4. QUEM SÃO OS ESTUDANTES QUE FREQUENTAM OS CENTROS JUVENIS DE CIÊNCIA E
5.3 PERTENCIMENTO, AFETO E PARTICIPAÇÃO
5.3.2 Afeto
Com alguma frequência, a referência a relações afetivas aparece nos depoimentos de discentes reproduzidos neste trabalho. O reconhecimento desses laços contribui decisivamente para que os estudantes vejam no Centro Juvenil um espaço acolhedor, com que se identificam. Segundo D.S., “É um lugar pra gente fazer amigos, um lugar pra gente se divertir, um lugar pra gente aprender e construir a nossa vida” (ESTUDANTES D.S., 2018). Perguntados sobre o que mais gostam no Centro Juvenil, os alunos do Grupo Focal (2017) responderam da seguinte maneira:
M.B.: Eu gosto de comer.
D.N.: Tanta coisa, a forma como eles ensinam, amizades. L.S.: Os amigos que conhecemos.
M.B.: As aulas, as brincadeiras, os eventos, as viagens maravilhosas,
amiguinhos novos.
O fato de todos os três educandos que se manifestaram mencionarem os laços de amizade entre as coisas que mais gostam demonstra a sua relevância para o ambiente do Centro Juvenil. Em sua entrevista, D.S. faz referência às diferentes de origens e idades dos frequentadores do CJCC, relacionando essa diversidade com outros temas levantados pelos estudantes na pesquisa:
São pessoas com maturidade diferente, com ideologias diferentes, religiões diferentes, que tiveram princípios totalmente diferentes do nosso, mas acabam encaixando no nosso dia a dia, no nosso cotidiano. E a gente faz amizade, a gente se curte muito, apesar de... é até diferente do colégio, porque a gente vai pro colégio, a gente vai emburrado porque já sabe que vai fazer dever, vai fazer as responsabilidades lá. Mas aqui a gente vem pra fazer nosso curso, que é uma coisa que a gente gosta e pra ficar com nossos amigos, se não forem nossos amigos a gente torna eles nossos amigos (ESTUDANTE D.S., 2018).
Colega de Centro Juvenil de D.S, A.B. associa à amizade a memória mais importante que tem do CJCC: “foram tantos momentos legais que eu passei aqui junto com os colegas, conheci tanta gente que morava tão perto de mim e eu nem sabia que existia” (ESTUDANTE A.B., 2018). Já para E.S.,
Aqui também, assim, é uma oportunidade de amizades, de você conhecer gente nova, aprender coisas novas. Mas todo lugar que eu ando, assim, eu sou fácil de pegar amizade. Aqui mesmo foi o lugar que eu peguei mais amizade. [...] Fora as inimigas também, né? Mas todo lugar tem. Mas aqui foi bom (ESTUDANTE E.S., 2018).
A discente, no complemento da fala, revela que o tratamento entre os colegas do CJCC nem sempre é cordial. M.V., também estudante de Senhor do Bonfim, comenta que já viu colegas “reclamando de outros meninos daqui”, que estariam “perturbando, enchendo o saco” (ESTUDANTE M.V., 2018). A própria E.S. conta que quase deixou de frequentar o CJCC devido a um caso de bullying (ESTUDANTE E.S., 2018):
E.S.: Uma coisa ruim aqui que teve, que eu tive que fazer reclamação, foi
porque a gente imprimiu umas fotos e colocou ali e teve duas pessoas aqui que ofenderam eu e uma amiga minha.
[...]
Entrevistador: Mas foi a única situação aqui que você lembra ou teve alguma
outra situação?
E.S.: A única. Só essa mesmo, que foi a pior. Fora os apelidos assim, mas só que
isso aí eu nem ligo. Fala na hora e eu já esqueci. Agora, quando é na foto, todo mundo vê, fica aquela gozação. Aí é pior. Até pensei em desistir, não vir mais pra cá.
Os estudantes do CJCC Senhor do Bonfim dizem que já presenciaram outras pessoas reclamarem do Centro Juvenil. Relatam pelo menos um caso de desavença com professor e também brigas entre os educandos (GRUPO FOCAL, 2017). Entretanto, também contam essas circunstâncias são diferentes do que acontece em suas escolas.
L.S.: Quando tem uma briga na escola, sempre tem aquele aluno que bota fogo.
Já aqui, não. Aqui tem outras pessoas que separam....
E.S.: Que apartam.
Para além das amizades (e eventuais desentendimentos) entre os próprios estudantes, eles declaram ter estabelecido relações afetivas com toda a equipe do Centro Juvenil. O sentimento relatado é de um “clima positivo” (ESTUDANTE M.V., 2018).
[...] aqui é um espaço de abrir o horizonte de criatividade. Aqui também tem bons professores, tem uma recepção que eu acho muito boa. Aqui é um lugar bem receptivo, caloroso, as pessoas se sentem à vontade aqui e eu super recomendo (ESTUDANTE A.B., 2018).
As palavras de A.B., que frequenta o CJCC Salvador, não apenas confirmam a sensação expressa por M.V. como relacionam afetividade com os outros aspectos descritos nesta categoria. Na mesma sintonia, D.S. faz alusão específica aos docentes, com destaque para a criação de vínculos de amizade e confiança entre eles e os alunos.
Lá [escola], eles são só meus professores. Vão ensinar e acabou. Aqui [CJCC], a gente cria amizades com os professores. A gente pode discutir até assuntos que não
são relacionados ao nosso curso com os nossos professores, a gente tem uma certa liberdade pra expor o que a gente tem vontade com eles. A gente confia neles (ESTUDANTE D.S., 2018)
Ao responder questionamento acerca do tema, os educandos do Grupo Focal de Senhor do Bonfim (2017) dão declarações muito próximas às anteriores.
Mediador: Vocês sentem um lado de afetividade que tem aqui? Vocês se
sentem bem aqui?
Vários respondem: Sim.
Mediador: O que faz vocês se sentirem bem aqui? Vários respondem: Tudo.
M.B.: Os professores, tudo… a energia positiva… tipo, a diretora é muito legal
com a gente…
E.S.: Todo mundo chega cumprimentando: ‘Tudo bom? Como é que você tá?’. M.B.: As merendeiras, os trabalhadores daqui…
D.N.: Eles se importam com você, quando eles veem que você não tá bem eles
chama pra conversar, pergunta o que tá acontecendo.
No atual contexto da educação pública baiana e brasileira, marcado por violências e episódios de estudantes se cortando, não é gratuita a menção aos profissionais “se importando com você” (Idem). O trecho da entrevista de E.S. (ESTUDANTE E.S., 2018) confirma a relevância do contato extraclasse com os discentes e o valor atribuído por eles a essa aproximação.
Entrevistador: E você acha que tem a oportunidade de diálogo entre alunos e
professores aqui [no CJCC]?
E.S.: Tem.
Entrevistador: Como é? Eles escutam, não escutam?
E.S.: É, quando elas veem que você tá muito assim, quieta, elas já chamam
você: ‘bora aqui conversar’. Aí você conversa. ‘Tá se passando o quê?’; ‘Isso e isso’. ‘Fica assim não, isso vai passar, chama por Deus que tudo dá certo’. Comigo mesmo, quando eu tava assim, sempre conversava com a professora e ela sempre me ajudava.