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seres humanos precisassem conhecer e aprender a explorar os ambientes em que se fixavam. O crescimento populacional e a necessidade de variar a alimentação, não mais suprida apenas pela caça e pela coleta, há cerca de 10 mil anos, culminaram no surgimento da agricultura primitiva. Os indivíduos passaram a observar como espécies vegetais se propagavam na natureza, como era sua reprodução, e passaram a selecionar quais seriam mais vantajosas para as tribos (BRAIBANTE; ZAPPE, 2012; FELDENS, 2018; MAZOYER; ROUDART, 2010).

Feldens (2018) caracteriza essa mudança de percepção dos humanos como uma ruptura ecológica na relação humano-natureza, uma vez que a prática de alterar a dinâmica de produção constituía uma intervenção no solo e no ecossistema. O autor entende, assim, o surgimento da agricultura como um salto qualitativo no desenvolvimento da humanidade. Entre 8 e 5 mil anos, os seres humanos forjaram as primeiras ferramentas de trabalhos, feitas de pedra e metais como cobre, ferro e estanho. Povos como os mesopotâmicos, egípcios e babilônios, posteriormente, já possuíam uma sociedade organizada e identificavam regiões em que o solo era mais fértil, bem como dominavam o comportamento dos rios, conhecendo suas épocas de cheia e seca. Gregos e romanos dominavam técnicas de irrigação, que foram apropriadas pelos egípcios, ao serem submetidos aos impérios invasores.

Essa progressão no desenvolvimento da agricultura caminhava com o próprio desenvolvimento da humanidade, contudo, práticas como o desmatamento e as queimadas em grande proporção para abrir caminho para lavouras já apontavam

que essas transformações seriam permanentes e continuadas (MAZOYER;

ROUDART, 2010).

Com a produção além do necessário para subsistência, os seres humanos passaram a estocar a diversidade de alimentos produzidos para a alimentação das tribos e seus animais domésticos. Os estoques e lavouras atraíam seres vivos como insetos, roedores, fungos, bactérias, dentre outros predadores, e esses prejuízos precisavam ser contidos antes que levassem à destruição das plantações. A religiosidade e o misticismo presentes no ideário humano levaram, durante a história, ao desenvolvimento de estratégias ineficazes para o combate aos agentes invasores das plantações, como rituais, magia e até mesmo julgamentos em tribunais sagrados. O surgimento de compostos com atividade repelente ou mortal a alguns tipos de pragas foi identificado somente há cerca de 2,5 mil anos, pelos povos sumérios, que já utilizavam compostos de enxofre como inseticidas. Outros povos também já utilizavam compostos de mercúrio e arsênio para afastar ou extinguir invasores (BRAIBANTE; ZAPPE, 2012).

É registrado na história o uso de compostos orgânicos com atividade inseticida denominados piretrinas, provenientes do piretro, pó que é composto de flores crisântemo secas. Outros inseticidas naturais foram empregados ao longo do tempo porém, com o desenvolvimento de espécies mais resistentes, começou a se produzir inseticidas sintéticos, entre os séculos XIX e XX, onde estes eram utilizados nas guerras para proteger os combatentes das doenças endêmicas dos campos de

batalha. A descoberta da atividade inseticida do

1,1,1-tricloro-2,2-di(ρ-clorofenil)-etano , o DDT, revolucionou o mercado, sendo este composto aplicado não somente como inseticida mas também utilizado erroneamente como protetor solar e repelente, dentre outras finalidades (BRAIBANTE; ZAPPE, 2012). A estrutura do DDT é apresentada na figura 01.

Figura 01 - Estrutura química do DDT

Fonte: Braibante, Zappe (2012).

O DDT pertence ao grupo dos hidrocarbonetos clorados ou simplesmente organoclorados. Esse grupo apresenta como propriedades a lenta degradação natural devido à alta estabilidade e a alta solubilidade em solventes orgânicos como éter, clorofórmio e também em gorduras, o que permite que ele se acumule nos tecidos adiposos dos seres vivos, é um composto bioacumulativo. O produto de degradação do DDT, o 2,2 bis(p-clorofenil)- 1,1-dicloroetileno, dicloro- difenil-dicloroetileno, conhecido como DDE, é um metabólito tão persistente quanto o princípio ativo que o origina. Percebeu-se então que sua aplicação em larga escala não era benéfica à saúde humana e a preservação do ambiente, mas representava um risco. O exemplo mais claro do potencial de periculosidade do DDT foi a sua atividade inibidora sobre a enzima responsável pelo controle de suprimento da quantidade de cálcio na casca dos ovos das aves, diminuindo em massa sua resistência e impedindo a sobrevivência do ser vivo em desenvolvimento. (CARSON, 1962; SOLOMONS; FRYHLE, 2012).

O Instituto Nacional do Câncer (INCA), define agrotóxicos como

produtos químicos sintéticos usados para matar insetos, larvas, fungos, carrapatos sob a justificativa de controlar as doenças provocadas por esses vetores e de regular o crescimento da vegetação, tanto no ambiente rural quanto urbano (BRASIL, 2002; INCA, 2021).

O órgão afirma que a exposição a esses produtos pode ocorrer no ambiente de trabalho e também no ambiente. No ambiente de trabalho, os mais suscetíveis à exposição são os trabalhadores que lidam diretamente com a agricultura e pecuária, bem como funcionários de empresas que atuam no ramo da dedetização, de indústrias químicas em que são produzidos agrotóxicos e também os trabalhadores responsáveis pelo seu transporte e comércio. Fora desses ambientes, a

pulverização aérea pode causar a contaminação de grande número de seres vivos e do próprio ar, bem como a exposição dos indivíduos à água, alimentos e objetos contaminados com agrotóxicos (INCA, 2022).

No livro “É veneno ou é remédio?”, Peres e Moreira (2003) abordam que, por vezes, a mudança de nomenclatura dos produtos classificados como agrotóxicos é realizada com o objetivo de mascarar o seu potencial danoso, sendo chamados de defensivos agrícolas. Uso dos termos agrotóxicos, pesticidas e agroquímicos se aproximam mais da forma com que esses produtos agem. Os autores também trazem a classificação dos agrotóxicos quanto ao seu organismo alvo, grupo químico e exemplos de produtos, conforme figura 02.

Figura 02 - Classificação dos agrotóxicos quanto à praga controlada, grupo químico e exemplos de produtos, substâncias ou agentes.

Fonte: Peres; Moreira (2003, p. 25-26,apudWorld Health Organization, 1996).

Além da classificação proposta, é possível também organizar os agrotóxicos quanto à sua toxicidade, conforme a figura 03, de acordo com a classificação proposta pela Anvisa (BRASIL, 2019).

Figura 03 - Classificação toxicológica dos agrotóxicos.

Fonte: adaptado de Brasil (2019)

O projeto de lei (PL) 6299/2002, de autoria do senador Blairo Maggi, vem tramitando na Câmara de Deputados há 20 anos e, com as transformações no cenário político e a crescente tomada de decisões que privilegiam o agronegócio em detrimento da biodiversidade brasileira, foi aprovado e aguarda, no presente ano de 2022, apreciação dos atuais senadores da República. O PL 6299/2002 tem como objetivo a flexibilização da legislação para alterar a nomenclatura dos agrotóxicos e facilitar ainda mais o registro e comércio de novas formulações no mercado brasileiro. Em sua ementa, o projeto

dispõe sobre a pesquisa, a experimentação, a produção, a embalagem e a rotulagem, o transporte, o armazenamento, a comercialização, a utilização, a importação, a exportação, o destino final dos resíduos e das embalagens, o registro, a classificação, o controle, a inspeção e a fiscalização de pesticidas, de produtos de controle ambiental e afins; altera a Lei Delegada nº 8, de 11 de outubro de 1962; revoga as Leis nºs 7.802, de 11 de julho de 1989, e 9.974, de 6 de junho de 2000, partes de anexos das Leis nºs 6.938, de 31 de agosto de 1981, e 9.782, de 26 de janeiro de 1999, e dispositivo da Lei nº 12.873, de 24 de outubro de 2013; e dá outras providências (BRASIL, 2022).

Esse PL, junto ao desmonte de estratégias de monitoramento do consumo de agrotóxicos, como o Programa de Análise de Resíduos de Agrotóxicos em Alimentos (PARA) evidencia que há um projeto de negação da problemática e minimização dos seus impactos que já são vivenciados. O PARA é realizado de forma plurianual pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) e realiza, em parceria com

estados e municípios, a análise de amostras de alimentos que representam a dieta média da população brasileira e identificam a presença e a quantidade de resíduos de agrotóxicos nessas amostras. O último resultado do PARA foi publicado em 2020 e ainda incompleto, uma vez que só foi divulgado o resultado de um dos dois ciclos de análises realizados (ANVISA, 2020).

Em contrapartida, Porto e Soares (2012) apontam a necessidade de avaliar a complexidade da questão dos agrotóxicos no Brasil para que os impactos socioambientais sejam superados pelo caminho da pesquisa e da tecnologia, uma vez que esses produtos se fazem necessários frente ao modelo de sociedade vigente. Baesso et al. (2014), na mesma direção, apontam como a pesquisa vem otimizando o uso de agrotóxicos e sua aplicação para aumentar a eficácia dos processos e minimizar o desperdício dos produtos e, consequentemente, seu impacto. A segurança dos trabalhadores que atuam como aplicadores desses produtos também é considerada nesse processo.

Assim, faz-se necessário manter a problemática do uso de agrotóxicos no Brasil na centralidade das discussões sociais, uma vez que todos os setores da população são impactados, além dos fatores ambientais como água, ar e solo.

5 METODOLOGIA