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Reportando-se à crítica do eurocentrismo, Benedicto (2016) assinala que “A hegemonia europeia dos últimos quinhentos anos fez com que a Europa impusesse seu paradigma civilizatório a toda humanidade”. Para esse autor o eurocentrismo fez com que os povos influenciados por esse paradigma se percebessem através dos olhos do dominador. Para escapar dessa distorção, que ajuda a perpetuar a opressão de que são vítimas, um conjunto de intelectuais africanos – continentais e diáspora – inspirados principalmente nos trabalhos de Cheikh Antah Diop desenvolveram uma posição epistemológica que recoloca os africanos como agentes do seu processo histórico.

Para Molefe Kete Asante, um dos principais expoentes do paradigma da afrocentricidade, esse termo que poder ser dividido em duas palavras: “afro”, tudo que diz respeito à África, e “centricidade”, referente ao centro. Literalmente, afrocentricidade significa colocar os ideais africanos no centro de toda e qualquer análise que se relaciona com a cultura e o comportamento dos africanos – no continente e na diáspora (ASANTE, 1998, p. 2).

A teoria da afrocentricidade, permite, segundo Asante (1998) entender a África como território geopolítico, cultural, epistemológico e econômico de todos os povos que resistiram e ainda resistem à dominação colonial e capitalista. Vejamos como o autor define o paradigma afrocêntrico nas suas próprias palavras:

A ideia afrocêntrica refere-se essencialmente à proposta epistemológica do lugar. Tendo sido os africanos deslocados em termos culturais, psicológicos, e históricos, é importante que qualquer avalição de suas condições em qualquer país seja feita com base em uma localização centrada na África e sua diáspora. Começamos com a visão de que a afrocentricidade é um tipo de pensamento, prática e perspectiva que percebe os africanos como sujeitos e agentes de fenômenos atuando sobre a sua própria imagem cultural e de acordo com seus próprios interesses humanos (2009a, p. 93).

Segundo Asante, o paradigma afrocêntrico transcende a dimensão teórica e filosófica. É um paradigma de ação, modo de agir e de se posicionar ou de ser, frente ao mundo com o foco nos interesses, história e sistemas culturais africanos, centrado na localização e agência do africano. Nesse sentido, a consciência cultural e histórica do africano enquanto agente é fundamental para orientar e definir a sua conduta e o modo de agir, pensar e definir os fenômenos, eventos e fatos, dentro do espaço e do tempo em que ele se encontra.

É importante nesta discussão deixar presente a distinção entre duas categorias importantes, a saber, a afrocentricidade e a africanidade. O intelectual moçambicano Mucale (2002) distingue esses termos da seguinte forma:

A primeira, a afrocentricidade, busca a agência ou a intervenção e a ação. Por seu turno, a segunda, a africanidade, transmite identidade e ser; refere-se na sua generalidade a todos os costumes, tradições e traços de caráter do povo africano tanto no continente como na diáspora. A afrocentricidade incide na confiança sobre a ação da autoconsciência (MUCALE, 2002, p. 27-28).

Nesse sentido, e na perspectiva de Asante, seria um equívoco pensar que a afrocentricidade não tem uma dimensão prática na África, visto que, a priori, os africanos já têm uma perspectiva africana. A africanidade não implica, entretanto, a afrocentricidade. O fato de uma pessoa ter nascido na África ou ser descendente de africano não significa ser afrocentrista, pois a afrocentricidade implica necessariamente teoria e ação dos africanos, enquanto agentes dos seus interesses e objetivos em prol da libertação humana.

Segundo Benedicto (2016), uma proposta afrocêntrica, então, deve centrar-se e reorientar o olhar sobre as experiências e práticas dos africanos. É necessário colocar em xeque essa crença, ideologia paradigma para que o povo africano no continente e na diáspora possa desenvolver a sua identidade positiva e assumir o controle – agência – de suas vidas ( ASANTE, 2013apud BENEDICTO, 2016). Importa resaltar que Asante não foi o primeiro intelectual de ascendência africana a criticar o eurocentrismo e desenvolver o pensamento afrocentrado.

Podemos mencionar autores como o nigeriano Olaudah Equiano (1745-1797) a escritora e poetisa etíope Phillis Whetley (1753-1784), que impressionou Voltaire, Benjamin Franklim e George Washington. O abolicionista ganense Ottobath Cugoano (1757-1791), o educador e diplomata afro-americano Edward Wimont Blynden (1832-1912), o antropólogo haitiano Antenor Firmin (1850-1911). Os intelectuais afro-brasileiros Abdias do Nascimeto (1914-1994), Leila Gonzalez (1935-1994), Renato Nogueira, Eduardo Oliveira, etc. que foram críticos desse traço cultural que faz com que os europeus se considerem como o único modelo para todos os seres humanos.

Benedicto (2016) enfatiza, entretanto, que o conceito de afrocentricidade foi desenvolvido apenas nas décadas finais do século XX por Asante. Segundo ele, Ama Mazama coloca esse tema da seguinte maneira:

Não é raro ouvir ou ler que a afrocentricidade é anterior à publicação do primeiro livro de Molefi K. Asante sobre o tema. Qualquer pessoa sob o sol que teve algo a dizer sobre o povo africano, e então, informalmente rotulada de afrocêntrica, desde David Walker até Kwame N’Krumah. Não obstante, é muito fácil entender por que essa posição (em geral resulta da inveja profissional) está equivocada uma vez que a identifica corretamente o princípio organizador da afrocentricidade. É simplesmente inverídico que alguns pensadores antes de Molefi K. Asante tenha elaborado e sistematizado uma abordagem intelectual baseada na centricidade da experiência africana, ou seja na afrocentricidade. Decerto encontraremos em intelectuais precedentes afirmativa de que a experiência africana é diferente da europeia e deve ser vista como tal – da insistência de Blyden na infusão do currículo com informações sobre a história e a cultura africanas a ênfase de Marcus Garvey na necessidade de olhar o mundo através de “próprios óculos”. Igualmente, o apelo de Du Bois por uma “Universidade negra” para interpretar os fenômenos africanos e afra-americanos segue esta mesma linha. Entretanto, é a Molefi K. Asante que devemos a transformação de relevância epistemológica africana em princípio científico operacional, do mesmo que devemos a Cheik Antah Diop (1991) a transformação da negritude dos antigos egípcios num principio operacional científico (MAZAMA, 2009, p. 117-118).

Para Mazama (2009:118), a afrocentricidade tem os seus antecedentes históricos e não se desenvolveu no vazio. Podem ser considerados seus precursores: o pensamento de Marcus Garvey (1887-1940), o movimento da negritude, a filosofia Kawaida, a historicidade de Cheik Antah Diop, os pensamentos do intelectuais Frantz Fanon (1925-1961), e Amílcar Cabral (1924 -1973). É importante notar que respeitante a Amilcar Cabral, a ideologia afrocêntrica permeou toda a dinâmic da luta de libertação que conduziu os povos da Guiné e de Cabo Verde à sua independência e autodeterminação política. Restava aos seus continuadores dar seguimento a essa ideologia nos processos de desenvolvimento dos dois países, situação que hoje é cada vez mais questionado, sobretudo no que conserne aos modelos de desenvolvimento adotados no período pós-colonial. É a partir dessa crítica que se pode entender também o descompasso das políticas de desenvolvimento urbano na cidade da Praia, em Cabo Verde.