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6.3 APLICAÇÃO DA PROPOSTA PEDAGÓGICA

6.3.9 Aulas 10 e 11: Matéria e suas propriedades químicas: a medida do ph 77

Ao final da aula, questionou-se os estudantes sobre a presença de agrotóxicos na água e as possíveis interações, visto que é comprovada a existência dessas substâncias na água potável. A quantidade de alguns agrotóxicos em água potável é regida por legislações que objetivam quantificar e monitorar os valores máximos permitidos de cada agrotóxico registrado. Para além da água encanada, os agrotóxicos podem também contaminar os lençóis freáticos ao penetrar no solo e contaminar cursos d'água próximos às lavouras, indústrias químicas, a exemplo. Os impactos se estendem também à fauna e flora aquática (LOPES, ALBUQUERQUE, 2018).

6.3.9 Aulas 10 e 11: Matéria e suas propriedades químicas: a medida do pH

Sabão em pó

Tensoativo aniônico, alcalinizante, sequestrante, carga, coadjuvante, agente anti

redepositante, quelante, enzimas, alvejante, branqueador óptico, corante, fragrância e

água. Componente ativo: linear alquil benzeno sulfonato de sódio.

básico

Açúcar cristal comercial Sacarose neutro

Sal culinário

cloreto de sódio (NaCl), iodato de potássio (NaI) e antiumectante INS-335 (ferrocianeto

de sódio)

neutro

Água da torneira água (H2O) e sais minerais. neutro Água sanitária hipoclorito de sódio (HClO) e água. ácido

Fermento químico

Amido de milho geneticamente modificado (espécies doadoras:agrobacterium

tumefaciens, bacilus thuringiensis, sphingobium herbicidorovans, streptomyces viridochromogenes e zea mays), bicarbonato de sódio, fosfato monocálcico e carbonato de

cálcio.

básico

Suco de limão água, ácido cítrico, vitaminas como ácido

ascórbico. ácido

Pulicida

Permetrina

[2,2-dimetil-3-(2,2-diclorovinil)ciclopropil-1-car

boxilato-3-fenoxibencilo], excipiente q. s. p. ácido

Inseticida comercial

D-fenotrina 0,125%, praletrina (0,102%), água, antioxidante, emulsificantes, mistura de

hidrocarbonetos, C11-C16, n-alcanos e isoalcanos, propelentes e mascarante.

ácido

Fonte: acervo pessoal (2022).

A figura 29 ilustra os resultados alcançados com os materiais utilizados em sala de aula.

Figura 29 - Resultados experimentais para o teste de pH em materiais de baixo custo e em amostras de solo.

Fonte: acervo pessoal (2022).

Foi possível comparar os resultados fornecidos pelos indicadores utilizados e também levantar outros exemplos de indicadores possíveis, além de outros instrumentos para medição de pH, como as fitas medidoras. Mesmo com a escala formada pelos indicadores, os estudantes quiseram medir o pH das soluções com o uso da fita medidora e comparar com a escala das embalagens, sempre buscando saber se o valor medido estava correto e coerente.

Realizou-se a medição de pH em amostras de agrotóxicos presentes nos produtos antiparasitário para cães e inseticida, respectivamente, apontado pelas figuras 30 e 31.

Figura 30 - Resultados experimentais para o teste de pH em agrotóxico presente em pulicida veterinário.

Fonte: acervo pessoal (2022).

Figura 31 - Resultados experimentais para o teste de pH em agrotóxicos presentes em inseticida comercial.

Fonte: acervo pessoal (2022).

O manuseio foi realizado somente pela licencianda, devido à quantidade insuficiente de amostra para avaliar com indicadores caseiros e também para evitar a exposição dos estudantes aos produtos, uma vez que a pesquisadora, ao entrar em contato, apresentou irritabilidade dérmica, fato que também foi explicitado às turmas. No momento da aula, apresentou-se o resultado para às turmas e questionou-se sobre o potencial dos agrotóxicos em alterar o pH do solo e da água.

6.3.10 Aulas 12 e 13: Impactos socioambientais do uso de agrotóxicos: Quem ganha? E quem perde?

Nas duas últimas aulas antes da nova resposta aos questionários diagnósticos, realizou-se uma aula expositiva-dialogada sobre os impactos da utilização de agrotóxicos para o ar. Posteriormente, realizou-se um debate com os estudantes, dando enfoque aos compartimentos ambientais atingidos pelo uso desenfreado de agrotóxicos (solo, água e ar). O debate foi baseado em trechos de textos científicos contendo informações sobre esses produtos químicos, sua composição, seres vivos que desenvolvem resistência a esses produtos, dentre outros conteúdos. Os textos selecionados são apresentados na tabela 08.

Tabela 08 - Textos selecionados para realização do debate em sala de aula

Título Autor e ano Tema do trecho

A Química dos Agrotóxicos

Braibante e Zappe (2012)

Desenvolvimento de novos agrotóxicos para combater espécies resistentes aos produtos

já utilizados.

Como funcionam os agrotóxicos

Superinteressante (2018)

Agrotóxicos sistêmicos e de contato e seus mecanismos de

ação.

Resultados do Programa de Análise

de Resíduos de Agrotóxicos em Alimentos - PARA

Anvisa (2020)

Alimentos com maior número de resíduos de agrotóxicos e resultados gerais do programa.

Anvisa para de testar agrotóxicos nos

alimentos Repórter Brasil (2022)

Notícia sobre a descontinuidade do PARA e suas consequências

para a população brasileira.

Agrotóxicos: uso correto e seguro

Serviço Nacional de Aprendizagem Rural

-Senar (2012)

Tipos de intoxicação e vias de contaminação por agrotóxicos.

Medidas de Primeiros Socorros.

Destinação de embalagens

Décio Karam, João Nelson Gonçalves

Rios e Rodrigo Carvalho Fernandes

(2014)

Manejo e destino de embalagens de agrotóxicos utilizadas no meio

rural.

Fonte: acervo pessoal, (2022).

Destaca-se que, embora os textos “Como funcionam os agrotóxicos”, “Agrotóxicos:

uso correto e seguro” e “Destinação de embalagens” tenham uma abordagem mais voltada para o ambiente rural, foram feitas analogias com os agrotóxicos no meio urbano, tal qual a analogia entre as embalagens de agrotóxicos utilizados na lavoura e as embalagens plásticas de antiparasitários de uso veterinário, embalagens de inseticidas, de produtos capilares para combate à lêndeas e piolhos. Nenhuma dessas embalagens podem ser descartadas incorretamente nem reutilizadas, sendo necessário observar a sua política de descarte. Também vale ressaltar que, ao apresentar orientações para o uso seguro de agrotóxicos no ambiente rural, o documento produzido pelo Senar também pode ser aproveitado para orientar os estudantes a evitar contato direto com outros agrotóxicos, utilizados no meio urbano, sendo necessário, ao manuseá-los, auxílio de luvas adequadas, roupas fechadas, minimizando a possibilidade de contaminação.

A figura 32 apresenta a organização da sala de aula no momento do debate.

Figura 32 - Momento de realização do debate: Quem ganha com o uso de agrotóxicos? E quem perde?”

Fonte: acervo pessoal (2022).

A participação dos estudantes em momentos de debate costuma ser expressiva, porém, devido ao número reduzido de estudantes presentes por conta das fortes chuvas no dia, houve uma participação mais tímida, com poucos comentários acerca dos trechos lidos.

Para formular conclusões para as perguntas propostas para o debate, recorreu-se ao texto de Roudart e Mazoyer (2018), em que são explicitadas as contradições no uso de agrotóxicos na contemporaneidade. Evidenciou-se o lucro das empresas fabricantes e dos grandes produtores de monoculturas e gado, enquanto pequenos produtores perdem competitividade no mercado por não acompanhar o ritmo de produção e características estéticas dos produtos tratados com agrotóxicos.

Destacou-se a importância de refletir criticamente sobre o uso de agrotóxicos e todas as variáveis que o envolvem, bem como sua relação com os conhecimentos escolares.

6.3.11 Aula 13: Nova resposta aos questionários diagnósticos

A partir da reaplicação dos questionários diagnósticos, obteve-se pistas para a avaliação da contribuição da temática agrotóxicos aliada ao estudo dos seus impactos nos compartimentos ambientais água, ar e solo no desenvolvimento da proposta pedagógica. Os estudantes responderam novamente aos questionários “O que é solo?” e “O que são agrotóxicos?”, em uma aula de 55 minutos, sem consulta aos materiais trabalhados. Participaram deste questionário final 36 estudantes das duas turmas. A figura 33 aponta a nuvem de palavras para os novos resultados sobre a questão “o que é solo?”

Figura 33 - Nuvem de palavras da questão “o que é solo?” a partir das novas respostas

Fonte: acervo pessoal (2022).

Figura 34 - Nuvem de palavras da questão “do que é feito o solo?” a partir das novas respostas

Fonte: acervo pessoal (2022)

A partir das nuvens de palavras, notou-se que os estudantes permaneceram com algumas visões tais quais apareceram nos resultados da diagnose inicial, contudo, incorporaram à elas os conceitos trazidos em sala de aula.

Sobre a compreensão dos estudantes acerca da importância do solo para a vida no planeta, a figura 2 apresenta os resultados.

Figura 35 - Análise de similitude da questão “Qual a importância do solo para a vida no planeta?” a partir das novas respostas

Fonte: acervo pessoal (2022).

A visão dos estudantes sobre a importância do solo continua pautada na agricultura, porém, houveram muitas respostas também acerca da função de sustentação do solo e construção civil, conforme observado também no questionário inicial.

No questionário final “O que são agrotóxicos?” houve 32 respostas. A figura 36 apresenta os resultados obtidos para a questão.

Figura 36 - Análise de similitude da questão “O que são agrotóxicos?” a partir das novas respostas

Fonte: acervo pessoal (2022).

A partir da nova análise, observou-se que os estudantes ainda associam o uso de agrotóxicos sumariamente ao meio rural. Contudo, a natureza química desses produtos se sobressai na análise de similitude e também é reconhecida a presença de agrotóxicos no solo, mesmo sem a presença de termos que apontem tal associação como negativa.

Para as questões de 3 a 6, a tabela 09 traz as novas respostas.

Tabela 09 - Novas respostas às questões objetivas do questionário “agrotóxicos: a discussão está na mesa”

Questão Sim Não Resposta em

branco ou “não sei responder”

3. Você tem contato com agrotóxicos

no seu dia a dia? 25 5 2

4. Você concorda com o uso de

agrotóxicos? 16 14 2

5. Existem benefícios no uso de

agrotóxicos? 27 4 1

6. Existem malefícios no uso de

agrotóxicos? 26 2 4

Fonte: acervo pessoal (2022).

Para comparar as respostas a essas mesmas questões nos momentos da diagnose inicial e final, elaborou-se gráficos comparativos (figura 37 (a) e (b)).

Figura 37 (a) - Percentual de respostas das questões 3 a 6 na diagnose inicial

Fonte: acervo pessoal (2022).

Figura 37 (b) - Percentual de respostas das questões 3 a 6 na diagnose final

Fonte: acervo pessoal (2022).

A partir da comparação das figuras 37 (a) e (b), notou-se que um maior percentual de estudantes conseguem identificar que, no cotidiano, possuem contato com agrotóxico, seja por meio do consumo dos resíduos desses produtos nos alimentos, pelo uso de inseticidas ou presentes em shampoos veterinários antiparasitários, complementos apresentados à resposta objetiva.

Outra mudança significativa foi apontada no posicionamento dos estudantes quanto ao uso de agrotóxicos. Cinco estudantes expuseram suas opiniões, deixando de pertencer ao grupo dos não respondentes, sendo 3 opinando contra e 2 opinando a favor da utilização desses produtos químicos.

A proximidade no percentual de respostas que consideram a existência de benefícios e malefícios simultaneamente revelam também a formação de uma consciência mais realista acerca do uso de agrotóxicos, sendo apontada, pelos estudantes, a sua necessidade para garantir a alimentação em contraponto aos seus potenciais riscos à saúde e ao ambiente.

Ao final da proposta, observou-se também que a maior interação e participação ocorreu durante as aulas práticas. Algumas dificuldades advêm também do contexto pandêmico, uma vez que os próprios estudantes relatam a dificuldade em manter o ritmo de estudos de forma remota, além das dificuldades de aprendizagem já inerentes.

7 CONSIDERAÇÕES FINAIS

A partir do desenvolvimento e resultados obtidos no estudo, considera-se que a proposta pedagógica para o Ensino de Ciências elaborada considerando as temáticas; solo, água, ar e agrotóxicos obteve desempenho satisfatório quanto à introdução da Química para os estudantes e para a formação de uma visão ampliada dessa problemática real.

A receptividade do corpo pedagógico, docente e discente contribuiu para a construção de momentos pautados no diálogo e na preocupação com a apropriação de conhecimento por parte dos estudantes.

Além de atender a objetivos propostos no currículo municipal, o presente trabalho também pôde contribuir para o desenvolvimento de propostas para o novo componente curricular Práticas Experimentais, abordando temáticas de relevância nacional e também acrescentando a realização de experimentos. Observou-se que discutir o conteúdo programático partindo de problemáticas pertinentes à realidade fez com que os próprios estudantes se questionassem acerca da presença dessas questões no cotidiano. E a experimentação, ainda incipiente no cotidiano dos estudantes da EMEF ASC, despertou a curiosidade e o interesse dos mesmos em compreender as leis e princípios que regem os diversos fenômenos químicos e físicos que se podem extrair da matéria. Ademais, este trabalho representou o primeiro contato dos estudantes das turmas de oitavo ano com conceitos de química, como matéria, elementos químicos, substâncias, misturas, soluções e propriedades físicas e químicas.

Destaca-se também a tentativa de, por meio da perspectiva CTSA e do diálogo com a Educação Ambiental, superar a lógica hegemônica a qual rege a relação entre a humanidade e o planeta, partindo da superação de modelos de educação que reproduzem essa lógica. O uso da metodologia 3MP aliado à compreensão de Ciência por meio da perspectiva CTSA pode contribuir na direção desse resgate no trabalho educativo realizado nas escolas, sobretudo no nível básico.

Sugere-se, para melhoria da proposta, a adaptação para um menor número de aulas, a fim de atender também outras disciplinas. O desenvolvimento de mais atividades avaliativas que favoreçam o protagonismo dos estudantes ao longo das intervenções também se faz necessário, para motivar a sua participação e interação ativa, seu envolvimento com as aulas, bem como a elaboração e validação de

propostas experimentais que abarquem um maior número de produtos considerados agrotóxicos e permitam explorar as possibilidades de estudo de sua composição e propriedades físico-químicas. Embora as propostas também tenham sido aplicadas para 4 turmas de 6º, 7º e 9º ano, ressalta-se que este trabalho trouxe os resultados obtidos apenas para as duas turmas de 8º ano. Os dados referentes às demais turmas ainda estão em tratamento e análise e receberão enfoque em publicações futuras, mediante os resultados parciais promissores. De maneira geral, os estudantes abraçaram a proposta e vêm apresentando significados relevantes quanto à apropriação dos conhecimentos inerentes às Ciências da Natureza e também quanto aos saltos qualitativos no senso crítico em relação ao uso de agrotóxicos.

Como perspectiva futura aponta-se, também, a possibilidade de elaboração de um produto educacional que possa atuar como material de apoio ao Ensino de Ciências, enfatizando a importância de integrar os conteúdos programáticos às problemáticas inerentes ao cotidiano, explorando a interdisciplinaridade e a experimentação. No material de apoio serão incorporados também os roteiros experimentais para direcionar as atividades e possibilitar a adaptação para diferentes contextos.

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