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Capítulo I – Museu, memória, identidade e a alma dos objetos

1.5. Como percebemos a alma dos objetos?

1.5.1. A invisibilidade na materialidade

De acordo com Gonçalves (2003), os estudos etnográficos sugerem que os bens materiais não são objetos separados dos seus proprietários, nem sempre possuem atributos estritamente utilitários, possuem, ao mesmo tempo, “significados mágico-religiosos e sociais” (GONÇALVES, 2003, p. 23). Deste prisma, estes objetos de natureza tanto moral, econômica, quanto religiosa e mágica, constituem extensões de seus proprietários que são partes inseparáveis de totalidades sociais e cósmicas que transcendem sua condição de indivíduos (MAUSS, 1974 apud GONÇALVES, 2003, p. 23).

Marcel Mauss (2003) aponta que para os povos Maoris11, dentre outros povos, os

objetos (taonga) são fortemente ligados à pessoa, ao clã, ao solo, são veículos de seu mana (magia/alma), de sua forma mágica, religiosa e espiritual. Esses objetos pessoais possuem poderes espirituais (hau) que são transmitidos através de dádivas (trocas, presentes). Ao possuir um taonga de outra pessoa, de certa forma, possui-se um vínculo de alma com essa pessoa, pois a própria coisa tem uma alma, é alma. Além disso, o autor traz outro exemplo, referente às trocas de presentes efetuadas entre ritos de encontro após

10 Como dissemos anteriormente, alguns autores utilizam os termos “espírito”, “aura” ou “alma”. Por

intentarmos um delineamento autoral do conceito de alma dos objetos, abordaremos sobre todas expressões que são trabalhadas, porém, utilizaremos “alma” para ser trabalhado em nossa construção do conceito, apenas por quesito de preferência de expressão e por acreditarmos se enquadrar melhor na área museológica.

longas separações, no qual se misturam os sentimentos e as pessoas, “Misturam-se as almas nas coisas, misturam-se as coisas nas almas. Misturam-se as vidas, e assim as pessoas e as coisas misturadas saem cada qual da sua esfera e se misturam [...]” (MAUSS, 2003, p. 212).

Mauss (2003) complementa que “se a noção de espírito nos pareceu ligada à noção de propriedade, esta, inversamente, está ligada àquela. Propriedade e força são dois termos inseparáveis; propriedade e espírito confundem-se” (MAUSS, 2003, p. 138). Desta maneira, os objetos possuem propriedades invisíveis, que estão conectadas aos seus possuidores. Bruno Aroni (2010) aponta sobre a conexão existente dos sujeitos com os objetos e da materialidade com a imaterialidade:

Os sujeitos se criam ao criar os objetos, a materialidade tangível, que, mesmo assumindo vida própria, não deixa de marcar as relações que os constituíram. [...] A cultura material surge como um lugar privilegiado para se observar como se cristalizam as intencionalidades humanas, [...]. Um paradoxo, portanto, se faz necessário: a materialidade é tão importante justamente porque ela é o cultivo da imaterialidade. (ARONI, 2010, p. 05-13)

Portanto, a vitalidade do objeto e da sua alma depende da conexão entre objeto- sujeito-contexto (ou seja, através do fato museal); caso seja separado dessa rede, perde sua vida. Este objeto perderia exponencialmente seu potencial de projetar ao invisível caso fosse deslocado a um museu sem referência à sua vida pregressa.

Outros autores tratam a cultura material de um ângulo psicológico, como é o caso de Meneses (1996) com o conceito de extended self ou "eu-estendido", afirmando que determinados objetos não apenas refletem as pessoas simbolicamente, mas se confundem com as pessoas, a ponto de não haver uma fronteira clara entre sujeito e objeto. De acordo com o autor “há um vínculo aí implícito, entre as coisas materiais e outro polo que oscila entre o indivíduo, o "eu", os agentes sociais, grupos sociais, a sociedade.” (MENESES, 1996, p. 287). Em outros termos, acredita-se que determinados objetos não apenas simbolizam as pessoas, mas igualmente formam essas pessoas socialmente, não apenas refletem ou expressam a identidade, são parte dela. Podemos antever que este assunto está ligado ao conceito de “agência” que apontaremos à frente.

Atualmente, esses aspectos, digamos “mágicos”, são considerações presentes nas categorias de patrimônio. Alguns bens ao serem patrimonializados, são apontadas suas propriedades mágicas e espirituais nos critérios para seu registro, porém, a discussão gerada comumente foca-se em torno da necessidade ou não da preservação de

determinados bens, sem considerar ou discutir a importância e o significado da sua existência para a sociedade. Não obstante, surgiu a categoria de patrimônio “imaterial” ou “intangível”, que visa a “aspectos da vida social e cultural dificilmente abrangidos pelas concepções mais tradicionais” (GONÇALVES, 2003, p. 24), recaindo a ênfase aos aspectos ideais e valorativos das formas de vida. Pensando este aspecto em âmbito museológico, os museus devem se ocupar dos sentidos dos objetos, de sua dinâmica, de sua alma, e não apenas das suas materialidades. De que adianta preservar o corpo, os bens materiais, os objetos nos museus, sem pensar nas suas almas?

Pomian (1984) descreve que os objetos oferecidos aos deuses ou aos mortos são intermediários entre o nosso mundo e o do além, entre o profano e o sagrado, são objetos que representam o longínquo, o oculto, o ausente, são mediadores entre o espectador que os visualiza e o invisível de onde veem. Além disso, o autor afirma que esses objetos são intercessores entre o sujeito que os olha e os toca, e o invisível. No caso dos objetos de tesouros reais ou principescos, Pomian (1984) menciona que eles representam o invisível, pois se referem a uma tradição, pertenceram a uma pessoa famosa e conservam a memória dos fatos passados. Sendo assim, também são intermediários entre os espectadores que os olham e o invisível.

Geralmente os museus ocupam-se com o corpo e deixam de lado os simbolismos e a alma de seus objetos. Para elucidar, Pomian (1984) estabelece o conceito de “semióforos”, para designar os objetos dotados de significado e sentido quando expostos ao olhar, e que possuem o potencial de conectar o visível ao invisível:

O semióforo desvela o seu significado quando se expõe ao olhar. Tiram-se assim duas conclusões: a primeira é que um semióforo acede à plenitude do seu ser semióforo quando se torna uma peça de celebração; a segunda, mais importante, é que a utilidade e o significado são reciprocamente exclusivos: quanto mais carga de significado tem um objeto, menos utilidade tem, e vice- versa. (POMIAN, 1984, p. 72)

Deste prisma, os museus ao receberem um objeto, devem manter, transmitir e intensificar o valor simbólico que este dinamiza, conforme complementa Soares (2014):

[...] se dar é transmitir o valor das coisas e das pessoas, ligando-as umas às outras em uma relação que parte do plano do profano, guardar é uma forma de transmitir com mais intensidade aquilo que há para além da matéria objetal das coisas, e portanto toca o plano do sagrado. (SOARES, 2014, p. 24)

Desta forma, inferimos que os objetos possuem atributos sagrados que estão além do seu corpo material. Através da relação sujeito/objeto, podemos compreender esses aspectos que estão invisíveis nas materialidades através das representações que são feitas sobre eles, tornando os bens, tanto materiais quanto imateriais, possíveis patrimônios que podem ser apreendidos por intermédio da musealidade.