• Nenhum resultado encontrado

Callado: [...] nós não podemos, enquanto universidade, nos responsabilizar por todos

os problemas da educação dos indivíduos. Porque grande parte dela é feita no ensino fundamental e médio e não está sendo feita da forma... da forma correta, eu diria. É uma educação fragmentada, é uma educação cheia de lacunas, é uma educação pouco inclusiva... ela não inclui, na verdade. Eu falo assim, não a inclusão do ponto de vista

66

verdade, são básicas e que deveriam ser dadas exatamente na fase infantil e na fase infanto-juvenil e início da fase adulta, que são exatamente os momentos da aprendizagem humana, onde os indivíduos apreendem com mais facilidade. E aí fica um inchaço na universidade, como se a universidade fosse a última instância a dar conta de resolver todos esses problemas. [grifo meu]

É preciso situar e discutir a idéia de “inclusão” que se depreende do trecho citado acima. Para Callado, a inclusão articula-se mais com a noção de democratização dos saberes, do conhecimento e das informações “básicas”, que deveriam ser acessíveis a todos, do que propriamente com a noção mais típica dos discursos multiculturalistas, de que há uma diversidade cultural e social (em práticas, saberes, valores e visões de mundo) não contemplada, de maneira geral, pelas instituições educacionais dominantes e tradicionais.

Um outro aspecto importante, também contido no trecho acima, é o que diz respeito ao papel que deveria caber à universidade, no tocante aos problemas da educação brasileira – problemas que se originariam na Educação Básica – e que, para Callado, têm implicações evidentes para a educação superior:

Callado: os alunos, por eles não terem tido uma pré-formação em música, ou em

teatro, ou em belas artes, ou em dança... eles não tiveram matemática, química, física e biologia? Ninguém pergunta aos alunos, quando eles estão na fase infantil ou juvenil se eles gostam de matemática, se eles gostam de português ou de história. Eles são obrigados a estudar aquelas disciplinas. Por que é que tem que ser diferente com as artes? Então, isso pra nós, é um problemão, até hoje, porque eles não tiveram essa formação. Eles pretendem ter essa formação em um curso superior e o pior de tudo é o

curso superior querer pretender dar essa formação. [grifo meu]

Ao falar, pois, em “pré-formação”, Callado levanta questões importantes acerca da relevância das artes e de seu ensino na escolarização básica dos indivíduos. Questões que dizem respeito à dificuldade que muitos encontram quando buscam acesso ao ensino superior em música. Afinal, é fato que, na hierarquização curricular dos saberes – apesar de todo o discurso educacional que valoriza as artes na formação humana; e que se traduz inclusive em sua obrigatoriedade legal – o ensino das artes nas escolas brasileiras ainda é incipiente e mal-estruturado.

Callado: [...] Então o aluno sai e vai continuar saindo da universidade cheio de

lacunas, porque essa não-formação que ele teve antes, por mais que ele se esforce no curso superior para poder superar e adquirir esses novos conhecimentos, ele será sempre um profissional limitado em relação a quem começou a estudar piano desde pequeno, o desempenho dele tende a ser diferente.

No entanto, ao desvincular as questões relativas às condições estruturais mais amplas que determinariam a incipiência das artes na educação escolar (e a concomitante dificuldade de acesso aos cursos superiores de música) daquilo que deveria constituir, de fato, a “verdadeira” preocupação do ensino superior, a excelência na formação, Callado termina por reafirmar uma agenda cultural e pedagógica conservadora. Algo que se depreende, aqui, não só no pressuposto de que a cultura e as artes não deveriam ter que lidar com questões estruturais e políticas – “não podemos, enquanto universidade, nos responsabilizar por todos os problemas da educação dos indivíduos”–, mas que se verifica também na ausência de uma perspectiva mais crítica acerca da natureza do conhecimento que se toma como “básico” e que serve de referência para a seleção daqueles que desejam ingressar num curso superior de música.

O trecho destacado a seguir reforça a noção conservadora de que a excelência acadêmica e cultural do ensino superior deveria ser preservada dos problemas estruturais mais amplos da sociedade:

Callado: [...] Então, eles simplesmente resolvem que nós temos que ampliar a

quantidade de vagas, para que as pessoas tenham o direito ou o acesso ao ensino superior, dentro de uma estrutura decadente. E essas estruturas terão melhorias a partir do momento que a gente abrir – como se nós estivéssemos fechando! Como se nós estivéssemos excluindo! Na verdade, essa exclusão vem desde o ensino fundamental, que é precário, que é péssimo, das escolas públicas que são absolutamente ultrapassadas em termos de estrutura, em que os professores são mal pagos, muitos são mal formados, estão ali porque não têm outro jeito. Você tem uma população extremamente pobre e carente que adentra essas escolas e que não têm referência familiar e não tem como continuar seus estudos, você não tem como comprar um livro, [...]; você não tem como ter acesso econômico ao conhecimento, porque a escola, na verdade, é apenas parte desse processo – uma parte é feita na escola, a outra parte é feita na família. E como é que andam as estruturas familiares no Brasil da escola pública?

Apesar de que Callado revele uma sensibilidade, que se depreende da denúncia que faz dos problemas sociais e educacionais, sua leitura desta problemática não parece

68 decorrer de uma teorização crítica-contestatória acerca do papel das universidades relativamente a tais problemas – o que incluiria, inescapavelmente, um engajamento ativo e uma compreensão histórica e política de tal problemática.

Mas como entender, a partir de seu discurso, aspectos aparentemente tão contraditórios entre si?

Callado: [...] E eu te pergunto: por que é que nós, enquanto universidade púbica – e

até particulares – e no caso da UFBA, especificamente, por que é que nós temos que

responder, na verdade, por essa má estrutura que vem desde lá? Aí, quando a gente fala desses assuntos, “ah, não vamos falar sobre isso, vamos só pensar a universidade, porque [sobre] isso aí, nós não vamos poder fazer nada”. Mas, afinal de contas, nós somos o topo da cadeia do conhecimento, em termo de formação de profissionais que irão atuar na sociedade, no mercado de trabalho, ou não somos? Então nós não

podemos estar politicamente alheios e desinteressados desta realidade. [...] Para quê abismo pior que há entre o ensino fundamental e médio e o ensino superior? Então o aluno sai do curso médio e ele mal sabe o que ele vai enfrentar dentro da universidade, de uma realidade acadêmica. [grifos meu]

As sentenças “por que é que nós temos que responder, na verdade, por essa má estrutura que vem desde lá?” e “não podemos estar politicamente alheios e desinteressados desta realidade” soam contraditórias, dicotômicas. No entanto, a afirmação de que “não podemos estar politicamente alheios” deve ser compreendida a partir do que Callado advoga aqui: a universidade não pode ignorar que os problemas que ela enfrenta – algo que se traduz na perda de padrões de excelência – decorrem de uma problemática, acerca da qual ela não deveria ter de lidar e nem ser responsabilizada unicamente. Ou seja, a problemática diz respeito a um ensino fundamental precário, incapaz de preparar seus alunos para uma vida acadêmica promissora.

Documentos relacionados