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4. QUEM SÃO OS ESTUDANTES QUE FREQUENTAM OS CENTROS JUVENIS DE CIÊNCIA E

5.2 VIDA ESCOLAR

5.2.3 Possibilidades de escolha do estudante

A última dimensão a ser discutida na categoria Vida Escolar refere-se a um tema menos recorrente nas entrevistas, mas sempre revestido de intensidade quando mencionado pelos alunos. É o poder de escolha destacado pelos educandos, em relação a alguns aspectos de sua experiência no Centro Juvenil de Ciência e Cultura. A participação voluntária, bem como a possibilidade de escolher de quais atividades participar, são frequentemente mencionadas como diferenciais dos Centros. A estudante S.S. (2018) chega a distinguir o CJCC da escola tomando como principal argumento a liberdade de escolha:

S.S.: Não, não é uma escola porque é um lugar pra fazer curso. Lugar pra fazer

curso não é uma escola, você não tá ali... você não tem a obrigação, no horário ali e tal. Aqui, sim, a gente faz o curso, vai porque gosta. Lá não, a gente vai porque é obrigado, é assim que funciona.

Entrevistador: Então a escola é um lugar que você vai...

S.S.: Por obrigação, praticamente. Aqui não, por isso que eu não acho que aqui é

uma escola. É curso, fazer atividades...

O depoimento de S.S. aponta certa resistência à obrigação de frequentar a escola, fazendo uma oposição à ideia de ir ao Centro (“vai porque gosta”). Frequentando o mesmo CJCC que S.S., a educanda H.P. faz um relato mais emocional da questão, exteriorizando como possibilidade de fazer escolhas e se expressar mais ativamente se reflete em seu estado de espírito.

[...] Eu me sinto livre aqui. Na escola, é como se fosse muito presa. É aquilo, tem que fazer aquilo. Já aqui, não. Aqui, você é livre pra fazer o que você quiser, praticamente – com suas ideias, opiniões, pras pessoas, e discutir sobre isso. Então eu acho isso maravilhoso (GRUPO FOCAL, 2017a).

A aluna E.S. “reclama” do pouco tempo destinado à leitura no colégio: “lá tem uma aula por dia, aqui eu já passo a tarde toda, praticamente a tarde toda, que eu ficava até cinco horas, período de leitura aqui me ajudou bastante” (ESTUDANTE E.S., 2018). A educanda também se queixa de excesso de atividades da escola e da obrigação de participar delas:

[...] lá [escola] é muito puxado, muita exigência. Aqui [CJCC], não. Aqui você tem liberdade. Se você quer ler... se você não quer, dá a oportunidade a quem quer. Lá não. Lá, você é obrigado. Você é obrigado a apresentar trabalho. Se você não quer participar de uma peça aqui, você não é obrigado a participar. E lá, se por acaso fosse, tinha que participar. Acho que tem um pouco de diferença nisso (Id.).

Contrariamente a uma impressão de laissez-faire que os depoimentos anteriores eventualmente possam deixar, o aluno D.S., de Salvador, atesta que a liberdade oferecida pelo Centro Juvenil tem limites:

Não é que seja liberdade de: “ah, vou fazer tudo o que eu quero”. Mas não é aquela coisa monótona do colégio, que você tem que fazer suas obrigações do jeito que tem que ser e acabou, como o professor impõe na sala de aula no colégio normal. Não, aqui [CJCC] eu tenho a liberdade pra fazer do meu jeito, pra fazer como eu gosto [...] (ESTUDANTE D.S., 2018).

Além da disposição por ampliar voluntariamente sua jornada educativa, a decisão por participar do Centro Juvenil pode ser vista também como um passo no processo de assumir mais responsabilidades pela própria vida, algo característico de sua condição enquanto jovens.

É nessa fase da vida que fisicamente se adquire o poder de gerar filhos, em que a pessoa dá sinais de ter necessidade de menos proteção por parte da família e começa a assumir responsabilidades, a buscar a independência e a dar provas de autossuficiência, dentre outros sinais corporais, psicológicos e de autonomização cultural (DAYRELL; CARRANO, 2014, P.111).

Nesse sentido, os estudantes passam por um outro tipo de aprendizado, menos disciplinar e mais fortemente vinculado a competências socioemocionais, à capacidade de auto-organização e gestão da própria vida.

É importante considerar que, embora a participação dos alunos dependa de seu próprio arbítrio, os Centros Juvenis de Ciência e Cultura proporcionam a eles um conjunto de atividades diferente do cardápio tradicional das unidades escolares. “A gente aprende coisas novas. Assim, por exemplo, robótica não tem como a gente aprender na escola porque as escolas não oferecem essas coisas pra gente”, comenta I.S., durante Grupo Focal realizado em Senhor do Bonfim (2017). Na mesma ocasião e alinhado com o colega, T.S. explica a sua motivação para frequentar o CJCC:

Eu venho ao centro juvenil porque a tarde eu não tinha nada pra fazer aí eu vinha pra cá, pra aprender coisas novas [...], pelas coisas novas que tem aqui, a gente não vê todo dia. Robótica mesmo, só tem aqui. Na escola não ensina robótica (Id.).

A realização do Grupo Focal de Senhor do Bonfim revelou um incentivo não previsto para a frequência dos estudantes no Centro Juvenil da cidade: professores das escolas começaram a oferecer pontos nas disciplinas pela participação de seus estudantes no CJCC. Esta iniciativa, não estimulada ou apoiada pelo Centro Juvenil local, mas realizada por alguns educadores, foi identificada pelos discentes durante o diálogo no Grupo Focal. No trecho abaixo, apesar da maioria do grupo negar os pontos como motivação, uma das educandas assegura que há colegas que vão ao CJCC encorajados por este incentivo.

I.S.: Lá na sala tem um professor que ele fala, tipo… às vezes ele dá algum

ponto, alguma coisa assim por ter vindo pra cá. Aí você ganha certificado do Centro Juvenil e leva pra mostrar que você frequentou.

Mediador: Mas você vem pra cá só pelo ponto? D.N.: Tem gente que sim.

Vários respondem: Não. (GRUPO FOCAL, 2017)

Ainda conversando sobre o tema, um dos estudantes do CJCC chama a oferta de “pontos de participação” no CJCC de “apelação” e o grupo discute a eficácia da estratégica e sua relação pessoal com a ideia.

M.V.: Sabe o que é isso? É o (inaudível) do Júlio [escola da cidade], que faz

uma apelação pro cara frequentar o centro juvenil, que vai lhe dar pontos pela participação daqui.

Mediador: E vocês acham o que disso? (falam ao mesmo tempo)

E.S.: Comigo não acontece isso não.

[...]

Mediador: Vocês não se incomodam com isso?

M.B.: Quando eu era oitavo ano, no nono ano, a professora falou assim: quem

for pra oficina Universo e seus Mistérios vai ganhar um ponto. Aí encheu.

Mediador: Acontece isso com vocês também, do professor sugerir que vocês

venham pra cá pra ganhar o ponto?

M.S.: Nunca precisou não.

Mediador: Vocês vieram sem precisar disso?

A.N.: Vou dizer uma coisa que todo mundo conhece, eu me inscrevo… não é

por causa de ponto não, é porque eu entro em várias oficinas, eu acho que tem vários papeis com meu nome… [...] Às vezes, sim, vinha...não é só questão de ganhar ponto, eu tenho muito respeito aqui, porque tem muito tempo que eu vim pra cá. Meio desnecessário, eu acho, pra mim.

[...]

E.S.: Pra incentivar a gente pra vir pra cá, tipo, você vai pra ganhar seu ponto,

mas só que pra pessoa vir a pessoa tem que ter força de vontade… você vir pra cá obrigado é bom? Não é bom vir pra cá obrigado. Eu vou pra lá obrigado porque eu vou ganhar um certo ponto. Eu não acho isso legal.

M.B.: Eu conheço duas meninas que desistiram no meio das oficinas por causa

que tava com preguiça de vir, porque não queria mais vir porque era longe, essas coisas. (GRUPO FOCAL, 2017)

Embora alguns admitam já ter recebido pontos pela presença nas atividades do Centro Juvenil, mesmo esses estudantes se manifestam contrariamente à prática, por percebê-la “desnecessária” e de eficácia limitada, se forem consideradas as palavras de M.B., indicando que, mesmo com a oferta de pontos, há desistências.

No grupo focal realizado em Salvador (GRUPO FOCAL, 2017a), vários estudantes protagonizam um diálogo comparando Centro Juvenil e escola, também com referência à participação voluntária.

Mediador: Mas a finalidade dos dois [CJCC e escola] não é vocês aprenderem? A.B.: É. É a única coisa em comum.

M.C.: Só que aqui a gente aprende de um jeito diferente, a gente não aprende

daquele jeito chato que a gente aprende no colégio, que é aquilo que o professor pensa e acabou. Aqui não. Aqui a gente pode dar nossas opiniões, a gente tem vários jeitos diferentes de aprender a mesma coisa.

H.P.: Também tem a questão de que aqui a gente não é obrigado a aprender

alguma coisa pra passar de ano, enquanto no regular a gente é obrigado a saber aquilo.

W.O.: A gente aqui tem uma certa liberdade. Porque no colégio a gente é

forçado a fazer aquilo pra conseguir a nota e passar de ano. Pra conseguir, no outro ano, aquela mesma rotina de novo.

L.L.: E aqui você tá fazendo porque você quer.

Na conversa, fica evidente a relação que os educandos estabelecem entre a presença voluntária deles no Centro Juvenil, a demanda por interação – discutida anteriormente no tópico Relação com professores – e aprendizagem (“a gente aprende de um jeito diferente”). Citam, inclusive, o fato de não precisarem “conseguir a nota”, logo que, conforme discutido no primeiro capítulo, nos Centros Juvenis não são realizados testes nem provas. Dito em outras palavras, eles associam o próprio aprendizado à possibilidade de ter uma postura ativa na busca por conhecimentos que despertem seu interesse. Durante sua entrevista, o estudante E.S. comenta que a liberdade de ação a que tem acesso no CJCC estimula “meu rendimento e o meu interesse pela matéria também” (ESTUDANTE D.S., 2018). Segundo D.S.:

Pelo fato de nós podermos aprender sem ter aquela obrigatoriedade, sem ter aquele dever de aprender, a gente acaba se interessando pelas matérias do nosso colégio normal mesmo, a gente começa a estudar em casa mesmo, ou aqui mesmo, quando eu tô sem nada pra fazer eu vou fazer o meu dever da escola pra terminar e fica tudo tranquilo (Id.).

A possibilidade de fazer escolhas, em especial a participação voluntária, mostra-se, para os estudantes entrevistados, um elemento importante dos Centros Juvenis de Ciência. Como tal, contribui para a participação ativa dos educandos e está vinculado diretamente ao seu processo de aprendizagem.