IMPLICAÇÕES PARA A TEORIA, INVESTIGAÇÃO E PRÁTICA
Fase 1 Ligeira Fase 2 Moderada Fase 3 Grave Fase 4 Muito Grave Duração entre 1-3 anos.
3. Envelhecimento: desgenderização? Os contributos de domínios clássicos como a Sociologia e a Psicologia Social são
3.1. Ageism, género e idade Presentemente, os idosos usufruem de uma imagem que é, na sua essência,
desgenderizada. Este estereótipo constitui uma das principais heranças do ageism26
que, à semelhança do sexismo e do racismo (enquanto formas de comportamento e
26 Em Portugal trata-se de um termo frequentemente traduzido para “idadismo” (e.g. Ferreira-Alves & Novo, 2006), mas
a progressiva incorporação do vocábulo no seu original na literatura científica portuguesa, bem como a preferência do autor pelo seu termo original, levou à sua opção para utilização ao longo desta dissertação. Assim, de igual modo, e à semelhança do ocorrido para o termo stress, adoptar-se-á a apropriação das derivações linguísticas daquele termo, nomeadamente a expressão ageist para a qualificação de algo que advoga os pressupostos do ageism.
ideologias nas quais são atribuídas determinadas disposições e capacidades a indivíduos ou grupos, simplesmente devido ao sexo ou raça a que pertencem), tende a discriminar a população idosa, descrevendo-a com base em estereótipos que se movem em torno das suas menores capacidades e competências. O ageism, sendo um termo de origem anglo-saxónica originalmente apresentado no fim da década de 60 para se referir à discriminação em relação aos idosos, define-se, de acordo com Butler (um dos primeiros autores a utilizar a expressão) da seguinte forma:
“Ageism can be seen as a process of systematic stereotyping of and
discrimination against people because they are old, just as racism and sexism accomplish this for skin colour and gender. Old people are categorized as senile, rigid in thought and manner, old-fashioned in morality and skills… Ageism allows the younger generations to see older people as different from themselves, thus they subtly cease to identify with their elders as human beings.” (Butler, 1975:35 in Bytheway, 2005:338)
Ao assentar em acções que emergem naturalmente das relações sociais que as pessoas estabelecem entre si, importará destacar que o ageism se situa entre a discriminação (através da qual as pessoas negam oportunidades e recursos tendo por base um critério etário) e o preconceito (através do qual as pessoas percebidas como idosas são encaradas de forma estereotipada e negativa). Tais manifestações congregarão, segundo Bytheway (2005), um rol de dimensões e características que, definindo a velhice como um problema social, podem ser sistematizadas numa taxonomia assente em dois factores que espoletam ambos os processos: a evidência da idade cronológica e a visão que se tem da pessoa idosa (vide quadro 2.3.), ambos sustentados por acções concretas, como a rejeição explícita do corpo envelhecido como objecto de mediatização, ou a renúncia, muitas vezes tácita, de contactos com pessoas idosas em acontecimentos de relevância social.
Instituído e interiorizado em crenças e comportamentos, com potenciais repercussões em processos identitários e de auto-representação da própria pessoa idosa (Northmore, Ball & Smith, 2005), bem como no âmbito do trabalho desenvolvido por profissionais responsáveis pela prestação de serviços gerontológicos, as manifestações do ageism tem origens, em grande medida, estruturais, já que no processo de modernização e desenvolvimento tecnológico as capacidades dos mais velhos têm sido progressivamente desvalorizadas (Cuddy & Fiske, 2002). Outras raízes das atitudes negativas que o ageism incorpora radicarão explicitamente em
domínios mais específicos como o da Psicologia, como seja o medo irracional de tudo quanto se relacione com o envelhecer (gerontofobia), com o adoecer de um corpo mais fragilizado ou, por associação temporal, com a proximidade da morte. Na verdade, as problemáticas em torno do corpo parecem materializar em grande extensão esta preocupação: enquanto o corpo jovem se afigura como um elemento de definição central e ideal da pessoa, o corpo envelhecido simboliza o “indesejado” (rugas, cabelos brancos, vulnerabilidade), tornando-se frequentemente num objecto de estigmatização colectiva.
Quadro 2.3. Manifestações do ageism
Adaptado de Bytheway (2005)
Discriminação Preconceito
Idade cronológica Limites de idade (e.g. seguros disponíveis para adultos até 65 anos).
Peso estatístico (e.g. inclusão da idade no cálculo de prioridades).
Corpo envelhecido Rejeição formal (e.g. de idosos como modelos publicitários).
Evasivas (e.g. evitamento de contactos com pessoas idosas em eventos sociais).
A extensão dalgumas das dimensões presentes nos processos discriminatórios e nos preconceitos é passível de ser encontrada nalgumas imagens actualmente sustentadas acerca do envelhecimento (Featherstone & Hepworth, 2005), sendo particularmente observáveis na veiculação social, muitas vezes subentendida, de uma imagem desgenderizada das pessoas idosas. Com efeito, na esteira destes processos, os amplos domínios que configuram o ageism conduzem a dois mecanismos sociais diferentes e complementares: a segregação e a homogeneização dos idosos enquanto grupo populacional. Será precisamente através da acção directa e indirecta destes dois que, na opinião de Spector-Mersel (2006), a imagem dos idosos enquanto seres desgenderizados terá sido estabelecida no mundo ocidental.
Por um lado, a segregação com base na idade integra uma diferenciação que, sendo extensível às várias etapas da vida (infância, adolescência, meia-idade e terceira idade), tem progressiva e continuamente alterado a imagem associada ao envelhecimento. Assim, desde o seu entendimento como uma ocorrência “natural”, imbuída de prestígio social, à sua valoração enquanto período da vida marcado por declínio, fraqueza e obsolescência (Hareven, 1995 in Spector-Mersel, 2006), estas reconceptualizações terão conduzido à exclusão dos idosos das normas e referenciais
dominantes de trabalho (atribuindo-se-lhes uma desvalorização social abrangente), sendo, paralelamente, metaforizados como “crianças adultas” (facto frequentemente traduzível em práticas sociais e institucionais de infantilização). Tais mecanismos de separação acabaram por polarizar dois tipos de estereótipos, colocando de um lado a imagem do jovem, percebido como produtivo, independente e dinâmico e, do outro, a imagem do idoso, não-produtivo, dependente e inactivo. A extensão desta bipolaridade à dimensão do género ocorrerá na contraposição do idoso, “desprovido” de género, ao jovem, ou jovem adulto, explicitamente genderizado.
A homogeneização, por sua vez, além de reforçar na construção social dos idosos enquanto grupo segregado, constitui um processo que veicula a ideia de uniformização. Ao atingir a idade da reforma, as conceptualizações e imagens da pessoa idosa acabam por se ver determinadas sobretudo pela idade e pelo seu novo estatuto social. Não advogando uma plena descategorização da pessoa idosa em relação a uma imagem genderizada, verifica-se, por outro lado, a sua delegação para um plano secundário ao estereótipo mais poderoso da idade. No fundo, sobrepõe-se a imagem e descrição da pessoa enquanto “velha/idosa” a qualquer outro tipo de classificação, seja ela associada ao género ou não.
Considerando uma perspectiva longitudinal, os guiões de actuação hegemónicos, masculinos e femininos, estarão, conforme sustentado por Spector-Mersel (2006), claramente interrompidos, sendo que aqui as influências ageist se expressarão mais para os guiões referentes àqueles primeiros (vide 4.2., neste capítulo). Deste modo, enquanto etapas anteriores do percurso desenvolvimental de cada indivíduo tendem a pautar-se por padrões referenciais de actuação (os modelos de “verdadeiro homem” ou “mulher ideal”), neste período de vida tais guiões tornam-se ainda inexistentes ou pouco claros. O contraste evidente entre as características da população idosa e os ideais ocidentais de masculinidade e de feminilidade (centrados no jovem e jovem adulto) não permitirá, como assevera a autora, a incorporação dessas fórmulas, ou padrões de actuação, na terceira idade.
Verificando-se uma tal descontinuidade dos guiões de género que acompanham a pessoa ao longo da vida, presumir-se-á, assim, uma desgenderização à medida que se envelhece (muitas vezes associada ao entendimento ageist da ausência de uma vivência sexual, um dos palcos privilegiados para a expressão e vivência do género), ou a existência de uma espécie de “liberdade normativa” de actuação, já que as expectativas sociais se afiguram tangenciais (ou pouco restritivas) às performances de género tradicionais. A verdade é que, quer as expectativas sociais de como o género deve ser feito “naquela idade”, quer a interiorização de padrões de actuação
“adequados”, estão de sobremaneira ausentes dos debates da Gerontologia e dos Estudos de Género. Aqui, em situação análoga, encontrar-se-á o entendimento que mulheres idosas e homens idosos farão de si enquanto mulheres e enquanto homens.
Segundo Silver (2003), são várias as aproximações que frequentemente ignoram, distorcem ou não compreendem as mudanças que ocorrem na percepção genderizada que as pessoas idosas têm de si. Esta autora, ao descortinar e problematizar a questão da identidade (des)genderizada na população idosa, refere que o género enquanto marcador na identificação e estruturação da identidade torna-se menos saliente quando comparado com outros factores como a idade (pressuposto da já explicitada homogeneização):
“In the third and four ages, individuals are less likely to define themselves
in terms of gendered identities. But their marginalization as a group leads them to a mode of thinking that opposes young and old”. (Silver,
2003:389)
De acordo com Arber, Davidson & Ginn (2003), a idade, por si mesma, constitui um importante elemento estruturador da vida dos mais velhos já que, do ponto de vista cronológico, aquela define a pertença a uma coorte específica, não só reflectindo um processo de envelhecimento biológico traduzível muitas vezes num aumento das dificuldades ao nível da saúde), como afirmando-se como um factor associável a várias alterações sociais e económicas (e.g. viuvez, rendimentos e pensões). No entanto, desde uma perspectiva sociológica, independentemente das imposições homogeneizadoras do ageism polarizarem uma percepção do “nós” (os idosos) e dos “outros” (os jovens), ou vice-versa, as auto-percepções genderizadas das pessoas idosas, bem como o exercício do género, permanecerão activas e com necessidades de um maior entendimento. Ocorram estes com ou sem referenciais “ideais” ou “normativos” de actuação.
Presentemente, o reconhecimento académico de que as pessoas mais velhas são mais do que somente “idosos”, que são também homens e mulheres que se vêem como tal (independentemente de privilegiarem ou não este vector), e que fazem o género, parece longe de se dissociar das concepções mais tradicionais que aludem a perspectivas essencialistas. Com efeito, apesar de esforços recentes em associar o género ao envelhecimento à luz de perspectivas mais contemporâneas daquele primeiro enquanto performance (e.g. Aléx et al., 2006; Arber, Davidson & Ginn, 2003),
num compromisso com abordagens socialistas-feministas (e.g. Calasanti & Zajicek, 1993; Calasanti, 1999) ou sob a égide da Gerontologia crítica (e.g. Biggs, 2004), torna- se imperativo admitir que grande parte da investigação ainda se encontra tendencialmente enraizada em lógicas de dicotomização sexual que perpetuam uma herança dos paradigmas essencialistas e de aprendizagem social. Senão vejamos o entendimento mais frequentemente dado aos processos de adaptação das mulheres e dos homens ao envelhecimento, e de que forma se tem procurado, numa lógica de inquirição acerca dessas adaptações, justificações que apelam à emergência de novos estados psicológicos, nomeadamente a tendência para integrar características masculinas com femininas, sugerindo, frequentemente, que a estrutura da personalidade se torna mais andrógina27.
3.2. Adaptações ao envelhecimento