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AGÊNCIA

No documento CURITIBA 2010 (páginas 47-50)

Agência pode ser conceituada como a capacidade de produzir efeito, ou interferir em eventos, não sendo a intencionalidade um pré-requisito (MACHADO-DA-SILVA; FONSECA; CRUBELLATE, 2005). Ou seja, a agência incorpora ações intencionais bem como as não-intencionais. Conforme Giddens (2003, p. 11, grifo do autor): “’Agência’ não se refere às intenções que as pessoas têm ao fazerem as coisas, mas à capacidade delas para realizar essas coisas em primeiro lugar”. De acordo com Giddens (2003, p. 11), a agência refere-se também aos eventos aos quais o agente está dando continuidade à prática, podendo ter atuado de modo diferente, resultando assim, em um produto diferente.

Conforme Machado-da-Silva, Fonseca e Crubellate (2005), a definição de agência de Giddens (2003) indica que devem ser consideradas também as conseqüências não-intencionais, ou impremeditadas, da ação. Ou seja, a intencionalidade inicial não explica, nunca, o resultado completo da ação.

Khan, Munir e Wilmott (2007) analisam as conseqüências impremeditadas do trabalho institucional, ou seja, de indivíduos com capacidade de agência, fruto das relações de poder naturais e dadas como certas. No caso estudado, mostram que a agência pode ser prejudicial às partes consideradas mais interessadas, devido às relações de poder. Os agentes procuraram melhorar a qualidade de vida dos trabalhadores que faziam bolas de futebol. O resultado foi o fortalecimento das fábricas de bolas e a redução da qualidade de vida dos trabalhadores.

Conforme Emirbayer e Mische (1998, p. 970), a agência é definida como o encontro “temporalmente construído por atores de diferentes ambientes estruturais [...] que, pela interação entre hábitos, imaginação e julgamento, reproduz e transforma aquelas estruturas numa resposta iterativa aos problemas postos pela mudança de situações históricas”.

A agência humana é resultado da confluência de três dimensões analíticas, passado, futuro e presente, e é constituída por três elementos: interação, projetividade e avaliação prática respectivamente (EMIRBAYER, MISCHE, 1998). A dimensão analítica do passado que compreende a iteração remete à idéia de repetição das práticas sociais com o objetivo de prover segurança ontológica aos indivíduos. A iteração por sua vez é o elemento que fornece subsídios para a esquematização da experiência sociais. Os atores recorrem, selecionam e aplicam esquemas anteriores, focando a questão da agência como continuidade das instituições e não de sua mudança, mas ao mesmo tempo remetendo à questão de como a mudança é a reorganização de esquemas anteriores.

A dimensão futura envolve o elemento projetivo, que é a capacidade de imaginar trajetórias de ação possíveis. Esse elemento varia espaciotemporalmente.

As atividades desse elemento englobam: a construção narrativa (que embora não sejam iguais ao projeto permitem a visualização e os recursos de como será o futuro e os passos a serem feitos), recomposição simbólica (bricolagem de significados formando outros significados) e resolução hipotética (depois da construção de cenários os atores criar resoluções hipotéticas que estejam de acordo com questões morais, práticas e emocionais dos conflitos vividos). No elemento projetivo, o futuro

se liga ao passado e ao presente. A identificação permite que as trajetórias possíveis tenham seus elementos localizados no passado e a experimentação, em que as hipóteses são colocadas em provas na situação presente.

Por fim a dimensão analítica do presente é calcada no elemento da avaliação prática, ou seja, a capacidade dos atores de realizarem julgamentos práticos e normativos das possíveis trajetórias de ação (EMIRBAYER; MISCHE, 1998).

Dorado (2005), utilizando-se das dimensões temporais de Emirbayer e Mische (1998), conceitua três diferentes formas de agência, conforme a orientação temporal predominante, quais sejam: rotina (GIDDENS, 2003), sense-making (WEICK, 1995) e estratégica (DIMAGGIO, 1988). A agência de rotina, que tem o passado como orientação temporal dominante, é originada da recursividade entre a estrutura e ação, portanto a mudança dela originada, por ser fruto da acumulação de pequenas alterações, sendo lenta e gradual. A agência de sense-making, que tem o presente como orientação temporal dominante, ocorre quando há incertezas no futuro e para lidar com ela, os atores tentam fazer sentido dos acontecimentos do presente, ou seja, tentam convencer-se das suas ações. Por fim, na agência estratégica, que tem a orientação temporal para o futuro como dominante, as trajetórias de ação são definidas pelas esperanças, desejos e medos dos agentes, que por sua vez fazem escolhas com cálculos de causa-efeito visando seus interesses.

Para Fligstein (2001), a agência é um conceito complexo que engloba a criação, transformação de instituições e a manutenção das instituições. A capacidade de agência está relacionada às habilidades sociais dos indivíduos. Para esse autor, a ideia de habilidade social é a que “os atores possuem com o objetivo de motivar outros atores para cooperar. A habilidade de engajar outros em uma ação coletiva é uma habilidade social fundamental na reprodução e construção da ordem social local”. (FLIGSTEIN, 2001, p.107)

Conforme Fligstein (2001), essas habilidades – que são: enquadramento (relaciona-se às histórias), determinar uma agenda de discussão com temas de interesse para todos os stakeholders, colocar-se em uma posição de intermediador, barganhar, fazer os outros acreditarem que o agente não está em uma posição de poder entre outros - são fundamentais para a construção e reprodução dos campos organizacionais. Atores estratégicos, de acordo com Fligstein (2001), são indivíduos que buscam a mudança ou transformação das instituições e para isso utilizam suas

habilidades sociais para induzir a cooperação entre os diversos atores provendo significado e identidade a esses atores, sendo suas ações justificadas.

Beckert (1999) estuda um tipo de agência, a agência estratégica. Conforme esse autor, ela acontece quando o indivíduo percebe uma oportunidade estratégica, fruto da estabilidade provida pelas instituições, utiliza sua habilidade analítica – agência estratégica, que tem como componente a agência projetiva (EMIRBAYER;

MISCHE, 1998) – para auferir lucros dessa situação. Assim ao alterar ou criar novas instituições impreterivelmente, a estabilidade anterior será substituída pela incerteza – definida como o grau pelo qual o estado futuro do mundo não pode ser previsto – que desencadeará a necessidade por estabilidade (BERGER; LUCKAMNN, 2008).

Esta, por sua vez, será alcançada pelo trabalho administrador (BECKERT, 1999), ou do líder institucional (SELZNICK, 1971).

A agência, portanto, apesar das diferentes visões, para este trabalho, engloba a capacidade de fazer as coisas (GIDDENS, 2003), sendo a intencionalidade um pré-requisito, bem como as três dimensões analíticas, passado, futuro e presente e seus elementos, iteração, projetividade e avaliação prática respectivamente (EMIRBAYER; MISCHE, 1998). É a capacidade de agência dos agentes que permite á eles institucionalizar, desinstitucionalizar ou transformar as práticas organizacionais.

No documento CURITIBA 2010 (páginas 47-50)