes em função de suas várias relações e denominações extrínsecas” (E III AD 48 expl.).

essa essência é realizada sob a forma da alegria, o desejo é reforçado por uma causa externa, isto é, aumentado e tornado mais forte em virtude do mesmo afeto; ao contrário, se realizada sob a forma da tristeza, é tornado mais fraco em virtude do próprio afeto de tristeza. Dessa maneira, à nossa essência, ao nosso desejo, vem se acrescentar algo que, no caso da alegria, reforça o próprio desejo, de tal modo que, como afirma Chaui, há neste caso, em que estamos no âmbito dos afetos originários, uma identificação entre alegria e desejo “enquanto potência de expansão”16. Todavia, na seqüência da demonstração Espinosa afirma: “Assim, a força do desejo que se origina da alegria deve ser definida pela potência humana e ao mesmo tempo pela potência da causa exterior (…)”, e continua, com uma afirmação que pode nos confundir: “(…) porém a que se origina da tristeza deve ser definida só pela potência humana”. Mas não temos dito o tempo todo que a alegria é a afirmação natural da existência e a tristeza, sua negação, não podendo ser definida por nossa própria essência? Por que então, neste caso, a força do desejo deve ser definida pela só potência humana?

Ocorre que estamos aqui no âmbito das relações do desejo com as causas exteriores. Num caso, o desejo é reforçado pelo afeto de alegria porque há uma colaboração entre nosso próprio desejo e a causa exterior: o movimento essencial de afirmação da existência é aumentado ou reforçado num encontro com uma causa exterior que lhe é favorável; é o que Deleuze chamaria de um “bom encontro”, em que nós compomos com a causa exterior17. Assim, a força do desejo neste caso explica-se não só pela potência humana mas também pela potência da causa exterior. No outro caso, há também relação do desejo com causas exteriores, mas não há composição da

16 A alegria é, ainda, neste caso o que Chaui chama de “causa reforçadora” da própria essência. Cf. CHAUI, M. A nervura do real (vol.III). Tese de Livre Docência, São Paulo: DF-FFLCH/USP, 1976, p.590.

17 É por isso que em Espinosa: filosofia prática, Deleuze definirá a alegria como o encontro de um corpo com o nosso quando eles se compõem, ou quando uma ideia se encontra com a nossa alma e com ela se compõe; e a tristeza como os encontros que geram decomposição, seja do corpo, seja da alma, ou de ambos ao mesmo tempo. Cf. DELEUZE, G. Espinosa: filosofia prática. São Paulo: Escuta, 2002, p. 25.

essência, não há reforço do desejo. Como é possível, então, que a força do desejo possa nascer da tristeza? Sendo a tristeza a negação do desejo, que é a nossa essência, como uma força, qualquer que seja e em qualquer grau que se dê, pode nascer de algo que é por definição a passagem a uma força menor do que antes? Pois, com efeito, Espinosa fala de uma força do desejo que nasce ou se origina – oritur – da tristeza. A proposição 37 da Parte III ajuda a responder a questão; ela enuncia: “O desejo originado por Tristeza ou Alegria, por Ódio ou Amor, é tanto maior quanto maior é o afeto” (GEE). No caso do afeto de alegria, já vimos que há favorecimento e aumento do desejo, o que vale também para o caso do amor, que é um tipo de alegria. Mas o que dizer da tristeza e do ódio? Na demonstração, Espinosa oferece enfim a resposta, ao descrever uma situação afetiva em que o desejo, não sendo favorecido pela tristeza, “reage” porém a ela, e isso na mesma proporção do afeto:

A Tristeza (pelo esc. da prop. 11 desta parte) diminui ou coíbe a potência de agir do homem, isto é, (pela prop. 7 desta parte) diminui ou coíbe o esforço pelo qual o homem se esforça para perseverar no seu ser; por isso (pela prop. 5 desta parte) ela é contrária a este esforço, e afastar a Tristeza é tudo para que se esforça o homem afetado de Tristeza. Ora, (pela def. de Tristeza) quanto maior é a Tristeza, tanto maior é a parte da potência de agir do homem à qual é necessário que se oponha; logo, quanto maior é a Tristeza, tanto maior é a potência de agir com que o homem se esforçará para afastá-la (E III, 37 dem.;

GEE)

Contrária à nossa essência, por isso mesmo a tristeza faz surgir em nós um desejo de afastá-la, desejo que é tanto maior quanto maior é o afeto de tristeza. É desse desejo que Espinosa trata na proposição IV,18, um desejo que nasce como reação à tristeza, como resistência a ela. Enquanto desejo de perseverança na existência, ele não é reforçado pela própria tristeza, que lhe é contrária; portanto, o esforço originado dela não se explica por ela (ela não é sua causa), mas somente pela força interior, por nossa própria

essência. A força do desejo que tem origem com a tristeza é assim uma força de reação e resistência a esta mesma tristeza. É por isso que esse desejo, em igualdade de circunstâncias, é menor do que o desejo originado da alegria, pois nesse caso a força do desejo é favorecida e aumentada pelo afeto de alegria, ganha em potência e explica-se também pela potência dessa causa exterior que se “somou” ao trabalho da essência.

Se o desejo que se origina da tristeza é um desejo de resistência à própria tristeza, é um ato de afirmação diante daquilo que, vindo do exterior, é sua negação, e é tanto maior quanto maior é o afeto de tristeza, então poderíamos pensar que a experiência da tristeza poderia desencadear a busca de uma verdadeira felicidade, e quanto maior ela fosse, maior seria o desejo de felicidade. Desse modo, ao contrário do que defenderemos nos próximos capítulos, seria a própria tristeza, e não tanto a alegria, o principal afeto a transformar nosso desejo rumo à felicidade. Além disso, vimos que o desejo que nasce da alegria é maior do que o que tem origem com a tristeza, mas isso sob as mesmas circunstâncias (ceteris paribus), o que deixa certamente a possibilidade de este último ser maior que aquele sob circunstâncias desiguais.

Ocorre entretanto que a força do desejo nascido da tristeza, sendo reação e resistência a esta, é uma força positiva apenas em relação ao próprio movimento do

conatus, ao exercício mesmo de nossa essência; no que concerne à sua relação com a

causa exterior, é uma força negativa, porque se define pelo que nega: como força, é positiva; como reação, é negativa, é o que resiste, é o desejo que diz não ao que o nega. O que está em jogo aqui então é apenas o que não se deseja, o que não se quer porque é contrário àquilo que somos. O desejo de felicidade, ao qual dissemos conduzir a experiência da alegria, é ao contrário um desejo plenamente positivo: nascido da alegria, ele é o desejo de uma alegria de outra ordem, a alegria que não envolve nenhuma negação, plenamente positiva, alegria ativa. Isso significa que a transformação do

desejo de que falamos antes não se define pelo que ele rejeita enquanto força de resistência à negação de si; define-se antes, não por um desejo de mais alegria, mas também pelo desejo de uma alegria de outra ordem, distinta de todas as alegrias comuns, alegrias passivas. Se em si ele já é uma positividade, a esta se acrescenta a positividade do afeto de alegria. É muito diferente o desejo originado pela tristeza, que não acrescenta nada a ele, apenas o “desperta” como força de reação a uma causa exterior negativa. Sua potência é, nas mesmas circunstâncias, menor do que a do desejo originado da alegria, e mesmo quando, sob circunstâncias diferentes, ele é um afeto maior do que este último, nem por isso ele deixa de ser uma força reativa: é maior, mas é maior apenas pelo que ele não quer, por aquilo a que ele resiste, a tristeza.

As proposições III,37 e IV,18 ensinam ainda algo mais sobre o lugar (negativo) da tristeza na transformação do nosso desejo em direção à alegria ativa. Se, dada a nossa essência, resistimos naturalmente à tristeza, e isso tanto mais quanto mais intenso é este afeto, a experiência da alegria deve reforçar essa resistência, deve favorecer ou aumentar a força reativa. É que uma vez experimentada a alegria, reforço do nosso desejo, seremos determinados a resistir mais e com uma força maior ao que nos causa tristeza. Tendo vivido a experiência da alegria, o desejo, diante da tristeza, não apenas resiste ao que o nega, mas também resiste à negação de sua condição afetiva reforçada pelo afeto de alegria. A reação e a resistência à tristeza são maiores porque a potência do corpo e da mente é maior devido à alegria. A força do desejo que apenas resiste à tristeza deve ser menor do que a força do desejo que, favorecido ou aumentado pela alegria, também resiste à tristeza. A alegria fortalece o desejo contra a tristeza, porque esta se opõe a uma situação afetiva em que o desejo, tendo sido favorecido pela alegria, vai resistir agora não só ao que o nega, mas também ao que nega sua maior potência. Aumenta assim a força de reação e resistência à tristeza. Isso significa que somos mais

determinados a manter e aumentar nossas alegrias, quanto mais alegrias experimentamos. O corpo e a mente jamais aceitam perder a condição afetiva que os favorece, e por isso reagirão tanto mais à tristeza quanto mais gozarem das alegrias (mais adiante isso ficará mais claro). O que não significa que a maneira de reagir seja a mais eficaz ou a mais adequada. Se as alegrias comuns nos fortalecem diante da tristeza, é apenas porque elas se impõem como algo que não queremos perder. Mas para não perder o que no entanto é perecível, ou para obter o que contudo é incerto, somos capazes muitas vezes de atos os mais “irracionais” possíveis, como aqueles que matam por paixão, roubam por ganância e trapaceiam pela honra. E se tais alegrias têm um papel importante na transformação do desejo rumo à Felicidade, é justamente porque, como veremos, a experiência ensina contudo que podemos perdê-las, já que são perecíveis, e que portanto é preciso buscar uma alegria de outra ordem, uma alegria “suprema e contínua”.

No documento ALEGRIA E FELICIDADE (páginas 40-46)