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Capítulo I – Museu, memória, identidade e a alma dos objetos

1.5. Como percebemos a alma dos objetos?

1.5.4. Agência

A ressonância está atrelada ao conceito de “agência”. Ao criar laços emocionais e identitários com um artefato, consideramos que este item pode agir sobre o indivíduo. O filósofo Maurice Merleau-Ponty já dizia em um trabalho publicado pela primeira vez na década de 1940 que:

As coisas não são, portanto, simples objetos neutros que contemplaríamos diante de nós; cada uma delas simboliza e evoca para nós uma certa conduta, provoca de nossa parte reações favoráveis ou desfavoráveis, e é por isso que os gostos de um homem, seu caráter, a atitude que assumiu em relação ao mundo e ao ser exterior são lidos nos objetos que ele escolheu para ter à sua volta, nas cores que prefere, nos lugares onde aprecia passear. [...] Nossa relação com as coisas não é uma relação distante, cada uma fala ao nosso corpo e à nossa vida, elas são revestidas de características humanas (dóceis, doces, hostis, resistentes) e, inversamente, vivem em nós como tantos emblemas das condutas que amamos ou detestamos. O homem está investido nas coisas, e as coisas estão investidas nele. Para falar como os psicanalistas, as coisas são os complexos. É o que Cézanne queria dizer quando falava de um certo “halo” das coisas que se transmitem pela pintura. (MERLEAU-PONTY, 2004, p. 23- 24).

Desta forma, de acordo com o autor, a relação e a aproximação das pessoas com as coisas é algo possível e profundo, não somos espíritos puros separados das coisas e as coisas não são objetos sem nenhum atributo humano. Os objetos, nesse sentido, são elementos fundamentais para o despertar de determinados sentimentos e ações. Ingold (2012) afirma que se as pessoas podem agir sobre os objetos, então, os objetos agem de volta e “fazem com que elas façam, ou permitem que elas alcancem, aquilo que elas de outro modo não conseguiriam.” (INGOLD, 2012, p. 33).

O antropólogo Bruno Latour (2005) complementa que os objetos não apenas fazem parte da sociedade, eles ajudam a construí-la e designam ações intencionais nos humanos:

As chaleiras "fervem" a água, as facas "cortam" a carne, as cestas "mantêm" os mantimentos, os martelos "batem" nos pregos, os trilhos "impedem" que as crianças caiam, [...] o sabonete "tira" a sujeira [...] e assim por diante. Esses verbos não estão designando ações? (LATOUR, 2005, p. 71, tradução nossa)

Latour (2005) explana para tentarmos pregar um prego com e sem um martelo, ferver a água com e sem uma chaleira ou buscar mantimentos com e sem um cesto. Ele afirma que para a maioria das pessoas esses objetos são importantes e fazem a diferença na realização dessas atividades, sendo, portanto, atores. O autor aponta para o fato de

esses objetos não determinam as ações, mas que tudo aquilo que modifica o estado das coisas ao fazer alguma diferença é um ator na relação. Além disso, segundo Latour (2005), os objetos servem como pano de fundo para as ações humanas, pois “as coisas podem autorizar, permitir, encorajar, sugerir, influenciar, bloquear, tornar possível, proibir e assim por diante. [...] os objetos fazem as coisas "ao invés" dos atores humanos.” (LATOUR, 2005, p. 72, tradução nossa).

Soares (2014) acrescenta que:

[...] uma vez criadas, utilizadas e colocadas em performance, as coleções criam conexões que são delas próprias. E, por vezes, são elas – através de sua agência – que determinam as ações humanas, e não o contrário. (SOARES, 2014, p. 23).

Sendo assim, os sujeitos são influenciados pelos objetos no momento em que são criados, utilizados e até mesmo após perderem sua função utilitária e postos em performance museal. De acordo com Soares (2012), a performance museal é uma forma de diálogo, que possui como intuito ativar nos objetos o que é extrínseco, ou seja, o que não vemos em sua materialidade, por intermédio da representação e significação de tais artefatos para os atores sociais (a comunidade). O antropólogo Daniel Miller (2013) acrescenta que os objetos são mais do que meras representações, os objetos que possuímos, ou aqueles em ambientes institucionais, nos formatam no mesmo grau em que são formatados por nós. Deste prisma, consideramos que os objetos "vivos" agem sobre nós; não são apenas passivos nas relações sociais. Os objetos vivos, por essa lógica, têm alma.

Alfred Gell, antropólogo social, acredita que as obras de artes são equivalentes a pessoas, afirmando que estes objetos não são somente objetos, são seres reais. Para o autor, a agência existe em qualquer ocasião onde uma intenção é atribuída a uma pessoa ou coisa (GELL, 1998 apud ALVES, 2008). Além disso, ele afirma que não é somente a consagração humana através das mentes humanas que colocam agência nas coisas intencionalmente, as coisas realmente têm uma agência. Um exemplo que alude o que foi apresentado por Gell, é descrito pela antropóloga social Clarisse Kubrusly (2013) ao narrar sobre a trajetória da Boneca Dona Joventina. Joventina é uma escultura sagrada, chamada de calunga ou boneca, de uma antiga manifestação carnavalesca de Recife, os maracatus nação. A calunga é considerada como uma escultura mágica, agenciadora espiritual, até que tornou-se objeto de coleção. Os maracatuzeiros reivindicaram a

boneca12, pois consideram que ao ser recolhida por um museu, ocorre a morte da boneca

para a nação. Ela garante a proteção espiritual da nação maracatu, é um sujeito espiritual e de ação que come, age e fala, necessitando ter seu espírito ancestral alimentado. Em troca, ela recebe devoção e a satisfação das suas vontades. Além disso, os maracatus reconhecem que Dona Joventina é uma agenciadora que permite a comunicação entre o mundo dos homens vivos, dos homens mortos e dos deuses e entidades protetoras dos maracatus. Kubrusly (2013) ressalta que ao ser concebida como um verdadeiro sujeito de ação, a boneca desestabiliza nossas noções de sujeito e objeto.

Sendo assim, podemos considerar que a agência dos objetos possui duas instâncias: primeira, onde um objeto é tratado como uma pessoa (objetos sagrados que lhe são dadas oferendas, como o caso da Calunga Dona Joventina); e segunda, a qual o objeto possui uma vida interior, própria dele, que é atribuída pelos indivíduos. Em ambos os casos, os objetos possuem a capacidade de agir sobre as pessoas ou fazer com que as pessoas ajam por eles. Se os objetos agem sobre os sujeitos e vice-versa, podemos antever que a biografia deste também influencia naquele. O que seria a biografia de um objeto sem possuir conexões com a biografia de uma pessoa que agiu sobre ele e reciprocamente? Veremos a seguir sobre a perspectiva biográfica e como ela pode nos auxiliar a perceber estes fatores trabalhados até o momento, além de vir a ser mais um instrumento animador dos objetos estagnados em museus.