As organizações estão em transformação contínua, uma vez que passam pelo processo de estruturação. Esse processo faz com que elas sejam produto da
estrutura e da agência (GIDDENS, 2003). A estrutura é condicionada pelas pressões externas que advêm do campo organizacional ao qual a organização pertence e pelas pressões da própria organização. Para esta pesquisa os fatores internos são aqueles presentes dentro da organização, relacionados a estrutura organizacional (FOMBRUN, 1986).
A estrutura organizacional, conforme Hatch e Cunliffe (2006, p. 101), pode ser entendida como “as relações entre as partes de um todo organizado”; já, de acordo com Fombrun (1986, p. 403-404), é um processo de estruturação de três níveis:
“estrutura é entendida como uma etapa em um processo dinâmico de estruturação que cobre ações individuais pelo processo de convergência e de contradição entre esses três níveis” (FOMBRUN, 1986, p. 403-404). Assim a estrutura organizacional é composta por três níveis, quais sejam: infraestrutura, socioestrutura e superestrutura.
A infraestrutura é composta pela tecnologia – definida por Scott (2003, p. 231-232) como a combinação física juntamente com o processo intelectual de conhecimento que tem como resultado a transformação de matérias-primas em produção - competição entre organizações, e contexto do mercado. Ou seja, representa soluções técnicas para a continuidade do processo de produção (FOMBRUN, 1986).
O termo tecnologia pode ser definido de várias maneiras conforme o referencial teórico e a epistemologia utilizada ou o nível de análise adotado. No nível organizacional de análise, conforme Hatch e Cunliffe (2006, p. 142), “o conceito de tecnologia se refere aos métodos e o conhecimento com os quais objetos e serviços são produzidos, bem como os equipamentos e ferramentas usadas”. No nível individual da realização da tarefa, a tecnologia pode ser definida como os meios para se manter a maquinaria funcionando, planejamento de orçamentos entre outros.
Para evitar duplos sentidos, foi cunhado o termo núcleo tecnológico, que se refere ao processo de transformação diretamente envolvido na produção de produtos e serviços para a organização. É definida em termos dos objetos utilizados (produtos, serviços e equipamentos utilizados no processo produtivo), das tarefas ou processos (os métodos de produção) utilizados e do conhecimento necessário para desenvolver e aplicar equipamentos, materiais e métodos na produção de um bem ou serviço (HATCH; CUNLIFFE, 2006).
Se, por um lado, para Hatch e Cunliffe (2006), usando-se as tipologias de Woodward (1958), Thompson (1967) e Perrow (1967), a tecnologia abrange seis dimensões, quais sejam: (i) complexidade técnica; (ii) rotinização do trabalho; (iii) padronização das matérias-primas ou dos produtos; (iv) padronização do processo de transformação; (v) variabilidade da tarefa e; (vi) análise da tarefa, por outro lado, para Scott (2003) a tecnologia abrange três dimensões, quais sejam: (i) complexidade ou diversidade – ou seja, o número de elementos que necessitam ser concomitantemente executados pelos agente; (ii) incerteza ou imprevisibilidade – a variabilidade dos itens utilizados no processo produtivo e; (iii) interdependência – como os elementos do processo produtivo se correlacionam de modo que a variação de um interfira ou não nos demais.
O segundo nível de análise da estrutura, a socioestrutura, ou estrutura social, de acordo com Fombrun (1986), compreende a parte administrativa e a arquitetura social da organização, tem como dimensões: (i) a divisão do trabalho, que, para Hall (2004), se refere ao elemento complexidade vertical, horizontal e geográfica da estrutura organizacional; (ii) controle formal, ou formalização e; (iii) a estrutura
“informal”, ou seja as relações que emergem da interação entre os membros organizacionais. Embora o conceito estrutura informal seja amplamente utilizado (HALL, 2004; HATCH; CUNLIFFE, 2006; SCOTT, 2003) para designar as relações não formais em um contexto organizacional, há uma contradição do uso do informal, pois, se essa estrutura perdura no tempo – conquanto seja estruturada continuamente – é legitimada e, portanto, aceita, assim não há como ser informal, uma vez que o que é legitimado é formal por fazer parte da estrutura.
É a partir do estudo das características da do tipo ideal, a burocracia, que surgem os conceitos de divisão do trabalho, hierarquia e formalização, elementos da estrutura organizacional. Weber (1963) definiu que o tipo ideal de organização seria a burocracia, ou seja, uma organização em que as decisões seriam racionais com a maximização da eficiência e imparcialidade.
A especialização do trabalho, ou seja, a divisão do trabalho pode ser horizontal, relativo à especificação do trabalho, e vertical, concernente à supervisão desses trabalhos. É necessário ressaltar que trabalhos com grande divisão horizontal e vertical são caracterizados por serem sem especialização, enquanto trabalhos com grande divisão horizontal e pouca divisão vertical são chamados de profissionais (MINTZBERG, 1980).
A formalização do comportamento, ou seja, o grau de discricionariedade dos comportamentos, está presente em organizações burocráticas. Ou seja, há elevado número de regras e padrões a seguir, formalizados e burocráticos e pouca discricionariedade.
Por fim, a descentralização, ou como a hierarquia das decisões é alocada, pode ser vertical e horizontal. A descentralização vertical refere-se a como as decisões são alocadas dentro da organização, distanciando-se da parte estratégica.
A descentralização horizontal abrange o fluxo de poder que influi informalmente fora da linha de autoridade. Combinando esses dois tipos de descentralização, geram-se cinco tipos de descentralização, quais sejam: (i) centralização vertical e horizontal;
(ii) descentralização horizontal limitada (seletiva); (iii) descentralização vertical limitada (paralela); (iv) descentralização vertical e horizontal seletivas e; (v) descentralização vertical e horizontal (MINTZBERG, 1980).
No Quadro 3, a seguir, conceituam-se as variáveis estruturais selecionadas, quais sejam: tamanho, complexidade, centralização, formalização e tecnologia.
Neste também se indicam as formas possíveis de mensuração das variáveis organizações descentralizadas as decisões são tomadas em todos os níveis).
Formalização Extensão na qual uma organização usa
descrições de trabalho, regras, procedimentos e comunicações, em oposição a comunicação e relação informal, baseada na interação face à face.
Tecnologia Soluções técnicas para a continuidade do
processo de produção, como ferramentas e instrumentos de trabalho, metodologias e técnicas de trabalho.
Quadro 3 - Elementos da estrutura organizacional Fonte: Adaptado de Hatch e Cunliffe (2006, p. 106)
O terceiro nível de análise da estrutura, a superestrutura, engloba as normas, valores e crenças socialmente compartilhados, ou seja, as instituições no sentido de
Berger e Luckmann (2008). Os arquétipos organizacionais - padrões institucionalizados entre organizações - bem como a lógica institucional, estão presentes neste nível estrutural de análise. Assim, conforme a conceitualização de Fombrun (1986, p. 405), a estrutura organizacional pode ser vista como uma construção “composta pela fundação da infraestrutura de uma solução técnica para um problema de produção, emoldurado pela socioestrutura de interações, e que está envolta numa superestrutura de normas e valores cristalizados”.
Contudo não só as estruturas, mas também a agência humana constrói e reconstrói a organização em um processo estruturante.Os aspectos estruturais, sejam eles advindos da infraestrutura, da socioestrutura ou da superestrutura, condicionam as práticas organizacionais e a agência humana, ou seja, a capacidade humana de intervir, ou não, nas práticas da organização. A agência humana, por sua vez, também condiciona a configuração das práticas organizacionais.
A agência condiciona a própria leitura que a organização tem das pressões externas e internas. Zilber (2007) analisou o discurso de dois grupos de empresas, e verificou como estes dois grupos possuíam visões díspares dos motivos e dos culpados pela crise financeira das empresas dot-com em 2000, caracterizada como uma pressão funcional e política (OLIVER, 1992).