CAPÍTULO II – CONCEITOS E TEORIAS
2.1 AGENDA SETTING
Muitos teóricos (LIPPMANN, 1922; PARK, ERNEST e RODRICK, 1925; LAZARSFEL-D ,1944; COEHN, 1963; dentre outros) que pesquisaram processos comunicacionais, buscaram compreender fenômenos da área desde a massificação até orientações de fluxos informativos. Esses estudos geraram diversas teorias que embasam trabalhos acadêmicos até os dias atuais. Assim, essas teorias da comunicação da década de 1920 em diante, fundamentam pesquisas de relevância no cenário comunicacional.
Entretanto, a partir da década de 1930, novas ideias tiveram início quando estudos sobre a influência dos veículos de comunicação de massa surtiram interesse nos pesquisadores da época. E assim, teve-se o início da pesquisa que daria base para a Hipótese da Agenda Setting22. Assim, o princípio dos estudos sobre comunicação de
massa possibilitou o surgimento de diversos outros pensamentos com base na sociologia e/ou psicologia, o que acarretou na criação de diversas teorias.
Nesse sentido, com um viés cognitivo relacionado a comunicação massiva Estadunidense, o conceito de Agenda Setting (1972) foi criado por McCombs e Shaw, que retomaram as raízes dos estudos Walter Lippman, e publicaram o livro ‘Public Opinion’ (1922), que conta a pesquisa realizada sobre opinião pública durante a primeira metade do século passado nos Estados Unidos, dando indícios sobre o
22 É considerada uma hipótese pois os métodos utilizados para comprovação do agendamento não foram
suficientemente eficazes. Assim, para Hohlfeldt, Martino e França (2008, p.189), uma teoria“ é um paradigma fechado, um modo acabado e, neste sentido, intenso a complementações ou conjugações”. Enquanto que para os autores, uma hipótese “[...] é sempre uma experiência, um caminho a ser comprovado e que, se eventualmente, não der certo naquela situação específica não invalida necessariamente a perspectiva teórica” (HOHLFELDT; MARTINO; FRANÇA, 2008, p. 189). Ainda sobre essa temática, “a hipótese do agenda setting é [...] mais um núcleo de ocasiões e conhecimentos parciais, suscetível de ser ulteriormente articulado e integrado numa teoria geral sobre a mediação simbólica e sobre os efeitos de realidade, praticados pela mídia, do que um paradigma de pesquisa definido e estável” (WOLF, 2005, p. 144).
funcionamento de agendamento feito por veículos massivos. Para Lippmann, (1922, p.16),
Nós devemos assumir que o que cada homem faz é baseado não no conhecimento direto e certo, mas nas imagens produzidas por ele ou dadas a ele. Se o seu mapa afirma que o mundo é quadrado, ele não velejará perto do que acredita ser o fim do nosso planeta, por medo de despencar. Nós devemos considerar primeiramente só os fatores- chaves que limitam o acesso das pessoas aos fatos. As imagens que formamos em nossas mentes são os censores artificiais, as limitações do contato social [...].
McCombs complementa o pensamento de Walter Lippmann ao afirmar que, “[...] parafraseando Lippmann, a informação fornecida pelos veículos noticiosos joga um papel central na constituição de nossas imagens da realidade” (MCCOMBS, 2004, p. 24).
Dessa forma, o pensamento, McCombs e Shaw utilizaram como base a candidatura ao cargo de presidência da república, nos Estado Unidos, em 1968, o que gerou o artigo ‘The Agenda Setting Function of Mass Media’, escrito pelos autores e que explicava todo procedimento realizado para entender se a cobertura da mídia sobre a eleição moldava os temas de interesse para os eleitores. E assim, chegaram ao veredito de que, “enquanto muitos temas competem pela atenção do público, somente alguns são bem-sucedidos em conquistá-lo, e os veículos noticiosos exercem influência significativa sobre nossas percepções sobre quais os assuntos mais importantes”. (MCCOMBS, 2004, p. 19).
Dessa maneira, a ‘hipótese da Agenda Setting’ além de propor que os veículos de comunicação de massa determinem fatos relevantes, prega também sobre o que público deve pensar. Além do mais, essa hipótese presa que os consumidores de informação tendem a dar maior atenção para assuntos transmitidos por veículos de comunicação. Assim, a vertente principal seria influenciar diretamente a população e também os governantes. Assim, Donald Shaw afirma que,
[...] em consequência da ação dos jornais, da televisão e dos outros meios de informação, o público sabe ou ignora, presta atenção ou descura, realça ou negligencia elementos específicos dos cenários públicos. As pessoas têm tendência para incluir ou excluir dos seus próprios conhecimentos aquilo que o mass media incluem ou excluem do seu próprio conteúdo. Além disso, o público tende aquilo que esse conteúdo inclui uma importância que reflete de perto a ênfase
atribuída pelos mass media aos acontecimentos, aos problemas, às pessoas ( SHAW; McCOMBS 1972, p.96).
É provável que a Hipótese da Agenda Setting tenha começado a partir das pesquisas de Lippmann, como o próprio McCombs expôs ao afirmar que “Walter Lippmann é o pai da ideia agora denominada, em breve, como agendamento”. (McCOMBS, 2004, p. 19). Entretanto, outras teorias dão suporte, mesmo que indiretamente para o surgimento da Teoria do Agendamento, como também é conhecida a Hipótese da Agenda Setting.
Harold Lasswell acreditava que o receptor era passivo e reproduzia automaticamente o que os canais de comunicação transmitiam. O pensamento de Lasswell teve por base a teoria da Bala Mágica, também conhecida por Agulha Hipodérmica, cuja teoria prega que não haveria resistência no indivíduo no recebimento e assimilação da informação, assim, ele poderia ser manipulado de maneira massiva. Porém, esse pensamento de Lasswell foi questionado uma vez que se inseriu a percepção e reestruturação que as pessoas fazem das informações que recebem. Em contra partida, tem-se o início da Teoria dos Efeitos Limitados, criada por Paul Lazarsfeld, que previa o fluxo da comunicação em duas escalas diferentes. Essa separação em duas vertentes ficou conhecida como ‘Two steps flow of communication’, e configura uma redução do poder da mídia na vida das pessoas, uma vez que elas recebem informações de fontes diferentes, pois, segundo essa teoria, a informação atingia um número inferior de pessoas, e essas, após receber a informação, a repassavam a outras pessoas. Dessa maneira, é possível perceber que existe um intermediário que seleciona uma informação que considera relevante e posteriormente repassa essa informação para outras pessoas.
Assim, a hipótese da Agenda Setting tem raízes em conceitos e estudos anteriores, uma vez que esse fenômeno foi inicialmente percebido por Lippmann, porém, ela possui o aval ou recebe questionamentos duramente outras teorias e pesquisas. Assim, a Agenda Setting não é uma versão aprimorada das teorias sobre veículos de comunicação massivos, uma vez que diversos fatores externos influenciam diretamente na ação do indivíduo, tais como fatores sociológicos ou psicológicos. Nesse sentido, “o público não é um autômato coletivo que passivamente espera ser programado pela mídia. O padrão da cobertura da mídia para alguns temas ressoa no público. Para outros temas, não há ressonância”. (MCCOMBS, 2004, p. 32). Porém, o veredito de Shaw e McCombs sobre o Agendamento diz que,
Embora não seja conclusiva a evidência de que os mass media alterem profundamente as atitudes em uma campanha, é muito mais forte a evidência de que os eleitores aprendem pela imensa quantidade de informação disponível durante cada campanha. (MCCOMBS; SHAW, 1972, p. 2).
Contudo, para Barros Filho (1995), quatro vertentes da Teoria dos Efeitos Limitados deram base para o início da formulação da teoria do Agendamento, uma vez que esta foi uma reação aos 4 fatores tratados pela Teoria dos Efeitos Limitados, são eles: o foco nos efeitos de curto prazo; a distorção sobre conceito de opinião pública; o entendimento de que se deve observar o receptor unicamente durante o contato com a mensagem e o excesso de estudos quantitativos sobre a temática. Assim, a Agenda setting representa uma ruptura nas linhas antes investigadas. Outra vertente que corrobora com a Hipótese da Agenda Setting foi proposta por Noelle Neumann (1977) e traça uma outra perspectiva do agendamento ao criar a Espiral do Silêncio23, com base em três outras vertentes: acumulação, onipresença e consonância.
a acumulação – é a potencialidade da mídia em manter a relevância de um determinado acontecimento. Como exemplificação, podemos encontrar a acumulação nos desdobramentos informativos também conhecidos como suítes24.
a consonância – quanto mais uniforme for o processo de produção da informação mais significativos eles são. Já a consonância, podemos entendê-la como a padronização dos parâmetros ou modelos jornalísticos.
a onipresença – o significa que a mídia está em todos os locais e possui o consentimento dos consumidores de informação. A onipresença pode ser analisada como sendo a disseminação dos veículos de comunicação por diversos locais.
23 Teoria criada em 1977. Segundo Nilson Lage (1998, p.16), "A ideia central desta teoria situa-se na possibilidade de que os agentes sociais possam ser isolados de seus grupos de convívio caso expressem publicamente opiniões diferentes daquelas que o grupo considere como opiniões dominantes. Isso significa dizer que o isolamento das pessoas, de afastamento do convívio social, acaba sendo a mola mestra que aciona o mecanismo do fenômeno da opinião pública, já que os agentes sociais têm aguda percepção do clima de opinião. E é esta alternância cíclica e progressiva que Noelle-Neumann chamou de Espiral do Silêncio”.
24 É uma informação complementar ou com adendo. Também considerado uma sequência ou
Esses três pontos deram força para que a Hipótese do Agendamento tivesse continuidade, atingindo novas fases de estudo. Por conta disso, um outro ciclo de pesquisa e análise sobre o agendamento foi criado. Há alguns anos, alguns estudiosos (WOLF, 2002; MCQUAIL, 1983; TUCHMAN, 1983) acreditavam que já estaríamos numa terceira forma de pesquisa e análise sobre o agendamento, com um recorte mais analítico e uma problematização mais acirrada sobre o resultado, ou efeito dessa teoria. Porém, a hipótese da Agenda Setting segue em constante estudo, atingindo até o momento 5 fases. A primeira fase consiste em analisar a capacidade da mídia em agendar os temas considerados mais relevantes para a população, contudo,
Enquanto muitos temas competem pela atenção do público, somente alguns são bem-sucedidos em conquistá-lo, e os veículos noticiosos exercem influência significativa sobre nossas percepções sobre quais os assuntos mais importantes. (MCCOMBS, 2004, p. 19).
Já na segunda fase, está engendrada na primeira, porém levou-se em consideração que a sociedade não era tão influenciável, então teve início a análise sobre processos psicológicos dos eleitores para entender como se dava essa questão frente a tentativa de influência da mídia. Na terceira fase do estudo, foi agregado o conceito de Agendamento de Atributos, assim, para cada objeto agendado pela mídia havia uma agenda com a frequência das notícias. Dessa forma a utilização frequente de notícias sobre um determinado objeto seria capaz de alterar a agenda para a direção que a mídia desejasse. A exemplo das eleições norte-americanas analisadas por McCombs, “[...] os eleitores não só aprenderam da agenda da mídia, mas com alguma exposição adicional ao longo das semanas da primária eles aprenderam ainda melhor” (MCCOMBS, 2004, p. 117). A quarta fase ( que é base para a construção deste estudo) analisa os fatores que modelam o agendamento, ou seja, quem faz o agendamento. Nessa análise, verificou-se a existência de um interagendamento, em que alguns veículos de comunicação conseguem agendar outros veículos.
Assim, “a dependência das mesmas fontes de notícia, sobretudo agências internacionais, contribui para acentuar essa homogeneidade de conteúdo”. (BARROS FILHO, 1995, p. 189). Hohlfeldt (1997) nos dá exemplos de uso de agendamentos realizados no país, ao afirmar que,
Estabelece-se uma espécie de suíte sui generis, em que um tipo de mídia vai agendando a outra. Lembremos o episódio Collor de Melo,
em que as revistas Isto É e Veja terminaram por agendar literalmente as televisões e os jornais, ainda que tivessem apenas edições semanais, graças às entrevistas, com o motorista ou a secretária, capazes de trazer novos enfoques ao tema. (...) Pode-se ainda relembrar o episódio anterior que foi o agendamento, pela opinião pública, da TV Globo, quando da chamada Diretas Já, em que aquela rede tentou esquivar-se o quanto pôde à cobertura do evento, mas acabou rendendo-se às pressões do receptor e do restante da mídia, com destaque ao jornal Folha de São Paulo e ao noticiário noturno da TV Manchete (HOHLFELDT, 1997, p.198).
A quinta fase da hipótese da Agenda Setting analisa a capacidade da mídia em propor um agendamento relacionando o tema pautado à construção mental de imagens na mente das pessoas. Assim, “de acordo com esse modelo, a mídia noticiosa pode não apenas nos dizer sobre o que pensar e como pensar, mas pode também ser capaz de nos dizer como relacionar diferentes objetos e atributos para dar sentido ao mundo” (VARGO et al., 2012, p. 7).