AFYA, nome da Entidade em Swahili, idioma falado na Tanzânia, quer dizer literalmente “Saúde” – ou um lugar que acolhe mulheres com as chamadas “ancestralidades machucadas”6, adoentadas.
Ali, são bem-vindas e estimuladas a entrarem em contato com sua natureza conhecedora, curiosa, em busca das respostas para seus questionamentos, em busca de instrumentais de compreensão de como a doença pode ser um caminho para o processo de autoconhecimento e produção coletiva de saberes entre mulheres.
Naquele Centro, um grupo de mulheres das classes populares compartilham saberes, aprendizados, experiências, vida, superações de doenças, métodos naturais de promoção da saúde.
Atualmente a Afya possui uma sede própria, arborizada, florida, com o intuito de ser aconchegante, com salas para reuniões e para o procedimento das terapias, uma farmácia viva, espaço onde se cultiva plantas medicinais e aromáticas
6 Esse termo é inspirado em dois conceitos distintos: 1-Conceito de mulher corpos-para-outros da antropóloga mexicana Marcela Lagarde y de los Rios, que trabalha a questão da dominação patriarcal como processo de condicionamento e invisibilidade das mulheres que são aprisionadas histórica e culturalmente em seus próprios corpos. “Las mujeres compartem como género la misma condición histórica, pero difieren em cuanto a sus situaciones de vida y em los grados e niveles de la opresón (LAGARDE Y DE LOS RIOS, 2005, p. 34); 2- Conceito de Campo Mórfogenéticos, conceito de estruturas sistêmicas do biólogo inglês Rupert Sheldrake, que trabalha a questão dos campos mórficos como estruturas que se estendem no espaço-tempo e moldam a forma e o comportamento de todos os sistemas do mundo material, transmitindo informações através de gerações num processo chamado de ressonância mórfica, alimentando uma espécie de memória coletiva e reprodução de comportamentos no sistema (SHELDRAKE, 1996, p.12). Conceito utilizado pela Terapia Constelação Familiar, criada pelo filósofo e psicoterapeuta alemão Bert Hellinger. O Poeta Manoel de Barros também utiliza esse termo em um de seus poemas, citados neste texto.
utilizadas nos tratamentos, cozinha onde são preparadas comidas saudáveis, sucos e chás que são utilizados nos tratamentos.
Localizada à Rua Estudante Daniel Lima de Barros, 105, Alto do Mateus, conta com uma equipe de aproximadamente 20 pessoas fixas, em sua maioria mulheres locais que chegaram à instituição em busca de cuidados e depois, com o trabalho de acolhimento, formação continuada, cursos de qualificação se tornaram terapeutas, e hoje acolhem e recebem outras mulheres que chegam a Entidade em situações semelhantes.
Segundo o IBGE (2010), a população do bairro Alto de Mateus em João Pessoa é de 16.281 habitantes. A população masculina representa 7.832 habitantes, e a população feminina, 8.449 habitantes. Sendo a população composta de 51.89% de mulheres e 48.11% de homens, distribuída numa extensão de aproximadamente 660 hectares.
O Alto do Mateus pode ser classificado como um bairro de periferia, pouco adensado demograficamente, situando-se às margens de um trecho da linha férrea pertencente à Rede Ferroviária Federal Sociedade Anônima (RFFSA), no Vale do Rio Sanhauá, no limite dos Municípios de João Pessoa e Bayeux. Na beira da linha são encontradas casas “amiudadas e espremidas” entre o mangue e a linha férrea.
É um bairro que cresceu muito nos últimos anos, com histórica desproporção entre demanda e oferta de serviços públicos, tornando-se local propenso para a atuação de Organizações Não Governamentais - ONGs, que atuam no bairro, como a Afya - Centro Holístico da Mulher, que atende uma média de mil e quinhentas pessoas (1.500) mulheres e homens por ano, segundo os relatórios de execução apresentados anualmente na Assembléia.
Atende com Terapias como: Bioenergética (anamnese/avaliação), Plantas Medicinais, Massagens: oriental, com Pedras Quentes e Quick (na cadeira), Argiloterapia, Alimentação Natural, Reflexologia7, Limpeza de Ouvido com Cone Chinês, Reiki, Experiência Somática - SE, Constelação Familiar, Terapia Floral.
É um trabalho de acolhimento, respeito e escuta das mulheres silenciadas pelo cotidiano marcado pela carência material e pela falta de oportunidades, um
7 Reflexologia ou Reflexologia Podal é uma técnica de massagem nos pés, local onde se encontram pontos que correspondem aos órgãos vitais e regiões de todo corpo – como um mapa em miniatura do nosso organismo. A técnica baseia-se na livre circulação de Energia Vital, dado que a sensibilidade ou dor em algum ponto é um sinal de alerta, representando um desequilíbrio de energia. (Cartilha Afya – Há 10 anos mulheres partilhando a vida – João Pessoa 2010.)
cotidiano de tarefas domésticas que consomem o tempo das mulheres e inviabiliza pensar em estudar, ter um lazer, se autocuidar.
Um cotidiano de relações truncadas com marido, filhos, vizinhos, parentes, de exposição constante à violência do bairro. A partir dessa realidade um grupo de mulheres “religiosas”, preocupadas com a vida de outras mulheres “de classes populares”, se aproximam buscando uma relação de ajuda mútua, solidariedade, descoberta da fala, descoberta de um ser humano imerso num cotidiano cansativo, limitante e doentio.
A vida das mulheres das classes populares acontece no cotidiano das pequenas tarefas, cuidar da casa, cuidar dos filhos, netos, cuidar das coisas do marido, cuidar da roupa, ajudar as crianças nas tarefas escolares – quando é possível –, se preparar para ir trabalhar, voltar do trabalho e se reencontrar com algumas dessas tarefas novamente. É o cenário da representação social da vida, na vida cotidiana.
Um cotidiano que se baseia numa escala de valores sempre a partir do outro, valores que tem uma hierarquia, pois não é possível fazer tudo ao mesmo tempo. Poderíamos falar de uma dialética do cotidiano da vida, numa intensa relação entre agir-sentir-pensar. Como diz Agnes Heller (1970, p. 19), “o sujeito que faz a história e é feito por ela”.
Estamos falando de uma história da vida comum de pessoas comuns, uma história menosprezada, uma cotidianidade repleta de movimentos históricos velados, furtivos, dinâmicos, que colocam no centro do processo histórico uma busca constante pela afirmação da vida, pela humanização.
A intencionalidade por dentro dessa pesquisa surgiu a partir da minha própria experiência quando em 2002 cheguei à Afya.
Apresentada pelo Educador Popular Ricardo Brindeiro, que trabalhava no Projeto Beira da Linha, fui recepcionada por uma senhora Dona Lourdes, que me mostrou a sede e falou do trabalho desenvolvido pelas mulheres com as mulheres; entregou-me um folder com os cursos ofertados pela Entidade.
Um segundo encontro aconteceu em 2007 seguindo o mesmo modus
operandi que leva quase todas as mulheres procurarem a Afya, a doença. Passei
por um tratamento e depois pelos cursos como todas as outras mulheres. A presença de atores sociais diversos, interagindo de forma solidaria e cooperativa num mesmo espaço, provocou-me várias interrogações.
Ficava impressionada como na AFYA integrantes de movimentos sociais e populares, partidos políticos, funcionários públicos, estrangeiros, terapeutas, pessoas de classe média, professores universitários, pessoas de classes populares, pessoas alfabetizadas, analfabetas conseguiam com respeito e diálogo se ajudarem mutuamente num processo complexo de construção de novos conhecimentos em saúde, novos comportamentos, consensos e solidariedade.
Despertava a atenção, como uma Organização não governamental (ONG), exclusivamente de mulheres, que presta serviços de saúde para sujeitos populares, levava em consideração a relação das mulheres pouco escolarizadas com as práticas de saúde de suas famílias, suas comunidades de origem, com saberes adquiridos com mulheres idosas, com vizinhas, num diálogo criativo e provocador, capaz de incorporar terapias holísticas trazidas do Oriente, ou de culturas ancestrais.
Isso começou a despertar curiosidades em mim, um desejo forte de querer entender o que estava acontecendo na periferia da cidade de João Pessoa.
Na década de 1980, quando passei por algumas Pastorais Sociais da Igreja Católica na região de Garanhuns-PE, presenciei várias experiências de promoção da saúde com grupos de mulheres, pastoral da saúde coordenada por missionárias franciscanas, vivências em sua maioria ligadas à medicina popular, farmácias vivas, plantas medicinais, chás, argiloterapia, jejuns, vegetarianismos, rezas.
Porém, a experiência da AFYA apresentava algo inovador, questionador, instigante, por entrelaçar elementos da cultura popular em saúde, oriundos da matriz indígena-africana, do catolicismo popular, com terapias holísticas orientais, europeias e norte-americanas.
Isso era algo inédito para mim. Via as mulheres de classes populares acessando todo esse volume de práticas e saberes, articulando-os com suas vivências pessoais, atendendo e beneficiando outras mulheres.
Tudo isso me desafiava, no sentido de compreender a profundidade das relações e conexões em busca de vida e saúde, que existia entre elas, através da Afya.
Com a saúde muitas vezes reduzida a mecanismos biomédicos, hospitalares, econômicos, surge na década de 1980, a partir da experiência das Comunidades Eclesiais de Base (CEBs), das Pastorais Populares, das Pequenas Comunidades Inseridas de mulheres consagradas da Igreja, um movimento de valorização e
retorno às práticas de saúde, em diálogo com as experiências das classes populares.
As pessoas que não conseguiam acessar os serviços públicos ou particulares de saúde, dispunham de acesso a “outras formas de saúde” que se deslocavam em direção aos bairros populares.
Victor Valla (1999) traz uma importante contribuição para pensarmos criticamente esse processo de educação popular em saúde:
A questão que se coloca não é se a saúde alternativa é um quebra-galho para a crise que se apresenta, mas se a própria crise não aponta para alternativas de lidar com os problemas de saúde da população. Quando se analisa o conteúdo da saúde alternativa nos jornais da grande imprensa, percebe-se que geralmente está se tratando de uma discussão dirigida aos leitores das classes média e alta. Dentro da perspectiva de uma educação popular transformadora, é necessário distinguir entre propostas de saúde alternativa "individualizantes" das classes média e alta e os caminhos coletivos das classes populares, criados a partir das suas condições de vida. (VALLA, 1999, p. 244-245)
,
É importante então, para este trabalho de pesquisa, identificar de que forma as classes populares, as mulheres pobres do Alto do Mateus, a partir de seu legado cultural, encaram esse movimento.
O que significa para uma parte das mulheres ser acolhida, escutada, respeitada na sua dificuldade de falar e de saber ouvir, de se expressar, como se sente passando, evoluindo da condição de cuidada para a condição de cuidadora/terapeuta?
Podia perceber elementos da educação popular naquela experiência, como: escuta, respeito pela visão de mundo do outro, decisões tomadas de forma coletiva, participativa e democrática, num diálogo respeitoso e solidário. Podia perceber que havia um caminho educativo a partir da relação com a “doença” que aproximava um saber-fazer popular de raízes ancestrais, onde o religioso e o científico podiam ajudar-se.
Podia perceber naquela experiência conflitos e contradições que passavam despercebidos pelas mulheres, questões da vida cotidiana, sonhos, desejos, que não estavam sendo trabalhados.
Era possível identificar vários espaços de diálogo entre elas, porém parecia faltar algo naquele diálogo que as ajudasse a fazer uma leitura crítica de sua realidade. Parecia faltar perguntas.