1. CAPÍTULO I
1.4 Agravos a Saúde do Trabalhador
Segundo a Organização Mundial de Saúde (1985) “ter saúde não é somente estar livre de dores ou doenças, mas também a liberdade para desenvolver e manter suas capacidades funcionais. Desenvolve-se e se mantém por uma ação recíproca entre o sujeito e o meio total. Como o meio ambiente de trabalho constitui uma parte importante do meio total em que vivem as pessoas, a saúde depende, em grande parte, das condições de trabalho”.
O Ministério da Saúde do Brasil (2001), “visando subsidiar as ações de diagnóstico, tratamento e vigilância em saúde e o estabelecimento da relação da doença com o trabalho
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e das condutas decorrentes”, institui em 1999 a “Lista de Doenças Relacionadas ao Trabalho”, publicada na Portaria nº1339/GM, essa lista discrimina 210 patologias. Nesta lista é apresentada uma relação de agentes ou fatores de risco de natureza ocupacional e as respectivas doenças associadas.
No mundo, anualmente 160 milhões de trabalhadores são atingidos por doenças ocupacionais, sendo que dois milhões morrem a cada ano de doenças e/ou acidentes de trabalho segundo relatório da Organização Internacional do Trabalho (2002). No Brasil, as estatísticas sobre doenças relacionadas ao trabalho apresentam limitações, segundo Wünsch Filho (1995) doenças deixam de ser detectadas porque não são diagnosticadas, contabilizadas ou não associadas ao trabalho.
Como também acontece com os acidentes de trabalho, é evidente a precariedade e a falta de amplitude das informações disponíveis. A principal fonte de dados estatísticos sobre doenças profissionais continua sendo apenas as informações fornecidas pelo Instituto Nacional de Seguro Social (INSS), mas esses dados oficiais referem-se apenas às doenças registradas e ocorridas entre os trabalhadores segurados (com carteira assinada). Significativo contingente de trabalhadores que atua no denominado setor informal não se encontra nas estatísticas oficiais. Acrescente-se, ainda, o fato de que as doenças profissionais ocorridas entre os trabalhadores rurais (cerca de 30% da força de trabalho do Brasil), em geral são de difícil comprovação e quase nunca são notificadas. Assim, no caso dos dados estatísticos, ressalta o evidente sub-registro, dado que seu número é muito baixo quando comparado com outros países industrializados.
Mesmo com o desenvolvimento, o trabalho no campo ainda continua sendo um local de condições precárias e de ocorrências de acidentes. A Organização Internacional do Trabalho – OIT afirma que o trabalho rural é significativamente mais perigoso que outras atividades e estima que milhões de agricultores sofram sérios problemas de saúde relacionados ao trabalho (OIT, 2002). A partir desta constatação a Fundação Seade/Fundacentro realizou uma pesquisa sobre acidentes do trabalho na zona rural no Estado de São Paulo. Os dados foram coletados em todas as agências da Previdência Social (115 agências), por meio das Comunicações de Acidentes do Trabalho – CAT, instrumento no qual os trabalhadores registrados no INSS têm seu acidente cadastrado. Do total dos acidentes ocorridos no Estado de São Paulo entre 1997 e 1999, registrados na Previdência
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Social, 10,4% (58.204 acidentes de trabalho) eram de acidentes rurais. Desses acidentes, 929 eram de ‘trajeto’, 5.354 ‘doenças do trabalho’ e 51.644 ‘acidentes-tipo’ e 277 acidentes não foram classificados. Ocorreram, em média, 53,2 acidentes de trabalho por dia, envolvendo trabalhadores da área rural paulista, o que se classifica como uma alta proporção diária de acidentes entre 1997 e 1999, sendo os acidentes-tipo, com 47,2 acidentes por dia. Mais de 99% dos casos de acidentes (58.049 casos) causaram incapacidade temporária, com 90 óbitos e 65 casos de invalidez permanente. As doenças do trabalho, que perfizeram 10% dos casos nesse período, resultaram em incapacidade temporária. Entre os tipos mais frequentes das doenças do trabalho encontram-se os traumatismos, o mal súbito, o estresse e as lesões por esforços repetitivos. Em relação ao agente causador do acidente de trabalho, cerca de 50% foram causados por ferramentas de trabalho, principalmente por objetos cortantes/contundentes (44,3%), seguido por contato com animais e plantas venenosas (14,7% dos casos). Do total dos acidentes do trabalho sofridos pelos trabalhadores da área rural, 6,5% não afastaram o trabalhador de suas atividades profissionais, 61,2% o afastaram até 15 dias, 32,3% resultaram em período de afastamento superior a 15 dias. As doenças do trabalho tiveram como principais agentes causadores a torção e o mau jeito, que ocasionaram traumatismos ou lesões decorrentes de movimentos, afetando principalmente os membros superiores (Teixeira e Freitas, 2003).
Em 2006, segundo dados do Ministério da Previdência Social (2011), foram registrados 503.890 acidentes e doenças do trabalho, entre os trabalhadores assegurados da Previdência Social, este número, não inclui os trabalhadores autônomos (contribuintes individuais) e as empregadas domésticas. Entre esses registros contabilizou-se 26.645 doenças relacionadas ao trabalho, e parte destes acidentes e doenças tiveram como consequência o afastamento das atividades de 440.124 trabalhadores devido à incapacidade temporária (303.902 até 15 dias e 136.222 com tempo de afastamento superior a 15 dias), 8.383 trabalhadores por incapacidade permanente, e o óbito de 2.717 cidadãos.
Segundo a Classificação Nacional de Atividade Econômica – CNAE, para os “acidentes-tipo”, 70,5% dos acidentes registrados estão associados a empresas relacionadas à agricultura, pecuária, silvicultura e exploração florestal, e são destaque deste grande grupo, as atividades que envolvem o cultivo de cana-de-açúcar (40,3%) e a produção mista, ou seja, lavoura e pecuária (39,2%). Das atividades relacionadas, na pecuária e na criação
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de animais observa-se, proporcionalmente, poucos acidentes. Ainda segundo a CNAE, para as ‘doenças do trabalho’ observa-se novamente que o grupo de trabalhadores inseridos em empresas com atividades econômicas relacionadas a agricultura, pecuária, silvicultura e exploração florestal destaca-se dos demais, com quase 75% do total das doenças do trabalho. Nesse grupo, nas atividades mencionadas, sobressaem-se os relacionados ao cultivo da cana-de-açúcar com 52,1% e os da produção mista, lavoura e pecuária com 37,4% (Teixeira e Freitas, 2003).