Capítulo II Identificação e Caracterização de Arranjos Produtivos Locais no Estado do Pará
2.2. Arranjos Produtivos Locais no Estado do Pará
2.2.4. Aglomerado Produtivo Local do Setor Oleiro-Cerâmico de Abaetetuba
Abaetetuba, historicamente, sempre teve sua economia focada na agricultura162 e no extrativismo vegetal. Contudo, com a implantação do Projeto Albrás/Alunorte no município de Barcarena, ocorreu uma dinamização do setor oleiro- cerâmico no município derivado do impulso por que passou o setor da construção civil na região163. Segundo Pará (2002b), no ano de 1997 existiam 462 pequenos e médios estabelecimentos ligados a atividade oleira em Abaetetuba, estruturando um aglomerado horizontal. Atualmente, as empresas concentram suas atividades nos rios Ajoaí, Itacuruçá, Quianduba, Maracapucu, Parurum, Urubuéua, Abaeté, São Pedro e Arapu, que possuem jazidas com elevada quantidade de argilo-minerais, propícios à produção de cerâmica vermelha. Contudo, o grau de satisfação dos produtores com a atividade desenvolvida é baixo com a grande maioria dos produtores possuindo interesse em mudar de atividade164.
A produção é focada na fabricação de telha convexa, telha sextavada, tijolo médio (três furos) e tijolo padronizado (seis furos). O processo produtivo utilizado é fundamentalmente o de mecanização simples, com alguns ainda operando de forma manual. A secagem natural da argila, é utilizada pela totalidade dos oleiros, sendo que durante o período da estação das chuvas a secagem é bem mais demorada e ocorre uma
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Principalmente na da cana de açúcar de onde se produz a “Cachaça de Abaeté”.
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No início da década de 1980, as olarias de Abaetetuba, estimadas em torno de mil, já representavam 50% do total existente no Estado do Pará. Essa posição manteve-se ao longo de quase todo esse período, vindo a alterar-se somente no final deste mesma década, com acentuada diminuição da população local (Pará, 2002b).
queda na produção. Esta secagem é feita em prateleiras de madeira, levando até quatro semanas para que os produtos percam um significativo teor de umidade, adequando os mesmos à etapa posterior do processo produtivo, a queima165. A combustão é a principal forma de energia utilizada na produção, seja do diesel para movimentar a maromba e de lenha para queimar os tijolos e telhas166. A energia gerada pela combustão nos fornos durante o processo de queima dos produtos ainda não é utilizada na pré-secagem dos produtos que se encontram nas prateleiras.
Após a secagem, as peças são levadas aos fornos para que seja feita a queima das mesmas, sendo os mais utilizados pelos oleiros do tipo caieira e tipo cupla. No forno tipo caieira há dificuldade no controle de processo de queima, comprometendo a qualidade dos produtos e aumentando o consumo de lenha. Esse tipo de forno não possui cobertura fixa, provocando um grande desperdício de energia gerada pela combustão da lenha, o que causa a queima desigual dos produtos, pois as peças que ficam sobre o piso do forno recebem maior quantidade de calor, ocasionando trincas e vitrificações nos produtos, tendo como conseqüências a perda na qualidade e na produção. Já as que ficam na parte superior ocorre o mal cozimento, ficando o produto fragilizado e impróprio para comercialização.
O forno tipo culpa se diferencia do caieira por apresentar a parte superior fechada em arco, o que possibilita um melhor aproveitamento de energia, em relação ao anterior, sendo mais utilizado para a produção de telhas, porém ainda são mal dimensionados, havendo um consumo inadequado de lenhas com significativa perda de energia.
Os empresários encontram dificuldade na compra tanto da matéria-prima quanto na de novos equipamentos. Dentre as dificuldades na obtenção da matéria-prima destacam-se, por ordem de significância: distância das jazidas; esgotamento das jazidas; o elevado custo da mão-de-obra; e, a insatisfação com o transporte167. Já na compra de
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Tais prateleiras não possuem uma livre circulação de ar devido a abundante vegetação existente próximo as olarias.
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Esta lenha provém, em sua maioria, de resíduos de madeira de serrarias (serrafo) ou de florestas secundárias, porém possuem um baixo poder energético, gerando assim, um grande consumo de lenha. Devido a crescente dificuldade na obtenção de lenha e ao transporte, o produtor utiliza com mais freqüência o sarrafo comprado de marreteiros.
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Deve-se levar em consideração que a extração é realizada em jazida e na baía que circunda Abaetetuba e municípios próximos, sofrendo a dependência das marés. Aqueles que compram a argila de terceiros não estão satisfeitos com os custos da mão-de-obra e com o transporte que acabam por onerar os custos do processo de produção. Até o momento não há uma proposta de exploração, que promova extração racional de matéria-prima, realize o aproveitamento de argilas superficiais e se preocupe com as questões ambientais e a recuperação de áreas degradadas. O transporte utilizado pela totalidade dos oleiros, para
novos equipamentos, os principais problemas são, por ordem de relevância: falta de linha de crédito específica para o setor; elevado custo do equipamento; falta de escala de produção; problemas com insumos para a produção; falta de assistência técnica para o equipamento; falta de mão-de-obra especializada; e, dificuldade no acesso a conhecimento de processos tecnológicos.
A quase totalidade da produção é comercializada no próprio município para atravessadores e estâncias de beira que vendem a produção na Região Metropolitana de Belém168. Esta prática encarece o produto e reduz a margem de lucro do produtor, exercendo uma função bem mais ampla que o simples ato mercantil. Como os produtores carecem de capital giro próprio e linhas específicas de crédito, os intermediários financiam a produção e prestam assistência à família do produtor, exigindo em troca o comprometimento futuro da produção.
Apesar dos produtores possuírem em média 25 anos de atividade, boa parte deles nunca procurou nenhum tipo de informação nas instituições competentes para o aprimoramento do processo produtivo nas olarias. Este fato pode ser atribuído ao baixo nível de instrução do produtores já que nenhum possui o Ensino Fundamental Completo, havendo inclusive casos de analfabetismo. O aprendizado da atividade ocorreu trabalhando em outras empresas ou em empresas de familiares.
Existe a atuação da Associação dos Produtores de Artefatos de Barro de Abaetetuba (APROABA), que iniciou suas atividades em 1992 e conta, atualmente, com 130 membros169. Todavia, observa-se um certo descontentamento com a atividades da associação já que muitos dos trabalhos realizados não tiveram os retornos esperados170. Sobre a atuação da APROABA, de forma diferente do atravessador, esta não adianta totalmente o valor do financiamento antes da entrega da produção; só comercializa tijolo de seis furos e exclusivamente de seus associados; além de subtrair do valor adquirido pela venda do tijolo um percentual para custeio da Associação e formação de um fundo para novos investimentos, o que não é bem visto por grande parte dos associados já que subtrai o preço que lhes é pago pela venda do seu produto. levar a argila até as olarias, é o fluvial. Este transporte é realizado por meio de embarcações especiais confeccionadas em madeira de lei (batelões).
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Pequeno número de produtores (6,45%) ainda consegue comercializar sua produção no mercado estadual, pois possuem transporte próprio (Pará, 2002b).
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Alguns membros apontam a existência de problemas internos na estrutura de sua organização, que culminou com o afastamento de seus associados.
Em destaque, a APROABA não conseguiu liberar o produtor das mãos do atravessador e nem mesmo os seus próprios associados, pois a quase totalidade preferiu continuar produzindo tijolos de 3 furos e ser financiado pelo atravessador. Um outro fator que merece ser levado em análise é a dificuldade de escoamento de alguns associados devido a Associação não possuir embarcação própria para a coleta de produtos. Tais fatos contribuíram para o esvaziamento da Associação.
A totalidade das empresas do setor são informais e, em sua maioria, possuem um único proprietário. Essas empresas não possuem quaisquer registros de firma ou da mão-de-obra junto as instituições competentes. Dentre os fatores causais da informalidade apresentam-se, em grau de importância: elevados encargos sociais; elevada carga tributária; falta de interesse; falta de informação; falta de capital; e, excesso de burocracia171.
Em que pese a maioria dos produtores atuarem em imóvel próprio172, a produção acaba sofrendo de significativos pontos de estrangulamento. Não existe um controle eficaz sobre a qualidade dos produtos. Apesar dos oleiros afirmarem que dão garantia do produto, somente fornecem algumas unidades extras como peças de reposição do material danificado no transporte. O controle de qualidade é realizado, na grande maioria, pelos próprios oleiros e uma pequena parcela pelo supervisor, que é a pessoa que responde pela olaria na ausência do proprietário. Este controle se resume a uma análise visual do produto final e numa análise visual da matéria-prima durante a sua extração, na qual o barreiro verifica se a argila é ou não de boa qualidade, baseando- se apenas na sua experiência. Por outro lado, os produtores sofrem em função da distância do local de lavra e do mal aproveitamento das jazidas173.
Existe um alto risco de acidente na extração da matéria-prima, principalmente decorrente de desabamentos. Todavia, o risco de acidentes não se limita
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Esta condição de informalidade já reflete problemas de ordem trabalhistas, pois já foram feitas algumas denúncias à Delegacia Regional do Trabalho (DRT), e em alguns casos os proprietário foram obrigados a venderem suas olarias para suprir os encargos de seus trabalhadores.
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Segundo Pará (2002b), 83% dos produtores atuam em imóveis próprios, 10% em imóveis cedidos e 7% em imóveis alugados. Entretanto, os produtores que atuam em imóveis próprios operam em área de Marinha pertencente a União.
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Esse mal aproveitamento é representado pelo descarte de argila superficial por ocasião do capeamento realizado no local onde se pretende extrair a matéria-prima e pela presença de corpos estranhos que dificultam o processo de extração. No conceito desses produtores para alcançar a argila ideal, é preciso cavar bem mais fundo até chegar ao “filé”, o que torna esta prática bastante perigosa, pois os oleiros não possuem equipamento adequado à extração e as condições de segurança são insuficientes, devido a argila própria à produção encontrar-se a mais de 5 metros de profundidade. Ocorre o mal uso de recursos minerais, com extração somente daquela argila isenta de impurezas (pedras e materiais orgânicos), pois
somente na obtenção da matéria-prima. A fase do processo produtivo na qual ocorre o maior índice de acidentes é na utilização da extrusora (maromba) para modelagem de produtos devidos principalmente a falta de proteção do maquinário utilizado, que via de regra está em condições precárias devido a falta de manutenção preventiva. No embarque do produto, as lesões superficiais são causadas pela falta de equipamentos de proteção individuais (EPI´s), mas que não chegam a causar o afastamento do trabalhador. No desembarque da matéria-prima há um menor índice de acidentes, pois os batelões aportam na olaria, sendo o transporte feito manualmente pelos barreiros, também se verificando a inexistência de EPI´s adequados.
Embora os produtores acreditem que as condições das instalações de suas olarias sejam satisfatórias ao processo de produção, seus galpões possuem um tempo médio de uso elevado. São reformados constantemente porém não apresentam lay-out adequado à atividade exercida, pois as condições de iluminação são precárias, os telhados são frágeis, as prateleiras são mal posicionadas para receber a aeração necessária para a secagem dos produtos e as estruturas do galpão são constituídas basicamente de madeira com cobertura de palha, o que ocasiona um freqüente perigo de incêndio em decorrência das fagulhas eliminadas pelos fornos durante a queima.
A grande maioria dos produtores não consultam fontes de informações relativas a atividade. Entretanto, dentre os que procuraram ou tem interesse em procurar informações, as mais requisitadas são, por ordem de importância: fontes de financiamento; fornecedores de máquinas e equipamentos; processos de produção/controle de qualidade; mercado de atuação; assistência técnica; fornecedores de matéria-prima/insumo; extensão tecnológica; normas técnicas; e, treinamento de recursos humanos.
Em que pese o rool significativo de informações requeridas, existem inúmeras dificuldades na sua obtenção, alencadas por ordem de significância: desconhecimento dos centros/serviços de informação; a falta de divulgação das informações existentes; descrédito nas informações; e, o excesso de burocracia. As fontes de informações mais utilizadas são os veículos de comunicação em massa, rádio e televisão. Vale ressaltar que alguns produtores não possuem estes meios de acesso, e utilizam a troca de experiências com outros produtores (boca-à-boca) que, geralmente, é o recurso mais acessível a eles para obtenção de informações.