Para melhor situar e indicar os pontos que constituem algumas linhas por onde se sob- escrevem algumas trajetórias das experiências dos migrantes e seus descendentes, mantemo- nos na linha dos tempos passados. A finalidade aqui não é realizar uma digressão histórica profunda. Procuramos fazer uma pequena brecha para olhar na direção dos deslocamentos que antecederam o período estudado nesta tese. Essa escolha revela um aspecto importante na feição das mobilidades ocorridas em Cabo Verde, especificamente na cidade da Praia e alhures. Desse modo, pensamos que voltar no tempo e olhar para as experiências de migração ocorridas em fim da escravidão nos ajuda a entender melhor algumas trajetórias tecidas e as transformações sociais e culturais ocorridas na cidade da Praia, desde o período colonial, em que as pessoas de baixa renda se configuraram o perfil da maior dos moradoresda cidade da Praia.
Sobre a mobilidade populacional e a migração na cidade da Praia, a década de 1980 foi marcada pelo crescimento de bairros informais, em diferentes áreas desocupadas das cidades. As ocupações mobilizaram centenas de pessoas que buscavam resolver os problemas de moradias que se abatiam sobre elas.Dentre outros fatores, por conta de alto custo de aluguéis, o mercado imobiliário se instituiu para transformar as vastas propriedades dos “donos de terra”, públicas e privadas, configurando vetores de ocupação e distribuições desiguais para as diversas áreas da cidade. Esse período correspondeu à consolidação de inúmeros movimentos sociais. Desse modo, damos ênfase no processo de produção do sujeito em suas práticas e experiências, nas marcas e transformações que esses produzem no território e nas cidades e, sobretudo, na forma como, ao mesmo tempo, transformaram-se sociais e subjetivamente esses sujeitos.
O sociólogo Gey Espinheira (1986b; 1992), neste rastro, enfatizou as contradições sociais que se manifestavam na cidade e os ajustes sucessivos ao longo da sua história, no processo de configuração territorial. A cidade passou a ser vista como a constituição viva do modo de ser dos moradores, de suas culturas, assim como da estrutura e das desigualdades sociais. Assim, as práticas e as diversas formas de organização do espaço doméstico e público no bairro, de sobrevivência, lazer, comunicação, educação dos filhos, saúde e de enfrentamentos e resistências social e política dos habitantes da periferia, incluída a maioria dos migrantes, tornam-se relevantes na busca de pertencimentos da cidade da Praia (ESPINHEIRA, 1992, p. 92).
A cidade da Praia, capital da República de Cabo Verde e sede do município com o mesmo nome, situa-se no litoral Sul da ilha de Santiago, a maior ilha do arquipélago. Com o advento da independência em 1975, a cidade da praia conheceu uma grande explosão demográfica, consequência de um forte movimento migratório das restantes ilhas do país e do êxodo rural, por conta das políticas restritivas dos convencionais países de imigração, aliadas à forte crise do setor agrícola provocada pelo baixo nível de pluviosidade que caracteriza o país.
Fonte:Internet
A baixa taxa de crescimento da população anteriormente mencionada, e que tinha por base as necessidades de mãodeobra dos países europeus, é agora invertida com políticas restritivas à imigração. Desde então, a cidade em questão constitui-se como o maior centro de atração populacional do país. De acordo com os dados do Censo da população de 2010 INE (Instituto Nacional de Estatística), em 2000 a população da Praia era de 91.161 habitantes. Em 2005, esse número aumentou para 111.500 habitantes.
Em 2008, o número da população era de 124.661. Em 2000, a cidade da Praia albergou uma população de 131.602 habitantes. Esse número representa hoje mais de 45% da população total do arquipélago. Esse crescimento exponencial da população urbana não se fez acompanhar de medidas de política apropriadas e capazes de responder de forma eficaz os problemas daí advenientes, quais sejam: proliferação incontrolada e desorganizada de pequenos, isolamentodos bairros na periferia da cidade e uma crescente demanda da população por solos para a construção de habitação e demais serviços de base.
Perante o cenário descrito, a cidade da Praia enfrenta no momento algumas questões preocupantes ligadas principalmente à falta de saneamento e problemas de insalubridade resultantes da crescente urbanização não planejada e da pobreza, levando ao aumento de desigualdades sociais. Acrescente-se aos mencionados problemas o aumento de desemprego que afeta particularmente a camada mais jovem, a delinquência juvenil e criminalidade urbana em geral, a violência doméstica, aliados às dificuldades de acesso à água, energia e saneamento.
Segundo o estudo promovido em 2011 pelo MAHOT (Ministério do Ambiente, Habitação e Ordenamento do Território), pode-se constatar dois tipos de traços existentes na cidade da Praia.Cerca de 6 km² (44%) de solo urbano atual foram produzidos tendo por base planos urbanísticos. As ocupações que não foram previamente planeadas representam cerca de 8 km² (56%), dos quais 5km² pertencem aos bairros de crescimento informais mais recentes. Os dados do censo de 2010 apontam para a existência de 37.127 alojamentos, dos quais 30.036 são tipicamente urbanos e 1097 são rurais/periurbanos. A figura que se segue tem o intuito de proporcionar uma visão sobre o crescimento da cidade da Praia.
Figura 3 – Evolução da mancha da ocupação da cidade da Praia
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A sociedade cabo-verdiana é marcada por uma grande disparidade social, em que umpequeno grupode pessoas detém o poder econômico e político e, de outro lado, a maioria das pessoas têm baixa renda efalta de poder de compra. Esse estrato se encontra mergulhado em problemas sociais de várias ordens, mormente, dificuldade de acesso à habitação, saneamento, desemprego, insegurança, entre outros. É de realçar que a urbanização, em
muitos países, principalmente na América Latina, Ásia e África, espelha uma percentagem da pobreza comum a todas as cidades da periferia dos países em desenvolvimento. Praia, a principal cidade do país, abriga mais de 60% das riquezas, é objeto de um movimento de investimentos nacionais e internacionais, que se intensificou a partir da década de 1990, com a liberalização da economia, o que justifica a migração principalmente das pessoas do meio rural e das ilhas mais periféricas para a procura de melhores condições de vida.
Como faz notar Davis (2007), o fator que explica o crescimento vertiginoso das moradias informais nos centros urbanos dos países do Terceiro Mundo, designadamente, América Latina, África e Ásia, está relacionado com os fatores econômicos e de industrialização. O fenômeno de urbanização observado em grande parte dos países subdesenvolvidos deve-se, em muito, ao processo de industrialização tardia da periferia urbana. Segundo Davis:
a atratividade exercida pelas comunidades industriais sobre a massa de mão de obra expulsa do campo, particularmente nos países que receberam empresas multinacionais que alavancaram a passagem de economias agroexportadoras para economias semi-industrializadas, nomeadamente, Brasil e Índia, provocou, a partir da década de 1960, a explosão de grandes centros urbanos no Terceiro Mundo, que não receberam a provisão de habitações, infraestrutura e equipamentos urbanos que garantisse qualidade de vida às populações migrantes (2007, p. 86).
Os governos, muitas vezes, não têm o conhecimento real sobre as fronteiras da periferia urbana, onde se faz a passagem entre as cidades ruralizadas e o campo urbanizado. Ele vê a “orla urbana como sendo a zona de impacto social, onde se dá a força centrífuga da cidade para o campo” (DAVIS. 2007, p. 54). A experiência de Cabo Verde, neste sentido, é um pouco diferente, se levarmos em consideração que se trata de um país, cujo principal centro urbano, a cidade da Praia, é ainda pequeno comparado com os grandes espaços urbanos do mundo, as ditas megacidades – como as que existem na China, na Índia, e no Brasil. Na cidade da Praia, a fronteira periurbana não é muito bem definida, tendo em consideração que é uma cidade pequena (em torno de 120 mil habitantes).
Apesar de os grandes centros urbanos serem a essência da afirmação urbana, eles não têm condições de suportar o crescimento populacional futuro. Isso significa que ele terá de ser suportado pelas cidades de segunda escala, isto é, as cidades da periferia do centro urbano, sem condições básicas de garantia da cidadania. São cidades periféricas, sem planejamento para acomodar pessoas e prestar-lhes serviços básicos de sobrevivência (DAVIS.2007, p. 18).
Outra característica que pode ser atribuída à cidade da Praia é a sua visível concentração de riqueza. O estudo do MHOT, em referência ao índice GINI (indicador de nível de desigualdade de rendimentos), aponta para uma concentração de cerca de 52% dos rendimentos do país na capital. A Praia é a sede administrativa do país, sendo centro dos principais serviços do estado, como as atividades ligadas à administração e governação (autárquica e nacional), a Universidade Pública de Cabo Verde e o aeroporto Internacional Francisco Mendes (um das maiores do país).
A sua população aumentou cerca de 33 mil pessoas na última década, representando um crescimento anual de cerca de 2,9%, muito acima da média nacional, que é de 1,3% ao ano. Aproximadamente 97% da população do concelho vivem na cidade, o que a tornou o município com maior taxa de urbanização nesta década. Ademais, a capital caracteriza-se ainda por ser atrativa não apenas para os fluxos migratórios nacionais, mas também internacionais, principalmente dos emigrantes africanos, que têm aumentado nos últimos anos.
O referido crescimento populacional tem viabilizado um conjunto de atividades econômicas normalmente inviáveis em outros municípios pela inexistência de um número mínimo de pessoas. Esse fato atribui inteligibilidade ao processo de instalação de infraestruturas de apoio aos negócios primeiramente na Praia, e secundariamente noutros municípios. Entres essas, encontram-se a ampliação do aeroporto da Praia, a expansão do porto e o asfaltamento de estradas que ligam ao interior da ilha e os parques industriais.
3 OCUPAÇÃO URBANA E INFORMALIDADE HABITACIONAL NA
PERIFERIA DA CIDADE DA PRAIA: ABORDAGEM TEÓRICO-
CONCEPTUAL A PARTIR DA PERSPECTIVA DO LUGAR
Pretendemos, no presente capítulo, fazer um diagnóstico teórico e conceptual da categoria analítica fundamental da presente pesquisa, a informalidade habitacional no contexto da cidade da Praia. A nossa abordagem será realizada desde a perspectiva do lugar, considerando as especificidades das configurações culturais, sociais e históricas da sociedade cabo-verdiana dentro do contexto africano. Pensamos que é fundamental esse posicionamento pan-africano e afrocentrado no processo de construção do conhecimento, como estratégia de captarmos a riqueza, diversidades e heterogeneidade epistemológica africana.
Nesse construto teórico conceitual, destacamos o papel central do sujeito africano e sua agência no contexto da nossa história como africanos, fazendo, desse modo, a demarcação epistemológica perante a análise eurocêntrica. Esse diagnóstico conceptual tem os cabo- verdianos como sujeitos e agentes no processo de construção do conhecimento, fundamentado no questionamento da localização e demarcação espacio-temporal.
Descreveremos o processo de inserção das periferias do país, especialmente as periferias da cidade de Praia e como essas se configuram. Nessa compreensão, é possível perceber um desejo de distanciamento entre periferia e centro. Diante disso, a nossa análise segue pela caracterização da relação entre duas categorias relevantes, centro e periferia, essenciais na compreensão do fenômeno urbano.
Procuramos também, neste capítulo, estabelecer um diálogo entre a informalidade urbana e a sustentabilidade, no sentido de perceber como a informalidade pode ser um modo de vida, uma alternativa de sobrevivência para as pessoas de baixa renda, que,em razão da ausência de políticas sustentáveis de desenvolvimento integrado, procuram reinventar e/ou recriar novas formas de vida para garantir a sua subsistência dentro do universo complexo da vida urbana, da pobreza,da exclusão social e da segregação espacial ao qual o sistema capitalista, eurocêntrico, os condicionou.